terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O carnaval dos mortos vivos

Desculpe, mas não consegui curtir o barato desses dias orgásticos que a santa madre igreja agenda para a catarse ampla, geral e irrestrita.


Bem que tentei, atraído por cores e sons do fundo da alma brasileira. Tentei, mas foi pior. Ao deparar-me com as hordas apinhadas na ginástica olímpica das coxas, sorrisos e seios robustos, outras imagens me vinham à cabeça, permeadas por uma carga de culpa dilacerante.

Foi, sim. Naquele mesmo momento, do outro lado dos mares bravios,  blocos inteiros de seres humanos desesperados pediam pelo amor de Deus uma pousada, em passos cadentes pelas estepes e pelas e pelas selvas de pedra de uma Europa ingrata e covarde.

Esses milhares de seres humanos haviam sido escorraçados de seus lares aconchegantes pela criminosa exploração do ódio, com o que a potência incurável e sua cabeça de ponte dividiram o país mais antigo do mundo e semearam o caos da fome e da morte com o único e mesquinho objetivo de ampliar o controle do petróleo e do gás.

Eu estive lá em 2002 acompanhado por Rubens Andrade, o outro único vereador, dos 5 convidados, que mantiveram a disposição de ir ao Oriente Médio quando a Palestina estava em chamas e o grande  líder Yasser Arafat,  preso em seu próprio escritório pelas trapas criminosas de Israel.

A Síria, que conhecemos por uma semana, era de longe o país árabe de melhor convivência – que digam os 10% de católicos espalhados por suas cidades – inclusive a Damasco de 10 mil anos – e que tem em Malula, onde ainda se fala o aramaico dos tempos de Jesus Cristo, o santuário da Igreja Ortodoxa Síria.

O renascimento dos conflitos entre diferentes correntes do islamismo foi insuflado e  financiado pelos EUA e pela Arábia Saudita, que usaram os suspeitíssimos militantes da Al Qaeda e ainda patrocinaram o fraudulento Estado Islâmico, cuja gênese está em facções sunitas ultra-atrasadas a serviço dos reis sauditas. (Bin Laden também era de uma família muito rica de Riade, sua capital.

Hoje, a Síria inteira é o mais terrível cemitério a céu aberto. Suas milenárias construções estão em ruínas, expondo a miséria de uma brutalidade sem freio por impulsos mesquinhos e interesses espúrios.  Seu povo laborioso vive a mais trágica diáspora do Século XXI. Jogado de um lado para outro de uma Europa fascisticizada, racista, perversa não tem onde se recostar. O mais deprimente é que seus fugitivos de guerra são escorraçados por países como a Hungria, que já provou da ocupação nazista e se reergueu pela solidariedade da sofrida União Soviética. A Hungria hoje é chefiada pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, de extrema-direita e nazista.

Se fossem meia dúzia de arrogantes sionistas encrencados,  com certeza a ONU daria uma resposta mais direta e o falastrão Barack Obama, que lambe botas em Walt Street, teria liderado um socorro verdadeiro aos quase 500 mil árabes errantes, que já ajudaram muitos países a construírem seus destinos, como este Brasil que, felizmente, está tendo uma posição mais razoável.

Embora isso seja muito pouco,  2.077 sírios receberam status de refugiados do governo brasileiro de 2011 até agosto deste ano.
O número é superior ao dos Estados Unidos (1.243) e ao de países no sul da Europa que recebem grandes quantidades de imigrantes ilegais ─ não apenas sírios, mas também de todo o Oriente Médio e da África ─ que atravessaram o Mediterrâneo em busca de refúgio, como Grécia (1.275), Espanha (1.335), Itália (1.005) e Portugal (15)

Por hoje, eu só quis dizer das náuseas que sinto ao lembrar que os sofrimentos de milhares de seres humanos inocentes desfilam num macabro bloco de rua – o dos abandonados mortos vivos, enquanto o mais belo espetáculo de criatividade, luzes e cores entremeia meu cérebro nervoso.


Não sei, sinceramente, não sei, mas há uma dor e um sentimento de culpa sangrando-me o coração. Posso estar misturando os acontecimentos no orvalho da minha madrugada insone. Mas haverá como não fazê-lo?

6 comentários:

  1. ELISA BRUM1:22 PM

    NÃO CONSIGO DEIXAR DE PENSAR QUE ESTAMOS REPETINDO O "PANE ET CIRCUS" DOS ROMANOS AO LONGO DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE. POR MAIS QUE CULTURALMENTE COMO BRASILEIROS SEJAMOS EDUCADOS PARA VER O CARNAVAL COMO UMA FESTA POPULAR, ONDE SE DESLIGA A TOMADA DA TRISTEZA E DAS DIFICULDADES PARA LIGAR NA DA ALEGRIA E COM ISTO PROVOCAR UMA DESCARGA DE ENERGIA POSITIVA, CORAÇÕES SOLIDÁRIOS COMO O SEU, QUERIDO AMIGO, NÃO PODEM ESQUECER DAS MAZELAS QUE ATINGEM NOSSO PAÍS E OUTRAS REGIÕES DO MUNDO. NÃO SERIA VC QUEM É SE NÃO SENTISSE ASSIM. FICA CADA VEZ MAIS DIFÍCIL SE ALIENAR DO SOFRIMENTO E SE JOGAR NA BEBIDA E NA ORGIA QUANDO TANTOS LUTAM PARA SOBREVIVER. A MATURIDADE NOS TRAZ MAIS CONSCIÊNCIA E ISTO SIGNIFICA FICAR NAIS SENSÍVEL ÀS DORES DO PRÓXIMO. ME SOLIDARIZO COM SEU CORAÇÃO FRATERNO, CARO PORFÍRIO!

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  2. Anônimo3:31 PM

    A VIDA é a eterna luta do BEM contra o MAL; é o domínio do mais FORTE (da resultante vetorial mais forte) sobre o mais FRACO (da resultante vetorial mais fraca).
    A VIDA não é BOA, nem MÁ; é NEUTRA !
    Depende da nossa atuação, ela ser BOA ou MÁ. É um "jogo", onde as emoções (principalmente a GANÂNCIA) precisam ser domadas, por cada um de nós, para termos uma Sociedade mais Justa.
    Hoje, a HIPOCRISIA continua prevalecendo no comando dos países dominados pelo eixo decadente "USA - England".
    O Bernie Sanders é uma brisa agradável, na aridez dos USA ...
    Vai que cola !!!
    Agora, que acabou o Carnaval, e a vida "política" recomeça no nosso querido e amado Patropí:
    FELIZ 2016 PARA TODOS !!!

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.