sexta-feira, 13 de novembro de 2015

O pensamento militar e os paradoxos

Um alto oficial da Marinha me garantiu que não há a menor possibilidade das Forças Armadas se envolverem numa quartelada golpista. Há uma expectativa, sim, mas em torno dos seus vencimentos defasados, em função dos quais um coronel da PM do Distrito Federal ganha muito mais do que um general do Exército.
Com boa parte dos militares de hoje, ele tem uma visão muito profissional e um apreço visível pela estabilidade institucional. Daí ter-me tranquilizado sobre supostos manifestos que circulam na internet com a mesma linguagem dos idos tenebrosos de 1964.

Mas também tem sua própria análise política, que remete a um dos paradoxos desses dias eivados de hipocrisia e manhas. Para ele, o maior interessado na queda da presidente Dilma Rousseff seria o Lula.

- O país atravessa uma crise muito difícil e para Lula e o PT o melhor seria estar na oposição, tarefa que exercem com muito mais competência do que no governo.

Segundo ele, a quem não perguntei sobre o seu último voto presidencial, nem os políticos de oposição desejam o impeachment.

- O que querem é manter a Dilma acuada, expondo-a a um desgaste contínuo. Mas eles começam a perder força quando jogam no "quanto pior, melhor".  Às pessoas que não estão satisfeitas com os rumos do governo soa igualmente indefensável essa determinação de levar o país ao caos.

Falando sempre em caráter individual, ele observou:

- Os políticos de oposição fariam melhor se apresentassem suas próprias propostas para a crise. Por enquanto o que se vê é que eles estão negando suas trajetórias e suas bandeiras de campanha ao votarem por aquilo que sempre condenaram. É um paradoxo difícil de digerir: a presidente Dilma adotou medidas pregadas pelos políticos de oposição e aí eles se colocam contra por que ela própria também está negando o seu discurso de campanha e pagando um preço principalmente pelos problemas na economia. Tudo isso soa mal, daí o melhor para os militares é afastar-se desses conflitos.

Anotei esses comentários por considerá-los dentro de uma lógica cristalina. Os velhos fantasmas já não assombram mais o grosso da tropa.

- Foi imprudente o general que fez comentários políticos no Rio Grande do Sul. Sua substituição na unidade de comando era inevitável. Do contrário, os militares seriam contaminados por polêmicas que não são de sua alçada e nem de sua conveniência.

Quem tiver interesse em conhecer melhor o pensamento dos militares de hoje, sugiro  acessar os links:


terça-feira, 3 de novembro de 2015

Fascismo no futebol

Diretoria do Flamengo expõe jogadores à execração pública como se clube fosse quartel

Ao crucificar sumariamente cinco dos seus profissionais, a diretoria do Flamengo expôs as vísceras de um ambiente de fascismo que impregna o futebol brasileiro, onde jogadores são tratados como gladiadores romanos.
Ambiente que serve para encobrir atos suspeitos praticados por diretores e empresários envolvidos num verdadeiro tráfico de escravos, infelizmente acolitado por torcedores cegos ou boçais, que transformam uma disputa esportiva numa busca sangrenta de compensações emocionais ante seus próprios infortúnios pessoais. Ambiente, ressalte-se, que revela uma relação comprometida de jornalistas primários, muitos dos quais ganham agrados de várias natureza para insuflar a massa carente de matanças virtuais na glorificação de cartolas inescrupulosos.
Veja os fatos: 5 atletas participaram de uma festinha com mulheres e cervejas fora dos seus horários de jogo e de treinamento, no exercício de seus arroubos juvenis e de um verdadeiro relax. Eles fazem parte do elenco de um time de futebol onde, como, aliás, em todos os demais, bodes expiatórios são fabricados nas situações adversas típicas de um esporte que já perdeu a noção da razoabilidade e onde o elemento prazer já deu lugar a ódios e autoritarismos praticados por multidões silentes ante suas próprias derrotas cotidianas.
Não consta que esses jovens tenham deixado de cumprir suas obrigações profissionais por causa desses atos privados ou que sequer tenham dado maus exemplos no consumo de drogas proibidas. Fizeram apenas o que todo mundo faz quando tem oportunidade, especialmente os solteiros, nas horas de folga que são suas, já que a escravatura no Brasil foi abolida em 1888. E não deixaram de correr atrás da bola os 8 km que um esporte brutalizado, louvado como "futebol-força", exige a cada contenda.
Às voltas com pressões por conta das eleições internas, a diretoria do Flamengo decidiu matá-los e esfolá-los, multando-os, afastando-os e submetendo-os à execração pública sem medir os danos morais e os anátemas que afetarão suas carreiras curtas, das quais desembarcarão com suas fichas corridas antes dos 40 anos. Alguns poderão ter suas vidas profissionais arruinadas já na puberdade do ofício e serão desvalorizados no mercado sacripanta dos milhões de euros que se transformou na única referência de quem lida com o futebol.
Os fascistas e revanchistas que andam assanhados ainda não mudaram a Constituição e a legislação trabalhista para dar base legal a punições sem direito de defesa. Mesmo assim, no furor autoritário dos cartolas, os rapazotes foram desqualificados e condenados ao calabouço num ritual castrense com manchas que os perseguirão mais do que as tatuagens boçais em que marcam seus corpos escravos.
Foi uma violência inominável principalmente por ter contado com o apoio de torcedores inocentes, bitolados, deformados ou simplesmente dependentes de desforras. Foi um bode expiatório monstruoso que só será reparado se alguém com o mínimo de lucidez lembrar a esses dirigentes de fancaria que clube de futebol não é quartel.
Ao entrar nessa seara quero tão somente defender os direitos humanos dos atletas profissionais. Mas também aproveito para lembrar que é por situações tão perversas como essa que eles acabam perdendo "amor à camisa" e fazendo de cada minuto de glória um ingrediente para a opção mercenária que os embala.
Aos 5 jogadores quase imberbes caberia à diretoria, torcedores e mídia uma atitude paternal, um puxão de orelha pela difusão da farra: nunca uma sentença de morte, eivada de todo o ódio que se produzirá na explicação do fracasso nos próximos jogos e no desempenho sofrível numa disputa que envolve uma grana preta dos interesses conexos.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.