segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Os falsos salvadores da Pátria

Se quiser, leia por partes, pois o bicho está pegando


Admitamos que o golpe vingue e Dilma Rousseff venha a ser apeada da Presidência: quem será o salvador da Pátria? Que milagre se espera do dito cujo? Sabendo-se quem está querendo meter a mão na massa, qual a diferença entre seu receituário e o do sr. Joaquim Levi, pinçado precipitadamente por maus conselhos das hostes neoliberais?

O GOLPE

Por mais que queiram dourar a pílula, o que se articula a olhos vistos é um golpe civil,  do tipo paraguaio que sacrificou o bispo-presidente Fernando Lugo num abrir e fechas d'olhos. É golpe, sem tirar nem por, devido ao inusitado do seu percurso: primeiro trataram de desautorizar o veredicto das urnas, por que o perdedor não vê outra oportunidade na vida pelo calendário eleitoral. Depois saíram atrás de um "furo" da presidente que possa embasar a virada da mesa.

Há um pano de fundo, as investigações do propinoduto da Petrobrás.  Dilma tem alguma coisa a ver com isso? Tem, sim. Foi graças à sua coragem de não interferir no trabalho rivalizado da Polícia Federal e do Ministério Público que se chegou tão longe. Em governos passados, o comum era abafar tudo no berço.

A CORRUPÇÃO

Nunca em tempo algum neste país empresários de burras cheias foram parar no xilindró. E não é de hoje que se tenta: não faz muito o plumado ministro Gilmar Ferreira Mendes abortou pessoalmente as operações que levaram à prisão do banqueiro Daniel Dantas e não fez isso com bons modos: ameaçou prender o juiz Fausto de Sanctis que ordenara a prisão do meliante por duas vezes...sem sucesso.

E no STJ, a Operação Castelo de Areia, que descrevia as minúcias da corrupção bancada pela construtora Camargo Corrêa, foi detonada sob a alegação que houve escutas ilegais na colheita de provas. Era assim que a corrupção impune deitava e rolava. 

Quem não se lembra da perseguição que sofreu o delegado Protógenes Queiroz por ter conduzido as investigações que culminaram com a prisão do banqueiro Daniel Dantas?  Por causa disso, ele teve sua carreira policial arruinada: esse mesmo Supremo Tribunal o condenou em 2014 por "avisar a jornalistas de suas operações".  Tal é a hipocrisia que a  "Lava a Jato" foi muito mais longe: é pautada por uma certa mídia, que acompanha cada ação de forma premeditadamente espetaculosa.  E a Justiça faz de conta que não sabe de nada.

O EMBLEMÁTICO

Com a condenação por unanimidade na 2ª Turma do STF, Protógenes perdeu o cargo de delegado da Polícia Federal. E Daniel Dantas está rindo a toa.

A VOZ DO DONO

O domingo de sol praiano deste inverno de mentirinha se abriu para um raio fulminante, a entrevista do banqueiro Roberto Egydio Setúbal, dono do maior conglomerado financeiro do país.  O que ele disse, no mesmo diapasão  do colega Luiz Carlos Trabuco Capri, presidente do Bradesco, deixou os golpistas com a bola murcha.

“Nada do que vi ou ouvi até agora me faz achar que há condições para um impeachment. Por corrupção, até aqui, não tem cabimento. Não há nenhum sinal de envolvimento dela com esquemas de corrupção”.

 "Pelo contrário, o que a gente vê é que Dilma permitiu uma investigação total sobre o tema [esquemas de corrupção na Petrobras]. Era difícil imaginar no Brasil uma investigação com tanta independência. A Dilma tem crédito nisso".

Setúbal é a encarnação da burguesia inabalável. Ao contrário dos ressentidos da direita e dos alucinados caçadores do poder, sabe que a Pátria amada (e mamada)  irá pro brejo se continuar essa campanha que embebeda uma classe média/alta atônita com a droga do quanto pior melhor.

A CRISE

Que há uma crise machucando meio mundo, isso não se pode esconder. O que não se diz, porém, é que faz parte dos ciclos do sistema capitalista, onde o cada um por si provoca colisões de efeito cascata. E que é inerente ao sistema em que o domínio do Estado é o sonho de consumo das elites econômicas.

Não estamos no sufoco da primeira crise, nem na última. Não há salvador da Pátria que possa dominar a curto prazo os efeitos venenosos de um ambiente em que é cobra engolindo cobra. Em que a própria classe assalariada perdeu o tino, escuda-se no corporativismo e só sabe puxar brasa pra sua sardinha.

Essa avalanche de erros do governo também não é novidade. Em 1999, no início do seu segundo governo, o professor Fernando Henrique encarou as mesmas cenas. O povo saiu às ruas e o PT chegou a protocolar um pedido de impeachment, por conta dos grampos telefônicos no BNDES. Seus 8 anos, aliás, só serviram para pavimentar o caminho da política monetarista e das privatizações-doações que encheram o maior cesto de dinheiro desviado e negócios por baixo do pano.

Foi na era tucana que Armínio Fraga, ex-futuro ministro da Fazenda de Aécio Neves, então à frente do Banco Central, elevou os juros à estratosfera: 45% ao ano. Mesmo com esse purgante, FHC passou o governo para Lula com uma inflação de 12,5% e crescimento do PIB de 1.2%. E naqueles idos, a economia das potências ocidentais não havia sofrido nenhum abalo, como em 2009.

OS CONDIMENTOS DO GOLPE

A fórmula do golpe se nutre de vários condimentos, a começar pelo aparelhamento  fisiológico do governo e das estatais, o que tornou o PT odiado onde sua estrela brilhava antes de atravessar a soleira do poder. Dividido em correntes com discursos e interesses próprios, o PT correu atrás de todas as sinecuras, em detrimento de profissionais que não rezavam por sua cartilha.

O poder é orgástico: engorda e deforma a militância bárbara, torna-se um fim em si. No lugar do pão com mortadela e das vigílias insones o bem bom da sombra e da água fresca. A metamorfose faz o novo mandante virar as costas para o seu passado sofrido. É da natureza dos que nunca comeram mel – e quando comem se lambuzam.

Mas não é só isso. As medidas compensatórias do receituário social-democrata, abençoadas pela nova burguesia internacional (Leia-se ONG Diálogo Interamericano), provocaram mal estar no acesso ao topo da pirâmide social. Ao contrário da Europa, onde a distância social é curta, aqui o buraco é mais embaixo: com base em dados do Imposto de Renda da Pessoa Física, é possível estimar que, em 2012, os 50% dos brasileiros mais pobres detinham 2% da riqueza, 36,99% ficavam com 10,60% e 13,01% com 87,40%. Uma parcela menor entre os mais ricos, 0,21%, era dona de 40,81% do total.(Veja mais em http://brasildebate.com.br/os-dados-da-riqueza-do-brasil-e-a-estrutura-tributaria/).

Existem os ricaços e os que sonham com a fortuna.  Na sociologia desse universo é possível verificar que os quase ricos mais insaciáveis são os que já foram quase pobres e se ufanam da exceção que representam nesse clima de apartheid social.

Não é retórica afirmar que essa camada de aspirantes aos arredores da elite afortunada são os mais ansiosos por um retrocesso que lhes devolva os subalternos sem horizontes.

Sem ter lá essa intenção tão generosa e até mesmo apenas para ajudar interesses pontuais os governos do PT têm gerado medo e incerteza nessas camadas. Mesmo nos melhores momentos, já não é tão automática a preservação dos espaços profissionais de pais para filhos. Há "intrusos" no páreo.

A MASSA DE MANOBRA

O trágico é que esses insatisfeitos são analfabetos políticos e embarcam em qualquer onda "salvacionista" numa de que para atrás é que se anda. A insegurança dos embalos de sábado à noite fermenta o ódio que leva ao nível do próprio flagelo. Pensar não é o forte desses ensandecidos. Muito menos pensar mais de uma vez.

Esses querem por que querem derrubar Dilma Rousseff, ressuscitar o salvador da Pátria que idealizaram e promover um grande estrago social, alimentando todo tipo de perseguição excludente capaz de lhes escancarar os portões. Como estão envenenados e de cabeça cheia não vão dar sossego, mesmo depois dos pareceres dos banqueiros do topo da pirâmide, que preferem a fórmula neo-reformista do David Rockfeller e da AFL-CIO, a poderosa central sindical dos EUA.

O sentimento de golpe e de vingança já foi sexualizado por esses bolsões. Já faz parte do "id" de cada um. Já está associado à sua libido. Não é mais uma reação social – virou uma iracunda obsessão. E ponto final.


Por hoje.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Antes que façam de você massa de manobra de um golpe revanchista

"O Brasil tomara que tenha uma ditadura de 100 anos. Mas, por favor, coloca torturador de verdade".
Aluisio Queiroz <aluisioimoveis@hotmail.com>
7.9.2015


O descontentamento legítimo está sendo  manipulado por quem quer usá-lo para saciar suas ambições pessoais
Quem pretende participar das manifestações de rua programadas por grupos sem raízes deve ter consciência de que poderá estar servindo apenas de massa de manobra (ou bucha de canhão) de golpistas, saudosistas do regime de arbítrio e políticos inescrupulosos que, sob comando de figuras manjadas, formam a maioria do Legislativo. 
É claro que muitos manifestantes são impulsionados por sentimentos respeitáveis: a exposição das vísceras dos podres poderes, graças a investigações que jamais chegaram tão longe como agora, o mau começo do segundo mandato da presidente Dilma, reeleita há menos de 10 meses, e o impacto da crise econômica são combustíveis explosivos que estão provocando um clima de insatisfação generalizada.

Os ingredientes legítimos, porém, vêm sendo ostensivamente manipulados por um laboratório que responde a interesses escusos e insaciáveis. Interesses que já não escondem o propósito de rasgar a Constituição para tornar sem efeito o cristalino resultado das urnas de outubro passado.

Já não se bastam com um projeto de impeachment forçado e sem base legal para depor a chefa do Estado brasileiro, contra quem até hoje não extraíram nenhuma cláusula prevista no artigo 85 da Constituição e na Lei 1079/50, ainda em vigor, que regulam o procedimento a respeito.

Não escondem o fito de passar por cima do arcabouço constitucional com o objetivo de abrir caminho para desesperadas ambições pessoais. É o que demonstram quando propõem a realização de novas eleições para a Presidência da República, ritual que não consta da Carta Magna, que pretendem jogar no lixo, abrindo caminho para um novo regime ditatorial.

Essa proposta só interessa ao Aécio Neves, duas vezes derrotado, com o agravante de ter perdido as eleições no Estado que governou. Ele sabe que é carta fora do baralho em 2018, quando o governador Geraldo Alckmin será o candidato lógico do PSDB. E que corre o risco até de não se reeleger senador: os mineiros já demonstraram o grau de rejeição em 2014.

Junto com ele agem grupos de ressentidos principalmente com a Comissão da Verdade, que se limitou a revelar a crueldade assassina dos porões da ditadura e mais não fez. No Brasil, ao contrário da Argentina, Chile e Uruguai, nenhum criminoso dos anos de chumbo foi punido e é exatamente por isso que estão aí querendo aproveitar a onda para restabelecer aquilo que nem as Forças Armadas admitem mais.

Aliás, sobre isso, ficamos devendo ao próprio regime militar. Desde a crise deflagrada após a morte do general Costa e Silva, quando a maioria dos oficiais queria "eleger" nos quartéis o general de Divisão Afonso de Albuquerque Lima, o centro do poder iniciou um processo de despolitização e desmobilização da tropa, graças ao qual o general Ernesto Geisel impediu de uma tacada o golpe comandado por seu ministro da Guerra, general Sylvio Frota.  Desde então, há um rodízio de oficiais superiores, que não podem ficar mais de dois anos à frente de uma unidade, o que inviabilizou a fecundação de qualquer nova "liderança" militar, à margem dos regulamentos castrenses.

Os "generais" do golpe do Século XXI são civis como o conhecido deputado Eduardo Cunha, que se investe de poderes ditatoriais para minar o governo da presidente Dilma, numa tentativa de virar a mesa antes do que tenha o mesmo destino de outros detalhadamente delatados como ele, esperando, assim, ganhar a complacência dos bolsões golpistas. Com o apoio suspeito de uma mídia que também quer depor Dilma a qualquer preço ele vem tentando inviabilizar o governo na sucessão de ilegalidades que vão desde a realização de novas votações quando é derrotado até a usurpação em matérias que são prerrogativas do Congresso em conjunto, como a aprovação de contas presidenciais.

Quem pretende oferecer sua gasolina para fazer o circo pegar fogo deve saber que também será chamuscado, pois o golpe fundado no "quanto pior melhor" não se limitará à deposição de uma presidente da República. Destruindo as bases jurídicas do Estado de direito o abuso de poder será a marca dos dias seguintes. E ninguém terá a proteção da Lei.

Foi assim em 1964. Quem participou das marchas que inundaram ruas contra o governo constitucional do presidente João Goulart não podia imaginar que estava abrindo caminho para 20 anos de regime de força que, por sinal, não poupou nem seus grandes próceres: Carlos Lacerda e Ademar de Barros, que comandaram a conspiração, acabaram cassados.  Jornais que pediram a deposição de Jango em nome da ordem ameaçada, como o CORREIO DA MANHÃ, foram perseguidos até a falência por terem entendido que entraram numa grande fria.

Naquele 1964 também ficou claro que o presidente da República, legitimado por uma acachapante votação em plebiscito, estava sendo derrubado pelo que fizera de bom e não pelo que, eventualmente, tivesse feito de ruim. Este é também o escopo do processo que está encurralando Dilma Rousseff.

E não é só ela que passa por esse perrengue. A Venezuela vem sendo minada desde a morte "de laboratório" do presidente Hugo Chávez. Maduro só não caiu por que lá, ao contrário do Brasil, há uma militância organizada em condições de defender a legalidade junto com as Forças Armadas. No Equador, os antigos donos do poder se agitam em perdidos cordões para enfraquecer o presidente Rafael Correa até conseguir por onde derrubá-lo. Mesmo na Bolívia, onde Evo Morales tem 80% de aprovação graças aos invejáveis índices de crescimento do país, fomentam conflitos regionais para miná-lo. A situação também se tornou dramática neste fim de governo da presidente Cristina Christner, na Argentina, e no início do mandado da presidente Michelle Bachelet, no Chile.

Pelas prioridades que o momento exige, não quero aqui discutir a própria frustração com as opções de Dilma na direção contrária da expectativa criada com sua vitória suada. Não vou fazer a defesa de ninguém, embora tenha a minha pulga atrás da orelha diante do direcionamento das investigações midiáticas.

O que me obriga a alertar a meus parceiros de classe média é o grande perigo que manifestações manipuladas alimentam. Estamos a pouco mais de um ano de novas eleições – as municipais – que são o melhor caminho para que cada um se posicione sobre os acontecimentos atuais.

Felizmente, ainda não saímos do prumo e temos as urnas abertas para dizer o que queremos. Construir esse ambiente de legalidade nos custou muito caro e um retrocesso institucional dividiria o país, consumando um grande desastre.

Diria mais: mesmo divergindo dos rumos desse governo, não vejo posição mais sensata de que dar-lhe algum tempo para que comece a governar em toda a plenitude. Os que querem derrubá-lo são muito piores, sob todos os aspectos, e, paradoxalmente, admitem mesmo manter Dilma, assim, encurralada, submetendo-a ao suplício que a faça cair em seus braços.

As ruas estão aí para ecoar as causas do povo e não para favorecer políticos ambiciosos e golpistas ressentidos. Quem não tiver clareza quanto a isso, quem engrossar marchas de agressão ao Estado de Direito sem pensar duas vezes não terá tempo para se arrepender. 

Esse filme nós já vimos antes. A gente sabe como começa, mas não tem ideia de como e quando termina, de quanto pagaremos com a subtração da nossa cidadania mais uma vez.

domingo, 2 de agosto de 2015

Do meu exílio domiciliar, o grito


Minha casa, minha (nova) vida, um pintura do real.
"Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte"MÁRIO DE ANDRADE (poeta, 1893 – 1945)"O valioso tempo dos maduros" 
Bem que eu preferia permanecer em silêncio nesse frugal exílio domiciliar a que me recolhi nas vargens longínquas ante a patética percepção de que minhas palavras já não têm serventia: o vento leva por que sua essência caiu em desuso letárgico no cataclismo de um mundo acorrentado à hipocrisia e à mediocridade.

Bem que já estava começando a curtir a vida às avessas que os prados mansamente matutos e o plantio frondoso ao palmo do nariz nutrem, vacinando-nos do vírus da encrenca e mandando para o inferno o áudio das sandices e boçalidades que nos horripilam na indecência da convivência pragmática.

Juro por tudo quanto é sagrado: eu não queria mais pular tantas fogueiras e porfiar com a fina flor da má fé, do arrivismo e das ambições desmedidas, eis que, enfim, ao cabo, minha cota de complacência com o egoísmo esgotou-se sem choro, nem vela.

De umas luas para cá vi revelar-se a torpeza do jogo de cartas marcadas, a insana corrida ao poder, qualquer poder, COMO SE A VIDA DE UMA PÁTRIA FOSSE DECIDIDA NUM GRANDE RINGUE DE PERFÍDIAS E RASTEIRAS, cada qual tratando única e exclusivamente de seus interesses pecuniários nada republicanos.

A saúde já não é a mesma, quer pela idade provecta, quer pelos acidentes de percurso, essa guerrilha sofrida que me obriga, por ora, ao cloridrato de tramadol diário e à ressonância magnética de quando em vez.

Ferem-me como uma flecha, mais ainda, os próprios sentimentos de impaciência, frutos da trágica constatação de que O SISTEMA DE CASTAS TRIUNFA GALHARDAMENTE, ABESTALHANDO MULTIDÕES BEM APESSOADAS, SEJAM PORTADORAS DE CANUDOS E ANÉIS, SEJAM EMASCULADOS DA TURBA IGNORANTE E SUBALTERNADA PELA INÉRCIA VIRAL SEM CURA, SOB INFLUÊNCIAS NOCIVAS DA FÉ INDUSTRIADA.

Mas a previsão do tempo é assustadora. Os maus presságios a todos ameaçam numa torrente de vilipêndios irresponsáveis e inconsequentes, sujeitando-nos às mentes monstruosas que se multiplicam aos borbotões como ferramentas atômicas de terras arrasadas, produzidas maliciosamente por vestais de encomenda, na torpe maquinação do "quando pior melhor".
O certo e incontestável é que o retrocesso se deu pelas mãos de quem o esconjurava, num irreversível e inacreditável passo atrás. A terra virou pântano e o pântano virou lama. 
Sobrará para todos pela marcha de um trem veloz sem condutor. Há todo tipo de odores no ar. Insuportável é a ansiedade. Onde vamos chegar só Deus sabe. E olha que até o tal expatriou-se ao ver-se em tantos maus lençóis. Não há pra quem apelar: todos estão envolvidos com tudo até o pescoço.

Em verdade, vos digo: eles venceram na inversão das urnas. Mas ainda acham pouco. Não aceitam coadjuvar. Querem ir para o trono e assumir o reino de fio a pavio. À falta de "coriolanos" forjam um exército virtual armado até os dentes. Este país é uma mina que sobe a cabeça dos sem escrúpulos. Tomá-lo às mãos é o que interessa.

Vilões de assombrosas fichas sujas dão as cartas, apostando na concentração do ódio e na mescla de revanches e indignidades. Não há uma réstia de lucidez nesses bolsões vingativos. Todos querem uma única cabeça, mesmo associando-se ao pior da escória moral. 

E querem por que não aceitam o próprio fiasco. Para isso, se valem de tudo, sem menor apego aos cânones dos bons modos. Nada mais deprimente e enlouquecedor. Nada mais agressivo e perturbador.

Daí a dúvida atroz: é correta a fuga à liça, mesmo sabendo que apenas uma meia dúzia de três ou quatro se tocará ao meu juízo, à peroração de um mais vivido, casualmente à prova de comprometimentos mesquinhos, assim em condições de falar apenas para defender o áureo convívio institucional, o respeito à ponderação, sem poupar os malfeitos gerais, na perseguição de um outro país que nascerá desse imbróglio insólito?

Dias e noites os tormentos do isolamento voluntário me tangem na direção da pugna, desautorizando promessas que me fizera em busca da paz e do sossego que qualquer ser vivente tem o direito de almejar com o benefício da contribuição pretérita. 

São vozes e imagens dantescas, mais altissonantes do que o canto dos pássaros à varanda, mais saltitantes do que o firmamento contemplado já ao crepúsculo no entardecer.

Não me animo à consulta aos entes queridos. Eles testemunharam minha derrota acachapante, não faz muito. Preferem-me à deriva, no exercício do silêncio obsequioso, no conforto quimérico do ostracismo, protegendo-me dos atritos no confronto estéril das palavras.

Acham que tudo o mais será inútil, de onde a opção fatal: dos males, o menor. Será?

Por hoje é só. Agosto já está começando, sombrio, apoplético e catastrófico, com os maus agouros de sua sina zodiacal. O que fazer? - perguntaria o velho prócer doutra época. Quem se dignaria a responder? É pegar ou largar. E nada mais.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.