sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

DNA do golpe no impeachment

Primeiro, pedem a cabeça da Dilma. Depois vão tentar achar uma prova qualquer para a deposição


Não carece usar uma lupa para enxergar a inspiração golpista dessa mobilização orquestrada para derrubar a presidenta Dilma Rousseff no início do seu segundo mandato.  

Se ainda tem dúvida, raciocine comigo:

1. Ao contrário do processo que levou ao impeachment de Collor, no caso presente já se cobra a deposição de Dilma antes mesmo de qualquer indício que a possa incriminá-la por improbidade ou até mesmo justificar uma admissibilidade na Câmara. Isto é: fechadas as urnas, os setores mais radicais entre os derrotados partiram para a cobrança do impeachment pelo simples "crime" de ter sido reeleita. Traduzindo: querem penalizá-la de antemão: quanto às razões imaginam forjar no caminho.

2. A maior parte dos defensores do impeachment está insuflando as Forças Armadas. E o Clube Militar já está viajando em panfletos agressivos contra Dilma, como consta de pronunciamentos dos seus dirigentes, generais Gilberto Rodrigues Pimentel e Gilberto Barbosa de Figueiredo, publicados em seu site.  No contexto, não dá para separar um procedimento no âmbito constitucional desse apelo "extra-constitucional". Por que no fundo o que esses grupos de interesses querem é muito mais do que substituir um presidente segundo o ritual previsto na LEI Nº 1.079, DE 10 DE ABRIL DE 1950 e nos termos do Artigo 85 da Constituição de 1988.

Lembre-se, a propósito, que a mando de Aécio Neves, poucas horas antes de a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer serem diplomados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o PSDB e a Coligação Muda Brasil requereram ao tribunal a cassação de seus registros e da própria diplomação. Na ação pediram que o tribunal diplomasse, para os mesmos cargos, Aécio Neves e Aloysio Nunes, candidatos derrotados nas eleições 2014.

3. Em todo o farto material postado nas redes sociais pleiteia-se ou a nomeação de Aécio Neves, o segundo colocado (fórmula Sarney que repôs a filha derrotada no governo do Maranhão) ou a realização de novas eleições. As postulações desconhecem deliberadamente a previsão legal de o vice-presidente assumir, como aconteceu com Collor, alegando que ele só poderia fazê-lo depois de dois anos de mandato, o que é uma falácia.

4. Não só de quarteladas se produzem as deposições de governantes. O expediente do "GOLPE PARLAMENTAR" foi bem sucedido no Paraguai, quando em 22 de junho de 2012, depois de um rito sumaríssimo de 36 horas, o Senado decidiu destituir o presidente Fernando Lugo e empossar o seu vice-presidente Federico Franco. Vale repetir, como Paulo Brossard defendia, que essa é matéria essencialmente política. De onde as próprias garantias constitucionais viram letras mortas ante uma ofensiva orquestrada.

5. À margem da impostura ilegal, há associado um indisfarçável conteúdo ideológico nessa ofensiva. E uma ostensiva "reciprocidade"  em relação ao caso da Petrobrás, numa espécie de golpe extensivo. Como Dilma e Lula sempre procuraram compor, não adotando nenhuma medida de CONFRONTO com os grandes interesses, ao contrário de Hugo Chávez/Maduro e da própria Cristina Kirchner, é de se suspeitar que haja mais caroço nesse angu. Há por trás dessa pressão elementos de alcance inimaginável, que agridem a própria soberania nacional e fatalmente recriarão a antiga agenda de fidelização incondicional aos EUA.     

6. Enfim, vale recordar: o golpe de 64 não foi uma quartelada exclusivamente castrense. O seu escopo era aparentemente legalista e foi sustentado pela conivência do Congresso e de carreiristas como Juscelino Kubitschek, que legitimaram a deposição e votaram no general Castelo Branco. Os militares foram usados então por um complexo de interesses, mas o seu discurso inicial era de uma governança de transição rápida. Uma vez com as mão na massa, puseram as unhas de fora e deu no que deu.

Portanto, é flagrante o caráter golpista dessa mobilização/articulação para tornar sem efeito o veredicto das urnas. Denunciá-lo é uma obrigação de quem não quer o Brasil de volta àquele passado de repressão e torturas.  Isso, esteja gostando ou não do governo Dilma.

Em tempo: estou muito insatisfeito com as medidas infelizes da presidenta Dilma Rousseff e em relação a antigas conquistas trabalhistas, mas nada me resta senão torcer por uma reavaliação de parte dela, de uma mobilização popular no âmbito da legalidade ou então esperar a próxima consulta ao povo.   

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aviso aos mais afoitos e desavisados: num golpe sobra pra todo mundo

Quem quer rasgar a Carta para depor uma presidenta legitimamente reeleita está cavando a própria sepultura


Ao completar 21 anos naquele março tenso de 1964, quando a carga horária de um jornalista era de 5 horas diárias,  trabalhava em dois grandes jornais –ÚLTIMA HORA e CORREIO DA MANHÃ.

Na UH, já editava páginas da sua versão fluminense, ao lado do mestre Teodoro Barros. No CM, para onde fora levado em 1963 por outro mestre, Oswaldo Peralva, era repórter da "geral".

A ÚLTIMA HORA de Samuel Wainer era praticamente o único diário que fazia a defesa do governo João Goulart. O CORREIO DA MANHÃ da corajosa Niomar Moniz Sodré Bittencourt engajara-se, fazia pouco, na artilharia que levaria à deposição do presidente constitucional.  Seus editorias "BASTA" e "FORA", no final de março, tiveram grande influência sobre o que restava de baluartes legalistas.

Em 1 de abril daquele ano, já casado, encontrava-me numa roda viva. A ÚLTIMA HORA fora atacada pelos vândalos raivosos do CCC – Comando de Caça aos Comunistas, forçando profissionais admiráveis como João Saldanha a fugirem desse grupo armado pelo telhado da velha sede, na Rua Sotero dos Reis, quase na Rua Ceará, junto à Praça da Bandeira.

Já o CORREIO DA MANHÃ, onde grandes jornalistas progressistas como Edmundo Muniz, Antonio Houaiss, Mário Pedrosa e Otto Maria Carpeaux procuravam administrar "profissionalmente" a contribuição ao golpe, não teve tempo para comemorar. 

Quinze dias depois, o lendário jornal da Rua Gomes Freire já se sentia traído. As notícias de prisões arbitrárias e abusos dos militares levaram Dona Niomar, viúva de Paulo Bittencourt, a uma drástica reflexão.  Não fora para abrir caminho ao arbítrio que o jornal se posicionara tão radicalmente em nome de sua história, iniciada em 1901, quando começou a circular sob o mando de Edmundo Bittencourt. O CORREIO se converteria então no principal jornal da resistência aos desmandos dos militares.

Mais tarde, a TRIBUNA DA IMPRENSA de Hélio Fernandes, outra aliada de Carlos Lacerda e dos militares golpistas em 1964, seguiu o mesmo caminho, num rompimento explosivo,  o que  valeu a HF a cassação dos direitos políticos, prisões, confinamentos e uma pressão econômica brutal, semelhante à que levou ao fechamento do CORREIO DA MANHÃ em 1974.

Já a ÚLTIMA HORA, praticamente inviabilizada, com Samuel Wainer e Bocaiúva Cunha, seus proprietários, refugiados em embaixadas, acabou se rendendo e oferecendo a cabeça de seus profissionais mais "queimados".  Assim, no dia 23 de abril, estava eu sendo demitido num grupo de 21 "inconvenientes", entre os quais João Saldanha, Otávio Malta e, se não me engano, o Paulo Francis.

Conto esses episódios para passar um aviso aos desavisados que querem por que querem forçar a destituição da presidenta Dilma Rousseff com a consequente caça às bruxas do seu PT e de partidos de "esquerda" da sua base de apoio.

E lembro mais outros acontecimentos marcantes: Carlos Lacerda, chefe civil do golpe, que imaginava ter aberto caminho para sua eleição presidencial em 1965, viu seus planos de água abaixo. Os militares usurpadores adiaram a disputa e ainda cassaram seus direitos políticos em 1969,  logo depois do AI-5. Em seu lugar, 5 generais se sucederam por 21 anos no comando de uma brutal repressão e ele ainda foi procurar o Jango e o Juscelino para esbolar uma aliança tardia.

Ademar de Barros, grande articulador financeiro do golpe, responsável pela "cooptação" onerosa de vários generais, foi cassado ainda na condição de governador de São Paulo, no início de junho de 1966, sendo obrigado a deixar o país em julho.

A Igreja católica, sob o comando dos cardeais reacionários Jaime Câmara (Rio), Carmelo Motta (São Paulo) e Vicente Scherer (Rio Grande do Sul), que ofereceu o peso de sua influência religiosa para pôr a classe média nas ruas nas "marchas da família com Deus pela liberdade"  também entrou em parafuso quando boa parte do seu baixo clero foi perseguida violentamente por pregar pela volta do regime de direito. 
Poderia continuar citando muitos tiros pela culatra, esses feitiços contra os feiticeiros,  mas fica por hoje o recado a esses afoitos que querem rasgar o pacto constitucional, sobrevivente há 30 anos, só para destilar seu ódio, suas idiossincrasias perturbadas e sua ojeriza às urnas. 
Se eu fosse essa grei atormentada e sedenta de vingança trataria de esperar as próximas eleições, que ainda são as referências pétreas do regime democrático. A gente sabe que toda essa celeuma é movida a hipocrisias e ambições pessoais, alimentadas por quem não tem mais vez nem em suas próprias hostes*. E que, ainda por cima querem matar dois coelhos de uma só cajadada: derrubar a presidenta reeleita e entregar a Petrobrás aos piratas.

Mas é bom que esses maus perdedores saibam que poderão ter a mesma sina daqueles golpistas de 64.   Num regime tecido pela manipulação, pela felonia e pela força ninguém escapa de sua autofagia.

A história está aí para chancelar este aviso.


* Depois de perder as eleições nos dois turnos, inclusive nas Minas Gerais, Aécio Neves sabe que a vez em 2018 é do Alckmin e que ele ainda corre o risco de não se reeleger senador. Está forjando a ilusão de que com a deposição de Dilma ou ele assume como segundo colocado ou farão um  terceiro turno. Daí a barba recente e o agravamento de sua esquizofrenia apoiada logo pelo seu ex-vice Aloísio Nunes Ferreira, que foi motorista do Marighuella em várias ações armadas, ganhou uma passagem em tempo hábil e foi ser guerrilheiro em Paris, sem saber da cor de um pau de arara. Quando voltou, juntou-se com  aos tucanos e deu no que deu.  Até pela volta do modelo de concessão do petróleo já apresentou projeto no Senado.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O dia que a ditadura matou a Panair

No dia 10 de fevereiro de 1965, a ditadura militar cassou arbitrariamente a concessão da Panair, então a maior companhia aérea do Brasil, abrindo o caminho para a decretação da sua falência e sua dilapidação.
Para quem se empenhou de corpo e alma contra a destruição da VARIG, como eu, muito mais por sua corporação altamente preparada, lembrar a ignomínia que a ditadura militar perpetrou contra a Panair do Brasil, há exatos 50 anos, é mais do que um dever perante a história – é uma chamada à reflexão de todos os brasileiros, particularmente os profissionais da nossa aviação comercial sucateada.
Há que se registrar, a bem da verdade histórica, que são bem distintas as razões que levaram ao fim da concessão da Panair, em 1965,  então líder da aviação brasileira. Nesse gravíssimo crime de tantos outros daqueles idos abomináveis, foi o governo ditatorial que paralisou suas atividades por deliberada e ostensiva perseguição política. Isso por abuso típico de um regime que ainda tem imprudentes nostálgicos entre nós.

Seus principais acionistas e executivos faziam parte de um grupo de empresários progressistas, que atuavam em várias áreas, como a exportação de café, e à frente da mais charmosa estação de tv do país, a Excelsior, igualmente retirada do ar pela ditadura militar com as mesmas motivações.

A Panair era muito querida dos brasileiros pela qualidade dos serviços e uma identificação íntima com a nossa alma, mas a ditadura queria atingir seus executivos Celso da Rocha Miranda, Mario Wallace Simonsen e Paulo Sampaio. Por que entre todas que operavam em 1965, quando foi fechada "manu militari", era a que tinha melhor condição econômica e um grande prestígio internacional.

 No seu auge, na era dos modernos Constellation, dos Caravelle e dos jatos DC-8, ficou famoso o chamado “Padrão Panair”, visto como excelência em aviação, incluindo o atendimento a passageiros com talheres de prata e copos de cristais, no que foi seguida também pela VARIG, aliás, a grande beneficiária de sua desativação, juntamente com a Cruzeiro do Sul, esta sob a direção de Bento Ribeiro Dantas, um aliado incondicional da ditadura.

A companhia aérea foi ainda celebrada em canções, como a interpretada por Elis Regina em "Conversando no Bar" (Saudade dos Aviões da Panair), sucesso de Milton Nascimento e Fernando Brant (“A primeira Coca-Cola, foi, me lembro bem agora, nas asas da Panair...”). Ela também serviu de inspiração para o poema “Leilão do ar”, de Carlos Drummond de Andrade.

A Panair foi cassada pela ditadura e a aviação brasileira só não foi a pique então pelo elevado padrão de profissionalismo dos aeronautas e aeroviários, aos quais coube dar continuidade às suas linhas através da VARIG e da Cruzeiro do Sul, enquanto muitos dos seus colegas eram literalmente exilados em busca de outros ares. Mas estas também tiveram destinos trágicos, por motivos diferentes: no caso da VARIG, devido à incúria da Fundação Rubem Berta, formada por um grupo de funcionários, que a administrava de forma perdulária, e a própria crise mundial das aéreas desde o 11 de setembro de 2001. 

Mas nem por isso, embora não tivesse responsabilidade direta na sua falência, o governo Lula podia ter se omitido, até por que as associações de seus empregados tinham elaborado um plano que a manteria no ar com o mesmo padrão de segurança e conforto. Mas essa é outra história.

CLIQUE NA FOTO E VEJA O DOCUMENTÁRIO SOBRE A PANAIR
Se você tiver um tempinho, para entender o que de mais grave em matéria de perseguição política afetou a aviação comercial brasileira, vale a pena ver o documentário “Panair: uma história de amor com o Brasil”, do diretor e produtor Marco Altberg, acalentado durante 11 anos com a sua mulher, Maíza Figueira de Mello, neta de Celso da Rocha Miranda, o maior acionista da companhia quando foi fechada e dilapidada pelos militares.

Leia também:

Comissão da Verdade confirma que  Panair foi fechada por motivos políticos

  Sem rodeios, a CNV confirma que a empresa — líder em seu setor entre as décadas de 1940 e 1960 — foi liquidada por motivos políticos e não financeiros, e que esse processo contou com a participação de agentes da União e instituições como o SNI (Serviço Nacional de Informações), beneficiando concorrentes.
“Alguns empresários não compactuaram com a conspiração e o golpe, defenderam a Constituição e foram perseguidos e punidos pelo regime ditatorial”, destaca o texto do relatório. “Um caso exemplar foi o de Mario Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda, que juntos detinham o controle acionário da Panair do Brasil, a segunda maior empresa privada do país”. Mais adiante, a CNV aponta: “O estrangulamento econômico sofrido por Mario Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda, mediante bem-urdidos Atos de Estado, é comprovado”.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

E por falar em carnaval


A vitória da Estácio de Sá no grupo de acesso me traz à lembrança o meu casamento em sua quadra, em março de 1992. Na época, eu era Secretário Municipal de Desenvolvimento Social e a quadra da mais antiga escola ficava ali, onde hoje está o Centro de Convenções da Sul América, próxima à Prefeitura.
 Eu já havia conseguido aquele espaço antes do carnaval. Deu sorte. A Estácio ganhou o título máximo de 1992. Na mesma festa, o Padre Júlio batizou o Pedro Ivo na Igreja próxima, já com 4 anos. E a Fátima casou de barriga do Pedro Igor, que nasceria em julho daquele ano. Com ele, completaria os 4 filhos: os dois do primeiro casamento já estavam na luta. Hoje são grandes vencedores: o filho como jornalista e marqueteiro em Brasília e a filha com figurinista da TV Globo. 

De lá partimos para a conquista do meu primeiro mandato como vereador da cidade do Rio de Janeiro. Na época, o governador Leonel Brizola foi o padrinho do Pedro Ivo, enquanto o prefeito Marcello Alencar foi o de casamento.Para incrementar mais a alegria de quase 5 mil pessoas, Elza Soares e Dominguinhos do Estácio fizeram apaixonantes apresentações na condição de amigos, sem cobrar um tostão.
Meu envolvimento com o grande espetáculo não parou por aí. Em 2000, ano do V Centenário do Brasil, desfilei em 3 escolas: Portela, União da Ilha e Unidos do Jacarezinho (esta no grupo de acesso). E por falar, também fiz parte da equipe de dez autoridades que coordenou a estréia do Sambódromo em 1984, quando havia muita pressão e dúvidas até sobre a segurança da obra, feita em tempo recorde.
Naquele tempo, não eram os bicheiros que administravam o carnaval, coisa que só veio a acontecer quando Cesar Maia assumiu a Prefeitura e decidiu "entregar o ouro aos bicheiros".

Agora que a Estácio volta mais uma vez para o grupo especial com um enredo sobre os 450 anos da cidade, espero que nos brinde sobre um grande carnaval em 2016, ano marcante por ser o das Olimpíadas. 
De preferência, sem patrocínios espúrios.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Semeando o caos

Mobilização por impeachment na mão grande e sem nenhuma base legal é golpe grosseiro e irresponsável 
Fora Dilma por quê? Se ela acaba de ser reeleita presidenta da República, gostando você ou não, é imperativo respeitar a vontade da maioria. Ou então isso aqui vai virar uma zona e não haverá segurança jurídica: em seu lugar, o caos e a incerteza trarão de volta os tempos repugnantes do regime ditatorial, que massacrou o povo e suprimiu todas as liberdades. 
Independente de a Dilma estar agradando ou não, tentar apeá-la do governo é golpe grosseiro e tem a bílis amarga dos maus perdedores.  Ela só pode ser derrubada se infringir algum artigo da Lei 1.079/50, que define os crimes de responsabilidade e regula o respectivo processo de julgamento. E, francamente, ninguém ousa apontar nenhuma transgressão. Quem aposta nesse golpe sabe disso.  Mas precisa brandir essa proposta indecorosa para manter a presidente acuada, sem condições de  promover os avanços prometidos em campanha.

Dentro da legalidade não há como alvejar a presidenta Dilma Rousseff, hoje. Para arrancá-la do governo os articuladores do impeachment teriam que violentar o arcabouço jurídico que sustentamos a duras penas, teriam que rasgar a Constituição e as leis. E isso é uma aberração de consequências imprevisíveis.

Nesse cenário, a defesa de uma institucionalidade necessária está acima das simpatias ou antipatias em relação à presidenta e ao seu partido. Não está em jogo essa desastrada aliança encabeçada por quem suscitou outras expectativas na mais renhida disputa presidencial do pós-ditadura, mas a preservação das regras do jogo, do respeito à vontade cidadã.

É de se lamentar nesse pérfido entrevero que algumas figuras alistadas dantes nas hostes democráticas tenham perdido a cabeça e emprestado suas biografias às manhas e à sanha de um golpe ardiloso. Algumas delas sabem muito bem onde pode chegar um país cujo presidente é desbancado no sopapo por um golpe de Estado, seja militar ou parlamentar. Portanto, essas pessoas, especialmente, algumas que já partilharam desse mesmo agrupamento, chocam seus admiradores quando acham que propagar o impeachment sem base legal não é má fé.

Há a observar a patética coincidência desse discurso raivoso com os subterfúgios dos que investem contra a presidenta Cristina Kirchner, na Argentina, e contra o presidente Nicolás Maduro, na Venezuela. Com linguagens diferentes, Dilma, Cristina e Maduro dão sustentação a um novo panorama na América Latina e suas políticas externas ajudam a construir uma nova alternativa para países que antes viviam sob a hegemonia dos trustes norte-americanos.  

Engana-se quem pensa que os fatos da ordem do dia não se entrelaçam. Não é ao acaso que promovem a superexposição da Operação Lava Jato, que transformou mais um anônimo em herói nacional pela singularidade de suas decisões e pelo bom proveito de uma cobertura midiática direcionada.

Não há quem seja imbecil ao ponto de defender as práticas deletérias de corruptos e corruptores na Petrobras. Mas os nossos aplausos seriam mais candentes se os procedimentos nessas investigações não tivessem as digitais das cartas marcadas. Os casos são deliberadamente apresentados à distinta platéia como se essa delinquência tivesse começado com os "petralhas", mesmo quando um corrupto assumido diz sem constrangimento que já levava bola desde outros governos.

Ademais, como eu mesmo tenho escrito aqui há anos, esses esquemas de "bolas da vez" existem desde priscas eras em todos os níveis, onde quer que alguém vá comprar qualquer coisa com dinheiro público. E os percentuais, muito mais gordos, são retribuídos por eufemismos da própria Lei, como o ressarcimento das propinas aos empreiteiros e fornecedores através do BDI – Bônus de Despesas Indiretas.

Todos nós queremos um basta aos propinodutos, mas não podemos admitir que o combate a eles tenha um único alvo. Do jeito que só afloram os malfeitos de ligados aos governos do PT, as pessoas lúcidas tendem a ficar com a pulga atrás da orelha. Para elas, faltam seriedade e imparcialidade no que poderia ser uma exemplar faxina saneadora.

Daí a interligação com a ânsia golpista. Boa parte dos defensores do impeachment associa os escândalos à figura da Dilma e querem a sua cabeça sob impulsos de uma obsessão ensandecida.  Esses, que não têm a menor ideia do que estão semeando, partem para a ignorância quais tresloucados aprendizes de feiticeiros.  Só esquecem que, como nos tempos idos, os golpes acabam se voltando contra seus sequazes. Eu vi isso naqueles anos em que militares monitorados pelo governo dos Estados Unidos disseram que estavam de passagem e ficaram 21 anos emasculando um povo que até hoje guarda sequelas do arbítrio e da perseguição.

Faço essa reflexão com o único intuito de garantir o mínimo de normalidade política e institucional. E de alertar aos que ainda me lêem e me ouvem: não estamos na Venezuela, onde a Constituição prevê um plebiscito no meio do mandato para confirmar ou não o presidente, mas nossas ferramentas legais existem e devem ser preservadas para o bem de todos e a felicidade geral da nação.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O dólar em alta

Eduardo Cunha e Renan Calheiros são as caras de um congresso sem pudor e sem compromissos republicanos
Não será surpresa se em meio a esses turbilhões pintar na Câmara um projeto de PRIVATIZAÇÃO TOTAL DA PETROBRÁS, como conclusão de uma CPI direcionada. 

O que se pode esperar de um sistema de poderes compartilhados que tem Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados e Renan Calheiros, mais uma vez, à frente do Senado Federal? 
Daqui para frente, a República estará mais do que nunca nas mãos de uma súcia sem qualquer compromisso republicano. E não é surpresa para ninguém. Esse Congresso que saiu das urnas de 2014 é de longe o mais tarado pela causa própria, misturando interesses espúrios, ambições pessoais e ausência de qualquer recato.

Eduardo Cunha e Renan Calheiros são as expressões mais toscas de um processo eleitoral em que o mandato é conferido em sua quase totalidade aos que podem gastar rios de dinheiro em campanhas onde a despolitização campeia. Ninguém melhor do que eles para comandar esses parlamentares mais interessados em recuperarem seus investimentos.

Com essa dupla no comando das casas legislativas o jogo vai ser mais sujo ainda e a prática do DÁ LÁ TOMA CÁ será determinante.  Suas escolhas estão sob medida como ferramentas de um ardiloso retrocesso, em que uma presidenta engessada não verá outro caminho se não o de ceder, frustrando ainda mais quem imaginou dias melhores no seu segundo mandato.

E não verá outro caminho por que ela própria já capitulou na formação de seu ministério e de suas políticas econômicas, afastando-se de qualquer possibilidade de confronto com o sistema e, o que é mais patético, frustrando a milhares de brasileiros que acreditaram no seu suposto "coração valente".

Nesse cenário, pode estar certo o senador José Serra ao dizer que a presidenta Dilma Rousseff não concluirá seu mandato. Os adversários têm mostrado muito mais competência na derrota e na química que faz do limão uma limonada.

Por suas capitulações surpreendentes só um milagre levará o povo a ocupar as ruas e entrincheirar-se na defesa do seu governo quando a articulação dos piores interesses decidir removê-la.   Com certeza, não vai ser a turma da Kátia Abreu, do Bradesco ou da Igreja Universal que vai postar-se ao seu lado quando o bicho pegar.

Pior para o povo, que acabará sendo a vítima do seu descuido eleitoral nas eleições parlamentares. Pior, principalmente, para os que ainda tinham alguma esperança de algum tipo de avanço, qualquer avanço – não precisa ser nem esses passos firmes do índio Evo Morales nos altiplanos bolivianos.

Vai ser difícil a partir de agora imaginar qualquer mudança pra melhor – reforma política consistente, nem pensar. Vai ser difícil registrar seriedade nas decisões envolvendo os podres poderes. Renan e Eduardo Cunha não jogam por meias patacas. Os seus colegas não investiram neles à toa.  A República está desmilinguindo para a satisfação das corjas patrimonialistas que vão deitar e rolar.   

E para a infelicidade geral da nação.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.