Se para os políticos a presidência da República é uma mega-sena, para Michel
Temer é um santo remédio.
Ao contrário de Eduardo Cosentino Cunha, graneiro obsessivo desde o seu primeiro cargo público, a presidência da Telerj no governo Collor, Michel Miguel Elias Temer Lulia, de 75 anos, se move também por impulsos existenciais doentios, como revela em sua patética carta à presidente Dilma Vânia Rousseff. Esse ingrediente psicológico o torna muito mais perigoso e vulnerável à mosca azul da Presidência da República, pela qual hoje se presta a qualquer indignidade, como se o topo do poder fosse o nutriente de seu relacionamento com a bela esposa de 32 anos, uma ex-miss que conheceu em Paulínia em 2002 pelas mãos do tio, um ambicioso funcionário da Prefeitura local.
Quem se
aventurar a procurar entender com uma lente "freudiana" o comportamento
pérfido do vice da Dilma chegará à triste conclusão de um "caso
perdido" nesse cipoal de torpezas que embala o cordão de mediocridades e
arrivismo da nauseante atividade política brasileira. Aproveitar-se de um
eventual impeachment da sua cabeça de chapa é tudo o que lhe ronda à cabeça
cheia de sonhos e muito amor pra dar.
Em suas encenações
mais recentes dá para vê-lo já com uma postura soberana de mandachuva, de
salvador da Pátria. Para isso, não
esconde seus despautérios: depois de negociar no sapatinho lotes do seu
eventual governo com os tucanos e anexos, propôs publicamente um
"semiparlamentarismo", isto é, a partilha do poder com a turma da
pesada que tem em Eduardo Cunha o seu porta-estandarte.
Do alto dos
meus 72 anos ouso esmiuçar os últimos capítulos da vida de Michel Temer para
chegar até estes dias em que o país vem sofrendo ataques de um surto virótico de
mau-caratismo e cata ao podera qualquer preço. À falta de verdadeiros
próceres, uma praga de carreiristas sem escrúpulos protagoniza essa
conflagração fisiológica de baixíssimo nível.
Vale
a pena recordar: Michel Temer pendurou-se como vice de Dilma como forma de
permanecer à tona. NA ÚLTIMA ELEIÇÃO QUE DISPUTOU PARA DEPUTADO FEDERAL EM SÃO
PAULO, EM 2006, JÁ SOB O ÊXTASE DA PAIXÃO REJUVENESCEDORA, QUASE FICOU DE FORA.
Com
99.046 votos (0,476% do total), elegeu-se “por média”, ou seja, graças à
distribuição das sobras de vagas por coligação. Dentre os 70 eleitos por São
Paulo, foi o 54º mais votado e o pior colocado da magérrima bancada de três
parlamentares do PMDB. Antes, em 2004, como vice de Erundina havia perdido a
Prefeitura de São Paulo para José Serra.
Quem melhor
definiu sua personalidade obtusa foi o outrora todo-poderoso Antônio Carlos
Magalhães, com quem teve alguns entreveros na guerra por posições no reinado
tucano: ACM cravou-lhe o apodo de MORDOMO
DE VELÓRIO. Referia-se a uma frieza posuda que, a princípio, era usada como
uma máscara no tiroteio do dia a dia conflituoso do Congresso.
Definindo
Michel Temer, André Gonçalves observou em artigo de 12 de setembro passado no CORREIO
DO POVO de Curitiba: "Quase ninguém se arrisca a cravar o
que ele pensa sobre direita ou esquerda, conflitos internacionais ou soluções
imediatas para tirar o país da crise".
Mas se a atípica
relação amorosa de atrativos hierárquicos o enleva nos sonhos das mil e uma
noites, é bom deixar claro que não ele não é nenhum santinho, tanto que está
sempre por cima da carne seca, em qualquer governo, tirando uma lasquinha do
poder.
Foi no
tucanato, de cujo governo o PMDB participava nas cabeças, que seu nome apareceu
na década de 90 como um dos destinatários de propinas milionárias no Porto de
Santos. À época, o procurador geral, Geraldo Brindeiro, conhecido como maior
engavetador do país, não permitiu que a investigação prosperasse. A nova
tentativa de retomar o caso, 9 anos depois, por iniciativa da procuradora Juliana
Mendes Daun, de Santos, foi igualmente barrada em 2011, por ato do ministro
Marco Aurélio Melo, que não viu fato novo nas denúncias já arquivadas.
Temer é um bem
sucedido come-quieto do poder. Segundo Ciro Gomes, que não tem papas na língua,
ele é "PARCEIRO ÍNTIMO NAS PRÁTICAS E NAS COISAS ERRADAS DO EDUARDO
CUNHA". No sapatinho,
emplacou vários dos seus miquinhos amestrados no governo e o fez sem se
considerar obrigado ao programa de fidelidade. Assim, abriu caminho duas vezes
para Moreira Franco e Eliseu Padilha. Este, ainda segundo Ciro Gomes, era
conhecido como "Eliseu Quadrilha" quando foi ministro dos Transportes
de FHC de 1997 a 2001, por indicação do atual vice de Dilma.
Temer preferia
a sombra enquanto ia comendo pelas beiradas ao retomar no governo de Dilma o
controle do Porto de Santos, através do deputado Edinho Araújo, feito por 9
meses ministro da Secretaria dos Portos. Foi a saída do seu apadrinhado de área
tão "estratégica", quando a popularidade de Dilma já decaia, que
acendeu nele a chama orgástica do útil e do agradável. Nunca seu personagem de oportunista
sem recato sentiu tão próximo o sonho existencial e fisiológico de pegar a
sobra e tomar conta do pedaço ao lado de Eduardo Cunha et caterva.
Temer não ficou
por aí: sua filha Luciana é secretária de Assistência Social do petista
Fernando Haddad em São Paulo. Hipócrita, ela declarou que a filiação é mera
coincidência, o sobrenome não ajudara em nada. Temer havia apoiado Gabriel
Chalita, do PMDB, contra Hadad, emplacou a filha depois e agora abriu as portas
do PMDB para Marta Suplicy enfrentar seu ex-correligionário no pleito de 2016.
Mas a filha continua lá.
Com um olho no
padre e outro na miss, o veterano político paulista reza noite e dia para que o
divino poder lhe caia no colo pelas mãos de Eduardo Cunha, seu dileto parceiro,
e da alcatéia de lobos vorazes que querem muita brasa em suas sardinhas.
Será a
realização do mais acalentado sonho de uma noite de verão. Segundo as más
línguas, a jovem senhora Marcela Tedeschi Araújo Temer já experimentou o
vestido da nova posse.
Isso que
escrevi hoje não é tudo. Quem viver os
próximos dias verá do que é capaz o "Mordomo de Velório" para pegar a
sobra numa eventual queda de Dilma e dividir o esplendor do palácio com sua
grande paixão.
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