domingo, 13 de dezembro de 2015

Mordomo de velório, um caso perdido

Se para os políticos a presidência da República é uma mega-sena, para Michel Temer é um santo remédio.

Ao contrário de Eduardo Cosentino Cunha, graneiro obsessivo desde o seu primeiro cargo público, a presidência da Telerj no governo Collor, Michel Miguel Elias Temer Lulia, de 75 anos, se move também por impulsos existenciais doentios, como revela em sua patética carta à presidente Dilma Vânia Rousseff. Esse ingrediente psicológico o torna muito mais perigoso e vulnerável à mosca azul da Presidência da República, pela qual hoje se presta a qualquer indignidade, como se o topo do poder fosse o nutriente de seu relacionamento com a bela esposa de 32 anos, uma ex-miss que conheceu em Paulínia em 2002 pelas mãos do tio, um ambicioso funcionário da Prefeitura local.

Quem se aventurar a procurar entender com uma lente "freudiana" o comportamento pérfido do vice da Dilma chegará à triste conclusão de um "caso perdido" nesse cipoal de torpezas que embala o cordão de mediocridades e arrivismo da nauseante atividade política brasileira. Aproveitar-se de um eventual impeachment da sua cabeça de chapa é tudo o que lhe ronda à cabeça cheia de sonhos e muito amor pra dar.

Em suas encenações mais recentes dá para vê-lo já com uma postura soberana de mandachuva, de salvador da Pátria.  Para isso, não esconde seus despautérios: depois de negociar no sapatinho lotes do seu eventual governo com os tucanos e anexos, propôs publicamente um "semiparlamentarismo", isto é, a partilha do poder com a turma da pesada que tem em Eduardo Cunha o seu porta-estandarte.    

Do alto dos meus 72 anos ouso esmiuçar os últimos capítulos da vida de Michel Temer para chegar até estes dias em que o país vem sofrendo ataques de um surto virótico de mau-caratismo e cata ao podera qualquer preço. À falta de verdadeiros próceres, uma praga de carreiristas sem escrúpulos protagoniza essa conflagração fisiológica de baixíssimo nível.

Vale a pena recordar: Michel Temer pendurou-se como vice de Dilma como forma de permanecer à tona. NA ÚLTIMA ELEIÇÃO QUE DISPUTOU PARA DEPUTADO FEDERAL EM SÃO PAULO, EM 2006, JÁ SOB O ÊXTASE DA PAIXÃO REJUVENESCEDORA, QUASE FICOU DE FORA.

Com 99.046 votos (0,476% do total), elegeu-se “por média”, ou seja, graças à distribuição das sobras de vagas por coligação. Dentre os 70 eleitos por São Paulo, foi o 54º mais votado e o pior colocado da magérrima bancada de três parlamentares do PMDB. Antes, em 2004, como vice de Erundina havia perdido a Prefeitura de São Paulo para José Serra.

Quem melhor definiu sua personalidade obtusa foi o outrora todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães, com quem teve alguns entreveros na guerra por posições no reinado tucano: ACM cravou-lhe o apodo  de MORDOMO DE VELÓRIO. Referia-se a uma frieza posuda que, a princípio, era usada como uma máscara no tiroteio do dia a dia conflituoso do Congresso.

Definindo Michel Temer, André Gonçalves observou em artigo de 12 de setembro passado no CORREIO DO POVO de Curitiba: "Quase ninguém se arrisca a cravar o que ele pensa sobre direita ou esquerda, conflitos internacionais ou soluções imediatas para tirar o país da crise".

Mas se a atípica relação amorosa de atrativos hierárquicos o enleva nos sonhos das mil e uma noites, é bom deixar claro que não ele não é nenhum santinho, tanto que está sempre por cima da carne seca, em qualquer governo, tirando uma lasquinha do poder.

Foi no tucanato, de cujo governo o PMDB participava nas cabeças, que seu nome apareceu na década de 90 como um dos destinatários de propinas milionárias no Porto de Santos. À época, o procurador geral, Geraldo Brindeiro, conhecido como maior engavetador do país, não permitiu que a investigação prosperasse.   A nova tentativa de retomar o caso, 9 anos depois, por iniciativa da procuradora Juliana Mendes Daun, de Santos, foi igualmente barrada em 2011, por ato do ministro Marco Aurélio Melo, que não viu fato novo nas denúncias já arquivadas.

Temer é um bem sucedido come-quieto do poder. Segundo Ciro Gomes, que não tem papas na língua, ele é "PARCEIRO ÍNTIMO NAS PRÁTICAS E NAS COISAS ERRADAS DO EDUARDO CUNHA". No sapatinho, emplacou vários dos seus miquinhos amestrados no governo e o fez sem se considerar obrigado ao programa de fidelidade. Assim, abriu caminho duas vezes para Moreira Franco e Eliseu Padilha. Este, ainda segundo Ciro Gomes, era conhecido como "Eliseu Quadrilha" quando foi ministro dos Transportes de FHC de 1997 a 2001, por indicação do atual vice de Dilma.

Temer preferia a sombra enquanto ia comendo pelas beiradas ao retomar no governo de Dilma o controle do Porto de Santos, através do deputado Edinho Araújo, feito por 9 meses ministro da Secretaria dos Portos. Foi a saída do seu apadrinhado de área tão "estratégica", quando a popularidade de Dilma já decaia, que acendeu nele a chama orgástica do útil e do agradável. Nunca seu personagem de oportunista sem recato sentiu tão próximo o sonho existencial e fisiológico de pegar a sobra e tomar conta do pedaço ao lado de Eduardo Cunha et caterva

Temer não ficou por aí: sua filha Luciana é secretária de Assistência Social do petista Fernando Haddad em São Paulo. Hipócrita, ela declarou que a filiação é mera coincidência, o sobrenome não ajudara em nada. Temer havia apoiado Gabriel Chalita, do PMDB, contra Hadad, emplacou a filha depois e agora abriu as portas do PMDB para Marta Suplicy enfrentar seu ex-correligionário no pleito de 2016. Mas a filha continua lá.

Com um olho no padre e outro na miss, o veterano político paulista reza noite e dia para que o divino poder lhe caia no colo pelas mãos de Eduardo Cunha, seu dileto parceiro, e da alcatéia de lobos vorazes que querem muita brasa em suas sardinhas.

Será a realização do mais acalentado sonho de uma noite de verão. Segundo as más línguas, a jovem senhora Marcela Tedeschi Araújo Temer já experimentou o vestido da nova posse.

Isso que escrevi hoje não é tudo.  Quem viver os próximos dias verá do que é capaz o "Mordomo de Velório" para pegar a sobra numa eventual queda de Dilma e dividir o esplendor do palácio com sua grande paixão.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.