terça-feira, 3 de novembro de 2015

Fascismo no futebol

Diretoria do Flamengo expõe jogadores à execração pública como se clube fosse quartel

Ao crucificar sumariamente cinco dos seus profissionais, a diretoria do Flamengo expôs as vísceras de um ambiente de fascismo que impregna o futebol brasileiro, onde jogadores são tratados como gladiadores romanos.
Ambiente que serve para encobrir atos suspeitos praticados por diretores e empresários envolvidos num verdadeiro tráfico de escravos, infelizmente acolitado por torcedores cegos ou boçais, que transformam uma disputa esportiva numa busca sangrenta de compensações emocionais ante seus próprios infortúnios pessoais. Ambiente, ressalte-se, que revela uma relação comprometida de jornalistas primários, muitos dos quais ganham agrados de várias natureza para insuflar a massa carente de matanças virtuais na glorificação de cartolas inescrupulosos.
Veja os fatos: 5 atletas participaram de uma festinha com mulheres e cervejas fora dos seus horários de jogo e de treinamento, no exercício de seus arroubos juvenis e de um verdadeiro relax. Eles fazem parte do elenco de um time de futebol onde, como, aliás, em todos os demais, bodes expiatórios são fabricados nas situações adversas típicas de um esporte que já perdeu a noção da razoabilidade e onde o elemento prazer já deu lugar a ódios e autoritarismos praticados por multidões silentes ante suas próprias derrotas cotidianas.
Não consta que esses jovens tenham deixado de cumprir suas obrigações profissionais por causa desses atos privados ou que sequer tenham dado maus exemplos no consumo de drogas proibidas. Fizeram apenas o que todo mundo faz quando tem oportunidade, especialmente os solteiros, nas horas de folga que são suas, já que a escravatura no Brasil foi abolida em 1888. E não deixaram de correr atrás da bola os 8 km que um esporte brutalizado, louvado como "futebol-força", exige a cada contenda.
Às voltas com pressões por conta das eleições internas, a diretoria do Flamengo decidiu matá-los e esfolá-los, multando-os, afastando-os e submetendo-os à execração pública sem medir os danos morais e os anátemas que afetarão suas carreiras curtas, das quais desembarcarão com suas fichas corridas antes dos 40 anos. Alguns poderão ter suas vidas profissionais arruinadas já na puberdade do ofício e serão desvalorizados no mercado sacripanta dos milhões de euros que se transformou na única referência de quem lida com o futebol.
Os fascistas e revanchistas que andam assanhados ainda não mudaram a Constituição e a legislação trabalhista para dar base legal a punições sem direito de defesa. Mesmo assim, no furor autoritário dos cartolas, os rapazotes foram desqualificados e condenados ao calabouço num ritual castrense com manchas que os perseguirão mais do que as tatuagens boçais em que marcam seus corpos escravos.
Foi uma violência inominável principalmente por ter contado com o apoio de torcedores inocentes, bitolados, deformados ou simplesmente dependentes de desforras. Foi um bode expiatório monstruoso que só será reparado se alguém com o mínimo de lucidez lembrar a esses dirigentes de fancaria que clube de futebol não é quartel.
Ao entrar nessa seara quero tão somente defender os direitos humanos dos atletas profissionais. Mas também aproveito para lembrar que é por situações tão perversas como essa que eles acabam perdendo "amor à camisa" e fazendo de cada minuto de glória um ingrediente para a opção mercenária que os embala.
Aos 5 jogadores quase imberbes caberia à diretoria, torcedores e mídia uma atitude paternal, um puxão de orelha pela difusão da farra: nunca uma sentença de morte, eivada de todo o ódio que se produzirá na explicação do fracasso nos próximos jogos e no desempenho sofrível numa disputa que envolve uma grana preta dos interesses conexos.

11 comentários:

  1. Belo artigo, Porfírio! Parabéns!

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    1. Valeu, mestre Castor Filho

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    2. Max Pereira10:54 PM

      Caro Porfírio,

      Folgo em vê-lo abordar um assunto atinente ao futebol, mas com implicações sociais e comportamentais claras e até obvias.

      O fascismo está hoje entranhado não apenas no futebol, mas em várias instituições e detectável quase que corriqueiramente em nosso dia a dia.

      Quantas vezes assistimos ou tomamos conhecimento de agressões e até de assassinatos de negros, nordestinos, despossuídos, imigrantes de etnia não branca, índios, mestiços, pobres em geral, homossexuais e prostitutas.

      O que me arrepia é o fato de que o apartheid social que varre o país, além de propositalmente ignorado pela grande mídia, já é encarado por grande parte da população como algo normal, que não choca. Tem gente que até justifica.

      O futebol sempre foi um palco de ações e atitudes fascistas, a começar por uma legislação engessadora e castradora da FIFA, que condiciona comportamentos, tolhe a liberdade de expressão de atletas e dirigentes, inibe a simples comemoração de um gol e se contrapõe a cultura local.

      O futebol, entretanto, não se tornou a grande paixão nacional por acaso. É que o futebol conseguia reunir vários e determinados fatores que levavam massas de torcedores não só ao fascínio, ao prazer incontido, ao exercício e ao experimento da paixão, como também a vivenciar níveis de realização pessoal inalcançados e improváveis no dia a dia.

      Catártico, o futebol desopilava fígados e vingava o torcedor de seus algozes diários: o desafeto que a vida trazia, o mau patrão, o chefe insuportável, a sogra pela saco, a companheira ou o companheiro geratriz e objeto de mágoas acumuladas, os maus vizinhos, os maus colegas, os maus políticos, os maus governantes.

      O futebol conseguia, de certa maneira e até com certa eficiência, resgatar as frustrações acumuladas pelos fracassos, pelas derrotas da vida, pelas decepções, pelos insucessos colecionados.

      Os estádios de futebol tornaram-se, de certa forma, o espaço naturalmente mais democrático do país ou, pelo menos o minifúndio mais perto disso, onde o pobre e o rico, o branco e o negro, o analfabeto e o doutor, o patrão e o empregado, se misturavam e se igualavam na paixão, na alegria, na tristeza, na agonia e no êxtase, na frustração ou na redenção, na vitória e na derrota.

      As arquibancadas e as gerais eram lugares impares, um oásis no deserto da vida selvagem.

      Este tema já mereceu, inclusive, tratados de psicologia e de psiquiatria que comprovaram o efeito catártico do futebol.

      Isso explica o porque de governos, em especial os totalitários, terem se utilizado do futebol como ópio do povo. Já dizia o grande imperador romano: "ao povo dê pão e circo e não terás problema algum".

      Mas a vida mudou e o futebol também mudou. E as reações humanas às decepções, às vicissitudes, às diferenças, àquilo que julga ser uma ameaça ao seu status quo, estão cada vez mais virulentas e incontroláveis.

      Parabéns, velho amigo.

      Um grande abraço.

      Max Pereira

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    3. Max.
      Seu comentário é uma fonte de lucidez. Por isso, fiz questão de reproduzi-lo no meu facebook e na página Chapa Quente.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.