sábado, 2 de maio de 2015

Frente às ziquiziras da Corte

Repudiar os arroubos golpistas não nos livra de uma postura crítica diante da rendição covarde

Tudo pode acontecer quando elegemos um governante para evitar que seus adversários vençam e façam o pior. Nesta última eleição presidencial não tivemos alternativas porque a esquerda coerente acabrunhou-se e sumiu na poeira. Estávamos entre dois pilares da social democracia de essência conservadora. E abraçamos a opção vitoriosa com algum tipo de esperança: o segundo mandato seria sob inspiração do "coração valente".

 Nesse ambiente, livramos o Brasil do pior.  Com a social democracia mais retrógrada   enfileirava-se a pior direita, aquela renascida com o fel da vingança, que decidiu reincorporar os sentimentos mais obscurantistas, incomodada com encenações como as  da "Comissão da Verdade" e com alguns ganhos pontuais dos oprimidos, como no caso das empregadas domésticas, que tornaram a criadagem inviável.

A santa aliança compactada em torno do candidato derrotado vinha com o porrete na mão e estava articulada para a marcha a ré diante do pouco que se fez em termos de políticas compensatórias e de um pálido avanço que nem de reformista se pode chamar.

Impedir que essa turma braba voltasse com suas fórmulas amargas e seus compromissos espúrios era uma atitude de lucidez. Mas nessa maratona esperávamos boas novas, que o mar não estava para peixe.

Ao contrário, fomos surpreendidos por péssimas notícias   numa deprimente capitulação daquela em que confiamos o nosso amanhã. Seus pendentes tentam dourar a pílula, alegando que ela está acuada por um Congresso picareta e inescrupuloso.  E que é impossível fazer qualquer coisa sem uma base parlamentar, mesmo construída pela conivência com as ambições mais imorais.  Quando se indica um cara para um cargo no Executivo, não é pelos seus belos olhos. Mas a era do loteamento malversador dos podres poderes impôs conchavos sob tais imposições.

Quando um ministro da elite reacionária foi chamado para conduzir a política econômica diziam os cortesões que quem ia mandar ela a chefa do governo. Ministro, por suposto, é um subordinado. Mas os papéis se inverteram.

O rebento de Chicago tirou da cartola a mesma receita disponibilizada pelos retrógrados perdedores e foi fundo no massacre do povaréu.  Em duas ou três cajadadas matou todos os coelhos que confiaram seus votos e suas esperanças à mandatária na sua reeleição suada. Foi aí que o bicho pegou.  Sem ganhar um só apoio dos adversários de urnas, como o próprio ministro, a senhora presidenta perdeu a turba, que está contrariada e sem graça.

Esse isolamento ofereceu combustível para que os derrotados voltassem à ofensiva para tentar virar a mesa. Nunca dantes, desde a marcha da família com Deus de 1964, o arsenal reacionário pôs tanta gente em posição de combate nas ruas, enquanto a presidenta e sua coligação fisiológica se digladiavam nos gabinetes, sem gás para qualquer contraponto massivo, com acontece na Venezuela.

Nesse sufoco, dois conhecidos pilantras tornaram-se os grandes protagonistas dos podres poderes. Embora investigados por novas peripécias, dão as cartas como se monopolizassem os trunfos, conseguindo com isso impor uma baita saia justa aos investigadores e ao governo. E a presidenta ainda tem que virar malabarista para submeter-se a cada um deles, algo absolutamente impensável pelo seu histórico e de seus próximos. 
Aos olhos de todos, a presidenta reeleita  pôs a viola no saca e entregou o ouro aos bandidos. Dizer que ela virou uma figura simbólica sustentada apenas pelo risco de uma ruptura institucional não é exagero. Não se sabe nem com quantos soldados e oficiais conta em suas próprias hostes. Ninguém se sente obrigado a defender o governo que arquivou seu discurso de campanha. 
Aí devemos ter a mais absoluta clareza. De um lado, não podemos engrossar arroubos golpistas que querem apeá-la por bem ou por mal, numa conspirata destinada a derrubar na marra o que as urnas definiram.

De outro lado, ante o quadro esperado de 4 anos pérfidos, é do nosso dever dar combate e desmascarar a abominável rendição, que levou a um governo ao gosto dos interesses da elite mesquinha e reacionária. Governo no qual os agiotas continuam enchendo suas burras com lucros estratosféricos: em nenhum país do mundo os banqueiros se nutriram tanto, segundo a mesma sina em que só os dois maiores bancos privados registraram lucros de R$ 31 bilhões, o dobro do que o governo vai surrupiar dos pensionistas e mais do que os R$ 27 bilhões destinados ao "Bolsa-Família", carro chefe da social democracia mandante.  

A menos que estejam presos às tetas do poder, assumir essa postura crítica é forma mais sensata de evitar o pior. Ou melhor, fechar os olhos diante do descaminho é a pior maneira de defender a própria presidenta.  Pois se o governo dito progressista não retornar ao prumo dos seus grandes compromissos, ele acabará caindo por inanição, como aconteceu com a ditadura, que fez as malas depois de tantas lambanças sob a proteção dos tanques. 

É isso que estou querendo dizer desde as primeiras ziquiziras da Corte. 

4 comentários:

  1. Sérgio Amorim10:48 AM

    Louvo-o pelo aparente retorno à racionalidade, sem arroubos de defesa a favor dessa gentalha que tanto nos roubou e continua roubando. Falta ainda, Porfìrio, um mea culpa mais explícito pelo apoio incondicional que você deu a esses evidentes canalhas.

    Não apoiar Dilma não era, necessariamente, apoiar Aecio, havia outros candidatos. Não tinham chance? Quem faz a chance somos nós, desde que se entenda que a fraude eleitoral começa nas "pesquisas ". Seja bem-vindo à racionalidade.

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  2. Grande amigo, escritor, jornalista Pedro Pedro Porfírio. Está aí uma pessoa que admiro, coerente e inteligente no que escreve. Sabe discernir o certo do errado. Pena que o radicalismo cega muita gente.
    Parabéns, meu irmão, pela matéria.

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  3. Jileno Sandes.11:59 AM

    Quanta falta faz os nossos jornais com uma certa e curta independência mas com um grande poder de informar.
    Jornalistas coma você são espécies em extinção.
    Voltando ao temo tão bem comentado por você,comungo com a sua linha crítica, ou a presidenta dá um murro na mesa e assume o seu legítimo poder ou os "meninos molequinhos" alimentados pela tirania da informação e do capital, viram a mesa sobre ela..

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  4. Ah a turma está querendo voltar. Cheios de rancor, Será que os anos de ditadura não serviram para nada? O regime Militar conseguiu afastar a influência comunista ( fantasma que assola a mente dos conservadores) mas...entregaram o Brasil aos banqueiros internacionais. Aumento de pobreza, empréstimos excessivos no exterior, implicando no dramático aumento da criminalidade nos grandes centros urbanos - eis o saldo da extrema direita, dos militares no poder, apoiados pelo governo americano. Sob os militares, o Brasil era um valioso aliado, um poder regional atuando em prol da política dos EEUU.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.