terça-feira, 7 de abril de 2015

O outono que traiu a primavera

A menos que um milagre reverta a rendição, vamos ter que pedir a Deus para o pior não acontecer

 Uma cortina de desapontamento e tristeza desceu neste outono pérfido sobre milhões de brasileiros que confiaram seu voto a Dilma Vânia Rousseff naquele outubro primaveril inesquecível. O clima é da mais tensa perplexidade. Alguns deixaram correr lágrimas dos olhos, mas ainda cultivam fios de esperança como orvalhos da madrugada. Outros, porém, já foram para as ruas nos cordões de arrependidos e se juntaram aos semi-burgueses que querem virar a mesa, ainda no amargor de uma derrota emblemática. 
Ninguém está entendendo nada, nem mesmo o Frei Betto, ícone de uma esquerda de fé, que na infância conviveu com a presidenta na mesma rua de Belo Horizonte. “Assistimos ao começo do fim. O PT tende a virar um arremedo do PMDB”.  E foi mais além em seu desabafo contundente:  "Onde estão os líderes do PT que não tiveram um assombroso aumento de seu patrimônio familiar durante esses anos, a ponto de não se sentirem mais à vontade em uma assembleia de sem-teto, em uma aldeia indígena, em um fim de semana em um quilombola? Onde estão eles? Existem. São raros".

Cada dia é uma notícia pior do que a outra neste outono amargurante – haja coração. A última: Dilma chamou Eliseu Padilha para  seu gerente nas relações com o Congresso. Vem a ser do PMDB gaúcho, já foi carta de FHC e tudo o mais. Esperar o que? Tudo o que esse governo quer é um habeas corpus preventivo ante o titubeio proclamado do saco de gatos que dá as ordens por intermédio de Eduardo Cunha e Renan, dois biltres conhecidos. Padilha será mais um da tropa de ocupação comandada pelos  fulanos referidos.

 
São eles, mesmo?
Numa plenária de movimentos sociais, no fim de março, Lula deu um banho de água fria no que restava da resistência. Fez a defesa intransigente da rendição à direita do governo Dilma, sem apresentar nenhuma contrapartida para as forças progressistas. "Em resumo, ele disse que as pautas dos movimentos populares não serão atendidas,mas mesmo assim devem sustentar o governo" – escreveu por sua vez Carlos Bandeira no site Viomundo, de Luiz Carlos Azenha – "
Lula puxou o freio de mão no começo da subida da ladeira, minando o entusiasmo daqueles que desejam ir além da defesa do governo e querem ir pra cima dos inimigos do povo brasileiro". 
O que tenho a dizer é que nem eu estou entendendo nada.  E olha que eu estava cheio de amor pra esse segundo tempo do governo da ex-isso e ex-aquilo.   No entanto, sou obrigado a engolir a seco toda essa derrapada logo agora que havia votado no 13 pela primeira vez para não permitir o retrocesso incorporado pelo 45.  Tanto como tenho que fazer das tripas coração para não deixar que virem a mesa, abrindo caminho ao desconhecido, à revanche e a uma nova caça às bruxas. 
Corro para Luciana Genro e leio de sua lavra na revista CARTA MAIOR: "Nenhum setor da burguesia quer de fato o impeachment ou muito menos um golpe. Eles gostariam de ter derrotado o PT nas eleições, pois este partido já não consegue mais cumprir o papel de freio às lutas sociais, sua maior utilidade para garantir a aplicação dos planos econômicos capitalistas.

O filho legítimo da burguesia, Aécio Neves, era o escolhido para gerenciar os interesses do capital nesta nova etapa. Mas ele perdeu, e agora a instabilidade política gerada por um processo de impeachment não interessa à burguesia. O que eles precisam é de um governo completamente rendido, que aplique a fundo o ajuste. E ISTO ELES JÁ TEM".

Há muito, muito mesmo, não sentia medo. Agora tremo ao contemplar Dilma Vânia Rousseff rendida, sem o charme e a garra daqueles idos. Vejo o "pau-de-arara" de novo, os choques elétricos, os torturadores às gargalhadas chutando meu corpo nu, com muito mais ódio, mais sadismo do que naquele julho de 1969.

Os quase burgueses irados em meio às incertezas dos ganhos não se saciam com a mera capitulação. Eles querem botar a mão na massa. Querem aproveitar essa ruptura precipitada com o discurso de campanha para entornar o caldo. Não há sinais de resistência aos seus ímpetos. Os legalistas acreditam tão somente na falta de elementos jurídicos para a deposição. Mas os legalistas sempre se iludiram mesmo quando ventos uivantes batem em suas portas e abalam seus alicerces. Na hora do pega pra capar, como ensinou o coronel Passarinho, todos mandam os escrúpulos às favas.

Constato atordoado que quem perdeu venceu e quem venceu perdeu, uma tragédia semântica enervante.  Se não mudarem os próceres, darão as cartas pela imposição da fórmula reacionária, como se por acordos de não-cavalheiros.

Sobrará o quê, além de uma conta perversa para nós outros, os mortos vivos desses tempos de estelionatos sem pudor?

4 comentários:

  1. Jileno Sandes.11:06 AM

    Comungo totalmente com sua análise e confesso que alem do medo também sinto uma grande angústia, a angústia de quem lutou e acreditou e agora sente-se traído em suas crenças e esperanças.
    O que dizer em defesa da minha posição e voto?

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  2. E uma aplicação da Lei de Murphy: acabo de ler que a Presidenta entregou a coordenação política do governo ao vice-presidente Michel Temer (que, aliás, segundo jornais de dias anteriores, manteve conversas com líderes tucanos).

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  3. http://www.ju.edu.jo/home.aspx
    Jordan University
    [url]http://www.ju.edu.jo[/url]

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.