terça-feira, 10 de março de 2015

Porque o ódio não compensa

Quem diria: essa zorra toda é bronca de uma elite paranóica que quer manter a pirâmide social injusta

"O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção. Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando  aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade" - Juca Kfouri.

São tão fartas, férteis, variadas e diversas as fontes de inspiração e referência que não sei nem por onde começar esta necessária reflexão que pretendo dividir com vocês. Mas uma coisa posso adiantar: estamos vivenciando um novo impasse, de conteúdo bestialmente explosivo, que decorre da mais trágica linha de pobreza – a do conhecimento pífio, do sentimento mesquinho, da ausência de grandeza e do baixo nível dos conflitos à tona, movidos por idiossincrasias amargas, vaidades incontroláveis e ambições insaciáveis.

Felizmente, mais cintilante do que os espirros da intolerância alcança-nos um abrangente potencial informativo. Mais do que a idiotia manipulada há mentes lúcidas e sensatas, há escritos que refletem oportunas percepções e há um punhado de gente bem intencionada à cata da razão.

Pode até ser que a indústria da imbecilização venha crescendo nos ambientes amofinados pela dúvida quanto à sua própria natureza.  Pode até ser que uma mídia endividada, em queda livre, e à beira de um ataque de nervos venha conseguindo compartilhar seu fracasso crepuscular com hordas de paranóicos infelizes, atormentados por imaginados arrastões da história, temerosos de um amanhã longe da Disney e destituídos dos prazeres vitais que lhes distancia do orgasmo, matriz de vida, e das paixões românticas que tanto enlevam.

Pode, mas os feixes de luz da serena lucidez municiam os cérebros resistentes à lobotomia virtual e abastecem o arsenal da razoabilidade. O processo histórico é inexorável e titânico. O que tem de ser será, não há cabra macho capaz de conspurcar o destino.

Toda essa celeuma eivada de imposturas e maquinações não se sustenta à luz do dia. Não serão a amargura tétrica de seres emasculados e nem a tramóia dos interesses espúrios que vão prosperar em suas felonias esquizofrênicas.

Canastrões de encenações grotescas não conseguem mais do que o ridículo de uma caricatura monstruosa – vejam a farsa do panelaço midiático de barrigas cheias nas varandas dos enforcados de alto luxo. Meia dúzia de 3 ou 4 gatos pingados não são o povo de indignações outras. São, sim, ostensivamente, o espelho quebrado de uma decadência deprimente.
Hoje eu diria que não é o governo da angustiada Dilma Rousseff que está na berlinda.  E não é tampouco o arcabouço institucional. A grande tragédia está no imbróglio que o velho Bresser Pereira, economista e empresário da cepa social-democrática, expressa em seu novo livro: "O PACTO NACIONAL-POPULAR ARTICULADO PELOS GOVERNOS DO PT DESMORONOU PELA FALTA DE CRESCIMENTO. SURGIU UM FENÔMENO NOVO; O ÓDIO POLÍTICO, O ESPÍRITO GOLPISTA DOS RICOS".
É custoso contestar o materialismo histórico de Karl Marx, mas o psicanalista William Reich e filósofo Herbert Marcuse, obras ainda à mão, nos oferecem a bússola: quando o homem perde a ternura e parte para a ignorância, com epítetos como "vaca" em alusão à chefa do Estado nacional, falta-lhe mais do que um Chateau Margaux à mesa. É na cama que reside a causa de sua agressividade torpe, como é também na relação desfigurada com filhos viciados na pior das drogas, o consumismo exibicionista; e com seus vizinhos na competição de mostruários.


Monta-se um cenário tragicômico de embate para uma nova batalha de Itararé, esquecendo que 64 já era – já não há barbudos cubanos como assombração, nem carece de exorcistas na mudada santa madre igreja

Essas elites sem pudor não  teriam  nem de que reclamar hoje em dia, por que a Dilma e o PT estão longe da intrepidez ousada dos órfãos de Hugo Chávez, ou do duelo frontal de Cristina Christner, ou mesmo da conduta altiva do índio Evo Morales.   Tanto que por um infortúnio histórico deram um longo passo atrás, traindo, sim, quem votou no avanço almejado.

Não é certo nem, ao contrário do que escreveu Juca Kfouri, que os governos do PT defendem os pobres contra os ricos, por que em seu breviário esse conflito não existe: foi trocado por políticas compensatórias pertinentes que, no fundo, fazem uma estratégica acomodação das camadas sociais. Não se pode reputar de esquerda um governo que abandonou a reforma agrária e confiou o Ministério da Agricultura à magnata do latifúndio.

Mas o que produz nitroglicerina na "elite branca" é ser derrotada seguidamente por um "pau de arara" sem diplomas que exerce uma magnética liderança sobre as massas.  E mais ainda: é duro para a ala medieval das classes dominantes ver a tropa perfilar-se ante aquela que um dia levou muita porrada em seus porões. Isso politiza a inveja mesquinha e faz de um perdedor um terrorista sem os colhões e o fanatismo daquela figura que a caricatura de Chico mostra de olho no pescoço da ex-prisioneira da ditadura.

Fico por aqui, por hoje, para não lhe cansar, mas certamente ainda voltarei a essas reflexões, livre do trauma mais deletério, o maniqueísmo. 

Um comentário:

  1. ELISA BRUM8:42 PM

    ESTE SENTIMENTO CONTRA O PT (DILMA), NA REALIDADE DISFARÇA UMA INSATISFAÇÃO CRESCENTE DA CLASSE MÉDIA CONTRA UM GOVERNO QUE LHES TIRA O STATUS E OS NIVELA AOS POBRES, UMA VEZ QUE GRANDE PARTE DELA TEM QUE VIVER DE UMA APOSENTADORIA QUE CORRESPONDE A UM DÉCIMO DA RENDA QUE TINHAM, QUE OS TAXA COM IMPOSTOS CRESCENTES, AMEAÇADOS TAMBÉM PELA INSEGURANÇA E PELO AUMENTO DAS TAXAS PÚBLICAS. MUITOS DELES NÃO TÊM MAIS COMO PAGAR SEUS CONDOMÍNIOS E SE SENTEM NA IMINÊNCIA DE TER QUE VENDER SEUS LARES E PROCURAR OUTRAS ALTERNATIVAS DE MORADIA. ESTA É UMA REALIDADE QUE O ATUAL GOVERNO NÃO PODE IGNORAR. OS FILHOS DESSA CLASSE MÉDIA NÃO PODEM ESTUDAR EM ESCOLAS PARTICULARES E TÊM QUE MIGRAR PARA AS ESCOLAS PÚBLICAS QUE, TAIS COMO OS HOSPITAIS PÚBLICOS, VIVEM À MÍNGUA. SINTO ESTA REALIDADE PQ PERTENÇO À CLASSE MÉDIA. NÃO POSSO MAIS PAGAR PLANO DE SAÚDE, NA REALIDADE NÃO TEMOS PARA ONDE CORRER. LONGE DE FALARMOS SOBRE ELITES E O POVÃO, TEMOS QUE OLHAR PARA ESTA REALIDADE SE QUEREMOS DAR APOIO A UM GOVERNO PROGRESSISTA. É A CLASSE MÉDIA QUE ESTÁ SAINDO ÁS RUAS, ELA ESTÁ ESTRANGULADA. SE TIVESSEMOS POLÍTICAS PÚBLICAS DE QUALIDADE PARA SUBSTITUIR OS PLANOS DE SAÚDE E AS ESCOLAS PARTICULARES, ACREDITO QUE GRANDE PARTE DA POPULAÇÃO ESTARIA SATISFEITA. NÃO ENTENDO PQ NOS COMENTÁRIOS DOS JORNALISTAS E DOS POLÍTICOS PROGRESSISTAS NINGUÉM FALA NISTO!

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.