domingo, 8 de março de 2015

Cagando e andando

Nada diferente se pode esperar de um valhacouto escatológico em que transformaram podres poderes

"Estou cagando e andando, no bom português, na cabeça desses cornos todos" – João Leão, vice-governador da Bahia, fez essa declaração por escrito sobre sua inclusão na lista do propinoduto da Petrobrás. 
Sem usar dessas palavras chulas, Eduardo Cunha, enterrado até o pescoço em trapaças,  não foi nem um pouco sutil: “Sabemos exatamente o jogo político que aconteceu. O PGR agiu como aparelho visando à imputação política de indícios como se todos fossem participes da mesma lama".

Já Renan Calheiros, salvo pelo voto secreto da cassação em 2007, disse que vai montar uma CPI para investigar o Ministério Público, como represália por ter seu nome da lista de Janot. Naquele ano, ele renunciou à presidência do Senado depois que Mônica Veloso, ex-amante e mãe de uma filha sua, fez revelações chocantes: era um lobista da empreiteira Mendes Junior quem bancava todas as suas contas em nome do dito Renan.Ele ficou senador no sapatinho, foi reeleito em 2010 e voltou triunfal ao comando da "câmara alta". Isso, aliás, ressalte-se, com o apoio da "base aliada" encabeçada pelo PT.

 O capo de todos eles, José Sarney, escreveu em seu jornal no Maranhão, que sua filha Roseana Sarney entrou na lista por vingança. Só que foi exatamente com a prisão do doleiro Alberto Youssef em São Luiz, há um ano, que tudo começou. Ele foi pego com a mão na massa quando tinha ido levar R$ 10 milhões para a então governadora a fim de liberar o pagamento de R$ 113 milhões para o grupo UTC/Constran.

Antes mesmo de iniciar os 49 inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal, o Procurador Geral da República afirmou ter coletado “indícios sólidos de participação nas empreitadas criminosas” dos presidentes do Senado e da Câmara.

Renan e Eduardo Cunha são os modelos mais emblemáticos de como se usa um mandato parlamentar para encher as burras. São os líderes das duas casas do Congresso, de onde se constata sem maiores sofrimentos: aquilo ali virou um valhacouto da pesada.

Essa lista está incompleta. Como Sérgio Cabral conseguiu escafeder-se se seu nome foi um dos primeiros citados pelo delator Paulo Roberto Costa? Como incluíram o ex-governador Anastasia e livraram a cara do seu criador Aécio Neves?  Aí tem truta, ah isso tem. Como reduziram a uma  pálida sindicância o pedido de investigação dos governadores Pezão e do Tião Viana?

Como o Ministério Público vai conseguir investigar os chefes das duas casas do Legislativo se eles permanecerão nos seus cargos com a faca e o queijo na mão e um poder de fogo mil vezes superior ao dos promotores? Comandando o Legislativo os dois suspeitos têm bala na agulha para paralisar a República, isso todo mundo sabe.

Nestas horas Renan e Cunha devem estar encostando a Dilma contra a parede, com o aval dos 400 achacadores citados por descuido pelo ministro Cid Gomes. A mídia que já tinha feito dos dois os novos heróis de suas falácias também entrou em pânico e, como aliada assumida do PSDB, vai descarregar mais munições para trazer de novo ao proscênio a ideia do impeachment da presidenta.  Mudar de assunto é um velho truque que se usa quando se fica mal na fita.

Aliás, com que moral querem fazer manifestação contra ela, contra quem não se levantou nada, enquanto apoiam os chefes flagrados do Legislativo?

Brasília é hoje literalmente uma zona onde os gigolôs dos podres poderes põem suas unhas de fora sem qualquer recato. É um monumento vivo ao cinismo, à hipocrisia e ao desvio de conduta, comprometendo, infelizmente, a própria liturgia da democracia representativa.

Se esse João Leão, cujo filho Cacá é membro da CPI da Petrobrás, declara que está cagando e andando para a inclusão do seu nome numa lista ainda tímida de suspeitos certamente não é o único a ter a mesma atitude.

E ele não teria sido tão sincero se essa não fosse a marca de um valhacouto que aposta todas as suas fichas no poder de extorsão de um mandato parlamentar forrado na impunidade ampla e irrestrita. Até por que, insisto, a propinagem não é exclusiva dos negócios apontados nesse escândalo recente. E não envolve apenas deputados e senadores. A empreiteira Camargo Corrêa que o diga: não faz muito, desmontou a Operação Castelo de Areia no STJ alegando que as fartas provas de sua ação corruptora foram obtidas a partir de escutas ilegais.

O que vem por aí só Deus sabe. Mas boa coisa certamente não será. O perigo disso tudo é sobrar pra quem não tem nada com os excrementos desse covil escatológico. Enquanto isso, as revistas de sacanagem estão faturando adoidado dentro do clima pornô a que chegamos, dando capas com personagens ligados ao escândalo.

Dê uma lidinha na matéria do site Acesse Bahia:

http://www.acessebahia.com.br/capa-da-g-magazine-tambem-sera-com-amante-de-alberto-youssef


O Deboche é perigoso

Como um conselho amigo, sugiro também a leitura do artigo do senador Cristovam Buarque O Deboche é perigoso.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.