sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

DNA do golpe no impeachment

Primeiro, pedem a cabeça da Dilma. Depois vão tentar achar uma prova qualquer para a deposição


Não carece usar uma lupa para enxergar a inspiração golpista dessa mobilização orquestrada para derrubar a presidenta Dilma Rousseff no início do seu segundo mandato.  

Se ainda tem dúvida, raciocine comigo:

1. Ao contrário do processo que levou ao impeachment de Collor, no caso presente já se cobra a deposição de Dilma antes mesmo de qualquer indício que a possa incriminá-la por improbidade ou até mesmo justificar uma admissibilidade na Câmara. Isto é: fechadas as urnas, os setores mais radicais entre os derrotados partiram para a cobrança do impeachment pelo simples "crime" de ter sido reeleita. Traduzindo: querem penalizá-la de antemão: quanto às razões imaginam forjar no caminho.

2. A maior parte dos defensores do impeachment está insuflando as Forças Armadas. E o Clube Militar já está viajando em panfletos agressivos contra Dilma, como consta de pronunciamentos dos seus dirigentes, generais Gilberto Rodrigues Pimentel e Gilberto Barbosa de Figueiredo, publicados em seu site.  No contexto, não dá para separar um procedimento no âmbito constitucional desse apelo "extra-constitucional". Por que no fundo o que esses grupos de interesses querem é muito mais do que substituir um presidente segundo o ritual previsto na LEI Nº 1.079, DE 10 DE ABRIL DE 1950 e nos termos do Artigo 85 da Constituição de 1988.

Lembre-se, a propósito, que a mando de Aécio Neves, poucas horas antes de a presidente Dilma Rousseff e o vice-presidente Michel Temer serem diplomados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o PSDB e a Coligação Muda Brasil requereram ao tribunal a cassação de seus registros e da própria diplomação. Na ação pediram que o tribunal diplomasse, para os mesmos cargos, Aécio Neves e Aloysio Nunes, candidatos derrotados nas eleições 2014.

3. Em todo o farto material postado nas redes sociais pleiteia-se ou a nomeação de Aécio Neves, o segundo colocado (fórmula Sarney que repôs a filha derrotada no governo do Maranhão) ou a realização de novas eleições. As postulações desconhecem deliberadamente a previsão legal de o vice-presidente assumir, como aconteceu com Collor, alegando que ele só poderia fazê-lo depois de dois anos de mandato, o que é uma falácia.

4. Não só de quarteladas se produzem as deposições de governantes. O expediente do "GOLPE PARLAMENTAR" foi bem sucedido no Paraguai, quando em 22 de junho de 2012, depois de um rito sumaríssimo de 36 horas, o Senado decidiu destituir o presidente Fernando Lugo e empossar o seu vice-presidente Federico Franco. Vale repetir, como Paulo Brossard defendia, que essa é matéria essencialmente política. De onde as próprias garantias constitucionais viram letras mortas ante uma ofensiva orquestrada.

5. À margem da impostura ilegal, há associado um indisfarçável conteúdo ideológico nessa ofensiva. E uma ostensiva "reciprocidade"  em relação ao caso da Petrobrás, numa espécie de golpe extensivo. Como Dilma e Lula sempre procuraram compor, não adotando nenhuma medida de CONFRONTO com os grandes interesses, ao contrário de Hugo Chávez/Maduro e da própria Cristina Kirchner, é de se suspeitar que haja mais caroço nesse angu. Há por trás dessa pressão elementos de alcance inimaginável, que agridem a própria soberania nacional e fatalmente recriarão a antiga agenda de fidelização incondicional aos EUA.     

6. Enfim, vale recordar: o golpe de 64 não foi uma quartelada exclusivamente castrense. O seu escopo era aparentemente legalista e foi sustentado pela conivência do Congresso e de carreiristas como Juscelino Kubitschek, que legitimaram a deposição e votaram no general Castelo Branco. Os militares foram usados então por um complexo de interesses, mas o seu discurso inicial era de uma governança de transição rápida. Uma vez com as mão na massa, puseram as unhas de fora e deu no que deu.

Portanto, é flagrante o caráter golpista dessa mobilização/articulação para tornar sem efeito o veredicto das urnas. Denunciá-lo é uma obrigação de quem não quer o Brasil de volta àquele passado de repressão e torturas.  Isso, esteja gostando ou não do governo Dilma.

Em tempo: estou muito insatisfeito com as medidas infelizes da presidenta Dilma Rousseff e em relação a antigas conquistas trabalhistas, mas nada me resta senão torcer por uma reavaliação de parte dela, de uma mobilização popular no âmbito da legalidade ou então esperar a próxima consulta ao povo.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.