terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Aviso aos mais afoitos e desavisados: num golpe sobra pra todo mundo

Quem quer rasgar a Carta para depor uma presidenta legitimamente reeleita está cavando a própria sepultura


Ao completar 21 anos naquele março tenso de 1964, quando a carga horária de um jornalista era de 5 horas diárias,  trabalhava em dois grandes jornais –ÚLTIMA HORA e CORREIO DA MANHÃ.

Na UH, já editava páginas da sua versão fluminense, ao lado do mestre Teodoro Barros. No CM, para onde fora levado em 1963 por outro mestre, Oswaldo Peralva, era repórter da "geral".

A ÚLTIMA HORA de Samuel Wainer era praticamente o único diário que fazia a defesa do governo João Goulart. O CORREIO DA MANHÃ da corajosa Niomar Moniz Sodré Bittencourt engajara-se, fazia pouco, na artilharia que levaria à deposição do presidente constitucional.  Seus editorias "BASTA" e "FORA", no final de março, tiveram grande influência sobre o que restava de baluartes legalistas.

Em 1 de abril daquele ano, já casado, encontrava-me numa roda viva. A ÚLTIMA HORA fora atacada pelos vândalos raivosos do CCC – Comando de Caça aos Comunistas, forçando profissionais admiráveis como João Saldanha a fugirem desse grupo armado pelo telhado da velha sede, na Rua Sotero dos Reis, quase na Rua Ceará, junto à Praça da Bandeira.

Já o CORREIO DA MANHÃ, onde grandes jornalistas progressistas como Edmundo Muniz, Antonio Houaiss, Mário Pedrosa e Otto Maria Carpeaux procuravam administrar "profissionalmente" a contribuição ao golpe, não teve tempo para comemorar. 

Quinze dias depois, o lendário jornal da Rua Gomes Freire já se sentia traído. As notícias de prisões arbitrárias e abusos dos militares levaram Dona Niomar, viúva de Paulo Bittencourt, a uma drástica reflexão.  Não fora para abrir caminho ao arbítrio que o jornal se posicionara tão radicalmente em nome de sua história, iniciada em 1901, quando começou a circular sob o mando de Edmundo Bittencourt. O CORREIO se converteria então no principal jornal da resistência aos desmandos dos militares.

Mais tarde, a TRIBUNA DA IMPRENSA de Hélio Fernandes, outra aliada de Carlos Lacerda e dos militares golpistas em 1964, seguiu o mesmo caminho, num rompimento explosivo,  o que  valeu a HF a cassação dos direitos políticos, prisões, confinamentos e uma pressão econômica brutal, semelhante à que levou ao fechamento do CORREIO DA MANHÃ em 1974.

Já a ÚLTIMA HORA, praticamente inviabilizada, com Samuel Wainer e Bocaiúva Cunha, seus proprietários, refugiados em embaixadas, acabou se rendendo e oferecendo a cabeça de seus profissionais mais "queimados".  Assim, no dia 23 de abril, estava eu sendo demitido num grupo de 21 "inconvenientes", entre os quais João Saldanha, Otávio Malta e, se não me engano, o Paulo Francis.

Conto esses episódios para passar um aviso aos desavisados que querem por que querem forçar a destituição da presidenta Dilma Rousseff com a consequente caça às bruxas do seu PT e de partidos de "esquerda" da sua base de apoio.

E lembro mais outros acontecimentos marcantes: Carlos Lacerda, chefe civil do golpe, que imaginava ter aberto caminho para sua eleição presidencial em 1965, viu seus planos de água abaixo. Os militares usurpadores adiaram a disputa e ainda cassaram seus direitos políticos em 1969,  logo depois do AI-5. Em seu lugar, 5 generais se sucederam por 21 anos no comando de uma brutal repressão e ele ainda foi procurar o Jango e o Juscelino para esbolar uma aliança tardia.

Ademar de Barros, grande articulador financeiro do golpe, responsável pela "cooptação" onerosa de vários generais, foi cassado ainda na condição de governador de São Paulo, no início de junho de 1966, sendo obrigado a deixar o país em julho.

A Igreja católica, sob o comando dos cardeais reacionários Jaime Câmara (Rio), Carmelo Motta (São Paulo) e Vicente Scherer (Rio Grande do Sul), que ofereceu o peso de sua influência religiosa para pôr a classe média nas ruas nas "marchas da família com Deus pela liberdade"  também entrou em parafuso quando boa parte do seu baixo clero foi perseguida violentamente por pregar pela volta do regime de direito. 
Poderia continuar citando muitos tiros pela culatra, esses feitiços contra os feiticeiros,  mas fica por hoje o recado a esses afoitos que querem rasgar o pacto constitucional, sobrevivente há 30 anos, só para destilar seu ódio, suas idiossincrasias perturbadas e sua ojeriza às urnas. 
Se eu fosse essa grei atormentada e sedenta de vingança trataria de esperar as próximas eleições, que ainda são as referências pétreas do regime democrático. A gente sabe que toda essa celeuma é movida a hipocrisias e ambições pessoais, alimentadas por quem não tem mais vez nem em suas próprias hostes*. E que, ainda por cima querem matar dois coelhos de uma só cajadada: derrubar a presidenta reeleita e entregar a Petrobrás aos piratas.

Mas é bom que esses maus perdedores saibam que poderão ter a mesma sina daqueles golpistas de 64.   Num regime tecido pela manipulação, pela felonia e pela força ninguém escapa de sua autofagia.

A história está aí para chancelar este aviso.


* Depois de perder as eleições nos dois turnos, inclusive nas Minas Gerais, Aécio Neves sabe que a vez em 2018 é do Alckmin e que ele ainda corre o risco de não se reeleger senador. Está forjando a ilusão de que com a deposição de Dilma ou ele assume como segundo colocado ou farão um  terceiro turno. Daí a barba recente e o agravamento de sua esquizofrenia apoiada logo pelo seu ex-vice Aloísio Nunes Ferreira, que foi motorista do Marighuella em várias ações armadas, ganhou uma passagem em tempo hábil e foi ser guerrilheiro em Paris, sem saber da cor de um pau de arara. Quando voltou, juntou-se com  aos tucanos e deu no que deu.  Até pela volta do modelo de concessão do petróleo já apresentou projeto no Senado.

9 comentários:

  1. Jileno Sandes.11:17 AM

    Falta a nós brasileiros um maior conhecimento da nossa História e da história mundial.
    Temos uma presidenta eleita pelo povo e só o povo através do voto pode mudar.
    Brasil, Argentina e Venezuela são bolas da vez do imperialismo mundial.
    Cuidado desavisados para não chorarem depois.

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  2. Paulo Gianinni11:49 AM

    Por que não houve operações "LAVA JATO" nos governos "democráticos" de Sarney, Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique?

    ACORDA BRASIL!!!!!!

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  3. Obrigada Porfírio, pelo seu testemunho da nossa história. Quem viveu conhece e sabe. Os jovens desconhecerm. Os "Burnier" os "Delamora" estão aí saudosos do regime militar.

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  4. Anônimo1:54 PM

    Que é que quer dizer "administrar profissionalmente" a contribuiçao ao golpe?

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    1. É simples, senhor anônimo: quem traça a linha de um jornal é o dono. Esses pessoas imaginavam que logo haveria uma mudança no posicionamento do CORREIO, como aconteceu. Por isso, como não tinham de assinar matéria na mesma linha, deram um tempinho ao tempo.

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    2. Aluizio Rezende7:42 AM

      Excelente matéria. Sobretudo para os mais jovens. Que precisam de elementos para entender o que vem acontecendo no país. Ou a razão que teve Brizola para referir-se a alguns como "filhotes da ditadura". Acrescentaria, se me permite, que "essa celeuma, além das hipocrisias e ambições pessoais", é também provocada por interesses estrangeiros. Que adoram saber que o circo continua pegando fogo na América Latina. A partir do que vêm insuflando também na Venezuela. O que impede o soerguimento da região ou aumenta a sua dependência das nações dominadoras.
      Tomei a liberdade de publicar um trecho da matéria em minha página no Facebook (se tiver que a excluir, a excluo). Sem esquecer-me do crédito devido.

      Aluizio Rezende

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    3. Aluízio. É uma honra ver o meu texto em sua página do Facebook.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.