quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O torturador oculto

Conhecido de todos os torturados que caíram no CENIMAR e DOPS-RJ nos anos 60 e 70, perverso e violento, ele não aparece na lista da Comissão da Verdade
Todos os desafortunados que passaram pelas masmorras do CENIMAR e do DOPS do Rio de Janeiro nos anos sessenta e setenta provaram das porradas do "Dr. Cláudio",  um torturador sádico que parecia mais empenhado em infringir sofrimento do que em obter informações dos seus prisioneiros. Eu passei por suas mãos desde a minha prisão, em meu apartamento do Flamengo, na madrugada de 27 de junho de 1969, até o encerrar das sessões de torturas, na Ilha das Flores, em 16 de julho.

O "Dr. Cláudio" devia ter pouco mais de 1 metro e 60 e só por ser o mais baixo já se destacava da cabroeira  feroz. Mas eram os seus óculos de fundo de garrafa que o marcavam entre suas vítimas, que o apelidaram de "Dr. Silvana", aquele vilão dos quadrinhos do Capitão Marvel. Seus óculos e seu semblante de ódio, exprimindo o desejo oculto de eliminar um "subversivo" ali mesmo, na ilha bucólica  que fora morada de imigrantes, de preferência na casa 48, cenário preferido dos exercícios de porrada de que era protagonista.

Apesar do codinome, regra de disfarce dos torturadores naquele 1969 em que ainda não se usava o capuz, ele ou um colega sempre facilitavam sua identificação. Ele era nada mais, nada menos do que o inspetor Solimar, policial federal, disponibilizado ao CENIMAR, na turma do "Dr. Paulo", identificado depois como o capitão de fragata João Alfredo Magalhães, apelidado por nós como o "CIA", tal a sua erudição na arte da tortura.

Seu nome inteiro – Solimar Adilson Aragão – já constava dos primeiros documentos sobre sevícias. Apareceu no livro TORTURAS E TORTURADOS, de Márcio Moreira Alves, publicado em 1966, e em muitas outras papeladas, como o livro BRASIL NUNCA MAIS, o primeiro grande compêndio sobre torturas da lavra de um grupo reunido pela igreja católica. 
Esse torturador covarde, como constatei ao deparar-me com ele na Rua da Carioca, em 2003, é um dos paradigmas das violências cruéis dos porões da ditadura. 
Apesar de toda essa folha corrida, acredite, seu nome não consta da lista da Comissão Nacional de Verdade, o que mostra a forma atabalhoada e incompetente como se produziu essa peça midiática. 

Ao invés dele, há nomes de militares que provavelmente nada tiveram com os centros de torturas, que funcionavam clandestinamente, em sua maioria, num ambiente em que um agente da repressão tinha mais poderes do que o oficial de carreira que prestava serviço na unidade.

Sem qualquer revanchismo de ordem pessoal, mas tendo o meu testemunho como corpo de delito, posso dizer que o relatório da Comissão da Verdade se perdeu em elucubrações (Como discutir o papel da PM),  e virou uma peça de precária contribuição para as pesquisas históricas.

Não sei a quem esses doutores ouviram: provavelmente nenhum dos presos e torturados no escandaloso inquérito do primeiro MR-8, em 1969. Do contrário, teriam que apresentar o nome de Solimar Adilson Aragão, identificado por outras fontes como Solimão Moura Carneiro, também alcunhado de "Dr. Saca-Rolhas".

Bom, como ressalva, peço aos distintos leitores dessas mal traçadas linhas que deem um olhada na tal lista da "Comissão da Verdade". Será que algum bloqueio desses dias de calor tornou o "Dr. Silvana" oculto para mim?

Minhas Confissões

Você pode conhecer detalhes das torturas do "Saca-Rolhas" no meu livro CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA, publicado em 2004, cujo original pode ser lido pela internet CLICANDO AQUI.
Nesse primeiro volume, todo o meu envolvimento nas lutas do povo brasileiro de 1959 até 1982.  O segundo volume, que fala da passagem pelo poder, se a saúde permitir, vou começar a escrever agora, em 2015, por que considero aconselhável fazer o relato com uma prudente distância dos fatos. 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Sobrou para os futuros pensionistas


Dilma quer reduzir as pensões das viúvas dos trabalhadores. 




Já as dos governadores continuam mamando mais de r$ 20 mil por mês. Tudo conforme a bíblia do são Joaquim Levy.


Como é hoje: O BENEFÍCIO PAGO AOS VIÚVOS É INTEGRAL, vitalício e independente do número de dependentes (filhos). Não existe prazo de carência, bastando uma única contribuição à Previdência.


Como vai ficar: ACABARÁ O BENEFÍCIO VITALÍCIO PARA CÔNJUGES JOVENS (ATÉ 35 ANOS); a partir desta idade, a duração do benefício dependerá da expectativa de vida. O VALOR DA PENSÃO CAI PELA METADE (50%), mais 10% por dependente, até o limite de 100%. 

Assim que o dependente completa a maioridade, a parte dele é cessada. Para ter acesso à pensão, é preciso que o segurado tenha contribuído para a Previdência Social por dois anos, pelo menos, com exceção dos casos de acidente no trabalho e doença profissional. Será exigido tempo mínimo de casamento ou união estável de dois anos. 

O valor mínimo da pensão continua sendo de um salário-mínimo. AS MUDANÇAS VALERÃO TAMBÉM PARA OS SERVIDORES PÚBLICOS, QUE JÁ TEM PENSÃO LIMITADA A 70% DO VALOR DO BENEFÍCIO (QUE EXCEDE AO TETO DO INSS, DE R$ 4.390).

Enquanto isso...

As entidades abertas de previdência complementar (ligadas aos bancos) registraram até maio uma receita com a venda de planos privados de R$ 7,204 bilhões. Esse montante representa um aumento de 38,26% em relação ao mesmo período de 2003, quando as receitas de planos previdenciários totalizaram R$ 5,211 bilhões.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

As alvíssaras do meu terceiro turno

Nesta crônica de mim mesmo o relato de uma odisseia emblemática. Por ora, tudo bem até o ano que vem

Os nódulos que apareceram na ressonância (acima) sofrem combate (abaixo)

video
Passadas 18 horas dos 90 minutos cravados em que a equipe do professor Feliciano Azevedo deu combate à nova investida dos tumores malignos alojados em meu fígado, já em casa e ligado em todas as expressões da vida – do condomínio domiciliar ao grande cenário nacional –, debruço-me em mais essa crônica de mim mesmo para dizer, no seu introito, que a "boca de urna" desse terceiro turno saiu melhor do que as expectativas, apesar das margens de erros. O veredicto, porém, só na alvorada do ano vindouro, quando submeter-me à prova dos nove daquele tubo barulhento em que enfiamos o corpo até o pescoço.  


 Retomo a parábola oncológica por alguns impulsos: o primeiro, as centenas de mensagens por todos os meios fluentes através da web, todas de arrepiar a pele sensível e irrigar o coração bucólico; algumas marcantes por sinalizadores comoventes.

À minha catarse de terça-feira, seguiram-se fartas manifestações de energia positiva, entre as quais destacaria as de dois homens públicos de minha geração, Cristovam Buarque, que faz 71 anos em 24 de fevereiro, e Roberto Amaral, que completa 75 agora em 24 de dezembro, passageiros dos mesmos sonhos, entre trancos e barrancos.

"Caro Pedro Porfírio, neste terceiro turno estarei votando com o mesmo fervor do primeiro e segundo,
Por sua vitória.
Abraço
Cristovam"

"Porfírio
Você é o que posso chamar de UM Homem. Um grande homem. Eu me orgulho de você. Voltaremos à Praça do Ferreira.
Até lá.
Roberto Amaral"

Segundo, a compreensão da natureza humana cada dia mais aguda, sem essa do Gabriel Garcia Marques dizer que a sabedoria só nos chega quando já não serve para nada. Ao invés, minha crônica – a exposição em relevo indiscreto do meu cérebro nervoso – é um fragmento letivo sobre uma possibilidade que a todos toca por instintos conscientes e inconscientes.

Terceiro, ao exibir uma situação tão íntima, como já ressaltei outro dia,  procuro desmitificar traumas atávicos e colaborar na distensão sobre o existencial de cada um, distante do sensacionalismo que dá sortida audiência a programas televisivos, mas explícito numa proposição audaciosa em nosso pequeno círculo. É a oferta de um espelho a muitos que se imaginam fora de qualquer foco mortífero imediato e que nem sempre estão preparados para os caprichos pérfidos do destino.

O que está me acontecendo é o mais incisivo conflito do ser ou não ser, aceitar ou não aceitar, acreditar ou não acreditar, pressionado por um turbilhão de alto teor explosivo. Situação análoga jamais experimentei, mesmo nos idos tenebrosos em que ofereci minha juventude aos carrascos.

Que paradoxo. Quando tinha uma vida longa pela frente, gozava fervorosamente no supor da cruz reservada precocemente aos intimoratos d'antão.  Já nestes dias senis, ao contrário, não quero nem ouvir falar em fechar os olhos. Antes, quero tê-los cada vez mais arregalados, na suposição da minha multiplicadora capacidade de repasse do conhecimento com valores agregados.

Foi o que me veio à cabeça ao sair de casa às 13 horas desta terça-feira, 2, iniciando uma longa marcha pelas ruas empanturradas da Barra da Tijuca, passando sob o populoso morro da Rocinha, em direção à Casa de Saúde São José, obra da congregação das irmãs de Santa Catarina, que em 1923 se instalaram por ali, na fronteira de Botafogo com Humaitá.

Já era a terceira vez que ia ao simpático hospital, se é que se pode ter como simpático um mero nosocômio de discretas, mas prevalecentes saliências mercantis. O ramo hoje está no ápice da pirâmide negocial e atrai grandes investidores, como o Banco Pactual, que controla a pomposa rede D'Or.

Passei a lidar como protagonista no enfrentamento de um CHC - Carcinoma Hepatocelular – ainda no seu estágio precoce, com 3,8 cm. Na primeira quimioembolização, ele diminuiu para 1 cm: na ablação, praticamente sumiu. No entanto, recompôs suas forças malignas e reapareceu sob forma de pequenos nódulos próximos ao local onde havia sofrido os ataques anteriores.

Foi por isso que voltei à sala de hemodinâmica da citada Casa de Saúde São José, escoltado pela equipe do professor cinquentão Feliciano Azevedo, pioneiro na introdução dessa técnica no Rio de Janeiro.  

Por motivos incorporados à civilização brasileira a nova quimioembolização, realizada com anestesia local e sedação, começou com atraso de duas horas. Essa maravilha do mundo moderno é algo tão recente que não há tais ainda raros especialistas cadastrados na Sul América, plano de saúde do Sindicato dos Jornalistas para o qual contribuo há quase 20 anos. 

A quimioembolização consiste na introdução de um cateter na virilha que alcança o tumor através de partículas com medicações quimioterápicas no interior do vaso sanguíneo afetado em alta concentração. Por sua ação direta, usa apenas 10% da carga de uma quimioterapia tradicional, evitando terríveis efeitos colaterais, pois não atinge as células saudáveis. As medicações concentram-se no tumor e entram no interior de suas células, enquanto as partículas obstruem sua nutrição sanguínea, resultando na morte das células tumorais. Num rápido passar dos temos, o tumor regride.

Não é o único procedimento da radiologia intervencionista. No segundo, em maio passado, submeti-me a uma ablação por radiofrequência, com uma corrente elétrica transmitida por uma agulha que provoca aquecimento e uma lesão térmica no tumor.

Sabendo dessas virtudes de cor e salteado tinha por mim que o acompanhamento por ressonância magnética seria mamão com açúcar. Já havia descoberto um aparelho "de amplo espaço" que recebia minha barriga protuberante sem sufocar e estes exames estavam no preço, cobertos pelo tal plano. Daí a minha insatisfação com a volta aos holofotes do hospital, como se começando tudo outra vez.

No entanto, fora do atraso e da má vontade dos técnicos de enfermagem que atenderam na noite de anteontem para ontem, posso dizer que psicologicamente essa reentre foi compensadora.  O organismo nunca reagiu tão bem, configurando uma "boca de urna favorável" e presumindo um resultado positivo na hora da checagem por imagens.

O conjunto das mensagens é confortante porque consolida a idéia de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, isto é, trocando em miúdos, que opções políticas e afeto podem ocupar regiões autônomas em nossos cérebros.

Resta saber se continuarei me mortificando diante do noticiário sepulcral no âmbito geral ou se recorrerei a um equipamento de anti-espanto de longo alcance, nessa eternizada prática generalizada de dar tempo ao tempo, mesmo esse tempo cinza que manhã não faz. 
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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O terceiro turno do meu fígado


Ao contrário do que me foi dado a crer no final do último outono, aquele tumor insólito que atacou meu fígado com ares de exterminador não foi para o espaço.  Os dois procedimentos no âmbito da radiologia intervencionista produziram a sensação de vitória, conforme a ressonância magnética de junho, mas, como essas facções golpistas que não aceitam perder, ocupou espaços adjacentes e voltou a exigir um novo combate.
Hoje, ao cair da tarde, estarei sendo submetido a um novo procedimento de quimioembolização pelas mãos do professor Feliciano Azevedo e de sua equipe. Nesse terceiro turno, vou à luta com as mesmas expectativas positivas, mas um tanto indignado, para não dizer atormentado.

É que o resultado da última ressonância feita no 9 de outubro primaveril revelou um adversário teimoso e provavelmente muito mais poderoso do que detectam os diagnósticos.

Caramba, logo comigo – protesto.

Diz-se que essa nova intervenção é mais pela necessidade de inibir. Os oncologistas juram que não enfrento uma metástase e todos dizem, como soe acontecer, que venceremos esse terceiro turno com a mesma tranquilidade dos turnos pretéritos.

Será?

Como se sabe, a história não se repete a não ser como farsa, tal a sentença do barbudo alemão. Em assim sendo, o homem que entrará na agulha hoje já não será o mesmo serelepe da primeira vez, no ocaso da primavera passada, nem o cheio de si do segundo turno, no auge do último outono.

Nem podia ser. Tanto que ao saber da necessidade de baixar hospital outra vez, há 5 semanas, o desapontamento reduziu minha faina de escriba implacável.  Tudo de desagradável povoou o imaginário de uma cabeça quente e produziu uma sensação de combate desigual.

Mesmo assim, no mergulho diuturno das profundezas das informações, vou aproveitando cada dia de vida com um peso maior e um sentimento mais consistente.

Diz-me um lobo que passarei por essa procela como atravessei galhardamente a tantas outras. O outro, porém, contesta na sua ode pessimista. Qual prevalecerá?

Viver é tudo que qualquer ser humano deseja, um viver infindo, apesar das palavras axiomáticas dos existencialistas, tão bem refletidas por Simone de Beauvoir, em Todos os Homens são Mortais.

E não é só pelos que ainda precisam da gente. É um instinto natural que mobiliza a cada um. Não vai ser agora, que a população brasileira dá mais um passo na sua longevidade que vamos aceitar qualquer trama sorrateira do destino.

Não vamos, mesmo.

Por isso, hoje, quando entrar na máquina e o professor Feliciano introduzir o cateter pela virilha em busca dos nódulos recalcitrantes, espero apaixonadamente por uma vitória transcendente neste terceiro turno do meu fígado contra o tumor maligno.

E que logo, logo o mais gostoso dos sorrisos desponte de minha fronte ainda juvenil, apesar do adorno dos cabelos prateados.

Assim, espero que nesse verão todos estejamos fruindo do amor à vida em torno das luzes dessas noites natalinas tão enigmáticas, mas sempre cintilantes entre alegrias e esperanças. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Relação promíscua entre empreiteiras e governo veio da ditadura militar

Empreiteiras nacionais prosperaram depois do golpe de 64
Estrangeiras sucumbiram por causa de decreto da ditadura
No anos 70, começou a grande concentração de faturamento

Fernando Rodrigues é um dos mais competentes jornalistas brasileiros.  Esta matéria é um demonstrativo cabal de todo um esquema de empreiteiras, montado no silêncio imposto pelo regime ditatorial.  Ao publicá-la aqui, destacamos o envolvimento direto como empregados de militares com as grandes empresas, brasileiras ou não.
A simbiose entre o público e o privado na época da ditadura se dava com a colocação de militares em cargos de direção nas empresas que forneciam para obras de infraestrutura. Os generais iam parar em diretorias e conselhos de grandes corporações, como mostra o quadro a seguir:
Militares-empresas-privadas
Para quem acha que a corrupção entre empreiteiras e governo começou ontem ou anteontem, vale olhar o decreto presidencial 64.345, de 10 de abril de 1969. O então presidente Artur da Costa e Silva fechou com uma canetada as portas para empresas estrangeiras em obras de infraestrutura no Brasil:
Art. 1º Os órgãos da Administração Federal, inclusive as entidades da Administração Indireta, só poderão contratar a prestação de serviços de consultoria técnica e de Engenharia com empresas estrangeiras nos casos em que não houver empresa nacional devidamente capacitada e qualificada para o desempenho dos serviços a contratar”.
A partir desse decreto de 1969 criou-se uma reserva de mercado para empreiteiras nacionais. Prosperaram assim muitas das que hoje estão encrencadas no escândalo da Petrobras revelado pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal.
Esse decreto da ditadura vigorou até 14 de maio de 1991, quando o então presidente Fernando Collor o revogou. Mas parece que já era tarde. As empreiteiras nacionais já operavam de forma a impedir competição estrangeira –ou mesmo para alguma empresa de fora do grupo das principais nacionais.
Só para lembrar, até o final dos anos 60, a atual gigante Odebrecht era apenas uma empresa local da Bahia. Depois do decreto de Costa e Silva, despontou para o sucesso construindo o prédio-sede da Petrobras no Rio de Janeiro (em 1971), aproximando-se dos militares que comandavam a estatal, conforme relata reportagem de Marco Grillo, que buscou as informações no livro “Estranhas catedrais – As empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar” (Editora da UFF, 444 pág., 2014), resultado da pesquisa para a tese de doutorado “A Ditadura dos Empreiteiros”, concluída em 2012 pelo professor Pedro Henrique Pedreira Campos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
O título do livro, “Estranhas catedrais”, evoca um verso da canção “Vai passar”, de Chico Buarque e Francis Hime: “Dormia a pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais”.
Blog leu a tese de Pedro Campos. No texto, o autor demonstra que, “após o governo Médici”, a Odebrecht “com sua atuação junto aos militares presentes na Petrobras, arrematou 2 contratos que alteraram significativamente o seu porte, fazendo seu faturamento triplicar em um ano. As vitórias nas concorrências para construção do aeroporto supersônico do Galeão [no Rio] e da usina nuclear de Angra levaram a empresa do 13º ao 3º lugar na lista dos 100+”. Foi escolhida pelo setor como empreiteira do ano em 1974.
Antes de a ditadura militar consolidar a reserva de mercado para as empreiteiras nacionais, a tese do professor Pedro Campos mostra que havia um domínio de empresas estrangeiras no Brasil:
Empreiteiras-Brasil-seculo20
No início da década de 70, as coisas começaram a mudar drasticamente, como demonstram esses gráficos a seguir, com a evolução das empreiteiras Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e Odebrecht no ranking das maiores do país (clique na imagem para ampliar):
Ranking-Odebrecht-ditaduraRanking-MendesJunior-ditaduraRanking-Camargo-ditaduraRanking-Andrade-ditadura
Quem analisa esses gráficos e tabelas pode achar que os militares fizeram o movimento correto ao desenvolver um mercado para empresários brasileiros durante a época de expansão da infraestrurura nacional. O problema é que junto com a promoção das empresas brasileiras veio também a concentração nas mãos de poucos empresários, que ficaram cada vez mais poderosos a partir da ditadura militar.
A tese “A Ditadura dos Empreiteiros” traz dois quadros reveladores sobre como o dinheiro das obras públicas serviu para construir gigantes nacionais que concentravam o naco principal do dinheiro público:
Ranking-concentracao-faturamento-5-maiores-empreiteirasRanking-concentracao-faturamento-10-maiores-empreiteiras
Em resumo, como se observa, a gênese do problema que hoje está sendo desvendado pela Operação Lava Jato vem de muito longe. O fato de as anomalias serem antigas em nada alivia a responsabilidade do governo atual –que terá o ônus de promover a faxina há muito demandada nessa área.
Nenhum governo civil (Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula e Dilma) conseguiu, até hoje, reduzir o poder das grandes empreiteiras. Ao contrário, essas empresas se transformaram em verdadeiros leviatãs, fazendo de tudo, inclusive financiando as campanhas eleitorais dos principais políticos do país.
p.s. (9h50): este post havia identificado Pedro Henrique Pedreira Campos, autor de “Estranhas Catedrais'', como professor da Universidade Federal Fluminense. Na realidade, ele é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O texto já está corrigido.

Esquerda dá um banho na direita no Uruguai e se consolida no Continente


Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.