segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Racismo social e ódio de classe

Rancor das elites contra Dilma e o PT é muito mais pelas suas virtudes do que por seus erros pontuais

Outro dia, num aniversário de um engenheiro de uma estatal, ouvi de alguns convivas da mesma estirpe uma amarga declaração de voto: "estou contra a Dilma por que quero ver o PT pelas costas".
Não foi um, nem dois. Inúmeros convidados daquela bela festa repetiam o mesmo jargão. Alguns falavam com ódio e, como já tinham consumido uns bons vinhos, pronunciavam as sentenças de morte do PT com exacerbado rancor e sede de vingança.

Como não sou petista e, ao contrário, estive quase sempre em trincheiras opostas, sem perder o respeito ao adversário jamais, me senti à vontade para recorrer à metodologia racional a fim de entender por  que aquelas pessoas babavam de ódio da Dilma, do Lula, do PT e de todos os que ousavam admitir que votariam na reeleição da mineira, cuja biografia deveria merecer todos os preitos desses que hoje dizem o que lhes vêm na telha, o que não acontecia na época da ditadura insana que a torturou, como a mim, e que a tantos assassinou.

Vira e mexe, cheguei a uma conclusão provavelmente estapafúrdia: há toda uma motivação racista nesse ódio explicitado com prazer orgástico. Não o racismo sobre a cor da pele, mas um outro, muito mais abrangente e mais furioso, o ódio de classe e a obsessão pela intocabilidade da secular pirâmide social.

Entre aqueles interlocutores de acendrada rejeição a qualquer coisa que possa sugerir melhoria das condições sociais das camadas inferiores, alguns se jactavam de terem tido uma infância pobre (ou quase) e hoje estarem nas camadas superiores por esforço próprio. Ao mesmo tempo em que exibiam esse salto e se reconheciam exceções, não escondiam o desprezo pelos que dependem de qualquer socorro do Estado, como se o governo estivesse sacrificando suas noitadas com pesados impostos para matar a fome do lumpesinato que "não quer trabalhar".
A sensação mais viva que me ocorreu foi braba: de todos os escravagistas sociais o mais mesquinho  é o quase rico que já foi quase pobre.
Pelas diatribes daqueles personagens que faziam questão de exibir roupas de marcas caras, acabei viajando até o aeroporto e me lembrei de um desabafo um professora babaca  da PUC: isso aqui parece uma rodoviária.

Fui mais longe em minhas lembranças e deparei-me com o ódio midiático contra o Brizola por causa do seu projeto dos Centros Integrais de Educação Pública – os CIEPs, que, se não tivessem sido minados por gregos e troianos estariam levando às portas das  faculdades milhares de jovens pobres e bem preparados, em condições de acesso sem depender de cotas.

Como a Dilma brizolista de então, fiz parte daquele sonho, como secretário de Desenvolvimento Social da Prefeitura do Rio e pela proximidade com Brizola. Fiquei chocado ao saber que o todo poderoso Roberto Marinho, com quem o caudilho almoçara algumas vezes, só tinha uma exigência de momento: reduzir a duas ou três escolas a ideia do ensino integral. 
O dono da Rede Globo, refletindo o pensamento das elites, não queria nem ouvir falar da inflação de meninos de escolas públicas às portas das Universidades oficiais, que eram, como ainda são, santuários privativos da burguesia dominante.
Dilma tem o dom de misturar o sangue quente do caudilho, seu primeiro mestre com quem conviveu por 20 anos, ao jogo de cintura do Lula, que vinha de uma militância patrulhada pela ditadura e emergira graças à sua sagacidade e inegável inteligência.

Pode-se dizer que a direita empedernida não contava com sua vitória em 2010. Se não o anátema de ex-guerrilheira iria fazer o sangue das elites dominantes subir à cabeça. E não contava também com seu estilo firme de governar, sua coragem de enfrentar os fantasmas assassinos, que se consideram intocáveis por tratos pretéritos.

Por isso, essa campanha de 2014 salienta diferenças mais nítidas e leva a uma exposição mais ostensiva do racismo social.  Para desbancar Dilma, vale qualquer um, inclusive aquela que foi cria do PT e que só pulou fora pela vaidade ferida com a indicação da colega para o cargo que almejava, embora não tivesse o indispensável perfil de estadista.

O racismo social é mais odiento devido à determinação dos beneficiários dos programas – sejam do bolsa-família, do Prouni ou do Pronatec, sejam dos que tiveram uma valorização real do salário mínimo, de constituírem uma sólida base eleitoral de quem abriu caminhos em suas vidas.

As elites e os emergentes adjacentes fecham as caras ao se depararem nos aeroportos com mulatos e nordestinos que, ao contrário de Lula, já não precisam penduram-se nos paus-de-arara em estradas poeirentas na aventura pelo pão que lhes faltava na terra natal.

É essa síndrome racista que move os ricos e quase ricos contra a estrela vermelha estigmatizada mais pelas suas virtudes do que pelos seus deslizes.  


E que sonha desesperadamente com retorno da chibata social, em que cada um "tem de reconhecer o seu lugar". E só seus filhos possam almejar o canudo de papel de uma universidade paga com o meu, o seu e o suor desses mesmos excluídos, que as elites querem trabalhando de sol a sol para comer o pão que o diabo amassou.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

DILMA DISPARA

Dilma dobra vantagem e está à frente de Marina no 2º turno, diz Datafolha

RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO
26/09/2014 19h21

A presidente Dilma Rousseff (PT) dobrou sua vantagem na pesquisa Datafolha de primeiro turno da eleição presidencial e, pela primeira vez na série do instituto, aparece quatro pontos a frente de  Marina Silva (PSB) na simulação de segundo turno.

Se a eleição fosse hoje, a petista terminaria a primeira etapa da disputa com 40% dos votos totais,agora 13 pontos a frente de Marina, que alcança 27%.

Na pesquisa da semana passada, a dianteira de Dilma era de 7 pontos.

Em relação ao levantamento anterior, Dilma avançou três pontos percentuais (de 37% para 40%), Marina variou três para baixo (30% para 27%), e o senador tucano Aécio Neves oscilou um para cima (17% para 18%).

A tendência de crescimento das intenções de voto em Dilma fica mais evidente olhando para a série mais longa do instituto. No fim de agosto, ela tinha 34%. Foi oscilando para cima seguidamente até atingir os atuais 40%.

No teste de segundo turno mais provável, o Datafolha mostra Dilma com 47% contra 43% de Marina.

É um empate técnico no limite máximo da margem de erro da pesquisa, de dois pontos para mais ou para menos. Mas é também a primeira vez que Dilma surge numericamente a frente da pessebista nesse tipo de simulação.

Na semana passada, o placar era 46% a 44% para Marina. No fim de agosto, a ex-ministra do Meio Ambiente tinha dez pontos de vantagem sobre Dilma (50% a 40%).

O Datafolha ouviu 11.474 pessoas em 402 municípios. O registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é BR-00782/2014.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Mesmo que a vaca tussa

Pesquisas e desempenho de Dilma já permitem sinalizar que ninguém vai chutar o pau da barraca



"Mesmo que não tivesse um motivo para votar em DILMA, eu votaria da mesma forma na DILMA, porque tenho CENTENAS de razões para não votar em outros candidatos"
Luiz Fernando Veríssimo 
As três pesquisas presidenciais divulgadas nesta terça-feira, dia 23 de setembro, (Ibope, Vox Populi e CNT-MDA)   coincidem na revelação de uma tendência mais consistente do cenário eleitoral, a 12 dias do pleito. Em todas, Dilma Rousseff avança, embora sem estardalhaço, Marina Silva cai e Aécio Neves rodopia, confirmando o que escrevi há um mês quando da morte investigada de Eduardo Campos: a partir do novo quadro, com um personagem melhor ensaiado e seus balangandãs,  o candidato aeroportuário teria de dar adeus às urnas com seus tiros de festim.   
A informação mais marcante dessas pesquisas refere-se, porém, às simulações de segundo turno: Dilma e Marina já aparecem numericamente empatadas – uma bola nas costas dos calculistas das oposições. É bom que se diga: simulação de segundo turno oferece meras suposições num ambiente em que as pesquisas também costumam falhar, e, portanto, é muito mais um tempero jornalístico do que uma conclusão estatística fundamentada.

Apressam-se os analistas cansados de guerra em dizer que Marina só caiu pelas porradas que levou por conta das suas más companhias e de sua indiscrição sobre os compromissos negociados e a marcha à ré combinada,  tanto como pelo segredo que guarda a sete chaves dos poderosos que a sustentaram com as alegadas palestras que ninguém soube, nem viu.

São tão bizarros e tão atrelados esses palpiteiros que não se pejam em agredir o elementar: não houvesse a explicitação de propostas extravagantes, como fazer de um intocável banco central o quarto (e maior) poder e de mandar o petróleo do pré-sal pro brejo, seus concorrentes teriam alguma dificuldade em alvejá-la, com seus trejeitos de pobre coitada.

Esses aprendizes de feiticeiros são tão idiotas que dizem que Marina vai ser atacada pela exploração do medo do desconhecido. Logo ela que faz questão de desfilar ao lado da Neca do Itaú, bancão autuado em R$ 18 bilhões por sonegação fiscal, e assina embaixo da exigência do  "mercado" de terceirizar a política econômica, confiando-a a um banco central hegemonizado pelo oligopólio, como aconteceu no FED norte-americano, em que seu presidente  tem mandato de 14 anos e é indicado mediante acordo com dois ou três senhores de Wall Street.

Aqui não pretendo antecipar a vitória de Dilma.  Urna é urna, ainda mais essas urnas eletrônicas que "são" tão cegas como a Justiça brasileira.  Mas há uma coisa em que a história parece infalível:

Ganhe-se uma eleição muito mais pela fraqueza dos adversários do que pelos próprios méritos.  E quem tem Aécio Neves e Marina Silva para derrotar tem  a faca e o queijo na mão. Só se for muito roda presa para ser atropelado por essas criações de uma direita amarga e perdida num deserto de homens e de idéias.

Além disso, e principalmente, Dilma está léguas à frente dos adversários no domínio do conhecimento da ciência de Estado, e é hoje muito mais consistente do que ao debutar, em 2010. Sua performance nas entrevistas-armadilhas da Globo mostrou que com ela não se blefa. A presidente, que sempre foi "cdf",  apresentou-se muito mais informada do que todos os seus inquisidores juntos,  inclusive a presunçosa Miriam Leitão.

É claro que todo candidato prefere bater o martelo no primeiro turno. Mas no segundo, quando haverá debates frontais, sai de baixo. Aconselha-se a quem for confrontá-la um curso intenso de conhecimento da gestão pública. 

Vale aqui uma interpretação: no segundo turno, ao contrário do que estimam seus próprios correligionários, Dilma se dará muito melhor contra Marina, inquilina de um partido que não sabe se é melhor ganhar e ser engolido ou perder e recompor os cacos. Pela leviandade de suas idas e vindas, Marina  não resistirá a um olho no olho com a presidenta.  Já Aécio pode ser um porre, mas vai ter um monte de mercenários espalhando mentiras pelo país.

E mais: como tem sido mostrado no programa eleitoral, um  abrangente  jornal com a exposição de um Brasil que a mídia escondeu, Dilma Rousseff  consolidou as credenciais de uma operosa realizadora, expondo ao ridículo as perorações dos adversários que, sem  as devidas informações, insistem em que o Brasil vai mal das pernas, no que mostram falta de conhecimento de causa. O Brasil ainda precisa mudar e avançar muito, mas já  tem meio caminho andado.


No começo ou no final de outubro, o Brasil responderá com maturidade ao assédio pérfido dos prepostos do sistema.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Pressão midiática programada

O jornalismo tendencioso da Globo e da grande mídia revela um complô para  derrotar Dilma

Na Globo, Dilma é pressionada por todos os lados e bloqueada nas respostas
O uso da mídia oligopolista como arma para desestabilizar a candidatura de Dilma Rousseff salta à vista, por que é feita na maior sem-cerimônia, e mostra a que grau de baixeza chegou a partidarização do jornalismo. 
A Globo resolveu jogar todos os seus programas na tentativa de minar a força política de Dilma e não está sozinha. Os órgãos de imprensa da grande mídia parecem envolvidos numa cruzada pela vitória da oposição, qualquer oposição, como já foi percebido por quem observa o comportamento faccioso do oligopólio.

Nas entrevistas da rede a principal característica é perguntar acusando e não deixar Dilma responder, escolhendo os temas que poderia atingi-la perante o eleitorado. Quem viu o o William Bonner no Jornal Nacional  e assistiu aos demais programas – Jornal da Globo e Bom Dia Brasil – percebe que a linha de ataque é a mesma. Importante é acuar Dilma e fazê-la legitimar as acusações pelo bombardeio a suas respostas. No caso da última entrevista, os apresentadores da Globo não tiveram recato nem na hora de censurá-la pelas críticas do seu programa a Marina Silva, provável adversária no segundo turno.

Não sei se os outros têm a mesma sensação que eu. Mas é exatamente essa volúpia de desconstruir Dilma que me induz a optar por sua candidatura sem medo de errar. Nunca foi tão ostensiva a orquestração midiática num projeto de encomenda – derrotar aquela em que os grandes grupos econômicos não confiam, pelo menos daqui para frente. É como se temessem o que possa num segundo mandato em que ela estará mais senhora do governo.

Estamos, pois, diante de uma guerra declarada. Os fatores que norteiam nossa opção são muito maiores do que episódios pontuais típicos de um Estado gestor numa sociedade sob as leis de um capitalismo selvagem imediatista.

Quem quiser entender melhor a amplitude do complô de escopo reacionário deve ler o artigo do José Sarney na edição em português do jornal El País, da Espanha, publicado no dia 12 de setembro. Veja um trecho de sua nova visão oposicionista:

"Em torno dela (Marina) se criou uma frente robusta de combate ao PT e ao governo Dilma, abrindo uma possibilidade antes considerada impossível: derrotá-los. As pesquisas estimulam essa hipótese. Seus apoiadores são os mais ecléticos: os indignados que há pouco mais de um ano provocaram um barulho imenso no país; seus até recentemente frustrados seguidores; as fortes correntes e igrejas evangélicas que a têm como representante; as classes conservadoras, descontentes com as políticas econômica, externa, energética, agrícola, portuária e fundiária; na área política, alas descontentes do PT e o incalculável número de grupos dos partidos aliados queixosos do tratamento recebido da Presidente Dilma e da direção do PT. A sensação dos aliados é que eles fizeram de tudo para massacrá-los nos estados, criando confrontações e arestas, e que agora há oportunidade para reagir. O PMDB, maior partido dessa aliança, que indicou o candidato a vice-presidente, está muito dividido e só não vota contra Dilma por causa do vínculo de sua participação na chapa; de uma figura de simples adereço, Michel Temer passou a ser decisivo para a vitória".

Neste 22 de setembro, a duas semanas do pleito, estou seriamente convencido de  que não basta votar em Dilma Rousseff, independente do seu arco de alianças, para preservar o mínimo de avanços e descortinar um horizonte mais arrojado, sob o sopro dos tempos novos que se desenham na inquietação popular.

É preciso ir à luta, dedicar todo o tempo disponível a trabalhar pela vitória de Dilma. Afinal, não é por acaso que a Globo está tão visceralmente contra ela.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Os bancos não mandam flores (II)

Com 55,9% do PIB e em confronto com a Receita, banqueiros jogam pesado na autonomia do Banco Central

"O banco acredita que a chance de ter que pagar este valor ao final do processo é remota, e por isso não fará provisões".
Cláudia Politanski, vice-presidente responsável pela área jurídica do Itaú, à agência Reuters, em 16 de agosto de 2013.

“Para nós, que viemos da Europa, basta quando vem aquela frase mágica da independência do Banco Central... É a grande marca do modelo neoliberal”
Boaventura de Sousa Santos, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde também dirige o Centro de Estudos Sociais, e da Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin-Madison.


No dia 16 de agosto de 2013 o Banco Itaú se viu obrigado a comunicar ao mercado que havia sido autuado por sonegação de impostos pela Receita Federal em R$ 18,7 bilhões - R$ 11,845 bilhões em Imposto de Renda (IR) e mais R$ 6,867 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), acrescidos de multa e juros. No dia 3 de fevereiro de 2014 o banco voltou ao mercado para informar que a Receita confirmara a autuação e já o estava intimando a recolher os impostos devidos.
Era a maior autuação de uma empresa no Brasil por conta de uma única operação, a absorção do Unibanco, em 2008. Entre o primeiro e o segundo comunicado foram feitas gestões infrutíferas, restando ao agora maior banco brasileiro recorrer junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, garantindo que considerava "remoto" o risco de perda na cobrança, pelo que não faria qualquer provisão para o pagamento da infração.

Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles festejam
negócio que valeu atuação da Receita Ferderal
Essa autuação, com base numa divergência sobre os procedimentos adotados em 2008 para incorporar o Unibanco, registrou um valor maior de que o lucro líquido de 2013, que alcançou R$ 15,695 bilhões, e foi apresentado pelo Itaú em 4 de fevereiro de 2014 como o maior já obtido por um banco em nosso país.

Ao tomar a iniciativa de informar sobre as autuações sigilosas da Receita Federal, o Itaú visava mobilizar todo o sistema contra o governo federal.  Ele já tinha questionado o vazamento da notícia e também estranhara a divulgação da compra do Credicard por RF$ 2,8 bilhões em maio de 2013, negócio que chegou a desmentir, mas que se viu obrigado a confirmar no mesmo mês.

A iniciativa vingou e hoje os três maiores bancos privados que têm quase 90% dos depósitos (junto com o Banco do Brasil e a Caixa Econômica) estão em ostensiva articulação.

O episódio que envolveu o Banco Santander num "panfleto" para jogar seus clientes contra Dilma está dentro desse contexto.

Por ser um banco estrangeiro, o Santander foi escalada para o ensaio. Uma comunicação aos clientes "selects", com renda maior de R$ 10 mil mensais, teve o teor explosivo de um panfleto partidário golpista, como qualquer um poderá concluir do texto abaixo.
"A economia brasileira continua apresentando baixo crescimento, inflação alta e déficit em conta corrente. A quebra de confiança e pessimismo crescente em relação ao Brasil em derrubar ainda mais a popularidade da presidente, que vai caindo nas últimas pesquisas, e que tem contribuído para a subida do Ibovespa. Difícil saber até quando vai durar esse cenário e qual será o desdobramento final de uma queda ainda maior de Dilma Rousseff nas pesquisas. Se a presidente se estabilizar ou voltar a subir nas pesquisas, um cenário de reversão pode surgir. O câmbio voltaria a se desvalorizar, juros longos retomariam alta e um o índice da Bovespa caíra, revertendo parte das altas recentes. Esse último cenário estaria mais de acordo com a deterioração de nossos fundamentos macroeconômicos. Diante desse cenário, converse com o seu Gerente de Relacionamento Select para alocar seus investimentos da maneira mais adequada ao ser perfil de investimento".
Esse documento descabido, impresso no extrato dos clientes, pegou muito mal e levou a alguns gestos pirotécnicos da direção do banco,  culminando com a demissão de 4 funcionários, sacrificados dentro da lógica empresarial: ninguém escreveria aquilo por conta própria. Mas era preciso reduzir a repercussão negativa que afetava o banco que ganhou o então poderoso Banco do Estado de São Paulo de mão beijada, na privataria tucana. (O Banespa foi vendido para o Santander em novembro de 2000 por R$ 7 bilhões, na maior privatização do sistema financeiro brasileiro até então.)

A oligopolização que começou na ditadura

No meu primeiro emprego, repórter do jornal ÚLTIMA HORA, fui encaminhado para abrir conta num pequeno banco, o Delamare, que só existia no Rio (pelo que me consta) e tinha uma única agência, na Avenida Presidente Vargas. Era março de 1961.

Naqueles idos, o sistema bancário era pulverizado por  quase um milhar de estabelecimentos, muitos de caráter regional. Lembro que os  bancos caçavam depósitos através dos seus anúncios. Isso dava uma força preponderante a seus clientes. E tinham uma relação respeitosa com o governo: não se constituíam ainda numa força política bajulada e temida.

Com o passar dos tempos, a partir da ditadura militar, os bancos pequenos foram sumindo, engolidos pelos grandes. Em 1971, a ditadura criou uma Comissão de Fusão e Incorporação de Empresas (Cofie) e estimulou a oligopolização. Até a década de 90 ainda tínhamos bancos médios. Hoje, não.

Praticamente todo o sistema financeiro está concentrado em 5 bancos, que em 2013 detinham R$ 1,4 trilhão em depósitos, o equivalente a 83% do total. Em 1995, 68% dos depósitos estavam nos grandes bancos. Desses 5, o Itaú foi o que mais inchou, passando à frente do Bradesco e equiparando-se ao Banco do Brasil. Os outros dois maiorais são Caixa Econômica e Santander.


Em 1995, o Itaú tinha 4% dos ativos do setor. Em 2012, segundo números do Banco Central, chegou a 19%, junto com o BB (20%) e à frente do Bradesco (14%), Caixa (15%) e Santander (10%). Em sexto lugar, estava o HSBC, com 3%.

No mesmo dia em que foi autuado, o Itaú anunciou uma fusão no Chile com o Corpbanca, tornando-se a quarta maior rede bancária daquele país, ampliando sua presença também na Colômbia, onde tem agências. Quatro dias depois, em 4 de fevereiro, o mesmo Itaú informou o seu lucro em 2013: R$ 15,695 bilhões, ou 15,5% a mais do que em 2012, em contraste com os seus alardes sobre baixo  crescimento da economia.

Antes, o Bradesco havia registrado um lucro líquido de R$ 12,011 bilhões. Os dois somaram ganhos de R$ 27,706 bilhões, ou R$ 2,809 bilhões a mais do que toda a "ajuda" de R$ 24,897 bilhões do governo a 50 milhões de brasileiros, através do programa bolsa-família, embora este tenha registrado um aumento mensal por família de R$ 107,00 para R$ 216,00, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social.

Sistema financeiro tem hoje  55,9% do PIB brasileiro

A voracidade dos bancos acendeu a luz vermelha no Planalto.  Essa luz vermelha se refletiu nas casamatas do sistema financeiro.   O Itaú, que ainda espera reverter a multa na Justiça, se deu conta de que seu poder de fogo e do sistema bancário, que parecia incontestável, corre um risco real diante do governo de uma presidenta "durona", inflexível no respeito à ação dos órgãos do Estado. O que vale para a Polícia Federal, que tem agido com ostensiva autonomia, vale também para a Receita Federal, que tem pilhado antigos intocáveis sem nenhum constrangimento.

O sistema financeiro hipertrofiou e reforçou de forma perversa a hegemonia da economia.  Em 2004, o volume total do Sistema Financeiro Nacional ficou na casa dos 26% do PIB, bastante em linha com os percentuais registrados nos quatro anos anteriores, e no decorrer dos últimos dez anos foi batendo recordes até atingir 55,9% em abril deste 2014, quando as operações de crédito somaram R$ 2,77 trilhões, conforme o Banco Central.

O setor produtivo tornou-se desesperadamente dependente dos conglomerados financeiros, que não se limitam a vender crédito. Embora já lucrem em excesso com o crédito mais caro da nossa história, os bancos não ficam por aí. Hoje, o Bradesco tem o controle acionário da Vale do Rio Doce, como outras empresas vivem situações idênticas, num quadro periclitante, que reclama maior intervenção do governo federal para reverter essa relação.

É aí que os bancos optam por uma cartada ousada, a desvinculação do Banco Central das políticas de governo. O que poderá acontecer com essa "autonomia" não é difícil imaginar.  Basta consultar a lista dos diretores do BC que hoje dão as cartas no "mercado".

A autonomia jurídica do Banco Central, nos moldes do FED norte-americano, foi sugerida a Aécio Neves, que não topou assumi-la publicamente, mas anunciou Armínio Fraga, homem do mercado e defensor dessa proposta, como seu ministro da Fazenda, em caso de vitória.  Já Marina Silva, que se fez presidenciável com a morte de Eduardo Campos em acidente aéreo sob investigação, não pensou duas vezes: abraçou a autonomia como emblema do seu programa econômico. Afinal, a coordenadora do seu programa de governo e arrecadadora é Neca Setúbal, herdeira do Itaú.

Isso precisa ser mais discutido. É o que pretendemos. 

Dilma na cabeça de ponta a ponta

Dilma abre vantagem com 37 pontos contra 30 de Marina e 17 de Aécio. Agora, ela lidera em todas as cinco regiões, segundo o Datafolha de hoje, dia 19.

Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, divulgada nesta sexta-feira pelo jornal “Folha de S.Paulo”, mostra que a presidente Dilma (PT), candidata à reeleição continua na liderança da corrida eleitoral, aumentando de três para sete pontos percentuais a vantagem sobre a candidata do PSB, Marina Silva.
A petista tem 37% das intenções de voto, com o crescimento de um ponto percentual em relação à última sondagem divulgada no dia 10. Já a candidata do PSB, Marina Silva, apresentou queda de 33% para 30%, enquanto o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB) subiu de 15% para 17%. Votos brancos e nulos somam 6%. Entre os entrevistados, 7% não sabem em quem vão votar.

Segundo o Datafolha, "é a segunda vez que Marina tem oscilação negativa em suas intenções de voto desde que entrou oficialmente na disputa".

Em uma simulação de segundo turno entre Dilma e Marina, as duas aparecem tecnicamente empatadas. A candidata do PSB tem 46% e a do PT, 44%. Na semana passada, Marina, com 47%, e Dilma, com 43%, também estavam tecnicamente empatadas.

Em um segundo cenário de segundo turno com Dilma e Aécio, a presidente se manteve com 49% e o tucano subiu de 38% para 39%.

Em um terceiro cenário, com Marina e Aécio disputando um eventual segundo turno, a candidata do PSB caiu de 54% para 49%, e o tucano subiu de 30% para 35% das intenções de votos.

A margem de erro da pesquisa, encomendada pela “Folha de S.Paulo” em parceria com a TV Globo. é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 5.340 eleitores em 265 municípios nos dias 17 e 18 de setembro. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00665/2014.

Bem à frente também na espontânea

A pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira (19) pelo jornal "Folha de S.Paulo" aponta os seguintes percentuais de intenção de voto na corrida para a Presidência da República:
Dilma Rousseff (PT): 37%
Marina Silva (PSB): 30%
Aécio Neves (PSDB): 17%
Pastor Everaldo (PSC): 1%
Luciana Genro (PSOL): 1%
Eduardo Jorge (PV): 1%
Zé Maria (PSTU): 0%*
Rui Costa Pimenta (PCO): 0%*
Eymael (PSDC): 0%*
Levy Fidelix (PRTB): 0%*
Mauro Iasi (PCB): 0%*
- Branco/nulo/nenhum: 6%
- Não sabe: 7%
* Cada um dos cinco indicados com 0% não atingiu, individualmente, 1% das intenções de voto. Somados, eles têm 1%.
No levantamento anterior do instituto, divulgado no dia 10, Dilma tinha 36%, Marina, 33%, e Aécio, 15%.
Segundo o Datafolha, é a primeira vez que Dilma abre vantagem sobre Marina desde a entrada da candidata do PSB na disputa, em agosto, após a morte de Eduardo Campos. A vantagem da petista passou de 3 para 7 pontos.
Segundo turno
O levantamento divulgado nesta sexta indica que, em um eventual segundo turno entre Dilma e Marina, as candidatas aparecem empatadas tecnicamente. A candidata do PSB tem 46% e a do PT, 44%. Na semana passada, Marina, com 47%, e Dilma, com 43%, também estavam tecnicamente empatadas.
Na simulação de segundo turno entre Dilma e Aécio, a petista vence por 49% a 39% (49% a 38% na semana anterior).
O instituto também fez uma simulação entre Marina e Aécio. O resultado foi 49% a 35% para a candidata do PSB (ante os 54% a 30% do último levantamento).
A pesquisa foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal "Folha de S.Paulo".
O Datafolha ouviu 5.340 eleitores em 265 municípios nos dias 17 e 18 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Isso significa que, se forem realizados 100 levantamentos, em 95 deles os resultados estariam dentro da margem de erro de dois pontos prevista. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-00665/2014.
Espontânea
Na modalidade espontânea da pesquisa (em que o pesquisador somente pergunta ao entrevistado em quem ele pretende votar, sem apresentar a lista de candidatos), os resultados são os seguintes:
- Dilma Rousseff: 30%
- Marina Silva: 24%
- Aécio Neves: 12%
- Outras respostas: 1%
- Em branco/nulo/nenhum: 6%
- Não sabe: 26%


Veja detalhes da Pesquisa do DATAFOLLHA em http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1518332-dilma-abre-vantagem-sobre-marina-aecio-esboca-reacao.shtml

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Garotinho deixou a Globo mal na fita

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Só Brizola teve peito de bater de frente com  a Rede Globo,  o que lhe valeu campanhas pesadíssimas e custou a própria carreira política. Por isso as respostas corajosas de Garotinho na própria Globo hoje me tocaram bastante. Alguém continua a luta do caudilho contra o monopólio da mídia.  Aqui não cabe analisar a história e a personalidade de cada um. Eu que não tinha candidato a governador, acho que já tenho. (As edições no You Tube dessa entrevista foram retiradas do ar, por exigência da Globo).

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Os bancos não mandam flores (I)

Pequeno roteiro para quem quer entregar o país à voracidade do sistema financeiro, já bem servido

“Deixe-me emitir e controlar o dinheiro de uma nação e não me importarei com quem redige as leis”. –
Mayer Amschel Rothschild


No dia 30 de 1963, o presidente John Kennedy promulgou a Ordem Executiva número 11.110, retirando do Fed o poder de emprestar dinheiro a juros ao governo federal norte-americano. Com uma canetada, Kennedy criou as condições para encerrar as atividades do Banco Central americano, segundo Nehemias Gueiros Junior, professor da FGV. Essa ordem devolveu ao Departamento do Tesouro o poder de emitir dinheiro sem passar pelo Fed e, portanto, sem cobrança de juros. O dólar deixou de ser nomeado Federal Reserve Note e passou a ser emitido como United States Note e não seria mais emprestado ao governo, seria impresso por ele, sem juros. No total, cerca de 4,3 milhões desses "dólares Kennedy" foram colocados em circulação pela administração Kennedy. Esse Decreto foi sua sentença de morte. Cinco meses depois, em 22 de novembro de63, Kennedy foi assassinado em Dallas.
Esse Decreto 11.110 nunca foi revogado. No entanto, nenhum governo o adotou até hoje. O FED, que é privado e autônomo, voltou a ser o senhor dos anéis. Seu presidente, que tem mandato de 14 anos, é de fato muito mais poderoso do que o chefe do Estado norte-americano.

O FED fez um século em  22 de dezembro de 2013. Foi criado por imposição dos moneychangers (agiotas) que trabalharam nesse projeto por outro século, enfrentando resistências de alguns presidentes. Na primeira metade do Século XIX, o presidente  Andrew Jackson foi vítima de duas tentativas de morte depois que expulsou uma delegação de banqueiros internacionais do Salão Oval da Casa Branca, afirmando: "Vocês são um ninho de vespas e ladrões cuja única intenção é acampar em torno da administração federal americana com sua aristocracia monetária perigosa para as liberdades do país".

Já o presidente James Abram Garfield não teve a mesma sorte. Foi assassinado em 1881 depois de dar uma fora nos moneychangers:
"Todo aquele que controla o volume de dinheiro de qualquer país é o senhor absoluto de toda a indústria e comércio, e quando percebemos que a totalidade do sistema é facilmente controlada, de uma forma ou de outra, por um punhado de gente poderosa no topo, não precisaremos que nos expliquem como se originam os períodos de inflação e depressão."
James Garfield foi baleado na estação de trens de Washington em 2 de julho de 1881, mas não morreu na hora. Foi alvejado por dois tiros: O primeiro passou de raspão pelo braço. O segundo atingiu o seu peito, fraturou uma costela, atingiu a coluna (sem comprometer a medula) e se alojou perto do pâncreas.

Essa bala não foi encontrada enquanto Garfield esteve vivo. Até Alexander Graham Bell ajudou a procurá-la com um rudimentar detector de metais que inventou. Os médicos presidenciais não tomaram cuidados anti-sépticos durante as cirurgias para procurar a bala. Isso, é claro, não poderia dar certo: Garfield contraiu uma septicemia e sofreu terrivelmente por 79 dias até morrer em 19 de setembro de 1881.

Nos quase 200 anos que se passaram entre a independência americana e a criação do Federal Reserve Bank (Banco Central dos Estados Unidos), popularmente conhecido como "Fed", várias vezes a família Rothschild tentou controlar a emissão de moeda nos EUA.  Em cada tentativa, eles procuraram estabelecer um banco central privado, operando apenas com a finalidade de lucro e não para administrar ou proteger a economia americana. Cada uma dessas tentativas até 1913  encontrou oposição de políticos decentes e honestos, a maioria dos quais acabou assassinada por encomenda dos moneychangers, como observou Nehemias Gueiros Junior no seu artigo A maior Fraude da História.

No início do Século XX, por iniciativa do banqueiro J.P. Morgan, os moneychangers decidiram fabricar um presidente com o compromisso fechado de criar o Federal Reserve Bank. Foi então que descobriram o reitor da Universidade de Princeton, Nova Jersey, Woodrow Wilson, alguém que não tinha envolvimento com a vida política, apareceria como o novo,  e seria catapultado por uma boa campanha de relações públicas, cujo eixo era o apoio  do sistema financeiro à educação universitária.  
Os grandes banqueiros de Nova Iorque criaram um fundo educacional de US$ 5 milhões para financiar professores em universidades americanas importantes, em troca de apoio ao novo banco central. Como vedete dessa iniciativa aparecia exatamente o reitor e futuro presidente Wilson.
O reitor foi feito presidente em 1912 concorrendo pelo Partido Democrata, ao qual se filiou na véspera da eleição, e interrompendo 16 anos de governos republicanos. Com a sua marca saliente de pai do idealismo, era a aposta mais segura dos banqueiros, como descreveu Nehemias Gueiros:


"Finalmente, em 23.12.1913, durante um recesso de Natal do Congresso em que apenas três senadores retornaram à capital, Washington, para votar, foi perpetrado um dos maiores atos de vilipêndio contra o povo americano de que se tem notícia. Sob a presidência de Woodrow Wilson, um democrata que chegou ao cargo alardeando a bandeira de nunca permitir a criação de um banco central, foi promulgado o Federal Reserve Act (Ato da Reserva Federal), que instituiu um banco central privado, "disfarçado", não apenas para dominar a emissão de moeda, mas também para cobrar juros sobre essa emissão. Nada mais do que a milenar prática da usura.

Uma verdadeira quadrilha estava em ação naquela época, dedicada a alimentar o sucesso da prática do fractional reserve lending (empréstimo sem lastro), que incluía J.P. Morgan (John Pierpont Morgan) e que serviria de fundamento para a passagem tranquila da legislação que criou o Federal Reserve Bank, o banco central dos Estados Unidos. Todos foram escolhidos a dedo pelos Rothschild e preparados para esse desfecho em 1913".

Voltarei ao assunto na próxima coluna.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um poço de incoerências

“Se a companheira está chateada porque eu não escolhi ela, paciência. Agora, não vá chorar na imprensa dizendo que eu falei mal, porque eu nunca falei o nome dela em nenhum comício, a não ser aqui hoje. Ela que chore por outras coisas que quiser chorar. Eu não perco amizade por divergência política”
Lula

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ricardo Melo na FOLHA DE S PAULO: Marina corre risco de virar apenas errata de si mesma

Primeiro foi a "correção" movida por pressões religiosas. Depois, uma equipe onde fulguram expoentes conservadores. Nos bastidores, um movimento ostensivo em direção à banca internacional e aos chamados socialites. Afinal, de que Marina Silva está se falando?

Com direito a choro e declarações piedosas —"ofereço a outra face"—, a candidata do PSB culpa opositores de baixar o nível. Todos estamos cansados de saber que campanhas nunca foram cursos de boas maneiras. Mas os fatos, na essência, desautorizam os queixumes da candidata e de seus neodefensores.

Marina foi cria do PT, ministra do governo Lula e sempre esteve associada às políticas do partido. Agora renega tudo, acusando a agremiação de ser um covil de corruptos e de indicar assaltantes de estatais. Embora ela tenha se desligado da legenda, seu marido, Fábio Vaz, permaneceu como homem forte do governo petista do Acre até a undécima hora. Só largou o osso pouco antes de a "providência divina" entrar em cena. Mesmo assim, Vaz diz votar no PT para o governo estadual, partido que Marina considera uma escola de ladrões.

Nas questões programáticas, em qual Marina acreditar? Além das erratas iniciais, ela condenava transgênicos; agora não é bem assim. Foi a favor da revisão da Lei de Anistia, mas isso virou coisa do passado. Dizia defender os direitos dos trabalhadores; hoje o partido que representa apoia a terceirização, eufemismo responsável pela dilapidação de conquistas dos assalariados. E por aí vai.

A escolha de colaboradores tornou-se assunto incandescente. O déjà vu é a marca registrada da equipe. Economistas como André "Haras" Resende, que fez fortuna no mercado financeiro durante o mandarinato tucano, foi chamado a abandonar seus puros-sangues para ajudar a candidata. Beto Albuquerque, o vice da chapa, é sabidamente ponte com agronegócio e setores antes satanizados pela outrora ambientalista.

Ocioso falar da banqueira, sua porta-voz, financiadora direta e herdeira do grupo Itaú. Detalhe: o que mais interessa em Neca Setúbal, desculpem a intimidade, não é o fato de viver de dividendos da usura descarada do sistema financeiro. São suas propostas, baseadas na receita que mergulhou o mundo na mais grave crise desde 1929. Para quem não sabe, as 20 maiores economias do planeta colecionam hoje mais de 100 milhões de desempregados! Os números, impressionantes e nunca contestados, são da Organização Internacional do Trabalho.

A resistência da candidata em revelar suas fontes de renda incomoda. Não vale comparar com o dinheiro recebido por FHC e Lula em palestras ...após seus mandatos. Ao que se sabe, ambos atualmente estão fora de cargos públicos. Com Marina é diferente: ela é candidata. Candidatíssima. Não cabe ao eleitor se informar sobre o sustento de quem postula a direção do país? Alegar "confidencialidade", neste caso, é no mínimo desconfortável.

A grande questão de Marina Silva é definir quem ela é. A conduta atual conflita com sua biografia pregressa, pelo menos na parte conhecida pelo público. Isso não é culpa de adversários e opositores nem de temperatura de campanha eleitoral. Cabe a ela decidir se mantém alguma coerência ou se, como candidata, será reduzida a uma errata de si mesma.
Ricardo Melo, jornalista. 


sábado, 13 de setembro de 2014

A providência divina

Folclore no PSB reforça suspeita sobre morte de Eduardo Campos, esboçada por jornalista dos EUA

Jornalista investigativo com passagem pela Marinha norte-americana, Wayne Madsen escreveu no site da Strategic Culture Foundation  sobre as suspeitas de envolvimento da CIA – a inescrupulosa agência de espionagem dos EUA – no acidente que causou a morte do presidenciável Eduardo Campos no dia 13 de agosto passado.

Li dois artigos seus a respeito (dias 19 e 30 de agosto), traduzidos e divulgados pela Rede Castorphoto. Não dei muito crédito, por que estou escolado com as teorias das conspirações disseminadas a qualquer evento anormal. Mas desde as primeiras informações contraditórias sobre o acidente fiquei com a pulga atrás da orelha, tentando entender por que Marina Silva, habitual companheira de viagens, não estava exatamente no vôo fatídico.

Neste sábado, 13 de setembro, quando se reza a missa do trigésimo dia, fiquei encucado com a notinha na coluna do Jorge Basto Moreno, de O GLOBO.

"Entre os socialistas mais ligados ao governador, morto há um mês, virou piada a declaração dada por Marina Silva de que não estava no avião acidentado por providência divina. Marina não acompanhou Campos no dia do acidente para evitar ser recebida por Márcio França, candidato a vice na chapa de Alckmin contra a sua vontade, no evento em Santos. Agora, segundo dirigentes do PSB, Márcio França tem se apresentado com a seguinte saudação:
 - Prazer, eu sou a Providência Divina".

Também já tinha ouvido falar dessa frase atribuída a Marina, mas achava que era intriga dos adversários. Só sendo muito cara de pau para fazer declaração tão despropositada, quando o corpo do parceiro ainda estava quente na tumba.

Agora, diante desse comentário que mereceu a indignação de Roberto Amaral, atual presidente do PSB, vejo-me na tentação de  procurar entender quem realmente foi o autor da  providência divina que eliminou Eduardo Campos como candidato que fazia um treino para 2018, e pôs no seu lugar alguém que poderia levar as eleições para o segundo turno e aparecer como um fenômeno eleitoral diante do fracasso visível de Aécio Neves.

De fato, o jornalista norte-americano pode ter razão em suas ilações, nas quais aponta Marina com um relacionamento muito mais comprometedor do que com Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú.  Ela faria parte de uma rede mundial bancada pelo especulador George Soros, o maior manipulador das bolsas de valores do mundo.

Sei que é muito delicado, para não dizer leviano, e desnecessário incursionar sobre o alegado envolvimento de Marina Silva com um esquema internacional, montado para inviabilizar a reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Mas o contexto enseja toda e qualquer suspeita nesse sentido.

Não sou dos que vêem parentesco próximo entre os governos do PT e a rebeldia bolivariana, apesar da política externa adotada em contrariedade pontual com a orientação sagrada dos Estados Unidos. Neste caso, a criação de um banco próprio dos 5 membros do BRICS e a possibilidade de que esses países saiam da área do dólar têm gerado um mal estar insuportável na desgastada e cambaleante aliança ocidental.  

Os Estados Unidos e a União Européia se sentem vulneráveis diante de dois poderosos membros do BRICS, a Rússia, que os desafia politicamente, e a China, que os mina economicamente. Além de integrar o bloco, o Brasil de Dilma ainda serve como ponte para os países da América Latina.

Além disso, as elites dominantes se posicionam frontalmente contra a reeleição de Dilma muito mais pelo que possa ser o seu segundo governo, como pelo atual.  Não foi por acaso que poderosos segmentos da chamada base governista aliaram-se aos tucanos em grandes colégios eleitorais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Ceará.

Pelo que conheci de Eduardo Campos, não
havia semelhança entre o seu discurso e o
de Marina, que entrou no PSB pela janela

e em caráter provisório.
(Foto com ele, em 2012)
A filiação surpreendente de Marina ao PSB, pelo fracasso na formação da sua Rede, já foi um fato insolente só assimilado pelos dirigentes socialistas por interferência pessoal de Eduardo Campos. Marina nunca foi uma pessoa qualquer. Até mesmo sua indicação para o Ministério do Meio Ambiente  no primeiro governo do PT já contou com o beneplácito de George W. Bush e aconteceu logo após a reunião de Lula com ele, em 12 de novembro de 2002. Naqueles dias, a pressão sobre o novo governo que se instalaria era violenta, o que levou o ex-metalúrgico a fazer aproximações pragmáticas para desarmar os arsenais conspiratórios.

Neste momento, o jornalista norte-americano se mostra muito seguro em apontar Marina Silva como instrumento de interesses capitaneados pelo megainvestidor George Soros.

"Marina, que é pregadora cristã evangélica em país predominantemente cristão católico romano, também é conhecida por ser muito próxima da infraestrutura da “sociedade civil” global e dos grupos de “oposição controlada” financiados por George Soros, capitalista e operador de hedge fund globais. Conhecida por sua participação nos esforços para proteção da floresta amazônica brasileira, Marina tem sido muito elogiada por grupos do ambientalismo patrocinado pelo Instituto Open Society [Sociedade Aberta], de George Soros. A campanha de Marina, como já se vê, está repleta de palavras-senha da propaganda das organizações de Soros: “sociedade sustentável”, “sociedade do conhecimento” e “diversidade”.

Sua participação na disputa já garantiu o segundo turno e é aí que os  adversários de Dilma esperam dar o golpe final, juntando e misturando todos os insatisfeitos e manipuláveis.

Neste caso, tem sentido o esforço que os partidários de Dilma estão fazendo para assegurar a vitória já no primeiro turno. Como Marina é indiscutivelmente confusa, contraditória e desapontadora, não será novidade de ela própria conduzir sua desconstrução.  Da mesma forma, só uma outra "providência divina" poderia ressuscitar a candidatura moribunda de Aécio Neves.

Cada dia que passará, até o próximo 5 de outubro, poderá nos trazer surpresas de toda natureza. Afinal, a "providência divina" está de olho na sucessão presidencial no Brasil.

Para ler os artigos de Wayne Madsen, na tradução do pessoal da Vila Vudu, clique os links abaixo:


Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.