quinta-feira, 24 de julho de 2014

Experimentos mortais

Cineasta israelense faz documentário sobre caráter de teste de armas nos bombardeios sobre Gaza
Armas letais alvejaram quase exclusivamente civis, entre os quais 150 crianças

"The Lab",  documentário do diretor Yotam Feldman, produzido para o Canal 8 de Israel, explica toda a ensandecida ofensiva sobre a população de Gaza: "a cada operação militar, novas armas são testadas, gerando um aumento direto das vendas no mercado internacional. Após cada guerra, na qual são testadas novas armas, as vendas dessas armas aumentam e os lucros são muito grandes", conclui o cineasta de 32 anos, que levou 3 anos e meio na produção do filme de 58 minutos: "a prosperidade da economia israelense não ocorre apesar das guerras, mas sim, em grande parte, em decorrência das guerras. Na minha pesquisa descobri que, do ponto de vista econômico, as guerras não são uma carga, mas uma fonte de lucro”.

Para entender esses bombardeios que podem configurar crimes de guerra, segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, há que ir fundo na investigação do peso da indústria bélica israelense, que hoje responde por 25% de suas exportações e está num crescente tão expressivo, que já ultrapassa a França, quarta maior vendedora de armas do mundo, atrás dos Estados Unidos, Rússia e Alemanha.

Hoje em dia as vendas do setor bélico são calculadas em 9 bilhões de dólares, o que representa cerca de 25% do total das exportações israelenses. Isso sem falar  num Exército regular de 161mil  e 500 soldados,  com gastos militares de U$ 9,4 bilhões anuais (US $ 1.499, por habitante) igual ao Brasil, que com seus 287 mil e 600 efetivos, consumia US $ 9,6 bilhões anuais, numa relação de US $ 55 por habitante, segundo números do International Institute for Strategic Studies. 

De acordo com Ehud Barak, ministro da Defesa de 2007 a 2013, cerca de 150.000 famílias em Israel (quase 1 milhão dos 8 milhões de habitantes) se sustentam da indústria militar. "De certa forma, toda a sociedade israelense sai ganhando com a exportação militar, que, por sua vez, ganha credibilidade com os testes realizados nas guerras", afirma Feldman, que também menciona o fato de muitos dos fundos de pensão no país investirem nas ações sólidas da indústria de armamento.

Os mesmos impulsos em 
busca do "espaço vital"

Numa configuração que compromete toda a heróica história do povo judeu, o Estado de Israel vive os mesmos impulsos da Alemanha nazista na busca do seu "espaço vital". Seus "falcões" não escondem tais objetivos quando se lançam na expansão dos  assentamentos na Cisjordânia, em território que seria palestino, e na construção de cidades paralelas onde árabes-israelenses vivem, como Nazareth, junto ao Mar da Galileia. Um muro que já tem 70 quilômetros de extensão deve chegar a 800, abrangendo uma área ainda maior do que a do Estado de Israel, hoje.

Avigdor Lieberman quer
limpeza étnica em Gaza
As operações militares que alvejam quase exclusivamente civis palestinos não acontecem por acaso. Consolidar a expansão e destruir totalmente o sistema administrativo de Gaza incluem-se nessa estratégia, como deixou claro o ex-chanceler e líder da ultra-direita israelense Avigdor Lieberman, ao defender a “reconquista” da Faixa de Gaza para fazer  uma “limpeza”.

"Não há outra escolha e o Estado de Israel deveria seriamente considerar a possibilidade de reconquistar toda a faixa e organizar uma limpeza de verdade”, afirmou em junho em entrevista à rádio  Voice of Israel. "A longo prazo, não haverá escolha, a não ser tomar alguma ação", disse o líder do Ysrael Beiteinu (Israel é nosso lar), partido coligado ao Likud, formado em sua maioria por migrantes vindos da Rússia e Europa Oriental.

Em Israel, vozes influentes se levantam
 contra o expansionismo bélico

A expansão na direção de um espaço vital ampliado é condenada por uma fração cada vez maior da população israelense e de judeus pacifistas espalhados pelo mundo. Um conhecido especialista acadêmico de Jerusalém, Zeev Sternhell, escreveu sobre os últimos acontecimentos, que “a  ocupação continuará, será confiscada a terra aos seus proprietários para ampliar os colonatos, o Vale do Jordão será limpo de árabes, a Jerusalém árabe ficará estrangulada pelos bairros judeus, e qualquer ato de roubo e insensatez que seja útil para a expansão judia na cidade será bem recebido pelo Tribunal Supremo de Justiça. Está aberto o caminho para o apartheid, e não será barrado até que o mundo ocidental coloque Israel perante uma escolha inequívoca: ou se põe fim à anexação e se desmantelam os colonatos e o estado dos colonos ou será isolado”.

De Cambridge, onde é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, Noam Chomsky relatou a insatisfação dos israelenses, que realizaram manifestações em 11 cidades do país contra a ofensiva e em defesa do reconhecimento do Estado palestino:

"Na Cisjordânia, Israel continuará a apropriar-se daquilo que considere valioso — água, terra, recursos — dispersando a limitada população palestina, ao mesmo tempo que integra estas aquisições no Grande Israel. Nele inclui-se a “Jerusalém” enormemente ampliada que Israel anexou, violando os preceitos do Conselho de Segurança, tudo o que há no lado israelita do muro de separação ilegal, os canais a Leste que criam cantões palestinos inviáveis, o Vale do Jordão, de onde de forma sistemática se expulsam os palestinos e se estabelecem colonatos, e os enormes projetos de infra-estruturas que unem todas estas aquisições a Israel propriamente dito".

"O caminho não leva à África do Sul, mas a um aumento da proporção de judeus no Grande Israel que está a ser edificado. Esta é a alternativa oposta a um acordo sobre dois estados. Não há razão para esperar que Israel aceite um Estado palestino que não deseja".

Intelectuais e artistas israelenses têm sofrido represálias por se operem à guerra.  A primeira a pagar o preço foi a atriz Orna Banai, uma das mais famosas comediantes do país. Em entrevista, ela disse estar envergonhada por causa do número de mortos civis entre os palestinos da Faixa de Gaza. Resultado: perdeu uma campanha publicitária milionária de uma empresa de turismo.

"Todos sofrem com essa situação, tanto nós quanto eles (os palestinos) e do lado deles morreram hoje mulheres e crianças e isso me entristece muito", disse Orna, a um canal de TV israelense, acentuando: "Basta que você diga que quer paz e já te atacam. Me dói que morram entre eles civis. Mas parece que em tempo de guerra você tem que ser solidário e dizer apenas vamos vencer, vamos vencer. Não posso dizer isso".

Orna Banai: uma voz contra a guerra
Orna Banai não foi a única a sofrer com o patrulhamento. A cineasta Shira Geffen, por exemplo, apelou publicamente por um cessar-fogo num abaixo assinado do qual participam diversos diretores. O grupo foi criticado pela ministra da Cultura, Limor Livnat, que o chamou de "desgraça do Estado de Israel". Geffen também leu os nomes de quatro crianças mortas em Gaza durante a estréia de seu mais recente filme e pediu um minuto de silêncio à plateia.

"O fato de expressar empatia por quatro meninos mortos atrai tantas respostas violentas e odiosas que mostra como nossa sociedade afundou. Gostaria de sair do armário: quando uma criança é morta dói, não importa se ela era israelense ou palestina, de Ashkelon ou Gaza", escreveu Shira em sua página do Facebook.

Outra artista que se tornou alvo de críticas é a cantora Achinoam Nini, conhecida como Noa. Num de seus shows na semana passada, na Espanha, ela fez questão de discursar sobre a situação:

"Estamos pagando o preço pelo fracasso e a covardia de líderes políticos e religiosos, que nos traíram, tanto árabes e judeus, por não fazer de tudo para evitar a violência. Nenhuma desculpa é aceitável" disse ela.

Apesar das represálias, muitos saúdam a coragem das artistas que fogem do entendimento oficial amplamente apoiado. Em artigo no jornal Haaretz, o ex-ministro Yossi Sarid escreveu: "Nossos agradecimentos a muitas mulheres e homens que abriram mão do direito de ficarem em silêncio e cumpriram seu dever para com o Estado e a sociedade".

Eu vi com meus próprios olhos: os "falcões" radicalizam cada vez mais

Milhares de israelenses foram as ruas pedindo acordo de paz
Quando estive na região em 2002 percebi o desconforto cada vez maior de muitos israelenses com o ambiente belicoso. Jovens preferiam a cadeia a servirem ao Exército, que sitiava Ramalah, sede da Autoridade Nacional Palestina.  E dois grandes movimentos pacifistas ganhavam as ruas, o Gush Shalom e o Peace Now.  Com meu colega Rubens Andrade, tentamos ir a Ramalah, mas só foi possível chegar a Jericó, onde encontramos o ministro Saeb Erakat, negociador palestino.

Em Telavive e Jerusalém os pacifistas não tinham muitas esperanças devido ao fluxo de migrantes orientais, que traziam uma grande carga de radicalismo e estavam de olho nos novos assentamentos. No norte de Israel, onde existem 70 municípios de população árabe, o pessimismo também era grande. O governo havia baixado decreto proibindo os não judeus de adquirirem propriedades, enquanto mantinha as prefeituras locais sem recursos do orçamento nacional. Em abril de 2002, Israel declarou que a Cisjordânia e a Faixa de Gaza seriam repartidas em oito áreas principais, entre as quais os palestinos não poderiam se mover sem sua permissão.

Bombardeios não poupam nem escolas, 
nem hospitais

Escola destruída em Gaza servia de abrigo à população civil

Todo esse fermento explosivo torna crônica e cada vez mais cruel a utilização do poderio bélico, cada vez mais sofisticado, com o extermínio de populações civis, vistas como aliadas do Hamas. Nestes dias, em que se contabilizam 796 vítimas civis, entre as quais 170 crianças, os bombardeios não poupam nem escolas e hospitais. Hoje, dia 24, 15 pessoas morreram e outras 200 ficaram feridas num ataque a  uma escola das Nações Unidas em Beit Hanoun, no Norte da Faixa de Gaza. 

Mais cedo, a Agência da ONU para os Refugiados Palestinos havia publicado em sua conta no Twitter que outra instituição de ensino, em Deir Al Balah, foi atingida por um bombardeio e cinco pessoas teriam ficado feridas. Na quarta, forças israelenses haviam lançado bombas sobre o Hospital Wafa, alegando que o Hamas estava disparando foguetes de lá. Fazem pouco mais de 15 dias da nova ofensiva: em 2009, foram mortos 1.300 civis.

A chefa humanitária da ONU na área, Valerie Amos, manifestou extrema preocupação com a situação na Faixa de Gaza, e ressaltou que um cessar-fogo é “vital”. Segundo ela, 44% do território palestino foi declarado zona proibida pelo exército israelense,e “não restam muitos locais para onde as pessoas possam ir”. Além disso, a coordenadora ressaltou que os moradores estão ficando sem comida.

Temos mais de 118 mil pessoas abrigadas (já chegam a 130 mil), em 86 escolas da ONU no momento. As pessoas estão ficando sem comida, e a água também é uma preocupação séria — destacou Valerie, acrescentando que a situação em Gaza é “terrível”. — O trauma que estão vivendo é terrível. Nos dois últimos dias, uma criança morreu a cada hora. Todos deveríamos nos sentar por um momento e pensar nisso — declarou a funcionária da ONU.

Armas químicas contra palestinos em Gaza

Veja denúncia sobre uso de armas químicas nos bombardeios

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os médicos dos nossos rincões

Quem documenta o trabalho de cubanos e outros estrangeiros é a Tv Globo, que foi ao interior do Amapá.


Uma reportagem do GLOBO RURAL, da Tv Globo, documenta a atuação de médicos estrangeiros, especialmente os cubanos, como fator de melhoria da qualidade de vida das populações dos nossos rincões distantes.

Essa reportagem chega a ser surpreendente, mas reflete o trabalho jornalístico correto, focando o programa MAIS MÉDICOS como uma conquista de grande alcance social, que só foi possível, como destacamos, pela firme determinação da presidenta Dilma Rousseff e do ministro Alexandre Padilha, que peitaram desde o corporativismo da medicina mercantil até as manobras desonestas dos políticos e partidos de direita.

Se você é defensor da verdade, se você tem consciência de que todos os brasileiros têm o mesmo direito constitucional de acesso à saúde, não pode deixar de ver a reportagem, que consta deste vídeo.

domingo, 20 de julho de 2014

Em família: isso é patrimonialismo

Quando governador, Aécio fez aeroporto em fazenda do tio, em Cláudio, e deu a chave aos primos, conta a Folha de São Paulo



Governo de Minas fez aeroporto em
terreno de tio de Aécio

LUCAS FERRAZ
ENVIADO ESPECIAL A CLÁUDIO (MG)
20/07/2014 03h00

O governo de Minas Gerais gastou quase R$ 14 milhões para construir um aeroporto dentro de uma fazenda de um parente do senador tucano Aécio Neves, no fim do seu segundo mandato como governador do Estado.
Construído no município de Cláudio, a 150 km de Belo Horizonte, o aeroporto ficou pronto em outubro de 2010 e é administrado por familiares de Aécio, candidato do PSDB à Presidência.
A família de Múcio Guimarães Tolentino, 88, tio-avô do senador e ex-prefeito de Cláudio, guarda as chaves do portão do aeroporto. Para pousar ali, é preciso pedir autorização aos filhos de Múcio.
Segundo um deles, Fernando Tolentino, a pista recebe pelo menos um voo por semana, e seu primo Aécio Neves usa o aeroporto sempre que visita a cidade. O senador, sua mãe e suas irmãs são donos da Fazenda da Mata, a 6 km do aeroporto.
Dono do terreno onde o aeroporto foi construído e da fazenda Santa Izabel, ao lado da pista, Múcio é irmão da avó de Aécio, Risoleta Tolentino Neves (1917-2003), que foi casada por 47 anos com Tancredo Neves (1910-1985).
A pista tem 1 km e condições de receber aeronaves de pequeno e médio porte, com até 50 passageiros. O local não tem funcionários e sua operação é considerada irregular pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
A agência federal informou à Folha que ainda não recebeu do governo estadual todos os documentos necessários para a homologação do aeroporto, procedimento exigido por lei para que ele seja aberto ao público. Sem se identificar como jornalista, o repórter da Folha procurou a Prefeitura de Cláudio na última semana como uma pessoa interessada em usar o aeroporto da cidade.
O chefe de gabinete do prefeito, José Vicente de Barros, disse que Múcio Tolentino deveria ser procurado. "O aeroporto é do Estado, mas fica noterreno dele", afirmou. "É Múcio quem tem a chave

."Indicado por Barros, Fernando Tolentino logo se prontificou a abrir o portão do local. "Ele fica dentro da nossa fazenda", disse. "O aeroporto está no finaldo processo, mas, para todos os efeitos, ainda é nosso."
Indagado se seria necessário pagar pelo uso do espaço, Fernando respondeu: "Não, o trem é público, vai cobrar como?" Segundo ele, Aécio visita a fazenda da família em Cláudio "seis ou sete vezes" por ano e vai sempre de avião.
Procurado posteriormente pela Folha, ele negou administrar o aeroporto:
"Não tenho nada a ver com isso". Indagado sobre a frequência das visitas à cidade e o uso do aeroporto, Aécio não respondeu.
Com 30 mil habitantes, Cláudio é rodeada por fazendas. Economicamente,sua importância é modesta. A vizinha Divinópolis, a 50 km, já tinha aeroporto quando o de Cláudio foi construído. A obra foi executada pelo Deop (Departamento de Obras Públicas do Estado) e fez parte de um programa lançado por Aécio para aumentar o número de aeroportos de pequeno e médio porte em Minas.
O governo do Estado desapropriou a área de Múcio Tolentino antes da  licitação do aeroporto e até hoje eles discutem na Justiça a indenização. O Estado fez um depósito judicial de mais de R$ 1 milhão pelo terreno, mas o tio de Aécio contesta o valor. Seu advogado, Leandro Gonçalves, não quis falar sobre o caso.
Antes de o aeroporto ser construído, havia no local uma pista de pouso mais simples, de terra. Ela foi construída em 1983, quando Tancredo era governador de Minas e Múcio era prefeito de Cláudio, terra natal de Risoleta.
Orçado em R$ 13,5 milhões, o aeroporto foi feito pela construtora Vilasa, responsável por outros aeroportos incluídos no programa mineiro. O custo final da obra, somados aditivos feitos ao contrato original, foi de R$ 13,9 milhões

Quanta hipocrisia

Aécio cala diante de irregularidades na contratação de   médicos brasileiros terceirizados por "cooperativas" e "OS"

Há mais de 30 mil profissionais da saúde terceirizados por "cooperativas" e "Organizações Sociais" em conflito com a própria Constituição. E Aécio não só cala. É um dos responsáveis por este sistema..

Quanta hipocrisia: os médicos cubanos estão no Brasil, como em outros 70 países, através de um convênio intermediado pela Organização Mundial da Saúde e firmado entre dois Estados soberanos. Mal comparando, o contrato se assemelha aos de empresas que fornecem mão de obra terceirizada, pela qual recebem determinados valores e remuneram  muitas vezes por um terço do faturado, a seu critério.

É curioso que os críticos do convênio com Cuba, que põe o dedo na ferida pútrida da medicina pecuniária, também não se posicionem  contra os cálculos dos contratos terceirizados, principalmente das organizações que burlam as leis trabalhistas. E calam, em muitos casos, por que sempre rola uma propina gorda nessa forma de dispor de mão de obra.

Na área da saúde, mesmo, os governos de São Paulo e de outros Estados contratam milhares de profissionais terceirizados através de empresas, das chamadas "OS", organizações sociais e "cooperativas" criadas para tornar a terceirização protegida do rigor da legislação social e da exigência constitucional de concursos públicos.

Aécio Neves pensa que o povo é desmiolado como ele.  Tem alguma moral para criticar o convênio internacional entre Estados soberanos se cala solenemente diante da farra das terceirizações e das burlas das leis trabalhistas praticadas por grandes esquemas, tanto na área pública como privada?
O mais grave é sua pretensão de interferir nos assuntos internos de outro país. A natureza da relação entre o governo e os cubanos envolvidos no programa vitorioso é prerrogativa deles. Nenhum país tem o direito de impor regras e relações sociais a outros.
Esse era o quadro antes do programa
Mais Médicos.
Clique no gráfico para ampliá-lo
O certo seria que não precisássemos trazer médicos de fora para atender aos brasileiros de rincões distantes, onde a indústria de saúde não consegue auferir tanto lucro como nas grandes cidades. O certo seria que não houvesse tanta disparidade entre o número de médicos em Brasília, mais de 4 por mil habitantes, e do Maranhão, com menos de 1.

Mas embora tenhamos cerca de 40 faculdades públicas de medicina, onde cada aluno custa aos cidadãos mais de 1 milhão de reais, poucos deles são os que se sentem obrigados a retribuir o dinheiro gasto para a sua formação.

Há um projeto no Senado de autoria de Cristovam Buarque prevendo dois anos de serviços n o interior para os recém-formados.  Esse projeto não anda por que o lobby da medicina mercantil fala grosso e os senadores são uns vacilões, em sua quase totalidade.

Todo mundo sabe que, antes de pensar nos estrangeiros, o governo federal fez várias tentativas de motivar jovens médicos brasileiros. Houve uma prefeitura do Maranhão que ofereceu R$ 35 mil de remuneração para um ortopedista. E só conseguiu contratá-lo fora do Estado.

Isso o Aécio não questiona. Por que o que ele menos se preocupa é com a sorte do povo brasileiro. Ele nunca precisou de um atendimento público, não sabe o que é bom pra tosse. É mais um carreirista que faz qualquer acordo para ganhar uma eleição.

Acordo como esse, que promete mandar os cubanos de volta por que eles estão praticando uma medicina inteligente, preventiva, modesta e eficiente. Que abala os tentáculos do monstro criado pelo complexo industrial-financeiro que aufere lucros exorbitantes, segundo os padrões da medicina de mercado..

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Acordo fechado

Aécio promete à elite excludente detonar o programa que abala o modelo mercantil da medicina no Brasil




A primeira grande novidade dessa campanha eleitoral serviu para mostrar o tamanho do retrocesso da candidatura Aécio Neves: em troca do engajamento da cúpula da medicina mercantil, o tucano assumiu publicamente que detonará o programa Mais Médicos, uma apaixonante conquista social, graças à participação de 11 mil  cubanos entre os 15 mil envolvidos na interiorização da saúde pública. O seu compromisso  é mandá-los embora, por que eles, com seu atendimento simples e eficiente baseado na prevenção, estão ameaçando o complexo financeiro que faz da saúde um grande negócio e um privilégio em nosso país.

No mesmo dia em que disse que mudaria as regras do Mais Médicos, Aécio Neves recebeu em seu gabinete no Senado o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso e outros inimigos declarados da cobertura aos pobres do interior, que lhe sinalizaram apoio e criticaram o governo Dilma Rousseff na condução da política de saúde.

— Nós encontramos no candidato Aécio Neves uma enorme possibilidade de diálogo para construir algo muito diferente e muito melhor do que está posto nesse momento no nosso país. Nós temos medo de que rumos poderá tomar nosso país. A classe médica brasileira fica muito feliz em construir junto com a candidatura do senador Aécio um novo rumo para sociedade brasileira – afirmou Florentino Cardoso.

A AMB e a Federação Nacional dos Médicos aceitaram se converter agora em comitês informais de apoio à campanha do presidenciável que promete detonar o programa que beneficia 50 milhões de brasileiros e em apenas um ano apresenta números eloquentes: reduziu em 20,8 % o número de internações, e aumentou em 35% o índice de consultas na atenção básica no País.

Esse acordo que salienta o caráter reacionário da campanha tucana significa o fim do programa, como definiu o ex-ministro Alexandre Padilha:

– Na prática, mais uma vez o candidato do PSDB à Presidência não conseguiu esconder que quer acabar com o atendimento a 50 milhões de brasileiros, incluindo 7 milhões de paulistas, que antes não tinham médicos e que, graças ao programa Mais Médicos, passaram a ter atendimento básico perto de casa,  e isso, num prazo recorde de apenas dez meses.

Um dia, o médico chegou 
onde o vento faz a curva

Havia anos, havia décadas, havia um século, no mínimo, milhões de brasileiros estavam privados de um médico. Isso que para Ivan Illich,  autor da "Expropriação da Saúde",  não seria trágico, apontava uma mancha no mapa do país: a socorrer doentes, de tão distantes, só os curandeiros e as rezadeiras das redondezas.

Não havia oferta que atraísse médicos para rincões onde o vento faz a curva. Até o governador de Tocantins, o cearense Siqueira Campos, conhecido por suas ligações com a ditadura, desesperou-se: dos 139 municípios do seu Estado (maior do que o Equador), criado em 1988, 102 não sabiam o que era um jaleco branco. Não teve dúvida: apelou para Cuba e conseguiu trazer 166 profissionais, já em 1997.

Em semanas, eles já haviam conquistado o carinho das populações que atendiam. Graças a eles, hospitais como o da cidade de Araguarina foram reabertos.  Os cubanos mostravam que para salvar vida, carecia prevenir, evitando as presepadas careiras de quem exerce o ofício com avidez pecuniária e irrefreáveis sonhos de fortunas. Até a revista VEJA reconheceu o seu trabalho numa reportagem de 20 de outubro de 1999, quando escreveu com todas as letras: o milagre veio de Cuba.

Foi um Deus nos acuda: sentindo ameaçado o seu escopo, a elite mercantil capitaneada pelo Conselho Regional de Medicina mexeu seus pauzinhos e meteu bronca. Só descansou quando, em 2005, um juiz federal determinou a proibição do trabalho dos cubanos, numa liminar eivada de baboseiras, nas quais os "salvadores da lavoura" de então eram comparados a curandeiros; Na época, o vice-presidente do Conselho de Medicina de Tocantins, Frederico Melo, justificou a posição da entidade, alegando que eles não conhecem a realidade sanitária do Estado, não dominam a língua portuguesa nem provaram que são médicos.

Em 2011 o governo federal já havia tentado suprir as carências de médicos em 3 mil municípios, com  o Programa de Valorização dos Profissionais da Atenção Básica (Provab), destinado a jovens médicos brasileiros. A adesão foi mínima – apenas 29% das vagas abertas e muitos dos 3 mil e 800 recem-formados desistiram nos primeiros meses, abrindo mão de uma bolsa de R$ 8.000,00.

Diante da persistência do quadro injusto, a presidenta Dilma Rousseff implantou em julho de 2013 o programa Mais Médicos, oferecendo bolsas de R$ 10 mil a quem quisesse ir para o interior, onde as prefeituras também providenciariam toda a infra-estrutura de moradia e alimentação. Passado não mais de que um ano, o Mais Médicos é uma conquista de grande repercussão, que só não é aceita por quem participa do elo de interesses privados montados a partir do sucateamento da saúde pública.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Para atrair público a debate OAB destaca que evento é GRATUITO

A que ponto chegamos: ao publicar convite para um painel sobre "caminhos alternativos para a Barra da Tijuca e Recreio", a OAB da área fez questão de destacar no título que se trata de um EVENTO GRATUITO.

É provável que para a maioria das pessoas essa ressalva não tenha chamado atenção. Não é o meu caso. Pelos assuntos em pauta, imagino que não precisava avisar da gratuidade, até por que não consta que a Ordem dos Advogados do Brasil cobre pela participação de qualquer cidadão nos debates que promove.

No entanto, esse "chamariz" pode ter a ver com um clima de desinteresse e desconfiança de toda a cidadania, alimentado sobretudo pelo caráter folclórico e inconsequente de outras reuniões. E pela renúncia coletiva ao direito cidadão. O momento hoje está mais para que cada um resolva-se e aos problemas comuns.

Não sei onde vamos chegar, mas tenho certeza que a bom destino não é. A sociedade parece desinteressada a tal ponto que só é tocada quando alcançada por uma baita campanha de mídia em torno daquilo que está na moda, que mexe com sua vesícula  biliar.

Dessa inércia se servem os espertos, os que sabem tirar proveito de qualquer situação, em qualquer quadrante, no trato com a caixa forte da contribuição coletiva, seja no âmbito condominial, nas gestões comunitárias ou  na administração dos órgãos de Estado. 
Espertos que jogam com sutilezas e conseguem o prodígio de lançar cada cidadão contra seus próprios interesses, valendo-se de sua acomodação na superfície e nas redondezas dos fatos essenciais.

Dos caros colegas 

(Jornal EXTRA)

Cadeiras viram leitos na emergência 
do Hospital do Andaraí


Aqui, na enfermaria da neurocirurgia, há duas camas desocupadas. Na emergência, numa sala pequena, nove pessoas estão espremidas em cadeiras. Não há macas nem material para os médicos trabalharem. Desde que cheguei aqui, eles dizem que não têm condições de me atender. Não conseguem descobrir por que estou sem sensibilidade nas pernas.

Com esse quadro, as empresas de planos de saúde faturam hoje mais do que todo o orçamento do Ministério  da Saúde (Pedro Porfírio).

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O mapa da mina

Empreiteiras doaram mais de R$ 370 milhões a partidos nos últimos quatro anos

Andrade Gutierrez foi a que repassou o maior valor: R$ 120.198.000,00

Ana Luiza Albuquerque e Gisele Motta 

JORNAL DO BRASIL


As maiores empresas  de construção do Brasil doaram mais de R$ 370 milhões aos partidos políticos nos últimos quatro anos - de 2010 a 2013 - segundo levantamento realizado pelo Jornal do Brasil com base em dados oficiais divulgados no site do Tribunal Superior Eleitoral. Vale destacar que, mesmo em anos em que não há eleições, as empreiteiras fazem doações para ter bons negócios.


A quantia exata foi de R$ 374.310.055,32. A empreiteira que doou mais foi a Andrade Gutierrez, com R$ 120.198.000,00. Em seguida, veio a Queiroz Galvão, com R$ 110.075.000,00. Em terceiro lugar, apareceu a Camargo Corrêa, com R$ 59.140.000,00. A OAS ficou em quarto, com R$ 50.222.000,00, perto da Odebrecht, que repassou R$ 48.142.000,00. A Cowan liberou R$ 2.175.055,32, enquanto a Delta fez a menor doação, de R$ 1.800.000,00.


O valor total é maior, inclusive, do que o PIB de 2013 de 129 países, entre eles Nova Zelândia, Iraque, Hungria, Marrocos, Eslováquia, Equador, Croácia, Bulgária, Uruguai, Costa Rica, Eslovênia, Paraguai. 


Os críticos às doações de empresas aos partidos argumentam que o dinheiro repassado sempre retorna à companhia, que encara aquilo como um investimento, e não uma doação. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Kellogg, da Universidade do Texas, para cada R$ 1,00 doado a campanhas eleitorais, as empresas recebem R$ 8,50 de volta em contratos com o Estado.


O BLOG ADVERTE:


A FARRA SERÁ MANTIDA ESTE ANO POR QUE O MINISTRO GILMAR MENDES PEDIU VISTAS NUMA AÇÃO DA OAB PARA ACABAR COM OS FINANCIAMENTOS PRIVADOS DE CAMPANHA, EMBORA A MATÉRIA JÁ TIVESSE MAIORIA DE VOTOS NO STF.

Veja as tabelas com as doações de 2010, 2011, 2012 e 2013





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domingo, 13 de julho de 2014

Para que mude o jogo

A nova copa, a eleitoral, está em nossas mãos e não, como nos gramados,  nos pés de apenas 11 jogadores

Grandes empresas, como os bancos, têm também muito interesse nas urnas e financiam candidatos que se elegem para fazer o seu jogo.
Acabou a festa da bola com seus fetiches de êxtase, viramos a página e a vida continua. Durante 32 dias não se falava de outra coisa. Pudera. Fizeram-nos o epicentro do furacão, com jogadores de 32 países, torcidas, uma mídia concentrada nas quatro linhas e patrocinadores vendendo seu peixe por todas as brechas: na hora da entrega das medalhas, destacavam-se comissárias da aérea dos Emirados Árabes. Tudo foi faturado nos seus mínimos segundos, por que as paixões abrem nossos corações a quem tiver mais visibilidade. E esse faturamento é a razão de ser de um evento dessa envergadura internacional.
Venceu a seleção da Alemanha com o discurso de um futebol modernizado. Pelo menos não dependia de um protagonista destacado. Parecia mais uma equipe, um coletivo, como tinham de ser as outras, principalmente a brasileira, que jogava em casa com o calor de 200 milhões de torcedores.

Mas o jogar em casa investiu cada atleta da síndrome do estrelismo. Seu treinador se considerava com o rei na barriga. Mandou críticos para o inferno e tirou proveito do seu mito em repetidos comerciais de tv, algo meio inusitado para quem pode passar de herói a vilão em uma hora e meia. Como aconteceu no vexame diante da mesma Alemanha que teve de fazer das tripas coração para abater os argentinos desfalcados de um dos seus astros, aquele que outro dia vimos comandar uma virada pelo Real Madrid na disputa da Taça da Europa.

Com tantos recordes negativos, a seleção brasileira ficou muito mal na fita e só não provocou uma depressão generalizada por que, ao contrário do que força a indústria do entretenimento, sua influência no comportamento social é efêmera. Mal levou os desconfortáveis 7 a 1, entrou para a crônica das galhofas. Ninguém deixou de ter orgasmo ou de desfrutar de outros prazeres por que aquela equipe era formada por gatos, vendidos como lebres.

Como a carga de envolvimento foi grande, no entanto, vai ser difícil mudar de assunto sumariamente. Mais importante é a campanha eleitoral, porém vai demorar cair a ficha. Não é por menos: o novo circo que se avizinha não será diferente na oferta de frustrações e não disporá de quase nenhum magnetismo.  

Infelizmente, por ora, nessa aí, o obscurantismo venceu: nunca a alienação e o desinteresse abriram tanto espaço para o triunfo da má fé e da mediocridade esperta; nunca as ambições pessoais conseguiram mascarar-se com tanto sucesso na arte vil de manipular e enganar a massa desinformada.

Não se vislumbra nexo entre o fiasco no futebol e uma eventual ressurreição crítica de milhões de eleitores. Os parâmetros continuam nivelando por baixo e favorecendo a quem gasta fortunas para ganhar votos, hoje e vantagens espúrias, amanhã.

Mas isso é da vida e a vida continua. Mais dia, menos dia, o jogo mudará. Nosso futebol poderá voltar ao seu leito de paixões incontidas e a cidadania poderá decidir recuperar sua capacidade decisória de pensar.

De entender que a copa eleitoral está em suas mãos e não, como nos gramados, apenas nos pés de 11 jogadores, onde o máximo que cada um pode fazer é torcer, gritar, aplaudir ou vaiar.

O que será do amanhã não há cigana que possa pressentir.  Como no futebol, temos que jogar um novo jogo, olhar para frente, sem retroceder num só passo. Não podemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. É contando com a diferença em cada volta que não perdemos a esperança, jamais.

Urnas da corrupção

EUA multam Diebold, fabricante das urnas eletrônicas brasileiras, em $112 milhões por corrupção





A Diebold, empresa responsável pela fabricação das urnas eletrônicas usadas no Brasil, 450 mil no total, uma das principais fornecedoras de equipamentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) graças a seguidos aditivos contratuais, vai ser obrigada a pagar multa de quase US$ 50 milhões nos Estados Unidos, por determinação do Departamento de Justiça, por subornar funcionários na Rússia, na Indonésia e na China. A Diebold faturou US$ 3 bilhões ano passado e atua em mais de 90 paises. (OM) 
Procurador dos EUA diz que fabricante das urnas eletrônicas brasileiras tem 'padrão mundial de conduta criminosa'

Com a CHAPA QUENTE não tem pra ninguém, cara pálida

Estamos disponibilizando uma nova página no Facebook. É a CHAPA QUENTE.  Mais contundente e com fotos acompanhadas de pequenos textos, de forma a dar o recado em tempo rápido e seguir uma dinâmica  de tempo real. Para acessar a CHAPA QUENTE clique em 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O câncer sumiu

Neste dia 10 de julho de 2014, aniversário do meu caçula, levei a última ressonância magnética para o Dr. Feliciano Azevedo, que tratou meu câncer no fígado com a tecnologia da radiologia intervencionista, e ele, depois de ver as imagens e o laudo do Dr. Antônio Eiras,  do Lab's Dor, deu por EXTINTO o meu câncer (CHC) no fígado. 

Para que você tenha uma ideia mais completa dessa vitória,  numa luta que travamos sem perder a tranquilidade jamais, fizemos o vídeo abaixo. 



Queremos agradecer de todo coração a solidariedade que recebemos de todas as formas dos nossos parceiros amigos, muitos dos quais empenharam toda a sua fé e dedicaram orações para que o dia de hoje chegasse.

Felizmente, os tempos são outros e já se pode combater essa terrível doença, desde que diagnosticada à tempo. Para isso, sugerimos a todos que procurem fazer exames preventivos e sejam mais criteriosos no seu modo de vida.

Que a nossa resistência sirva de referência aos amigos, em qualquer adversidade.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Os tigres de papel

Montaram um circo de ilusões e o circo pegou fogo. Mas pode deixar: outros circos montarão

Ninguém pode calar diante do circo montado depois da  hora e meia da terça-feira, 8 de julho, quando os deuses do Olimpo, que mobilizavam 200 milhões de brasileiros e outros tantos estrangeiros, caíram dos seus cavalos e revelaram que não passavam de tigres de papel, forjados por uma máfia de interesses reproduzidos em letras garrafais pela mídia que, sob patrocínios bilionários, os vendeu à massa hipnotizada como os mais reluzentes exemplares da raça brasileira.  E que, diante do apocalipse, os transformou sumariamente nos inimigos perversos dos nossos pétreos sonhos de taças e medalhas.

Todo mundo viu que esse grupo de atletas de mercado teria perdido da Costa Rica ou da Argélia, se diante de um confronto direto. Só os absolutamente míopes, os idiotas, os inocentes úteis, enfim, só as presas fáceis desse sistema de mentiras e ilusões podiam acreditar que essa turma escalada por agentes de alto poder corruptor podia chegar a algum lugar: todas as partidas anteriores compuseram uma sinfonia da mais absoluta mediocridade, da falta de vocação e até mesmo de traquejo em campo.

Os mais ladinos, como os marqueteiros das Casas Bahia, demonstraram maior conhecimento do futebol ao oferecerem um segundo aparelho de televisão por R$ 1,00 na compra de outro caso a seleção brasileira ganhasse a copa. Eles, que sabem jogar com a sofreguidão consumista de uma população doentia, sabiam que a loja poderia oferecer de graça todo o estoque de televisões do país que, se dependesse daqueles mercenários festejados e daquele sargentão decadente não corriam nenhum risco de ficar no prejuízo.

O que ninguém contava era com sete gols alemães sem nenhuma dificuldade. Essa mesma equipe teve de ir para a prorrogação para derrotar a modesta Argélia e também não fez uma campanha convincente. Esses sete gols, que poderiam ter sido dez se não fosse por ordens superiores da cúpula adversária, vão desenhar a lápide de uma sepultura a céu aberto: com a inescrupulosa mercantilização do futebol e seu domínio pela fina flor da ladroagem não há o que se esperar de jovens que já dão alguns dribles pensando na Europa, onde os clubes empresas superfaturam nas contratações para a fartura das propinas distribuídas.
Ao contrário do que dizem, não há lição a tirar do vexame do Mineirão. Não há por que essa palavra não existe mais nos dicionários de pessoas ensimesmadas, ambiciosas, individualistas, insaciáveis, que só conhecem os caminhos dos atalhos sórdidos para sustentarem suas personalidades escabrosas, sua sede de poder, qualquer poder.
O fiasco da terça trágica é pouco diante de toda a irresponsabilidade e de tanta comilança na montagem delituosa de todo o arcabouço da copa no Brasil.  Foram mais de 30 bilhões retirados dos nossos cofres públicos para construções superfaturadas de estádios que já são verdadeiros elefantes brancos. Esses valores somam mais do que os gastos das três últimas copas, o que dá uma ideia da gastança perdulária que acometeu governantes em todos os níveis – federal, estaduais e municipais.

Foram muitos "esquemas", alguns já desmascarados, como essa quadrilha dos ingressos, cujo cabeça, um inglês da copa e da cozinha da FIFA e da CBF, foi logo beneficiado por uma ordem de soltura de uma desembargadora, menos de 12 horas depois de levado à delegacia com todas as mesuras, enquanto os peixes menores permaneciam presos até o momento em que escrevo.

Quando digo que não há lição a tirar é por que, a sermos justos e honestos, neste momento, neste país, ninguém pode atirar a primeira pedra. Ninguém. Nem mesmo o povo como um todo social pode ser apontado como vítima, por que também esse povo aí entrou na dança, perdeu totalmente seu juízo crítico, acomodou-se nas almofadas de um sistema viciado em oferecer migalhas e em distorcer a própria estrutura civilizatória: hoje, cada um briga para não trabalhar, para viver às custas dos outros, trocando o esforço laboral pelo ócio dos feriadões, aceitando qualquer penduricalho como remuneração desde que pelo trabalho mínimo.

Essa copa de futebol caiu como uma luva nas mãos dos incompetentes, dos picaretas  e dos irresponsáveis, paralisando impunemente a atividade produtiva: qualquer joguinho no Maracanã acarretava um feriado extemporâneo, com prejuízos para a vida econômica consistente e favorecendo tão somente os sem escrúpulos, que chegaram a cobrar até R$ 100,00 por um vaga num estacionamento e que deslocaram para o volúvel especulativo a pecúnia disponível.

Não pense que o choque dos 7 a 1 vai mudar alguma coisa no futebol. Nem que a frustração generalizada repercutirá sobre uma sociedade fascinada pelo capitalismo selvagem e sobre uma classe política prostituída.

Daqui a pouco, não se falará mais nisso. Os atletas de mercado estarão correndo atrás do dinheiro farto numa Europa paradoxalmente falida, os cartolas e as máfias subjacentes continuarão tirando proveito da despolitização de um povo que até ontem estava propensa a se endividar por um ingresso na final, enquanto os banqueiros, os empresários corruptores e os políticos corrompidos estarão se apresentando à distinta platéia como a salvação de um país que não sabe para onde vai, por que também não sabe o que quer.

Não digo que já cansei de ver tantas trapaças e tantas farsas por que, por minha natureza quixotesca, se der uma paradinha numa hora dessas a morte me acolhe de vez.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.