quarta-feira, 30 de abril de 2014

Fogo amigo e chumbo grosso inimigo

Indignidades acirram adversários e mostram mau caráter de quem quer tirar proveito da dúvida
O festival de indignidades para minar a presidenta Dilma Rousseff continua a todo vapor, como nunca se viu neste país. É orquestrado com tanta gana que ofende a inteligência cidadã, já agastada com a falta de recato e ética de quem quer por que quer trazer a direita de volta ao poder para uma nova dilapidação entreguista e privatizante, numa ofensiva de terra arrasada destinada a repor o país na esfera da mais subserviente obediência aos donos do mundo. Uma ofensiva que tem como alvo mais visível a transformação da Petrobrás na sonhada Petrobrax urdida no tucanato das privatarias de mão beijada.

Os estrategistas dessa artilharia de demolição não são amadores.  Eles fazem parte de uma tropa de choque da pesada, com passagem pelas mais sofisticadas escolas de engenharia política da central do poder.  São cobras criadas e dão um banho nos vetustos fabricantes de ditadores militares, arquivados pela fina flor do gangsterismo internacional. E contam com todo o ouro necessário, por que, mesmo na timidez do jogo de cintura, este governo pelo qual não morro de amores negou-se a cumprir todas as ordens e ainda desafiou quando se uniu a outros na ruptura do bloqueio criminoso contra o povo indomável do território livre de América, a ilha invicta.  

Independente dos altos lucros registrados pelo Itaú e pelo Bradesco, o que lhes garante uma segura zona de conforto, mesmo com algumas concessões temerárias, como os leilões do petróleo descoberto pela Petrobras, esse governo assusta muito mais pelo que pode fazer, pelo que pode ser, do que pelo que faz hoje na assimilação  de um modelo de governabilidade de superfície, deteriorado, chantageado, dispensando a mobilização das massas e anuindo políticas compensatórias de pernas curtas, alienantes e conservantes de uma pirâmide social intocável.

Relação fraterna com Cuba invicta: pecado mortal
O fogo cruzado alcança todo tipo de alvo. A uma palavra sincera da presidenta, como sobre o carinho dos médicos cubanos pelas populações atendidas, correm ávidos a ouriçar os brasileiros, cujas elites mercantis já estão engajadas de malas e bagagens no complô pela reserva do rendoso mercado da saúde. Elites que um dia serão apenadas pela deliberada desfiguração do sistema público, cuja deficiência é a maior indutora de fregueses das seguradoras privadas, que hoje cobram os tubos de 40 milhões de brasileiros e não oferecem coisa melhor, obrigando consultas meteóricas e degenerando profissionais mal remunerados, que recorrem aos ardis dos exames terceirizados para completar a renda.

E não fica só nisso. Não precisa ser nem especialista para usar uma classe política primária, que transforma mandatos em picaretas reluzentes, que se elege a custa de rios de dinheiro e só vê o poder público como mina para financiar  a carreira de cada um. Classe contaminada por atitudes indecorosas, que é capaz de qualquer farsa para tirar proveito próprio.

Não é outro o objetivo dos propagadores do "volta Lula", mais que um "fogo amigo", uma encomenda sob medida dos "inimigos".  Quem entra nessa não quer garantir a continuidade, mas solapar na mão grande e, com isso, favorecer os adversários dos quais devem estar ganhando brindes.

Ou então estão mordidos por que não tiveram chances de maiores estripulias e querem um arrego qualquer, uma promessa de casa, comida e roupa lavada para já.  Querem vantagens para parar de tumultuar e, como Dilma arranjou problemas com seu estilo frontal, sem rodeios, logo ali no altar-mor da hipocrisia,  a "turma do deixa disso" vai aparecer querendo que ela faça um cafuné nessa raça sem escrúpulos, doida para mamar em qualquer teta.

O jogo sujo é tão verminoso que uma pesquisa sobre a queda dos índices da presidenta é apresentada como motivo de otimismo na Bolsa de Valores, como se os especuladores estivessem sonhando com uma época de manipulação, responsável por tantas desgraças pessoais. Aos leitores desavisados apontam esse faroeste financeiro como termômetro do sentimento nacional, uma balela: antes do governo do PT, o IBOVESPA jamais chegou a 20 mil pontos, as ações eram subfaturadas e não refletiam os patrimônios negociados. Hoje, quando baixa a 35 mil pontos, como em 2009, acende o alerta de quadro crítico.

Mas a "bala de prata" da articulação de direita é a distorção previsível na cobertura da  CPI da Petrobras. Concentrar o foco no seu espetáculo e pinçar qualquer assertiva que atinja a candidatura de Dilma vai ser a grande tarefa dos contratados para a tentativa do retrocesso. 

Porque, sem dúvida, o que menos querem esses matreiros é esclarecer qualquer mal feito de alguns baronetes que tenha acontecido por baixo dos panos numa empresa de tamanho porte, cujo orçamento é maior do que o do Estado de São Paulo.

Há todas as possibilidades de consequências para essa fornalha forjada em ouro e prata. Pode minar, sim, por que a articulação é dosada com ingredientes venenosos. Pode por que há muito improviso e rareia preparo na fortaleza ameaçada.

Mas como o amanhã a Deus pertence, o caráter palanqueal da exploração dos erros e falhas pontuais é de sustentação duvidosa. E tem um forte componente de vulnerabilidade.

Mais importante do que toda essa trama manipulada será a saliência dos ganhos sociais evidentes, um momento fértil em termos de empregos e oportunidades e a perspectiva de alguma evolução de políticas limitadamente compensatórias para aberturas de acessos ao conhecimento e à sobrevivência digna com o suor do próprio rosto.

Esses dias de pressões e vacilações podem ensinar outros caminhos a quem, como  se posiciona Dilma Rousseff de ontem e de hoje, ainda é o que podemos contar para os avanços corajosos que o processo social impõe.  

sábado, 26 de abril de 2014

Guerra suja e nauseabunda

Manipulação de investigação mostra que não há limite ético para quem quer trazer a direita de volta

"Vou continuar respeitando meus adversários sem qualquer clima de baixaria. E dizer aos meus adversários que não tenho medo de cara feia, arrogância, injúrias. Se tivesse medo, não teria implantado o "Mais Médicos" no Brasil."
Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde.

A manchete do jornal O GLOBO desta sexta-feira, 25 de abril, mostra a má fé de uma campanha desonesta, indigna e perigosamente mal intencionada: ela procura induzir o leitor a concluir que o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, teria ligações comprometedoras com o doleiro Alberto Youssef, pois seria dele a indicação de um executivo para o laboratório Labogen, do dito cujo, como se, através dele,  este delinquente esperasse fazer grandes negócios com o Ministério da Saúde.

Padilha indicou
Executivo para
Doleiro, apura PF

Qual leitor terá o discernimento para entender a má fé dessa manchete de encomenda? Se quisesse ser ao mínimo razoável na manipulação de uma peça isolada das investigações, teria escrito pelo menos assim:

PF apura se
Padilha indicou
Executivo a doleiro

Mas nem isso seria suficiente para descaracterizar o propósito de confundir os seus leitores, cada vez mais vulneráveis às maquinações de uma mídia oligopolista e de comportamento absolutamente anti-jornalístico. Mídia que, infelizmente, perdeu o recato e a noção do razoável, aproveitando-se do domínio absoluto do sistema de comunicação formal e recorrendo aos mesmos ardis da velha e conhecida imprensa marrom.

Essa matéria surgiu de mais um factóide com o qual a Polícia Federal também transforma cada investigação num irresponsável jogo sujo de queimação de pessoas citadas, de forma incidental e inconsistente, sem qualquer conexão com as apurações a partir do fio da sua meada e sem que desdobramentos ultrapassem ilações provisórias. Por motivações típicas da personalidade policial, o que poderia ser um trabalho sério ganha uma espetacularidade suspeita, aética e ruinosa. É como não se buscasse esclarecer os fatos, mas usar parte deles com intenções demolidoras, conectadas a um esquema corrosivo, e até mesmo para criar um mito corporativo com alto poder de pressão.

No caso, o deputado André Vargas, um traficante de influências como a quase totalidade dos seus pares e ímpares, teria completado uma frase com a deliberada  citação do nome  do então ministro,  com o presumível objetivo de botar banca e mostrar força e no círculo do poder.

A frase, extraída de 270 mensagens trocadas entre o deputado André Vargas e o doleiro, no dia 28 de novembro,  é a seguinte:

"Sexta ele estará aí. Dá o número do celular e fala que é Marcos, estará em São Paulo no dia seguinte ou segunda e que foi o Padilha que indicou". (Este texto em si já é confuso).

Essas palavras finais (foi Padilha que indicou) parecem gratuitas, por que essa frase já não consta da primeira informação, a principal, num torpedo do dia 27 de novembro:

- Vargas diz: "Achei o executivo".
- Youssef responde: "Ótimo, traga ele para nos reunirmos e contratarmos".

Temos claramente que Youssef faria a contratação apenas pelo executivo ter sido encontrado e indicado por deputado amigo, independente de qualquer outro elemento de referência. Padilha teria entrado nesse papo como Pilatos entrou no Credo.

Quando digo gratuitas, não estou insinuando que foi obra dos investigadores. Apenas que a citação do nome de Padilha não caberia mais na mensagem, tendo em vista resposta definitiva do doleiro, à primeira mensagem do deputado, de 27 de novembro, um dia antes, da mensagem em que o nome do ex-ministro aparece meio "enxertado":

 - "Ótimo, traga ele para nos reunirmos e contratarmos".
A manipulação deliberada desse diálogo de terceiros, sem qualquer necessidade e sem qualquer tipo de nexo casual consistente, saiu do âmbito de uma investigação séria e respeitável para converter-se numa peça política destinada a pesar em um outro contexto, o da disputa eleitoral para o governo do Estado de São Paulo, onde os tucanos, reinantes há quase duas décadas, estão na berlinda por causa, isto sim, do comprovado envolvimento nas negociatas de compras superfaturadas para o Metrô e para a companhia ferroviária.
Da mesma forma que o delegado dessa investigação vasa peças isoladas que se prestam a outras finalidades que não a do inquérito é lícito colocar esse policial sob suspeita de que teria "prestado serviço" aos tucanos em São Paulo, onde o ex-ministro da Saúde tem tudo para desbancá-los, da mesma forma que o então desconhecido Fernando Haddad, sem o seu protagonismo,  vnceu  o presidenciável duas vezes derrotado José Serra para a Prefeitura de São Paulo.

Essa manipulação de algumas palavras gratuitas não tenta alvejar apenas o candidato  petista ao governo paulista.  Ela faz parte de uma concatenada estratégia midiática, que visa solapar a credibilidade da presidente Dilma Rousseff, com amplas possibilidades de ser reeleita ainda no primeiro turno.

E expõe a má fé como arma escolhida pela direita para derrubar Dilma, Lula, PT e aliados e colocar à frente do governo federal alguém que seja mais identificado com as ambições mais apetitosas e os discursos reacionários do sistema internacional.

Não estou dizendo que esse governo aí seja de esquerda. Está longe de confrontos como os corajosos posicionamentos dos governos da Venezuela, Equador, Bolívia e Nicarágua. E é muito mais "prudente" do que os governos da Argentina e Uruguai. É até mesmo, de certa forma, muito mais conveniente para elites econômicas, que ainda são os maiores poderes sobre o Estado, por sua capilaridade e por sua mística junto às máquinas sociais que controla.
Não estou dizendo que o governo Dilma é de inocentes e noviças. Poder é poder e o cachimbo faz a boca torta. 
O seu passivo é muito maior do que teria direito no contexto de governabilidade viciado e torpe, essa necessidade compulsória e compulsiva de juntar-se a picaretas como condição de sobrevivência a seus golpes imorais.

Mas há atitudes da presidente Dilma, tanto quanto seu antecessor, que ferem incisivamente os dogmas do sistema internacional, principalmente sua política externa e a determinação de trazer médicos cubanos, com sua visão não mercantil da saúde, que já estão encantando as populações atendidas onde antes sequer havia um charlatão. O sucesso desse programa é uma ameaça para as elites mercantis de  médicos formados às custas do nosso dinheiro e que depois saem das faculdades públicas para o mais delirante exercício da medicina comercial, sem devolver um níquel à sociedade que pagou seus estudos.

É por estar entendendo a natureza do confronto atual que me inclino cada vez mais não apenas a votar em Dilma, como também a fazer campanha para ela. Até por que ela eu conheço e sei de sua honestidade e do seu respeito pelos valores maiores que apaixonaram nossas gerações.

Para mim, uma coisa está claramente resolvida em minha cabeça: tudo, qualquer coisa,  menos a volta do pior da direita, que é capaz de tudo, como foi de assassinar o coronel que há um mês confessou os crimes da repressão e ainda podia ter muito mais nos computadores que foram levados.

Deixar de considerar todo esse ambiente é um erro em que nenhum brasileiro progressista pode incorrer.

sábado, 19 de abril de 2014

Crônica de quem não tem nada a ver com o peixe, mas teme o retrocesso

Por falta de visão e de coerência de quem está lá tudo pode acontecer, inclusive um trágico retrocesso

Há várias maneiras de ver o mundo, a pior delas é a partidária. Não que os partidos não tenham seus binóculos. Mas por que  a obsessão do poder entorpece e alucina. Tal qual hordas de interesses pessoais, as legendas de hoje não têm nenhum significado. E até agridem seu enunciado. Daí o constrangimento das coalizões governantes, que se formam em torno de prebendas e vantagens e não de um programa de trabalho, forjando uma espécie de loteamento compulsório do poder, sem o qual os parlamentares picaretas  inviabilizam qualquer governo.
O modelo clássico envelheceu. Não é o partido que orienta o governo. É o contrário. O poder dos aglomerados fala mais alto e constrói o discurso a ser pronunciado pela militância. O discurso ou o silêncio obsequioso. Nesse carnaval de fantasias ridículas, tudo o que cada um quer é resolver seu problema. Seu, pessoal, em primeiro lugar. "Ocupar seu espaço" - como está no jargão.  No melhor dos cenários o filiado age como parte de uma torcida desorganizada. Assimila sua parcialidade com uma diferença: é difícil um flamenguista virar a casaca; já não se pode dizer o mesmo na política.

Partidos incoerentes e sem carismas são paixões passageiras. Atraem pelos sinais de poder e afastam quando frustram expectativas.

Mesmo assim, quem tem as rédeas pode perpetuar-se pelos anos próximos. É assim, hoje em dia. Faça alguma coisa e pronto, já fez muito. Quem foi derrotado ontem pelo desgaste inevitável não está de todo descartado. Por que há dois fenômenos aparentemente desassociados, que não se enquadram na mesma lógica:

1. O povo  é governista, em sua maioria. Os governos é que não são povistas.
2.  Não é o fulano que ganha uma eleição; é sicrano que perde.

Tratar desses temas assim é  cosmético e superficial. Mas esses dias medíocres mantêm a pauta nesse patamar. É tudo conforme a sina esperta, essa atração fatal pelos podres poderes: tudo que um prócer quer, venha de onde venha, é conquistá-los, neles permanecerem ou a eles retornarem.

Os discursos não irradiam propostas. Não emanam de concepções ideológicas, mas da percepção do momento. Para detectá-las, contratam pesquisas e se entregam docilmente aos palpites do marqueteiro, a peça mais importante da engrenagem eleitoral. Cujo papel não se esgota no dia do voto. Governantes e oposições têm seus marqueteiros como gurus de todas as horas. Se o que perseguem é apenas a vitória a qualquer truque esse especialista é quem dá as cartas.

Como disse, se tudo se resume em vencer, não importa que monstros estão criando, principalmente se esses monstros estão dando certo. Quanto maior a multidão mais carece de pirotecnias envolventes. Mais se investe na mistificação inescrupulosa, jogando no imediato e desprezando o duradouro.

Aí entra o componente trágico: a despolitização grassa como produto corolário da sociedade delirantemente consumista. Pessoas de todas as classes e de todas as escolaridades viajam nos sonhos tecidos pelas máquinas de forjar desejos e comportamentos. Concentram-se em projetos pessoais, muitas vezes, acima de suas posses. O desafio de ter o que outros têm ou ainda não têm fascina a quem se depara com ofertas irrecusáveis.

Cidadãos despolitizados são a alegria das classes exploradoras e de seus prepostos nos salões do poder. Nessas pesquisas recentes detectaram o vexame: 56% dos ouvidos disseram que não estão interessados nas eleições. É a posição de uma população dominada, empanturrada de atrativos alienantes. São essas pessoas que decidem na contabilidade das urnas. Os dirigentes partidários sabem disso, mas mesmo os que se dizem ideológicos nada fizeram para reverter essa trama.

É da natureza maldosa das disputas. Nelas acontece outro distúrbio: políticos ganham pela pequenez de sua astúcia e não pelos seus atos magníficos. Isto é, alguns têm olhos para ver longe e longe veem, até boas intenções teriam,  mas como querem ganhar a massa, curvam-se à moda da temporada. 

Digo tudo isso com muita amargura para complementar: um dia a casa cai. As minorias irritadas também existem e têm um poder de fogo incalculável. A oferta de algumas benesses como escopo das políticas compensatórias pensadas nos centros decisórios do mundo é uma faca de dois gumes. Garante satisfação temporária, mas não têm consistência perene. É um saco sem fundo, uma bola de neve de consequências incontroláveis. E produz um vício insaciável que forja a inércia e o paternalismo paralisante.

Trocando em miúdos, voltamos ao velho provérbio do anzol no lugar do peixe. 

Não entenderam isso dado ao viés das compensações fortuitas, que escamoteiam o compromisso de manter a pirâmide social intacta: negam instrução de qualidade e competitividade à plebe para que ela não ultrapasse a condição de subalterna e não ameace os filhos amados das classes adjacentes aos podres poderes. Nesse tom, assimilam como fatalidade invencível a acomodação das camadas sociais nos paradigmas atávicos.

Assim, sob a égide da dominação das elites, conservam as massas excluídas ou periféricas dopadas enquanto ópio dispuserem. Já não é nem a fé que ainda manipulam o seu trunfo principal. A modernidade engendrou outros elementos de fascinação e misturou no mesmo balaio instintos de apelos capazes de confinar no mesmo caminho pessoas de verves e perfis sociais diferentes.

À falta de respostas estruturais o ambiente tende a carregar. É isso que devia motivar os que ainda estão por cima da carne seca. Imaginar a mesma paisagem diante de tantos relâmpagos é desdenhar da cólera latente,  que a minoria indignada pode trazer à tona. Há mais o que fazer além das carícias maquinadas. Ou aprofundam as respostas ou o pior pode acontecer: o pior é a descrença no bom caminho.

Estamos diante de um jogo pesado em que a imperícia de quem se sente com o rei na barriga pode causar um retrocesso, a lamentar-se pela trilha e o descaminho: não pela carruagem deslumbrada.

A alguns parece tudo muito claro, é fácil saber qual é a de cada um. À multidão  vulnerável, não. À falta de clareza e transparência ela pode comprar gato por lebre.

Dias confusos se prenunciam. Saber administrá-los exige mais do que sede de poder. Com essa turma que não se recicla vai ser difícil. Hoje é um iludido quem imagina um resultado final positivo na base do mesmo receituário.

Fica o recado de quem não tem nada com o peixe, não está nem aí para esses podres poderes, mas que ficará muito desapontado se entregarem o ouro ao bandido por absoluta falta de sensibilidade e o mínimo de competência.

sábado, 12 de abril de 2014

O pão que o diabo amassou

Desempregados e subempregados, maioria jovens, saem em busca de qualquer teto para ter onde morar

Entre centenas de imagens difundidas na coletânea de um chocante REALITY SHOW -  a desocupação dos terrenos da OI no Engenho Novo, Zona Norte do Rio de Janeiro -  uma me tocou mais profundamente: um negro de aproximadamente 26 anos com dois filhos agarrados ao seu corpo. As crianças choravam e ele olhava na direção do nada, como se sem saber o que seria de sua vida e de seus filhos dali por diante.

Aquela foto me remetia para o âmago de uma crise social de grande potencial explosivo.  Não me refiro especificamente ao chamado déficit habitacional: por trás dessas invasões de fugitivos de aluguéis impagáveis com salários mínimos há uma realidade muito mais grave, que a cabeça vazia dos governantes não consegue alcançar. A crise estrutural, mãe de todas as tragédias sociais, é a escassez de emprego, curtida pela falta de instrução profissional e agravada pela otimização tecnológica que elimina milhões de postos de trabalho sem alternativas para os que são dispensados.

Aquele pai jovem deve ser um dos milhares de desempregados de uma região  que já foi o maior celeiro de empregos industriais da cidade. Faz parte de uma comunidade de maridos e companheiros "fantasmas", que vivem às custas das companheiras, enquanto ainda há vagas para domésticas e diaristas.  

São uma bizarra maioria de adultos nas favelas das antigas regiões industriais, cujas empresas fecharam ou se mudaram para áreas onde se instalaram com plantel reduzido.

Favelas que surgiram exatamente para facilitar a vida dos trabalhadores, que iam morar perto do emprego: a maior delas, o Jacarezinho, acolhia a mão de obra do maior parque metalúrgico e fazia parede com fábricas como a General Electric, que chegou a empregar 7 mil trabalhadores na década de 70, com uma porta de acesso direto para a comunidade. 

Depois de muitas crises, em que foi se desfazendo progressivamente das linhas de montagem, a multinacional fechou suas portas e foi fabricar lâmpadas na China para vender no Brasil com maiores ganhos.

São os galpões das indústrias desativadas nos bairros de Maria da Graça, Jacaré, Engenho Novo, Cachambi, Benfica e adjacências que passaram a ser visados pelos desempregados e subempregados das novas gerações, que cresceram já sem perspectivas principalmente pela baixa escolaridade e já não tinham mais espaços em suas comunidades, mesmo nas beiras dos rios, como acontece na chamada Favela da Xuxa, ali junto ao Largo do Jacaré. Nessas áreas em que pelo menos 300 empresas grandes e médias fecharam as portas, dezenas de galpões foram invadidos ao longo dos últimos vinte anos. Em alguns casos, como na CCPL, na confluência da Dom Helder Câmara com Leopoldo Bulhões, houve reintegração de posse. Mas na maioria, não. 

Essas invasões de galpões e prédios desativados não acontecem só nessa região, muito menos só no Rio de Janeiro. Refletem a prevalência de interesses econômicos setoriais, como a construção civil, que se valem de velhos expedientes e antigas alegações para induzirem os governos a entenderem a crise como meramente habitacional. Por que, seguindo essa percepção, são gastos bilhões de reais em construções mal acabadas e localizadas nos cafundós do Judas, as quais se destinam apenas a carrear verbas públicas para os empreiteiros, como disse muito bem Sérgio Magalhães, presidente do IAB e ex-secretário de Desenvolvimento Social do RJ,  cargo que também ocupei por duas vezes. Essa política acaba favorecendo por vias transversas as empresas de ônibus, que vendem hoje 9 milhões de passagens por dia. Isso sem falar no caótico transporte ferroviário.
Ao invés de empregos, governos incompetentes oferecem algumas casas precárias que acabam sendo passadas adiante por que os moradores permanecem à margem do mercado de trabalho

Na área do Jacaré, barracos amontoados, que são responsáveis também por altos índices de doenças respiratórias, já não têm lajes para o crescimento vertical, o que era comum antespara abrigar os filhos com suas famílias e minimizar o custo de manutenção de uma família, na qual o varão ou vive de biscates, na informalidade,  ou vai trabalhar na construção civil, ou simplesmente está parado. Daí o dilema apontado por muitos invasores de qualquer área onde possam erguer um teto: ou a gente come ou paga aluguel.

Muitas das empresas que fecharam ali poderiam ter sobrevivido nas mãos dos empregados, pelo recurso da auto-gestão, mas os governos também lhes viraram as costas, como aconteceu com a Parafusos Águia, uma metalúrgica que não conseguiu resistir por falta de apoio técnico e financiamento das agências de fomento, mais sensíveis às multinacionais e a empresários bem articulados, como o agora decadente Eike Batista.

Ao invés de dedicar-se a um programa arrojado de formação  e realocação de mão de obra  os governos recentes, em todos os níveis,  acenam com projetos habitacionais precários, que atendem a poucos, muitos vulneráveis à manipulação política e à picaretagem.

A maioria das pessoas que são beneficiadas com um imóvel desses programas tende a repassá-lo em vendas de gaveta no prazo máximo de dois anos, pois continuam com dificuldade de empregos, com baixos salários ou distantes de onde trabalham, juntando-se a isso as dificuldades naturais de um bairro novo e longe de tudo.

Ao contrário do que acontecia no meu tempo em que ralar era um esporte, os mauricinhos de hoje, de todos os matizes, também não entendem da natureza missionária da vida pública e não costumam sair de seus gabinetes confortáveis em situações como essa dos prédios abandonados da OI, preferindo deixar que assistentes sociais sem nenhum poder decisório e sem condições mínimas façam as vezes da autoridade da área social.

Nesse caso da "Favela da Telerj" que tanto alimentou a mídia e enervou a população, parece claro que os próprios titulares do Estado e da Prefeitura investiram na situação criada.  A área, inteiramente abandonada, havia sido negociada com o município. Um termo de compra e venda entre a Telemar e a Prefeitura chegou a ser assinado no dia 6 de julho de 2012, numa solenidade com a presença da presidente Dilma Rousseff. Pelo acordo fechado, ficou definido que o governo federal, via Ministério das Cidades, financiaria um programa habitacional no local, através do "Minha Casa Minha Vida".

Mas o negócio desandou. Mesmo com a assinatura do termo, a venda fracassou. O prefeito Eduardo Paes, sabe Deus por que,  alegou que o preço pedido era muito alto (Foi isso mesmo?). Desde então, os galpões e prédios seguiram desativados e, segundo os próprios invasores, estavam sendo usados por usuários de crack.

A invasão aconteceu na madrugada da segunda-feira, 31 de março, com a participação de cerca 200 pessoas. O número de invasores foi aumentando nos dias seguintes por que as autoridades não fizeram bulhufas, estimulando o aparecimento de mais gente, numa ocupação das áreas de estacionamento e das coberturas dos prédios, em que cada "lote" tinha 16 m², uns colados nos outros.

Nenhum secretário, do Estado do Município, nenhuma autoridade federal importante se dignou a ir lá, como que acenando para o inchaço que em 10 dias já reunia 5 mil pessoasConforme as paranoias do ex-governador Sérgio Cabral, assimiladas por seu medíocre sucessor, essa massa enorme deveria tomar uma lição pelas armas de 1 mil e 500 policiais  militares que, em menos de 6 horas fizeram a limpa da área, enquanto as máquinas derrubavam os embriões de barracos.

Só um idiota pode imaginar que agindo assim o povo desempregado ou subempregado vai pensar duas vezes antes de uma nova aventura para fugir do aluguel ou por qualquer outra razão de desespero.

Há um conflito muito mais profundo entre os problemas sociais de cidadãos brasileiros que vivem no sufoco e as políticas públicas emanados de governantes despreparados  e preocupados tão somente com as delícias dos cargos inebriantes. 

E esse conflito absurdo ainda vai dar muitos panos para as mangas. 

terça-feira, 8 de abril de 2014

Com a mão na massa

Deputado envolvido com doleiro e usando mandato para facilitar seus negócios merece punição exemplar

Picareta é picareta em qualquer partido, em qualquer igreja, em qualquer confraria, em qualquer jornal.  Esse petista André Vargas, vice-presidente da Câmara, revelou-se da fina flor da picaretagem mais deletéria e deve ser punido exemplarmente tanto na casa legislativa e como no seu PT, independente dos processos policiais correspondentes.  Seu envolvimento com um audacioso doleiro não é nem um pouco diferente do senador Demóstenes Torres, do DEM, com o mega contraventor Carlinhos Cachoeira. E suas agressões à ética e ao recato lembram a impune intimidade de Sérgio Cabral Filho com Eike Batista e Fernando Cavendish, com interesses diretos nos cofres do Estado do Rio. Não é diferente também do todo poderoso Eduardo Cunha, o mais ladino dos picaretas influentes, que está à frente, ostensivamente, dos grandes lances de picaretagem da Câmara Federal. 
As informações indicam que os dirigentes no PT não querem mais cair na esparrela do corporativismo partidário. Pode ser que na quinta-feira, dia 10, a Executiva nacional designe uma comissão para uma investigação sumária das peripécias do correligionário André Vargas, que poderá converter sua licença anunciada ontem numa renúncia ao mandato, com o que sairia do proscênio e iria gozar da "independência financeira" com que sonhou ao associar-se ao doleiro Alberto Youssef, bandido de carteirinha, envolvido em um monte de escândalos, que  vivia no bem bom graças a essa Justiça leniente,  embora ele já tenha sido flagrado com a mão na massa em cabeludas transgressões nos últimos 15 anos.

André Vargas tem o perfil dos neopetistas, aqueles que pularam dentro do partido dos trabalhadores por puro oportunismo, sem nenhum vínculo com as lutas passadas que deram gás para que a legenda inchasse sem parar, ganhando a presidência da República com a ascensão de um operário metalúrgico e, depois, com a vitória emblemática de uma ex-presa política daqueles tempos perversos.

Faz parte de uma maioria de picaretas políticos que se aproximam do poder pelo caminho mais curto e que dele se servem única e exclusivamente para fazer sua própria "independência", como ele mesmo aludiu em conversa com o parceiro, para o qual fez lobby em alguns negócios junto ao governo, conforme revelações que vão sendo difundidas em conta-gotas para manter o caso nas manchetes e atingir a outras pessoas que não têm nada a ver com o peixe, mas que jogam no mesmo time.

Por coincidência, feito primeiro vice-presidente na Câmara Federal numa composição que deu esse cargo ao PT, ele era um dos cabeças de um estranho movimento que pretende rifar a presidenta Dilma Rousseff, por suas posturas contra os malfeitos descobertos, numa articulação que quer fazer de Lula de novo candidato presidencial, somente por que este, atuando em campo minado e desconhecido, foi mais "político" com os maus hábitos dos parlamentares e dos grupos econômicos sanguessugas que dão as cartas  e metem a mão no dinheiro público desde os velhos tempos.

É claro que esse quase desconhecido político paranaense não é o único envolvido nas práticas dolosas que infestam a administração pública em todos os níveis, em todos os poderes e em todas as esferas, seja na federal ou nas estaduais e municipais. Mais cara de pau do que ele é o deputado Eduardo Cunha, líder do PMDB, cujas mãos sujas estão em todas as jogadas de grana que fazem do nosso Congresso um grande cassino de malfeitores e mafiosos.

André Vargas é café pequeno se comparado aos tucanos de São Paulo, delatados pelo volume de propinas nas compras de trens para a ferrovia e o metrô do Estado, e é fichinha diante do envolvimento amplo, geral e irrestrito de Sérgio Cabral Filho no favorecimento ostensivo a interesses espúrios que beneficiaram o agora combalido Eike Batista e o empreiteiro Fernando Cavendish, que chegou aos píncaros das obras públicas graças a indiscretos relacionamentos íntimos com políticos de todos os partidos e, em especial com o governador do Estado do Rio, cujos laços absolutamente imorais foram considerados irrelevantes pelo chefe do Ministério Público e esquecidos pela mídia, que tem uma tendência atávica de deixar evaporarem-se impunemente os escândalos que envolvem os políticos, isto por conta do aparecimento de outras denúncias que passam a ser mais atuais e mais atraentes.

Há outros casos que também precisam se esclarecidos, envolvendo gestores de todas as laias, que devem ser investigados sem o espírito do palanque, mas não podem passar em brancas nuvens

O que está em jogo é a reputação do Estado, demasiadamente desmoralizada como ante-sala de conspirações sinistras que abrem caminho para todo tipo de projeto golpista.

Há que se reconhecer que as investigações da corrupção foram conquistas dos governos recentes, já que antes, principalmente na era FHC, todos estavam engessados, mal acostumados em esconder os fatos da opinião pública, em função do que estão nos devendo até hoje a devassa da privataria que deu de mão beijada grandes empresas públicas a a grupos econômicos amigos. Há ainda investigações sérias a ser concluídas, como as operações Castelo de Areia e a Satiagraha, que envolveram grandes empreiteiras e o banqueiro Daniel Dantas, infelizmente impunes e cada vez mais poderosos.

Esses outros quinhentos não podem ficar por isso mesmo, apesar do que se viu no confronto desigual entre o Ministro Gilmar Mendes e o juiz Fausto de Sanctis. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Toma lá, dá cá

Mesmo contabilizadas, as doações privadas às campanhas políticas facilitam a corrupção de papel passado
Na ciranda das propinas, o nosso dinheiro vai e vem entre eles
Cada real doado na campanha retorna à empresa doadora multiplicado por 8,5. Ao investirem em candidatos aptos a vencer as eleições, empresas asseguram contratos com governos no mandato subsequente, sejam o federal, estaduais ou municipais. As empresas não doam por amor à democracia, mas por que cortam caminho para meter a mão no dinheiro público. Políticos financiados chegam lá devendo, não ao povo, mas quem meteu a mão no bolso por eles.  Estas são conclusões de uma pesquisa realizada no Brasil por Taylor C. Boas, F. Daniel Hidalgo e Neal P. Richardson, da Universidade do Texas, feita em 2011 e citada recentemente pelo juiz Márlon Jacinto Reis, cofundador do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). No mesmo artigo, publicado em dezembro de 2013, o magistrado ainda aponta: um estudo de Leany Barreiro Lemos, Daniel Marcelino e João Henrique Pederiva sobre as disputas na Câmara e Senado em 2002 e 2006 concluiu que candidatos vencedores gastaram 5 vezes mais que os adversários não eleitos. Isso significa que o volume de doações impacta decisivamente nos resultados eleitorais.
 
Clique na lista e veja as 30 maiores segundo o site Politica Aberta
— O começo da coisa (campanha eleitoral) hoje tem a ver com um binômio: dinheiro, que movimenta as eleições; e a maneira como as campanhas são conduzidas, com que as candidaturas são apresentadas.
Juiz Márlon Reis:  não às doações de empresas
No primeiro ponto, nós identificamos como imprescindível proibir doações empresariais porque o dinheiro usado para comprar votos e para praticar as distorções do processo tem uma origem e precisamos nos preocupar com essa origem. Temos eleições caríssimas, mais caras que a maior parte das democracias - disse o juiz Márlon Jacinto Reis,  numa outra entrevista publicada e setembro de 2013.

As eleições de 2010, que escolheram o presidente da República, custaram R$ 4,9 bilhões em financiamentos, de acordo com Reis. As principais doadoras para campanhas são corporações ligadas à construção civil, mineração e bancos. Em comum, todas fornecem produtos e serviços para governos federal, estaduais e municipais, ressalta o juiz eleitoral.

— Para chegar a esse cálculo, pega-se apenas o financiamento declarado e mesmo assim é um absurdo. Apenas dez empresas, nas últimas cinco eleições, doaram R$ 1 bilhão. Temos uma presença maciça das empreiteiras, seguidas pelos bancos no processo de doação. Depois temos outros grupos ligados, de mineração por exemplo. Estão sempre ligados a setores que contratam diretamente com o poder público. São grupos que estão interessados em interferir na Comissão Mista de Orçamento para definir para onde vai o dinheiro.

É claro que as doações abertas não são as únicas formas dos grupos empresariais, cada vez mais oligopolistas e mais insaciáveis, manipularem o poder e participarem fartamente do loteamento das gordas verbas públicas. Pelo contrário, há que se admitir: o "por fora" rola em quantidades várias vezes maiores. E esse "por fora", conhecido pelo vulgo como propinas, não é sazonal. Em todas as operações com dinheiro público, em todos os podres poderes, em todos os entes e em todas as esferas a prática da corrupção é uma rotina "de mercado", salvo, naturalmente, as cada vez mais raras exceções de praxe.

Há anos venho dizendo aqui o que vi no âmbito da administração pública. Para ganhar uma obra, o empreiteiro ou fornecedor morre em 30%, matematicamente ressarcidos nos orçamentos, através do BDI - Bônus de Despesas Indiretas orçado no mesmo percentual.  Desse total, 10% são para ganhar a obra; 10% para subornar a fiscalização, e 10% para receber os pagamentos em prazo hábil. Todo esse esquema é montado, em geral, pelas próprias associações de classe. Entre as empreiteiras que participam do esquema há a chamada "bola da vez".

E há também o jogo de compensações, Em julho do ano passado, a revista ÉPOCA revelou uma concorrência "casada" no Estado do Rio de Janeiro, - uma obra para a despoluição da Lagoa de Jacarepaguá, orçada em R$ 673 milhões, e uma para enfrentamento das enchentes, no Noroeste do Estado, de R$ 600.000,00. A revista revelou antecipadamente quais seriam as vencedoras de ambas. O secretário do Ambiente de então, Carlos Minc, cancelou as duas licitações e partiu para novas. Não conseguiu.  Com a sua saída, assumiu Índio da Costa, o vice de José Serra nas eleições de 2010. Apenas algumas semanas depois de sentar lá, o novo secretário decidiu cancelar o cancelamento e já assinou em março o contrato com as empresas vencedoras da licitação suspeita, Andrade Gutierrez, Queiroz  Galvão e OAS, todas do top das doações políticas. Já na outra obra, a própria Justiça se encarregou de determinar sua entrega à Odebrecht e a Carioca. Os dois consórcios se revezaram nas posições em cada concorrência.
Com R$ 81 milhões 165 mil e 800, a Andrade Gutierrez aparece como a maior doadora da campanha eleitoral em 2012, envolvendo apenas candidatos a prefeitos e vereadores. Com o esfacelamento da construtora Delta, que introduziu hábitos mais indiscretos no sistema de propinas e frequentava a copa e a cozinha do governador Sérgio Cabral Filho, a Andrade Gutierrez passou a ser a mais aquinhoada pelos novos contratos do RJ (estado e prefeitura da capital), seguida de perto pelo Odebrecht, que é a maior conta de obras e serviços federais. A Queiroz Galvão, com R$ 52 milhões 135 mil é a segunda no ranking de doadoras eleitorais.  E a OAS, a terceira, com R$ 44 milhões e 90 mil.
Os cruzamentos dos números em todos os níveis mostra práticas deletérias de grandes prejuízos para os cofres públicos. Quando fui secretário municipal de Desenvolvimento Social da Cidade do Rio de Janeiro (1989-1992) mandei às favas os esquemas das empreiteiras - não tinha muito verba, mas cuidava de cada centavo. Resultado: enquanto construía uma creche por US$ 150,00 o m², a mesma prefeitura, através da poderosa Secretaria de Obras, levantava uma escola por US$ 450,00. É claro que adotávamos muitos fatores de economia, como o projeto padronizado e feito  pelos engenheiros da SMDS, mas o jogo de pressão sobre os grandes contratos é tão pesado que ele é negociado quase sempre acima do próprio secretário.

Quando se admite a formalização da doação em campanhas eleitorais abre-se um grande fosso para os interesses das empresas doadoras, que vão obter seu dinheiro de volta nos novos contratos que fatalmente receberão. Para se ter uma ideia, entre as 15 empresas que mais doaram nas eleições de 2012, 8 são construtoras com uma carteira robusta de obras públicas.

No processo "legal" de doações configura-se o reconhecimento de que é lícito bancar candidaturas em troca de compensações futuras. Por que ninguém mete um centavo numa campanha que não seja como investimento de retorno a curto prazo. E é na assimilação consentida e estimulada dessa prática que  processo eleitoral vai para o brejo. É nisso que reside o perigo.

É por aí que se consolida o inverso da pirâmide social na composição do Congresso, assembleias e câmaras municipais. E que se produz com a mesma "legalidade" a formação de quadrilhas que se superpõe às coligações de fachada.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Para preservar políticos de aluguel

Gilmar Mendes protela decisão contra financiamento privado de campanha, mesmo com decisão definida

 Gráfico publicado pelo jornal ESTADO DE SÃO PAULO
Com a votação já definida, Gilmar protela para que o Congresso vire a mesa
Quem tem uma suprema corte como a nossa não pode sentir saudade dos casuísmos farsescos da ditadura, que tudo podia, por que enfeixava todos os poderes, mas fazia questão de revestir o arbítrio de uma certa embalagem para guardar as aparências junto ao público externo.


Nossa cúpula judiciária não era para ser cenário de ofensas e agressões aos direitos, que faz leis, a pretexto de julgá-las e que tem magistrado preocupado tão somente com a carceragem de alguns condenados. Todos os 11 ministros foram nomeados depois que os militares ensarilharam as armas e voltaram aos afazeres profissionais. A maioria deles, por coincidência, é dos últimos dez anos, saída de indicações de um governo que se jacta de progressista, e o é em muitos casos. Mas que se enrosca em suas próprias pernas quando repete as mesmas práticas dos antecessores da baixa politicagem.

Mas até por que as elites reacionárias não engoliram um metalúrgico e não digerem uma ex-presa política à frente governo, pode ser que as proeminências do Legislativo e, principalmente, do Judiciário se sintam à vontade para extrapolar suas funções, abusando da hermenêutica do poder, e até para dar péssimos e explícitos exemplos de desprezo pela cidadania indefesa.

Não que os magistrados ajam de forma orquestrada e que a interpretação das leis, na defesa da Constituição, escopo de suas funções, não possa levar a formulações legislativas. Em qualquer corte constitucional do mundo decisões se alteiam como leis e não se põem em dúvida sua validade.

Mas no Brasil é constrangedor observar o primado do político e do partidário no comportamento de alguns magistrados em seus posicionamentos indisfarçáveis por estarem sempre coincidentes com correntes e facções proeminentes.

Em novembro passado, numa decisão perigosamente unânime, o STF considerou inconstitucional a Lei que obrigava a impressão do voto, sob a alegação de que a medida, adotada em muitos países, compromete o seu sigilo. Com isso, manteve a blindagem à conferência pura e simples, embora sejam fartas a informações de constatações de fraudes decisivas em muitos pleitos.

Em dezembro, como querendo purgar a frustração que causou, o mesmo Supremo pôs em pauta uma ação da OAB, que visava coibir uma das maiores distorções do processo eleitoral, o financiamento de campanhas por empresas, responsável por um dos fatores de desequilíbrio nas disputas eleitorais, por si permeadas de "pegadinhas" em benefício dos candidatos ricos, dos ligados às máquinas públicas  e das elites, graças a que a pirâmide da representatividade no legislativo é diametralmente inversa à pirâmide social.  

Nada mais oportuno, por que esse tipo de prática é a ante-sala da manipulação dos políticos e dos governos. Nenhuma empresa dá milhões a um candidato só pelos seus belos olhos. E como só alguns são aquinhoados por tal ajuda, estes gozam de privilégios que os põem mais perto da boca da urna, configurando uma burla aos direitos iguais de cada candidato.

O relator, ministro Luiz Fux, surpreendeu ao acolher os argumentos da OAB.  Mas logo na primeira sessão, quando alguns já haviam votado em consonância com o relator, o ministro Teori Zavascki pediu vistas e impediu a decisão final já em dezembro.

 Mal na fita por isso, Zavascki retornou com o processo na sessão de ontem, 2 de abril, dando seu voto a favor do financiamento, com o velho e surrado argumento que tal mudança seria inútil: as empresas, interessadas nos grandes negócios e nas políticas de governo, arranjariam um jeito de continuar produzindo mandatários de aluguel, através da famosa Caixa 2. O placar então ficou 4 a 1.

No STF desde 2002, vamos engolire  Gilmar Mendes até 2025.
Mal proferiu seu voto, o ministro Gilmar Mendes, como não podia deixar de ser, também pediu vistas, algo que acontece, na prática, sem prazos determinados. Zavascki já havia retardado a decisão por 3 meses. Dois colegas, no entanto, pediram para adiantar seus votos contrários ao financiamento corruptor, com o que a matéria agora será irreversível: mesmo que os quatro restantes votem diferente, não tem como mudar a decisão. Agora é 6 a 1 pronto.  O martelo foi batido.

No entanto, o senhor Gilmar Ferreira Mendes manteve sua disposição de botar o processo por mais algum tempo na gaveta, embora já tenha dado a entender que votará pela manutenção das regras atuais. Com isso, pode segurar a decisão pelo tempo necessário para impedir sua aplicação nas eleições deste ano, quando vamos escolher presidente, governadores, deputados e parte do Senado.

Enquanto isso, os parlamentares lobistas que gastam rios de dinheiro em suas campanhas iniciaram uma frenética articulação para garantir seus fornecedores através de uma nova lei.

Capitaneados pelo deputado Eduardo Cunha, logo quem, estão trabalhando a partir de hoje numa aliança de contrários que se unem como as quadrilhas na hora do enfrentamento com os homens da lei.

Em sintonia com os mafiosos, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, pretende levar ao plenário na segunda quinzena de maio uma proposta de reforma política que colocará na Constituição a possibilidade de doação por empresas. Tal medida poderia derrubar a decisão do STF porque se baseia na legislação atual. A estratégia foi montada em uma reunião na noite de segunda-feira com a fina flor dos deputados picaretas e tem tudo para dar certo, por que na hora de operar em causa própria todos eles vestem as mesmas camisas.

Estamos, pois, diante de uma ação conjugada envolvendo parlamentares e magistrados da mesma alcatéia. Assim como rasgaram o voto impresso de comum acordo, esses grupos deletérios têm bala na agulha para garantir o sistema atual, muito bem definido pelo ministro Ricardo Lewandowski:

"O financiamento de partidos e campanhas por empresas fere profundamente o equilíbrio dos pleitos, que nas democracias deve se reger pelo princípio do one man, one vote. A cada cidadão deve corresponder um voto, com igual peso e idêntico valor. As doações milionárias feitas por empresas a políticos claramente desfiguram esse princípio multissecular, pois as pessoas comuns não têm como se contrapor ao poder econômico, visto que somente podem expressar sua vontade política por uma expressão pessoal, singularíssima, periodicamente depositada nas urnas em época de eleições".


terça-feira, 1 de abril de 2014

As raízes de um golpe continuado

Os mesmos motivos e os mesmos personagens de 1964 estavam no complô que levou à morte de Getúlio. Os atores mudaram, mas o petróleo continua sendo o objeto maldito de uma conspiração que persiste até hoje.
Em sua "Carta Testamento" o presidente Vargas traça o roteiro do golpe
Os ingredientes de combustão que levaram à deposição do governo constitucional do presidente João Goulart remontam a mais de uma década antes de 1964 e persistem até nossos dias como um tumor maligno que foi apenas confinado. Entender a genealogia golpista é mais importante do que espalhar panfletos e imaginar cachorro morto num ambiente ainda anuviado. É isso que vou tentar expor aqui como expressão das minhas preocupações diante da degeneração do que se cognomina superficialmente de regime democrático de direito. Por que petróleo e riquezas naturais, elementos cobiçados por um sistema que se sustenta de uma economia de dominação multinacional, estão na raiz do processo conspiratório desde o fim da II Guerra Mundial, quando o V Exército norte-americano selecionou e cooptou os mais ambiciosos oficiais brasileiros que estiveram a seu lado no conflito.

Lacerda e o general Cordeiro de Farias com o general
norte-americano Veron Walters, articuladores do golpe 
Esses elementos persistem até com maior peso no foco de atuação da matriz desse sistema. Para organizar seu domínio sobre as forças armadas brasileiras, o governo norte-americano instruiu o presidente Dutra a criar em agosto de 1949 a Escola Superior de Guerra, moldada por uma missão do National War College, que permaneceu dando as cartas no Brasil até 1960. Oficiais norte-americanos bolaram o formato desse reduto, integrando ostensivamente o grupo de trabalho criado para esse fim sob a liderança do general Cordeiro de Farias, primeiro diretor da ESG, já cooptado e afinado com o centro do poder, em Washington.

Quando as Forças Armadas consumaram em 1964 sem combate a deposição de um governo de grande apoio popular estavam apenas aplicando o golpe final numa longa batalha que se corporificou quando o presidente Getúlio Vargas voltou ao poder em 1950 pelo voto de 48,73% dos  8.254.989 eleitores,  em aliança com setores militares nacionalistas do movimento O Petróleo é Nosso, com o compromisso do resgate da dignidade dos trabalhadores e, principalmente, pela montagem de um Estado nacional soberano, cujo maior marco foi a aprovação da Lei 2004, de 3 de outubro de 1953, que instituiu o monopólio estatal do petróleo e criou a Petrobrás.

Às reações contra a política nacionalista de Getúlio somaram-se as pressões contra seu ministro do Trabalho João Goulart, nomeado em junho de 1953, que abraçou o reajuste de 100% do salário mínimo (represado durante todo o governo do general Dutra) e acabou se demitindo em fevereiro de 1954, depois de um manifesto assinado por 81 coronéis do Exército. Esses oficiais ligaram-se aos Estados Unidos desde a II Guerra, todos com passagem pelo Fort Leavenworth War School, onde se fazia o treinamento e a cooptação, mediante vantagens, dos oficiais dos países alinhados.
Quando o movimento "O Petróleo é Nosso" empolgou o Clube Militar

O general Estilac Leal foi o grande
líder os militares nacionalistas
 Todos os conflitos da década de 50 giraram em torno do petróleo e tiveram como cenário mais explosivo o Clube Militar, onde aquele grupo americanista conseguiu em 1952 impedir a reeleição do general nacionalista Newton Estilac Leal, ministro da Guerra do governo constitucional Getúlio, do qual se demitiu por discordar do Acordo Militar Brasil-EUA, articulado pelo então chanceler João Neves da Fontoura e pelo general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior das Forças Armadas.

Então, o general Cordeiro de Farias criou no Clube Militar a Cruzada Democrática, que se tornaria uma organização conspirativa. Nessa disputa, muitos dólares foram derramados e, sob nova direção, na presidência do general Alcides Etchegoyen, o clube mudou de lado.

Associado ostensivamente à UDN de Carlos Lacerda, o grupo do general Cordeiro de Farias dedicou-se na primeira metade da década de 50 a uma estratégia golpista, abortada por um fato trágico - o suicídio do presidente Vargas, em agosto de 1954, 10 meses depois da criação da Petrobrás. O grupo não se desarticulou, porém. Com a eleição de Juscelino e Jango, em 1955, tentou impedir a posse de ambos, com a conivência do então presidente Café Filho, mas foi surpreendido pela atitude legalista do ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, que deu um contragolpe em novembro
Lott garantiu a posse de JK num contragolpe
fulminante em novembro de 1955
de 1955 e garantiu a posse dos eleitos. Em todos esses conflitos, pesava o comprometimento do grupo pró-EUA com o projeto de impedir a consolidação da Petrobrás e do monopólio estatal do petróleo.

Em 1960, aqueles mesmos coronéis, com destaque agora para Golbery do Couto e Silva, aliaram-se à campanha de Jânio Quadros contra o general Lott. Ajudaram a eleger o presidente apoiado pela direita, mas não conseguiram impedir a reeleição de Jango como vice e ainda foram surpreendidos pela política externa independente de Jânio, em desacordo com sua posição em relação a Petrobrás, onde havia atendido aos grupos pró-EUA com a nomeação do engenheiro Geonísio Barroso, para sua presidência.

Com a renúncia de Jânio o grupo golpista tentou impedir a posse de Jango

Brizola resistiu pela posse de Jango depois da
renúncia de Jânio Quadros em 1961
Com a renúncia de Jânio, 204 dias depois da posse, em agosto de 1961, aquele mesmo núcleo instalado na ESG e arredores levou os ministros militares a deflagrar um golpe para impedir a posse de João Goulart, o que teriam conseguido se não fosse a resistência corajosa do governador Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul e a negociação intermediada por Tancredo Neves, que engendrou o "parlamentarismo". A partir da posse de Jango, esses grupos voltaram a agir, com muitos dólares despejados pelos Estados Unidos e os grandes trustes internacionais, que financiaram desde o início duas organizações golpistas - o IPES, presidido por Golbery, já na reserva, reunindo os mesmos oficiais da Cruzada Democrática e a fina flor do empresariado, e o IBAD, montado com ajuda financeira da CIA para atuar junto à opinião pública.

Fica claro pelo exposto que a conspiração que levou à deposição de Jango vinha sendo gestada há muito tempo sob o patrocínio direto do governo e dos trustes norte-americanos, interessados em nossas riquezas e com receio de que a Petrobrás passasse a jogar um peso significativo como âncora de uma economia nacional soberana.

Rebeldia cubana, mais um ingrediente explosivo para ouriçar os golpistas

Ainda em 1959, Fidel Castro esteve no Brasil e
foi recebido também pelo general Lott, ministro da Guerra
Em janeiro de 1959 surgiu um fato novo no Continente, o triunfo da revolução cubana, liderada por Fidel Castro, que se transformou no maior símbolo dos jovens sonhadores e no grande pesadelo dos Estados Unidos, a quem desafiou com suas medidas patrióticas e com a sua força popular: em abril de 1961, o governo revolucionário esmagou em 3 dias uma invasão de mercenários treinados, armados e financiados pela CIA, o que deu maior dimensão à lenda do território livre da America, situada a 90 milhas da Flórida.  A partir de então, Washington passou a operar diretamente contra todo e qualquer governo que ousasse qualquer coisa parecida com Cuba ou que se mostrasse simpático a qualquer coisa acontecida lá.

Triunfalismo dos movimentos populares subestimou as articulações golpistas

Lamentavelmente, as forças sociais que apoiavam o governo João Goulart subestimaram os arsenais do golpe e se deixaram dominar pelo triunfalismo e pela sensação de poder. Faziam muito barulho na rua, mas não tinham nenhuma estrutura para enfrentar o golpe, esperando uns que os outros reagissem,  e confiando nos oficiais legalistas que comandavam principalmente as forças terrestres.

Como Jango, que foi à reunião dos sargentos no Automóvel Clube 
na véspera do golpe, em 30  em março, todos esperavam que 
 estes   poderiam ser decisivos na defesa da legalidade.
CLIQUE AQUI e leia o Discurso de Jango na reunião dos sargentos.
Havia um fenômeno que dava uma falsa sensação de invencibilidade na área militar - as manifestações explícitas dos sargentos e praças, mas que, como os marinheiros, acabaram servindo para jogar oficiais defensores da hierarquia e da disciplina nas mãos dos conspiradores. Na avaliação daqueles dias, mesmo que dominassem a oficialidade, os golpistas não teriam como se locomover ante a resistência das classes subalternas. Em 1961,sargentos da Aeronáutica impediram que oficiais levantassem voo da base de Canoas para bombardear o Palácio Piratini, onde Brizola comandava a resistência.

A atuação das ligas camponesas também criou a falsa ideia de verdadeiros exércitos rurais que se preparavam para a guerrilha e contra o projeto golpista. A isso, juntavam-se os alaridos dos estudantes e o poder de greve do Comando Geral dos Trabalhadores. Mas se alguma coisa aconteceu foi no grito.

A população não estava preparada para resistir a um golpe, nem mesmo os "grupos dos 11" que Brizola montava de forma inorgânica, a base do espontaneismo. E o dispositivo militar legalista era um blefe: quem não estava envolvido no projeto golpista foi silenciado. Nessa área, o golpe de misericórdia se deu quando general Amaury Kruel, comandante do II Exército, em São Paulo, amigo e compadre de Jango, foi corrompido por empresários no dia 31 de março, e alguns generais adoeceram, entre eles o ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro.
Castelo se dizia legalista, mas pegou pilha do general Vernon Walters,  que o viu como unificador dos militares descontentes 

O general Veron Walthers  apontou
o general Castelo como chefe
do golpe no dia 13 de março,
quando ambos viram juntos pela
 tv o comício da Central
O general Humberto Castelo Branco, chefe do Estado Maior do Exército que assumiu a liderança da conspiração em março, com a ajuda do seu amigo norte-americano, general Vernon Walters, adido militar da Embaixada dos EUA, era tido como legalista, embora de perfil direitista.

A fragilidade da resistência em 1964 surpreendeu até ao governo de Washington, que havia deslocado uma frota de guerra para a costa brasileira, na Operação Brother Sam, liderada por um porta-aviões da classe Forrestal e outro de menor porte, além de seis destróieres, um encouraçado, um navio de transporte de tropas, e 25 aviões C-135 para transporte de material bélico.

Ao contrário das tentativas de 1954, 1955 e 1961,o golpe de 1964 seguiu um roteiro de guerra desenvolvido no Pentágono, com base num plano concebido pelo general Vernon Walters, próximo dos militares brasileiros desde a II Guerra. 

Quando por oportunismo o general Mourão Filho pôs sua tropa em marcha, a partir da Juiz de Fora, os golpistas tiveram campo livre para tomar o poder.

Quem quis resistir não sabia o que fazer: por falta de visão estratégica, a CGT paralisou os transportes e o povo não teve como chegar aos centros das grandes cidades. Os líderes políticos mais conhecidos pegaram então o caminho das embaixadas estrangeiras, onde pediram asilo. 
Igreja, empresários e mídia deram apoio irrestrito ao golpe militar de 1964

A marcha  da família com Deus foi
organizada pela cúpula da igreja
Também ao contrário dos outros casos, o golpe foi precedido por manifestações de massa capitaneadas pela alta hierarquia da Igreja católica, em mãos de antigos cardeais, como Jaime Câmara, no Rio; Carmelo Motta, em São Paulo, e Vicente Scherer, em Porto Alegre.

O empresariado e os grandes latifundiários incorporaram-se ao projeto golpista com farta doação de dinheiro e articulações políticas. O banqueiro Magalhães Pinto, quando governador de Minas Gerais, chegou a financiar do seu bolso o treinamento de 10 mil policiais mineiros pelo agente da CIA Dan Mitrioni, considerado mestre em torturas. Magalhães Pinto fez parte da tropa de choque de governadores que lideravam o segmento civil do golpe, ao lado de Carlos Lacerda, na Guanabara; Ademar de Barros, em São Paulo; Ney Braga, no Paraná; Ildo Meneghetti, no Rio Grande do Sul; Virgílio Távora, no Ceará, Lomanto Junior, na Bahia, e até Mauro Borges, em Goiás.

Os políticos não cassados na primeira leva se renderam aos militares: o general Castelo foi "eleito" pelo Congresso com os votos de Juscelino e Ulisses Guimarães. JK pôs todo o seu PSD entre os 361 votos dados a Castelo, com exceção de Tancredo Neves: fizera acordo para preservar seu mandato e garantir a eleição em 1965. Foi "traído" por Castelo nas duas situações. Teve o mandato cassado meses depois e o general, que ficaria até 1967, cancelou as eleições presidenciais que prometera respeitar.

Já os governadores imaginavam que assumiriam o controle do país com o golpe, mas levaram uma volta dos militares: Mauro Borges (1964), Ademar de Barros (1966) e Carlos Lacerda (1968) acabaram cassados.

A conspiração foi articulada também com a participação da grande mídia, capitaneada pelos jornais O GLOBO, JORNAL DO BRASIL, ESTADO DE SÃO PAULO, FOLHA DE SÃO PAULO e ESTADO DE MINAS.
Essas informações remetem para as seguintes conclusões: o golpe de 1964 foi implementado de fora para dentro pelo governo dos Estados Unidos; os militares já conspiravam há muitos anos, conforme seu alinhamento com os interesses norte-americanos; o apoio popular ao governo trabalhista de Jango não se refletiu numa organização de resistência, mergulhada em confusas ilusões; muitos oficiais-generais de 1964 foram corrompidos para derrubar o governo constitucional; os militares passaram para trás também seus aliados civis, a partir de avaliações do adido militar da embaixada norte-americana, Vernon Walters, que bancou o nome do seu amigo Castelo Branco e a prorrogação do seu mandato em todas as áreas, cancelando as eleições de 1965 e transferindo o poder de escolha para os oficiais-generais, que promoviam a troca de ditadores numa situação peculiar do Brasil.

Hoje, como ontem, os interesses internacionais continuam ditando as regras, tendo agora como aliados os civis sociais democratas

Hoje, os interesses cristalizados permanecem os mesmos, com mudanças nas vitrines e nos manequins. A partir do governo do general Geisel (1974-1979) os militares passaram a ter problemas com os Estados Unidos por conta de algumas decisões que  contrariaram seus interesses, com ênfase na opção pela tecnologia alemã para a energia nuclear, prejudicando a Westinghouse, que já estava chegando. A eleição do presidente Carter em 1976 também registrou uma mudança no entendimento do Establishment em Washington sobre as ditaduras militares.

O democrata não foi reeleito em 1980, mas deixou algumas ideias novas junto ao complexo industrial-financeiro dos EUA. Como resultado, o banqueiro David Rockfeller, presidente do Chase Manhattan Bank, fundou em 1982 a ONG Diálogo Interamericano, que patrocinou novos interlocutores na América Latina, os liberais e sociais democratas, com mais habilidade na execução dos compromissos de adesão confiados antes aos ditadores militares.

Sem o suporte externo incondicional e com o país mal das pernas, os militares negociaram a volta de governantes civis na sucessão do general Figueiredo. Dentro da própria base partidária da ditadura houve dissensões: Paulo Maluf derrotou  o coronel da reserva Mário Andreazza na convenção da Arena e depois perdeu para Tancredo Neves no colégio eleitoral, em 1985. Para vencer, o governador de Minas assimilou como seu vice o ex-presidente da Arena, José Sarney, o mais importante quadro civil da ditadura.  E o político maranhense ainda acabou presidente com a morte de Tancredo antes da posse.

FHC tentou substituir o nome da Petrobrás e a vulnerabilizou
com a colocação de suas ações em Wall Stret
Os governos seguintes passaram a ser mais entreguistas do que os militares. Mas foi Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo que esteve "exilado" no Chile por alguns anos, quem consolidou o processo de desnacionalização da economia, com a farra das privatizações a preços de banana e o fim do monopólio estatal do petróleo, em 1997, através da Lei 9478/97, abrindo nossas reservas energéticas ao capital estrangeiro.
Essa abertura, com leilões das jazidas prospectadas pela Petrobrás,  foi mantida nos governos do PT e o sistema internacional descobriu com atraso que civis apegados ao poder rendem muito mais do que os militares que cooptaram naqueles idos de truculência e arbitrariedades.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.