sábado, 29 de março de 2014

Boca de urna

Parlamentares manjados por mau comportamento não têm autoridade moral para investigar coisa nenhuma
Uma ardilosa operação de boca de urna de quem está eleitoralmente à míngua e velhos ranços golpistas de quem trama há anos a demolição da nossa já minada estatal petrolífera envolvem e encobrem a proposta de mais uma CPI de palanque no âmbito de quem deve muito à opinião pública por mau comportamento no exercício em causa própria do mandato popular.


Não escrevo para dizer que a compra mal feita de sociedade numa refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos, deva ser blindada de toda e qualquer investigação em face desse contexto maledicente. Há lances rocambolescos que indicam manobras condenáveis da lavra de quem estava à frente das tratativas e que, como soe acontecer, foram anuviados no repasse às instâncias deliberativas.

Pelo menos duas cláusulas constantes do contrato firmado em 2006 são insustentáveis, como explicitou Luis Nassif de forma didática:  “put option” e a Marlim, absolutamente nocivas à Petrobrás. Uma delas dizia que em caso de divergência, uma das sócias deveria comprar a parte da outra. A segunda garantia à belga Astra Oil 6,9% de lucro anual, mesmo no prejuízo.

Conforme alegação documentada da presidenta Dilma Rousseff, essas cláusulas foram sonegadas em 2006 ao Conselho da Petrobrás, que ela presidia à época, como poderá ser apurado nas investigações em curso da própria empresa, do Ministério Público, da Polícia Federal e do Tribunal de Contas da União. Ainda conforme suas palavras, tais cláusulas só chegaram ao seu conhecimento em 2008, quando foram invocadas pela sócia belga, suscitando uma batalha judicial numa corte de arbitragem do Texas, ante a determinação do Conselho de contestar sua aplicação.

Não acredito que uma empresa do porte da Petrobrás não grave as reuniões do seu Conselho e que seja difícil saber documentalmente se os fatos são exatamente como nas alegações oficiais. Isso é coisa que uma investigação séria irá esclarecer.
Essa não é, porém, a intenção dos mesmos grupos partidários que bloqueiam CPIs sobre seus comprovados malfeitos, com destaque para a farra de propinas nas compras do metrô de São Paulo, conforme confissões de uma das empresas envolvidas na maracutaia que compromete três governadores tucanos.
Esse grupo, em processo de esvaziamento eleitoral, busca qualquer fato para virar o jogo e se anima com qualquer possibilidade de tirar proveito de um eventual escândalo maximizado que afete o favoritismo de Dilma e, se possível, ofereça mais elementos de chantagem aos meliantes de sua "base aliada", desfigurando por inteiro um projeto político progressista e confinando a disputa, mais uma vez, ao confronto de escândalos e ao sucesso nos conchavos, em que o tempo na tevê se torna moeda decisiva.

É isso que me causa náuseas. Não consigo assimilar esse jogo de cena sujo, de escopo oportunista e eleitoreiro, da mesma forma que reprovo a tentativa da maioria governista de aproveitar a deixa para incluir na CPI escândalos dos adversários que têm vida própria.

A senhora presidenta rendeu-se em muitas situações ao rolo compressor de um Congresso de lobistas e delinquentes, sujeitou-se aos ditames de um "mercado" insaciável, é impotente diante das artimanhas dos banqueiros e especuladores, alia-se "compulsoriamente" a políticos depravados conforme esse jogo viciado do poder
mas, até prova em contrário, tem nota máxima no quesito honestidade e lisura. Isto é, Dilma Vânia Rousseff tem a seu favor, ao lado de uma consistente sensibilidade social e de reconhecida competência administrativa, os predicados morais que tanto falta fazem em todos os agrupamentos políticos, administrações públicas e grupos  empresariais. 
Por isso, pode ser que essa CPI de boca de urna acabe saindo pela culatra. Seus patrocinadores não têm moral para questionar nada neste país, por que sempre se fartaram do uso indevido do poder, mantendo-se à tona por manobras de toda espécie, como no caso atual do "mensalão" tucano de Minas Gerais, que saiu do foco e vai facilitar a prescrição dos seus crimes graças a uma manobra nada sutil - a renúncia do deputado Eduardo Azeredo, principal protagonista do crime, que poderia lhe custar muitos anos de cadeia, mas do qual escapará fatalmente, ao contrário do que aconteceu com próceres do PT e adjacências.

Como qualquer brasileiro sabe discernir esse tipo de manobra, corre o risco de a presidenta reverter a seu favor essa manipulação, tal como aconteceu naquela tarde de 2010, em que ela respondeu a um pergunta perversa do senador José Agripino, que a cobrava por ela não ter colaborado com seus torturadores, "falando a verdade". (VEJA O VÍDEO NO PÉ DESTA MATÉRIA).

Seria muito salutar para a nação se essas disputas eleitorais amesquinhadas, que escamoteiam propósitos e interesses espúrios, se dessem no plano do confronto de propostas e idéias, da comparação de gestões num plano elevado, e não nessa mixórdia diversionista de baixo nível, que em nada contribui para uma escolha lúcida do eleitorado.

Mas querer isso, reconheço, é querer muito, considerando o fundo do poço político a que nos levaram com a colaboração de uma mídia parcial e escandalosa.   


Dilma calou o senador boboca do DEM. Corre o risco de fazer
o mesmo se montarem uma CPI para atingi-la.

terça-feira, 11 de março de 2014

Farinha farta, meu pirão primeiro

Corrida aos lotes do poder é o retrato da sanha fisiológica que assola o país e ameaça a democracia

Na convenção do PMDB do insaciável Eduardo Cunha, Dilma fez mais uma aposta nessa aliança de escopo primariamente fisiológico.
Quem imaginou que o grito das ruas ecoou na Praça dos Três Poderes está redondamente enganado. Antes, pelo contrário, acostumada ao uso inveterado das máquinas públicas como alavancas dos seus interesses pecuniários, a laia que avilta a democracia com o uso delituoso de mandatos adquiridos a peso de ouro está mais preocupada é em meter a mão no erário para disputar mais uma eleição com bastante bala na agulha.

Essa briga de poder protagonizada por figuras sem a menor reputação, como esse Eduardo Cunha, é o espelho quebrado de uma máfia política sem qualquer recato. Esses parlamentares vivem de chantagens explícitas do tipo: ou me dão isso e aquilo ou vamos botar alguém do governo que esteja vulnerável contra a parede.  Se forem servidos, fica o dito pelo não dito e os questionamentos e denúncias vão a arquivo. É uma extorsão política pra lá de rotineira.
É deprimente ver que a cobertura dessa mídia de superfície dá todo destaque do mundo ao jogo rasteiro de poder, como se essa briga suspeita interessasse aos cidadãos, como se o destino do Brasil, com seus desafios gigantescos, dependesse do acerto de contas da presidenta com esse exército golpista de picaretas, sem tanques e sem canhões, mas com o cérebro nervoso de oficiais em guerras de rapina.
Tudo isso acontece por que o modelo institucional brasileiro foi confeccionado sob medida para transformar a atividade pública na mais descarada  atividade privada, num logro combinado e executado por gregos e troianos.

Por esse manual o mandato político é uma grande trapaça.  Eleitos são os que têm grana, suporte de empresários gananciosos e acesso direto aos serviços públicos, sejam federais, estaduais e municipais, que convertem em moeda de troca para engrupir eleitores incautos, estrategicamente estonteados pelos BBBs e outros imãs de uma mídia eletrônica imbecilizante e alienante por ofício.  

Esses trombadinhas que ameaçam usar o Legislativo para extorquir mais alguns lotes do poder são o corpo de delito de uma democracia representativa falsificada. Esse decididamente não é o regime consoante com a premissa de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido.
É a mais incontestável fraude semântica, eis que o povo é o que menos conta nas decisões e só entra no credo em ano de eleições.
Do jeito que a democracia está sendo esculachada aqui não surpreende que muita gente ainda conserve sentimentos de saudade do regime castrense, apesar dos excessos que nos horroriza a todos. Pode ser que considerem um tipo de militar, o legalista como foi o general  Henrique Teixeira Lott,  mas é possível também que pese na opinião  de muita gente a repugnância pelos hábitos dos políticos e o cansaço diante dessa novela grotesca em que as eminências do regime democrático dedicam-se o assalto aos bens públicos como virtudes, por que só lhes ocorre triunfar a qualquer preço.

Lula foi eleito em 2002 contra o PMDB, que participava da chapa tucana. De lá para cá, esse partido, onde pontificam politiqueiros de vários costados, não mudou nada, antes pelo contrário. E segundo a mais covarde receita de governabilidade, o PT de guerra foi se rendendo à necessidade dos conchavos e compondo com a pior laia, de onde descobriu que esse tipo de político fisiológico, desonesto, lobista, já formava também em suas fieiras.

Isto é, todos eles caíram na dança, abandonando o macacão e a barbicha pelas conveniências de um poder de costas para o povo, mas inebriante, envolvente, deformador. Hoje, lamentavelmente, é muito difícil distinguir um político de outro, tal a sedução lasciva dos vícios arraigados.

Essa adequação às práticas apequenadas se constituiu em si num retrocesso que afetou não só o agora partidão dos trabalhadores. Todos as legendas que exibiam algum verniz ideológico também caíram na gandaia e se misturaram aos oportunistas, realimentando-os e reintroduzindo-os com habeas corpus no cenário político.
Essa nova queda de braço com o valhacouto mais folgado do PMDB faz parte do jogo escolhido por Lula, Dilma e o PT.  Eles preferiram compor com a malandragem do que recorrer ao apoio popular, como fizeram corajosamente Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, José Mujica e Daniel Ortega. E ao aderirem aos conchavos, tornaram-se reféns de raposas muito mais felpudas e mais escoladas, que sabem  como ninguém dar nó em pingo d'água.
No bojo dessa governabilidade negocial estão o solapamento da reforma agrária, a sujeição ao superávit primário para alimentar a banca, a condescendência com os oligopólios e os privilégios do agro-negócio, a volúpia da remessa de lucros, as novas privatizações e todo um catatau  de concessões que frustra  o Brasil soberano e justo apregoado nos palanques d'outrora.

Os "aliados" querem mesmo é fontes de saques, sejam em ministérios ou em  estatais, especialidade dessa figura deprimente, que reflete seus pares - Eduardo Cunha e o PMDB se merecem, se sustentam.

Não foi para isso que sacrificamos nossas juventudes naqueles anos dramáticos em que contestamos as espadas e os coturnos. Não aceito essa visão fatalista de que uns se matam no campo honroso das batalhas para que outros venham depois  meter a mão em nome do novo regime.

Bem que estou na torcida organizada  para Dilma livrar-se dessa teia de chantagens. Só não sei ela terá peito para enfrentá-la e mandá-la às favas.

domingo, 9 de março de 2014

O caminho das pedras

Greve dos garis levou prefeito à lona e deixou o sindicato mal, num movimento espontâneo exemplar

Uma greve espontânea, contra a vontade do  sindicato, que deixou a cidade às moscas, 
obrigou o prefeito Eduardo Paes  e negociar e a conceder o maior reajuste salarial da cidade 

O final vitorioso e surpreendente da greve dos garis da Comlurb, festejado ao som dos tamborins, é uma porrada que acerta em cheio, por igual, a já combalida administração da Prefeitura do Rio de Janeiro, o sindicato pelego e os protagonistas institucionais e políticos da cidade e do país. A paralisação guarda parentesco íntimo com a insatisfação exposta nas passeatas de protesto desde junho do ano passado e expõe um cenário incontrolável, aprofundando o abismo entre todo o sistema de poder, claramente em decomposição, e uma realidade amarga que explode por todos os poros.


Os garis impuseram uma derrota acachapante ao conluio político, apoiado numa controvertida aliança dos contrários, que garantiu a reeleição de um prefeito gaiato e manteve no governo seus miquinhos amestrados. Mas não tem sustância para aguentar o tranco e responder pelas suas responsabilidades básicas de gestão.

O modus faciendi de governabilidade local em uso tem por escopo o suborno dos políticos profissionais e das representações da sociedade, pelo loteamento calculado da máquina pública e pela distribuição de favores sujos e por baixo do pano entre as lideranças cartoriais de partidos, mídia, entidades de classe e movimentos sociais.

Há uma renúncia consensual da personalidade própria, ou melhor, de toda e qualquer personalidade. Parlamentares e dirigentes políticos são comprados num mercado mau caráter e sem vergonha, fugindo aos deveres da representação, da fiscalização e da ação legislativa, protagonizando uma grande farsa de forma irresponsável e imediatista, como se tudo na vida se resumisse ao saque compadrio por tempo determinado.

Em função de acordos imorais e insustentáveis à luz do dia, cria-se um profundo vazio que deixa órfã a plebe ignara, sem ninguém para fazer o meio de campo e sem ferramentas para uma relação racional com o poder corruptor e com as elites e os moldadores de opinião, juntos e misturados no exercício da injustiça, do embuste e da opressão.

A greve que encurralou um prefeito despreparado e sem estatura para o ofício se deu por combustão espontânea. Não teve líderes, nem organizações na sua gênese. Aconteceu num momento desconfortável para a Prefeitura por impulsos da lógica primária. Tratados a pão e água o ano inteiro, os garis sabiam muito bem da hora em que  valem ouro. Daí para a greve massiva, enquanto o sindicato subornado se conformava com as migalhas de sempre, foi um passe de mágica.

Pirralhos políticos que mais se afiguram os anões da Branca de Neve não contavam com a astúcia de quem ganha uma mixaria para correr oito horas atrás dos caminhões, em atividade laboral de suplantar os esportes olímpicos. Mixaria mesmo: ao contrário dos tempos áureos da Comlurb presidida pelo sanitarista Luiz Edmundo Costa Leite, quando a empresa dava treinamento para congêneres de vários países, e produziu as primeiras cargas de gás natural veicular e, posteriormente, do economista Ivan Lagrota, que implantou a primeira usina de compostagem,  a Comlurb se tornou literamente um lixo sob o comando de um  vizinho do ex-prefeito Cesar Maia, oriundo da antiga Telerj.

Ali, quando Eduardo Paes era apenas um pupilo enxerido de péssimos hábitos, Cesar Maia privatizou toda a frota  da Comlurb, sua espinha dorsal operacional, em mãos da mesma empresa há vinte anos, e a massa de garis passou a ser tratada como lixeiros esculachados.

O sentimento de revolta entre os garis vem desde então. Concursados e celetistas, os trabalhadores da limpeza urbana sempre foram pau pra toda obra: mais importante do que livrar a cidade do lixo dos grandes eventos, a eles sempre coube missões espinhosas, como o socorro às vitimas de desabamentos nas áreas atormentadas pelas intempéries e até ajuda na remoção e reassentamento de favelados.

A aplicação da fórmula cooptativa na corporação junto com o jogo de poder por chefias intermediárias e favorecimentos a apadrinhados foi formando a massa crítica que deu nesse movimento de provável desdobramento no organismo funcional de toda a Prefeitura, onde se pratica a política salarial mais deletéria, pela adição a maior de penduricalhos aos vencimentos básicos. Hoje, na administração direta, há profissionais de nível superior ganhando menos de um salário mínimo  pela rubrica principal. Se chegam a pouco mais de R$ 2.300,00 é por conta de gratificações. Enquanto isso, a Câmara Municipal e o Tribunal de Contas oferecem casa, comida e roupa lavada do bom e do melhor, em muitos casos para "meio expediente" ou "expedientes externos" invisíveis.
Participando de uma explosão espontânea que  o prefeito definiu como "motim", os garis ganharam um aumento na marra de 37% e mais um tíquete refeição que passou de R$ 12 para R$ 20,00 - isso apesar da vacilação do sindicato pelego.
Outras categorias profissionais, não apenas do município, tendem naturalmente a seguir o mesmo caminho, tal a magreza de suas remunerações, em contraste com os privilégios cristalizados pela política de cooptação e suborno que monitora a degenerada estratégia de poder em execução no Rio de Janeiro - estado e município.

Não será surpresa, portanto, se outros trabalhadores recorrerem ao contraponto radical. Os donos eventuais dos podres poderes podem comprar meia dúzia de políticos arrivistas e falsos líderes sem escrúpulos. Podem forjar alianças fisiológicas eleitoralmente competitivas. Mas já não dá para enganar o povo todo, sonegando-lhe os direitos que o conluio encobre e servindo-lhe apenas o pão que  o diabo amassou numa de que é pegar ou largar.

Definitivamente os tempos são outros. E como vale o escrito dos alfarrábios da filosofia, uma vitória emblemática traz um monte de filhotes em seu ventre.

Quem sobreviver verá.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Orquestrações explosivas

Máquina de moldar opiniões faz crê que todo o mal do país se concentra em alguns políticos já condenados

Estou começando a admitir (e a deplorar) que a inescrupulosa máquina de moldar opiniões está conseguindo transformar o que Roberto Jefferson alcunhou de "mensalão" no único caso de corrupção no Brasil. Sinceramente, estou pasmo com o confinamento mental de muitas pessoas, para as quais todo o desvio de conduta se resolve com a concentração de cacetadas nos prisioneiros petistas, como se isso solucionasse todos os problemas, todas as amarguras e todas as frustrações de um monte de gente, como se o ideal mesmo fosse aplicar castigos medievais abrangentes, alcançando, se possível, seus parceiros não condenados e as futuras gerações.  

Não sei se estou me fazendo entender, mas o que minha percepção alcança nisso tudo é a mais implacável tentativa de linchamento, no que se tenta matar uma ninhada de coelhos de uma só cajadada.

Digo isso até mesmo por e-mails de algumas pessoas sérias, honestas, bem intencionadas, no entanto, prenhes de sentimentos inquisitoriais, mais partidários do que políticos, mais políticos do que jurídicos, mais emocionais do que racionais, que acham pouco a sova penal aplicada, sobretudo, aos protagonistas do PT.  Essas pessoas sequer admitem a solidariedade para o pagamento das multas, sonhando que, assim, os condenados tenham de cumprir trabalhos forçados pelo resto da vida para quitar a dívida arbitrada.
Ao ver de uma psicanálise de massas pode-se achar nessa lenha ardente a genealogia composta da não resolvida derrota recente nas urnas, da nostalgia do obscurantismo em fase de decomposição, e da frustração de sonhos burlados pela sujeição oportunista e capitulacionista a um jogo de poder criminoso.
Diriam os especialistas - não é o meu caso - que estamos diante de uma tragédia que brande peias compensatórias. Em suas cenas mais pungentes, a racionalidade jurídica sucumbe ao tropel da ira e juízes de togas desbotadas não se pejam em buscar a empatia grotesca que, na pior das hipóteses, lhes oferece bons olhares para desmandos passados, presentes e futuros.

Tudo o que a máquina de moldar opiniões quer, concentrando o alvo,  é lançar um feirão de maracutaias ao esquecimento.

Já se vê diluir-se a ação penal contra os "mensaleiros" tucanos das alterosas e do DEM, no Planalto dos cortesãos.  O ex-governador Eduardo Azeredo deu o bote no processo com a renúncia ao mandato de deputado federal e raríssimos foram os escritos e gritos indignados. Já o seu colega José Roberto Arruda, filmado com dinheiro de propina, parece que já limpou a barra e vai se candidatar de novo o governo de Brasília, como se nada tivesse acontecido.

Não é só.  Veja essa exemplo: no dia 25 de março de 2009, 40 policiais federais varejaram o edifício sede da poderosa Construtora Camargo Corrêa, em São Paulo, descobriram jogadas de grana que envolviam partidos de todos os matizes e encaminharam o apurado à Justiça. Numa só penada, o Superior Tribunal de Justiça suspendeu o processo e anulou as provas, alegando que houve escutas ilegais e denúncias anônimas.  E, pelo menos por esses quatro anos, não se falou mais nisso.

Não precisa ir muito longe. As denúncias comprovadas, primeiramente no exterior, sobre esquemas de propinas no metrô de São Paulo, envolvendo tucanos de alta plumagem, só não foram para o ralo pelo caráter extra-territorial das investigações e pelas delações envolvendo a poderosa Siemens. Mas que está a caminho da geladeira midiática, ah isso está.

Teria uma tremenda lista de assaltos configurados aos cofres públicos, personagens destacadas em negociatas em série, mas é isso que a máquina de moldar opiniões consegue abafar. Por que, no fundo, no fundo, o seu interesse é capitalizar politicamente o noticiário a respeito, postando-se num patamar com alto poder de barganha a serviço dos seus clientes endinheirados.

Essa máquina trabalha com cartas marcadas. É azeitada por mafiosos apresentados na mídia como incansáveis empresários, que trapaceiam com bilhões de reais, fazem jogo político multifacético e mantêm o próprio Estado acuado. De tão ignominiosa é a sua teia que enche os olhos da distinta platéia com anúncios de lucros de R$ 15 bilhões em 2013 de um banco, mas esquece de dizer que o próprio está sendo intimado pagar R$ 18 bilhões à Receita Federal por sonegação fiscal.

Essas manobras solertes estão no verso do linchamento continuado dos chamados "mensaleiros do PT". É uma pena que os componentes de idiotização espargidos pela máquina de moldar opiniões introduzam no inconsciente coletivo a fúria punitiva concentrada em meia dúzia de prisioneiros, alguns provavelmente mais alvejados pelo que de bem fizeram ao longo dos anos do que pelo que de mal se lhes atribuem acusações sonorizadas por orquestrações explosivas.  

É lamentável, a meu juízo, que o clima das "torcidas organizadas de futebol" ,com sua sede de porradas à margem da competição, tenha se irradiado com tanta fartura no fogo cruzado que nada sacia. Essa carga pesada sobre os prisioneiros políticos da Papuda está longe de ser um legítimo desejo de justiça e punição.

É, sim, apenas a manipulação perversa com fins de alcance faccioso.  Para isso, não contem comigo.

terça-feira, 4 de março de 2014

Quem são os reis do carnaval

Bicheiros ganharam o sambódromo de mão beijada da Prefeitura e passaram o Rei Momo para atrás


O carnaval do 5º Centenário apresentou várias fases da nossa história. A nossa ala na Portela retratou o grupo que se insurgiu em 1935 através da Aliança Nacional Libertadora.
Na "Barca da Volta", da União da Ilha
Em 2000, no ano de quinto centenário da chegada dos portugueses, desfilei em 3 escolas de samba: Unidos do Jacarezinho (grupo de acesso), Portela e União da Ilha. Tinha 57 anos e aquele corpo atlético - quase 100 quilos para 1,53 de altura. Mas queria farejar esse espetáculo internacional no seu passo a passo de sambista.
No grupo de acesso, desfilei como "diretor" da Unidos da Jacarezinho
Em 1984, quando "sub-prefeito" da Zona Norte, havia participado da diminuta equipe de emergência formada pelo governador Leonel Brizola e pelo prefeito Marcelo Alencar para garantir a realização do evento, em meio a todo tipo de boatos, inclusive de que rachaduras ameaçavam algumas arquibancadas, campanha encampada por boa parte da mídia que quase esvaziava as arquibancadas, enquanto a Rede Globo decidira "abrir mão" da transmissão, com o que só não escondeu o evento do mundo devido a determinação do velho Adolpho Bloch e da Rede Manchete.

Como, na condição de vereador, em 2000, já recebera muitas denúncias sobre maracutaias abafadas pela batucada desde quando a Prefeitura decidiu terceirizar sua gestão, entregando-a aos bicheiros da Liga das Escolas de Samba, não foi difícil esmiuçar o grande negócio que movimentava milhões, com o uso generoso de dinheiro público sem qualquer controle.

Daí, já na semana seguinte aos desfiles, requeri a constituição de uma CPI para apurar o destino das verbas da Prefeitura que, ao contrário do exigido em lei, dispensava as escolas de qualquer prestação de contas sobre as subvenções. E ninguém questionava essa burla até por que não "era prudente" bater de frente com os contraventores que comandavam a seu modo a LIESA e a quase totalidade das escolas, entre eles o capitão Guimarães, egresso do DOI-CODI, Anísio Abraão, Luizinho Drummond, Carlinhos Maracanã, José Petrus Khalil, o Zinho, Piruinha, "herdeiros" do Castor de Andrade e outros menos cotados.

Primeiro, não foi fácil conseguir as 13 assinaturas de apoio de um terço da Câmara (na época, 42). Depois, com esse número mínimo, levamos um tempo esperando que os partidos indicassem membros para a CPI. Finalmente, dos 5 indicados, apenas eu, como presidente, e o relator Paulo Cerri sustentávamos as audiências, nas quais os bicheiros exibiam sua costumeira arrogância e certeza da impunidade.

Apesar dos flagrantes o uso sem controle do dinheiro público, a mídia deu pouca importância à CPI, mesmo quando intimamos os "patronos" das escolas a ir Câmara para falar de lavagem de dinheiro e apropriação de verbas públicas, que eles procuravam justificar com a cínica alegação de que ninguém lhes cobrara a comprovação dos gastos. "Nossa prestação de contas é o carnaval na rua" - afirmavam.

Essa omissão não era de se estranhar. Desde quando, em 1998,  o então prefeito Luiz Paulo Conde entregou a gestão do sambódromo e do próprio carnaval a uma entidade dominada por contraventores de fichas sujas, condenados pela juíza Denise Frossard por formação de quadrilha armada, em maio de 1993, os formadores de opinião assimilaram essa relação do poder público com essa máfia como o melhor para a cidade.

A ética de raiz de uma festa de forte conteúdo social foi substituída pela caça ao ouro da antiética mercenária sem recato e o carnaval das escolas de samba se transformou num coquetel explosivo de alto poder de desfiguração.
O carnaval carioca foi entregue aos bicheiros condenados por formação de quadrilha

O contraventor Anísio da Beija 
Flor é quem dá as cartas
A CPI que presidi expôs a hipocrisia de muitos que apareciam como arautos da lei e da ordem, mas que assimilavam "numa boa" as relações promíscuas do poder público com personagens constantes na agenda policial.

Mais do que ao folclórico rei momo, o maior evento turístico brasileiro passou ao controle de reis da barra pesada, que são até hoje tratados como grandes empreendedores da folia.

É certo que as recomendações da CPI foram desprezadas pelo poder executivo, mas em compensação o Tribunal de Contas do Município e o Ministério Público assumiram mais tarde os papéis que lhes impunham as funções.

Não foram fundo, mas alguma coisa fizeram. O TCM exigiu a realização de licitação para aprovar a transferência da gestão e dos equipamentos públicos a terceiros. Já a promotora Gláucia Santana, titular da 6ª Promotoria de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania do Ministério Público, concebeu um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em 2010 pelo prefeito Eduardo Paes e pela LIESA, pelo qual a Prefeitura ficou proibida de destinar subvenções às escolas de samba. Em  2012, a juíza Alessandra Tufvesson, da 14ª Vara da Fazenda Pública, determinou a indisponibilidade dos bens do ex-prefeito Cesar Maia, do ex-presidente da Riotur, Luiz Bonilha, e do presidente da Liesa, Jorge Castanheira, até o valor de R$  5,3 milhões, valor correspondente ao que foi pago à liga, à qual se garantia também o faturamento de 90% do arrecadado com a venda de ingressos para o carnaval de 2009.

Isso foi um passo apenas, mas foi. Por que, como contrapartida, a Prefeitura abriu mão da sua obrigação de licitar e de sua parte nos ingressos e outras rendas obtidas com a utilização de equipamentos públicos.


No caso das licitações, combinado ou não, ninguém se apresentou para substituir a Liga dominada pelos bicheiros nas 4 "tentativas" que o prefeito Eduardo Paes fez para cumprir determinações do Tribunal de Contas. A própria LIESA decidiu que não entraria em licitação, por que o carnaval era seu, por bem ou por mal. E continuou sendo a "única" interessada na gestão e faturamento do carnaval das escolas de samba.

Só se pensou em privatização do carnaval depois que o governador Leonel Brizola decidiu acabar com a indústria do "monta-desmonta arquibancadas", que enriqueceu muitos picaretas, e, inspirado por Darcy Ribeiro, confiou a Oscar Niemeyer o projeto de uma passarela de desfiles permanente, que funciona  também, durante  todo o ano escolar, como um Centro Integrado de Educação Pública, acolhendo 5 mil alunos.

Essa obra realizada no tempo recorde de 112 dias mudou todos os conceitos do carnaval carioca, incluindo a divisão dos desfiles em duas noites, e venceu uma insidiosa campanha de sabotagem, que incluía noticiário sobre rachaduras nas arquibancadas e sobre a impossibilidade da sua conclusão a tempo e à hora.

Foi o sucesso de seu primeiro desfile, há exatos 30 anos, que despertou a cobiça não apenas dos bicheiros.

Hoje, o carnaval da Sapucaí mudou de tal forma o seu perfil que daqui a pouco vão ter que aprovar cotas para negros entre os passistas.

A quase totalidade paga para desfilar nas escolas, alguns em mais de uma e outros já compram as fantasias no exterior, no mesmo pacote turístico oferecido pelas agências de viagens. Uma ala hoje não cobra menos de R$ 1 mil, o que explica a redução dos sambistas "da comunidade" o a presença maciça de brancos da classe média, sobre tudo em escolas como a Unidos da Tijuca, Salgueiro, Beija Flor e Portela.

Quando desfilei, em 2000, comprei a fantasia de "diretor" do Jacarezinho numa loja indicada pela escola de samba. Na Portela, paguei tudo a um chefe de uma ala, que praticamente vive da venda de vagas no desfile.  Já na União da Ilha, como era o enredo sobre os anos da ditadura, fui convidado juntamente com outras vítimas da perseguição política, como o incansável jornalista Artur Poerner, para sair na "Barca da Volta", um belíssimo carro alegórico em que precisávamos apenas vestir de branco por nossa conta.
Vale a pena ler esta entrevista do prefeito Eduardo Paes ao Estadão

O carnaval de hoje está muito mais deturpado do que antes, por que envolve também os blocos, cujos desfiles gigantescos são usados para o "merchandising" de uma cervejaria. E ganhou um novo componente, com patrocinadores que direcionam os enredos, tudo para multiplicar o faturamento das escolas, controladas a ferro e a fogo pela "família" ligada a todo tipo de contravenção e outros delitos, como o que levou à prisão, em 2010, o presidente da Vila Isabel, Wilson Vieira Alves, conhecido como Moisés, alcançado pela "Operação Alvará", da Polícia Federal, que prendeu 18 envolvidos na máfia dos caças-níqueis.
Em 2013, a Vila Isabel foi campeã com o samba-enredo “A Vila canta o celeiro do mundo”, patrocinada pela Basf, empresa química multinacional. O vice-campeonato ficou com a Beija-Flor, responsável por trazer para a avenida a história de uma raça de cavalo, financiada em cerca de R$ 6 milhões pela Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Mangalarga Marchador.
O que não deixa de ser uma festa popular de grande apelo midiático e extraordinária espetaculosidade cênica, com dotes de extravasamentos compensatórios, já ultrapassou a seus limites mais razoáveis para converter-se num inescrupuloso baú da felicidade. Em 2013, a Prefeitura do Rio gastou R$ 35 milhões a fundo perdido, superando São Paulo, com R$ 33 milhões, Recife, R$ 32 milhões,  e Salvador, R$ 30 milhões. Além disso, a Prefeitura entrega aos bicheiros da LIESA o sambódromo a custo zero, assumindo ela as despesas com luz, água, gás e manutenção.

Para que nossa CPI de 2000 ainda alcance maiores desdobramentos nos dias de hoje, a Prefeitura tem que reassumir o controle do carnaval e do seu patrimônio cedido para o evento, antes que destruam o CIEP instalado lá, como pediu uma outra CPI, instaurada em 2007 para apurar manipulação dos resultados, que acabou se deparando com o os desvios denunciados desde 2000. A vereadora Teresa Bergher, presidente dessa CPI, constatou, entre outras coisas, que a arrecadação à Prefeitura caiu de R$ 38 milhões  antes da terceirização, para R$ 3 milhões, em 2007.

Pela importância que o carnaval tem para a cidade, tanto em termos de imagem como de arrecadação, não é admissível mantê-lo em mãos de pessoas sabidamente envolvidas com práticas ilegais, controlem ou não as escolas de samba. Desde os tempos do Distrito Federal essa foi uma responsabilidade direta da Prefeitura, que abriu mão dela quando passou a jorrar dinheiro por todos os lados, desde o pagamento da transmissão pela tv para todo o mundo até, mais recentemente, de patrocínios milionários indiferentes à sua própria natureza, permitindo que uma contabilidade paralela sirva para todo tipo de desvio de conduta.

Passar por cima da lei nesse caso é algo que desperta todo tipo de suspeitas. E que compromete a própria autoridade pública.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.