sábado, 22 de fevereiro de 2014

Duas violências e duas medidas

O vandalismo golpista na Venezuela é mostrado como santo, enquanto aqui criminalizam os protestos


Vândalos fazem o diabo para minar o governo bolivariano, com ajuda dos EUA

No manual da mídia global há duas regras para reportar a violência: a dos indignados no Brasil é apresentada como obra do demônio, criminalizada de cabo a rabo e estigmatizada numa assepsia fulminante pelo uso de bodes expiatórios feitos avisos prévios destinados a inibir qualquer demonstração de descontentamento, sejam cândidas ou furiosas.

Vandalismo contra um governo popular  foi aplaudido pela  mídia global
Já a violência na Venezuela, de conteúdo golpista, oriunda das irreversíveis posturas conspiratórias da potência decadente é apresentada como obra do divino, exibam ou não vândalos armados, bombas incendiárias, depredações de prédios públicos e todo um arsenal de guerra de última geração.

Como essa mídia multinacional galvaniza os receptáculos descuidados de cidadãos objetos, operando como ensandecidos rolos compressores, não é difícil fazer crer que esses dois pesos e duas medidas são sustentáveis por uma química segundo a qual cada caso é um caso: a violência que blinda seus interesses é tolerável; a que ameaça, nem pensar.

O vandalismo na Venezuela só não foi mais brutal devido à firmeza de Maduro
O cidadão brasileiro que ainda se posta diante de uma televisão arbitrária e com fortes cargas de maquinações acaba virando um reprodutor fácil da falácia midiática hipócrita e manipuladora.

Essa possibilidade ostensiva é o verdadeiro crime  contra  a liberdade, pois introduz em cada mente acrítica um coquetel virótico de alto poder corrosivo. Daí o papel sujo que esses informadores jogam para dar cobertura às violações constantes da soberania nacional e às tentativas de golpes contra o veredito democrático  do povo venezuelano.

As informações disseminadas por esses veículos comprometidos e sem escrúpulos se tornam, assim, componentes do plano golpista, da tentativa de rendição de um país que trilha o próprio caminho, direito e obrigação principalmente quando de trata de um detentor de recursos energéticos de alta valia no mercado dos podres poderes.

O que está acontecendo hoje na Venezuela é a aplicação pela enésima vez nesse país petrolífero da mesma tentativa solerte de reapropriar-se de  suas riquezas conforme insaciáveis interesses da potência vizinha, isto é do complexo industrial-financeiro dos Estados Unidos da América,  cuja viciada política de guerra e intervenção é condição sine qua non de sua vida política e econômica.

Na cobertura facciosa de manifestações fabricadas a mídia internacional não vê limites. Enquanto a CNN norte-americana se planta dentro do país como palanque multiplicador dos grupos golpistas, enquanto o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, ícone da direita beligerante (que ganhou fortunas no confronto com a guerrilha), coordena uma estrepitosa infiltração de imagens de televisões fronteiriças, agindo sobre a própria população venezuelana,  as agências e os cúmplices locais se dedicam com esmero à imobilização da indignação nas nações irmãs.

Nessa orquestração burlesca, que aciona de forma profissional as redes sociais da internet, o vale tudo é a regra. Servem-se dos estratagemas mais despudorados: ora são fotos capturadas em outros países e publicadas como se de lá fosse, ora são tinturas lânguidas que tentam justificar os atos de vandalismo praticados por pessoas treinadas e contratadas para tais agressões.

No temático, o noticiário de cobertura ao projeto golpista recorre a manipulações tacanhas. Pinta como revoltas estudantis, por seu caráter emblemático, o que se forja muito além das fronteiras universitárias. E chega ao cúmulo de dar verniz político à condição de "miss", forçando o envolvimento nos "protestos" de algumas ex-misses qualquer coisa em troca de seu reaparecimento fortuito na mídia, que já as havia arquivado.

O ensaio golpista reproduz as mesmas fórmulas da época do presidente Hugo Chávez - com o desabastecimento, a instabilidade econômica, a fabricação do descontentamento e as provocações nas manifestações de rua - por que  o seus monitores imaginavam que a morte do grande líder bolivariano havia quebrado o poder de resistência do povo venezuelano.

Achavam que Nicolás Maduro, um ex-motorista de ônibus, não teria estatura para aguentar o tranco. E subestimaram a organização popular, inspirada por Chávez, que tem o dom de multiplicar a resistência, como se multidões incorporassem igualmente a figura tenaz do líder legendário.

Nessa avaliação, parece que vão se dar mal, apesar da alta carga de investimentos, com a utilização até de novos títeres,  cada vez mais indóceis e ambiciosos. Está claro que manter o governo bolivariano acuado e sob fogo cruzado é questão de honra para a sacra aliança entre as elites de Caracas, a máfia de Miami, sua mídia escandalosamente mercantil e o governo dos Estados Unidos, que lá vai muito além da bisbilhotagem da vida dos governantes.  Mais importante será para esses incorrigíveis conspiradores derrubar o governo eleito e promover um retrocesso com o fim do processo de mudanças iniciado pelo líder, cujo câncer foi produzido em laboratório nos termos das tecnologias golpistas mais modernas.

É preciso ter em vista que qualquer fenda que mine a República Bolivariana da Venezuela fere e constrange por igual às nações irmãs, como o Brasil, que se até agora não foi fichado como perigoso inimigo em Washington, ainda é uma grande incógnita para os insanos donos do mudo.

Em minha juventude, quando a mídia eletrônica não se instalara nos recônditos decisórios do cérebro cidadão,  quando as redes sociais não existiam como válvulas de escape compensatório, milhares de brasileiros já teriam ganho às ruas em solidariedade ao povo irmão da Venezuela, como aconteceu nos anos românticos em que demonstramos com garra e paixão nossa posição em defesa da soberania de Cuba.

Em minha velhice, porém, sou forçado a aceitar que até mesmo os indignados espontâneos, que vão às ruas em aguerridos cordões, perderam a noção do caráter global da criminalidade política. Insurgem-se com garbo e coragem contra deslizes locais, igualmente expostos pela mídia direcionada, mas parecem incapazes de abrir a janela para o mundo, conforme o manual de constrangimentos e imbecilização dessa mesma mídia que os anatemiza.

Nem mesmo os partidos e partidários do chamado campo progressista têm usado suas tribunas e seus palanques para alertar sobre os perigos de um golpe na Venezuela bolivariana. Não obstante o óbvio, parecem contidos por uma agenda acordada, em que evitam ir além do consentido.

Mas daqui, dessa trincheira tão periférica, deixo o testemunho vivo dos meus quase 71 anos: o que se fizer contra as instituições soberanas da Venezuela nos alcança igualmente. Reflita sobre isso.

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O terror antiterrorista


CRISTOVAM BUARQUE
22/02/2014 

Em 1964, para “defender as liberdades”, os comandantes militares, aliados a parlamentares, destituíram o presidente eleito. Cinquenta anos depois, um governo eleito, aliado a parlamentares, propõe regras para inibir manifestações de rua sob o argumento de “defender o direito de manifestação”. Para isso, propõe via projeto de lei nº 499 regras que criminalizarão atos cometidos nas manifestações. O senador Pedro Taques apresentou emendas, mas dificilmente mudará o espírito da proposta.
Clique aqui e leia o artigo completo 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O partido da suprema corte

Achando-se semideuses, ministros nomeados por influência política extrapolam e assumem palanques como se militantes fossem

Um país em que ministros da sua  Suprema Corte saem do sério rotineiramente, metendo os pés pelas mãos, batendo boca e hostilizando partidos, é um país destituído de qualquer segurança jurídica, eis que esses supremos magistrados seriam por dever de ofício inteiramente infensos a qualquer manipulação tendenciosa, mesmo que tenham sido nomeados por suas ligações políticas. E, se assim fossem, seriam eles guardiões inabaláveis dos direitos pétreos de cada cidadão, independente de cor, raça, ideologia, filiação partidária ou orientação sexual.

Como quase todos esses ministros são elevados aos píncaros muito mais por articulações políticas do que pelo superior saber jurídico, tendem a se mover sob impulsos facciosos. Ou na reafirmação da fidelidade a quem lhes outorgou as prebendas, ou, segundo o paradoxo registrado desde Confúcio, para negar seu cordão umbilical.

Desde que a Tv Justiça entrou no ar naquele 11 de agosto de 2002 o que se cognomina liturgia do cargo sofreu um arranhão profundo. Como todos os seres humanos dotados de um incontida carga de exibicionismo, os ministros do STF passaram a cuidar mais do penteado, dos óculos e das inflexões vocais. Afinal, são apenas 11 os reais detentores de todos os poderes, inclusive legislativos, de onde assimilarem por encanto personagens midiáticas de semideuses,  grandes protagonistas em sintonia com o avassalador domínio das comunicações.

Essa espetacularização da corte maior serviu não apenas para o aparecimento de fãs clubes de magistrados, mas também ofereceu cenas de grande apelo de audiência, como o bate boca entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, que até hoje rola na internet com números competitivos de visualizações.

Serviu para mostrar também com relevo exuberante o nível de autoendeusamento desses magistrados num desprezo por normas e condutas exigidas dos demais mortais. 

 Quanto o ministro Gilmar Mendes, no STF desde os 47 anos, ameaçou o juiz Fausto De Sanctis para forçar por duas vezes a soltura do banqueiro Daniel Dantas, pego com a mão na massa num tentativa de suborno devidamente filmada, ele se dizia indiferente ao "populismo jurídico", eufemismo usado para blindar suas decisões, fossem elas justas, corretas, ou sabidamente insustentáveis.

Se perguntarem hoje a quem tem o mínimo de interesse pela coisa pública, vai ser mais fácil ouvir a escalação dos ministros do presumivelmente sóbrio Supremo Tribunal de que dos auxiliares diretos da presidenta ou dos governadores do seu Estado.

Esse autoendeusamento engendra uma consciência de exceção semelhante aos dos cabeças de uma ditadura. E lhes embala em tais poderes difusos que cria por si, em movimentos silentes,  uma casta togada, tutora de toda a vida do país.

Não surpreende, portanto, que o ministro Gilmar Mendes, do corpo jurídico do Executivo nas épocas de Fernando Collor e Fernando Henrique, tenha extrapolado mais uma vez, de forma acintosa e arrogante, escrevendo para o senador Eduardo Suplicy para reclamar das "vaquinhas" destinadas a juntar a grana necessária ao pagamento das multas a petistas no chamado processo do "mensalão".

No caso, ele não se conteve em criticar a solidariedade recebida de punidos num processo indiscutivelmente político, num ritual direcionado, bem diferente do seu precedente, o "mensalão tucano de Minas Gerais". Foi mais além, à semelhança de um provocador barato e sem compostura de alguma claque boçal, e meteu o punhal no coração alheio, ao valer-se da ironia de mau gosto para sugerir que os mesmos dirigentes presos arrecadem dinheiro também para pagar R$ 100 milhões presumivelmente  desviados dos cofres públicos.

É essa personificação dos deuses, conforme ressaltei antes, que dá ao ministro Gilmar Mendes o óleo de peroba para exibir a cara de pau  partidária e lançar-se em provocações a "adversários",  atitudes que não se enquadram na liturgia do seu cargo.

Tem ele autoridade para falar em zelo pelo dinheiro público quando foi sabido e notório o seu empenho para livrar o banqueiro corruptor Daniel Dantas da cadeia, tanto como brindou com um esmerilado habeas corpus o indefectível Paulo Salim Maluf, o mais audacioso dos dilapidadores do Erário? No caso do banqueiro ele usou até da condição de presidente do Conselho Nacional de Justiça para esmagar a pena incorruptível do juiz paulista em lances que deixaram constrangidos até seus colegas de pleno.

Essa nova agressão ao decoro da Corte Suprema reacende obrigatoriamente a discussão sobre os poderes "infalíveis" de ministros nomeados para o exercício de um cargo de forma incontestável, absolutista, por anos a fio:  nomeado por Fernando Henrique no final do governo a que serviu na juventude dos seus 47 anos, Gilmar Mendes permanecerá dando as cartas por 23 anos, tempo maior do que o registrado pela ditadura militar.

Ao contrário dos generais, porém, ele têm a cobertura de uma toga muito mais possante do que as fardas e os coturnos. Sua blindagem constitucional é um contrassenso que ninguém ousa questionar, como são igualmente intocáveis seus colegas cujo caminho de ascensão não decorre de nenhuma exigência maior, nem mesmo da progressão de carreira. Isto é, por situações incidentais e provavelmente indiferentes ao rigor dos poderes de que desfrutarão, esses personagens da suprema arrogância tomam acento no topo dos destinos jurídicos do país como se fossem vestais vitalícias.

O absolutismo nunca combinou com regimes emanadas pelo povo e por delegação deste exercidos. Se ninguém acordar para isso, os critérios para a seleção de ministros derraparão mais ainda e a sociedade não terá nunca mais a quem confiar seus direitos, já que não tem mais serventia se queixar ao bispo.

E não surpreenderá se ganhar corpo e poder decisório ainda mais incontestável na penumbra dos podres poderes a legenda imaginária do PSTF,  - Partido do Supremo Tribunal Federal.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O rojão de sete cabeças

Mídia reeditou rolo compressor que deu cobertura à ditadura pintando seus adversários de monstros subversivos

Esta matéria está entalada em minha garganta há alguns dias e não é para menos: vivi  todo o terror da ditadura e vi o papel alucinadamente capacho que a mídia desempenhou na época, fazendo de um tudo para dar suporte ao regime, publicando matérias muito mais para prestar serviços do que pela sua natureza jornalística.

Eu mesmo paguei por esse alinhamento incondicional. Chefe de Redação da TRIBUNA DA IMPRENSA, fui preso, torturado e mantido no cárcere por um ano e meio sob a acusação de "terrorismo".  Muitos dos meus colegas sabiam que,  não obstante minha firme oposição ao regime, não estava ligado a nenhum grupo da luta armada. No entanto, O GLOBO chegou a publicar uma foto minha como "terrorista e assaltante de banco", o que me custou uma situação desconfortável na própria TRIBUNA e me valeu anos de ostracismo e sacrifício familiar depois que fui julgado e absolvido na 1ª Auditoria da Marinha.

A ÚLTIMA HORA de Samuel Wainer, onde dei meus primeiros passos profissionais, publicou uma foto minha de primeira página apontando-me como "agente do Al Fatah" por conta das minhas antigas posições em defesa dos palestinos já na década de 60.

Quem é ele que se vestia com a mesma roupa do Caio e

 que está ao lado da polícia? A pergunta está nas redes sociais

Revejo esse comportamento torpe no noticiário exacerbado, repetido, manipulado, carnavalesco, sobre esse incidente do rojão que vitimou nosso colega Santiago Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes, transformado num pretexto bestial para criminalizar os protestos populares e para atingir partidos que não rezam por nenhuma cartilha do poder, tanto como para atingir o político que ameaça derrotar o medíocre candidato tirado do bolso do colete do governador Sérgio Cabral Filho.

Decididamente, parece claro que o sistema operou em sintonia para construir seu próprio terrorismo, transformando a explosão do rojão na cabeça do cinegrafista num caso de segurança nacional, criando monstros e incursionando perigosamente em ilações irresponsáveis que chegam ao cúmulo de atingir legendas como o PSOL e o PSTU, que em muitas manifestações no ano passado foram hostilizadas pela massa heterogênea de manifestantes, no seio dos quais muitos tratavam por igual representantes de todo e qualquer partido.

De tal direcionamento foi o noticiário a respeito que já no dia posterior à explosão do rojão eu tive a nítida impressão de que a mídia torcia pela morte do cinegrafista, por que o sistema precisava de um cadáver, de uma vítima fatal dos manifestantes, assim como a ditadura acusava os oposicionistas inclusive pelas bombas que mandava botar, como no Riocentro, para incriminar oposicionistas e justificar o chumbo grosso que atingiu centenas de brasileiros, mortos nas masmorras da tortura, como Rubem Paiva, Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, citando apenas alguns que estavam claramente fora da contestação mais radical.

Nessa operação "de Estado", aconteceram coisas absolutamente despropositadas. Os advogados que apareceram para defender os acusados fizeram um jogo claramente atípico, forçando a "delação premiada" e dando insumos para a manipulação tendenciosa das declarações dos seus clientes. Eles próprias se tornaram condutos das afirmações atribuídas a eles.

Um delegado desconhecido, querendo aparecer bem na fita, resolveu fazer o mesmo que fazia o promotor Manes Leitão, o mais canalha da ditadura, para elevar ao máximo a punição dos rapazes. Neste caso, apesar das evidências sobre a inexistência de dolo (quando há intenção de matar), o delegado fez questão de alardear que os rapazes podem pegar até 35 anos de cadeia, com o que ajuda a acuar os indignados que, de uma forma ou de outra, expressam nas ruas os sentimentos de uma população que cansou de ser enganada.

Vídeos exibidos nas redes sociais parecem muito mais verídicos, quando mostram policiais infiltrados e diferenças entre suspeitos: é temerário e irresponsavelmente precipitado incriminar esses dois rapazes numa investigação sumária sob encomenda. Amanhã, se provarem a inocência deles, o Estado vai ter uma responsabilidade moral impagável,  pois tudo é possível que tenha acontecido.

E a utilização de um rojão como arma mortal é coisa de quem lida com explosivos, de onde se pode supor que estejamos diante de uma farsa com o mesmo escopo da bomba do Riocentro.

Vídeo mostra policiais infiltrados confundidos com manifestantes

Ontem mesmo, em Brasília, como reconheceu o ministro Gilberto Carvalho, a PM partiu para a provocação, ao trancar um ônibus usado pelo MST sob a alegação de que as cruzes que estavam lá eram "porretes para confrontos com policiais", o que deu margem à reação dos manifestantes.

Curiosamente, há quase uma semana os moradores de uma favela de Jacarepaguá estão fazendo manifestações na Praça Seca em protesto contra a morte de dois jovens, sem nenhum antecedente criminal, vítimas das balas de policiais despreparados e truculentos.  A morte desses jovens, que também são "filhos de Deus",  não causou indignação dessa mídia manipuladora, embora neste caso o DOLO salte à vista.

A espetacularização do caso do cinegrafista apresentou lances absolutamente insólitos. Apesar da característica de sua morte, a família tratou de doar seus órgãos, impedindo exames mais rigorosos que estudassem, inclusive, a evolução do seu estado durante o período em que esteve hospitalizado.

Bizarro e absolutamente desconfortável foi a viúva aparecer no enterro, juntamente com alguns parentes, vestida com a camisa do Flamengo, como se esse figurino fizesse parte de todo o esquema montado: o mínimo que peço aos meus é que, em qualquer circunstância, sejam os mais sóbrios possíveis quando o meu dia chegar.

Com certeza, o sistema jogou todas as suas cartas na exploração da morte do cinegrafista, querendo matar vários coelhos de uma só cajadada.  Até criminalizar vereadores que deram 200 reais para as despesas dos manifestantes que ficaram dias acampados em frente à Câmara entrou no rol das indignidades, tudo para quebrar o prestígio dos partidos que estão de fora desse perigoso jogo do poder, onde a corrupção, a propina e o suborno são os elementos motores.

Não sei a esta altura dos acontecimentos se todo o espetáculo midiático vai inibir manifestações de ruas, esperadas diante da incúria e da cumplicidade, do desvio dos dinheiros públicos, do abandono da saúde e da educação pública.

Parece que não.  Mas por algum tempo muitos jovens da periferia, ao contrário do que declarou o prefeito Eduardo Paes, um bobalhão de carteirinha, que os taxou de "filhinhos de papai", como ele, vão temer virar novos bodes expiatórios de um rolo compressor midiático sem qualquer compromisso com a verdade e a lógica.

Ontem mesmo, manifestantes voltaram a ocupar a Avenida Presidente Vargas contra os aumentos das passagens, autorizadas pelo prefeito, embora técnicos do Tribunal de Contas do Município, que tiveram acessos a planilhas, tenham relatado que o certo seria reduzi-las, por que elas estão superfaturadas.

Quando a população acordar dessa dose cavalar de inibidores que o noticiário recente disseminou sua indignação poderá ser maior ainda. Que mais pessoas sairão às ruas e que as urnas reflitam também toda a indignação de um povo espoliado e enganado por todos os que exercem esses podres poderes. 

Nilo Batista contesta investigação manipulada

Em irretocável artigo sobre os acontecimentos que culminaram com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, o professor Nilo Batista demonstra claramente falhas graves nas investigações sob a inspiração  do "fascismo punitivista", em meio a uma campanha midiática que pedia resposta policial imediata.

Pela sua oportuníssima contribuição à compreensão dos fatos,  transcrevemos seu artigo no blog Debate Brasil, que você poderá acessar daqui mesmo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O desespero da medicina mercantil

Sentindo-se ameaçado pelo desempenho dos cubanos no Brasil, CFM oferece empregos "administrativos" para cooptá-los
No mesmo momento em que os funcionários dos hospitais federais entram em greve no Rio de Janeiro contra o controle de suas frequências através do ponto eletrônico, o Conselho de Medicina assume sem qualquer constrangimento uma estranha cruzada para oferecer "vagas administrativas" aos cubanos que desertarem do programa Mais Médicos, que está levando saúde a lugares do país que jamais viram um jaleco.
Isso seria surpreendente se essa entidade que congrega compulsoriamente 400 mil profissionais formados em universidades públicas e faculdades privadas não tivesse deturpado suas funções para acrescentar, ainda que informalmente, mais um "M" em sua sigla, de forma a identificar-se com as congêneres na sustentação da saúde de mercado, independente do médico das universidades oficiais ter custado mais de R$ 1 milhão a todos os contribuintes, visto por quase todos eles como fregueses em potencial.

Essa nova agressão à sociedade do Conselho Federal de Medicina (de Mercado) está em sintonia com o Cuban Medical Profesional Parole, um milionário programa do Departamento de Estado norte-americano de caça e cooptação dos médicos cubanos que trabalham hoje em mais de 60 países, numa missão que teria merecido o Prêmio Nobel da Paz, se os titulares desta badalada comenda também não sofressem influência da máquina mortífera global, ao ponto de distinguirem o presidente Barack Obama no início de um mandato em que triplicou suas tropas no Afeganistão.

Numa sociedade inercial, em que suas proeminências em todos os campos degeneraram por completo, a elite mercantilista que disputa a saúde dos brasileiros com a mesma cobiça e a mesma volúpia dos vendedores de eletrônicos parece em palpos de aranha com a possibilidade da mudança de foco pela rápida alteração dos índices nas distantes cidades atendidas pelos vocacionados médicos formados com outra cabeça, longe dos caça-níqueis do sistema mercantil.

Como é do conhecimento de todo o mundo, inclusive das publicações científicas dos Estados Unidos e da Grã Bretanha, apesar do covarde bloqueio econômico de quase meio século, da pressão perversa que obriga toda uma população a uma vida franciscana, é exatamente naquela ilha que a saúde desponta com índices de vida admiráveis, desde a natalidade à velhice, em razão de que Cuba oferece ao mundo o oposto dessas potências ensandecidas:

enquanto estas vendem armas para a morte,  o pequeno país socialista salva milhares de vida em todos os quadrantes diariamente, isto pela aplicação de um princípio elementar, de que fogem os mercantilistas do CFM (M) como o diabo foge da cruz -  a ação preventiva exercida pelo médico de família consciente.

Essa escandalosa e suspeita posição da cúpula médica brasileira é por si uma agressão ao código de ética profissional, o primeiro e originalmente o único item da norma constante do decreto do general Eurico Dutra que criou a autarquia médica.

Como uma entidade médica pode oferecer serviços administrativos a colegas que têm graduação de alto nível? Das duas uma: ou está acenando com uma licença amiga na prova de revalidação do diploma ou está querendo mesmo desqualificar aqueles que estão indo para onde os nossos "doutores" se recusaram a ir e já estão conquistando os corações e mentes daquela gente sofrida, ao ponto do programa Mais Médicos se converter na peça que vai acabar com o reino do tucanato em São Paulo e dar embasamento e gordura para facilitar a reeleição da presidenta Dilma.  

Nesses últimos 4 anos, o assédio canalha do governo norte-americano já custou  os tubos para seduzir os missionários da saúde de Cuba. No entanto, apesar do envolvimento de bandidos e mercenários sem escrúpulos, de um total de 83 mil médicos e enfermeiros espalhados principalmente pelas regiões mais pobres de países sem condição de cuidar da saúde de quem não tem dinheiro, nesse período só foi possível subornar 1574 profissionais, ou seja, 1,89% dos cubanos dedicados de corpo e alma à mais sagrada das missões.

O Conselho Federal de Medicina (de Mercado) se animou a se expor nessa empreitada deprimente depois que a Associação Médica Brasileira (farinha do mesmo saco) ofereceu emprego à médica cubana Ramona Rodrigues,  de 51 anos, que se deu mal na primeira tentativa de entrar no programa norte-americano de cooptação, por que, na verdade, tudo o que ela queria era ir ao encontro de um namorado em Miami, conforme reportagem da FOLHA DE SÃO PAULO, o que transformou numa grande palhaçada a acolhida do ultra-latifundiário Ronaldo Caiado, que a hospedou com todas as pompas na liderança do moribundo DEM.

Isso tudo não deixa de fazer parte de uma ação orquestrada no desespero total e absoluto de uma oposição tão medíocre e tão comprometida com o que há de pior que, pela exposição de suas vísceras apodrecidas, vai garantir a vitória no primeiro turno da presidenta Dilma Rousseff, que cresce a cada babaquice explícita e recorrente dos seus adversários.

É claro que rola muito dinheiro nesse esforço concentrado para desestabilizar o programa Mais Médicos, indiferente à sorte das populações pobres atendidas, e tanta grana a alguns outros cubanos pode seduzir.

Mas essa oferta aberta de qualquer coisa para comprarem médicos que sabem que estão fazendo o bem em toda a sua latitude, enquanto contribuem para a formação dos futuros colegas e retribuindo em parte o investimento que o sacrificado Estado cubano fez para formá-los, é uma ignomínia que desmascara a verdadeira natureza da oposição a esse programa já vitorioso.

Essa mesma súcia mercantilista está vibrando com a greve dos médicos dos hospitais federais do Rio de Janeiro, que querem conciliar a baixa remuneração com a carga horária, como sempre aconteceu na prática, o que será difícil agora, com a determinação do Tribunal de Contas da União da instalação do  ponto eletrônico para uma jornada de 40 horas prevista em contrato.

Por que para a hidra privada da saúde o sucateamento da rede pública é mamão com açúcar. Já passam de 40 milhões os que pagam os planos e estes precisam de mais fregueses para sustentar seus lucros fabulosos, mesmo vendendo serviços tão precários como os do SUS - Sistema Único de Saúde. Mesmo contando com o carinho e afeto das elites mercantilistas que submetem a classe aos seus ditames mais mesquinhos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Foram eles, sim, esconder por que?

Tentar omitir a Ponte Rio-Niterói como obra positiva da ditadura é simular punição compensatória

 Não sei como você entenderá o escrito de hoje. Sei, sim, que seria mais aconselhável omitir-me a respeito, pois estou entrando numa tremenda dividida - pra lá de desigual; portanto de risco visível.

Mas não consegui me conter diante da reportagem de 4 páginas do jornal O GLOBO de hoje, sob o título A PONTE DA DITADURA, na qual consta que o Ministério Público Federal pretende peticionar a mudança do nome da Ponte Rio-Niterói, pela alusão ao general Artur da Costa e Silva.


A primeira impressão que me ocorreu foi de hipocrisia, covardia, demagogia e mesquinharia. Coisa de quem colaborou e se deu muito bem naqueles anos de chumbo e agora está tentando passar uma borracha.

Por que a história não pode deixar de registrar a incontestável verdade, que só por desonestidade ou má fé se tentaria escamotear: essa obra gigantesca só foi possível graças à determinação do regime militar, que chegou a estatizar o consórcio construtor diante dos mal feitos constatados, sinal de que, ao contrário do que costuma acontecer  nas obras desta suposta democracia vigente, os militares não tinham rabo preso com os empreiteiros naquela construção.

Assim como quase ninguém sabe que o Maracanã foi batizado de Estádio Mário Filho, a Linha Amarela de Avenida Carlos Lacerda, e a Linha Vermelha de Linha Expressa Presidente João Goulart, também não pegou na memória popular o decreto que deu o nome de Presidente Artur Costa e Silva à terceira maior ponte do  mundo (quando ficou pronta).

Essa iniciativa agora de cassar o nome do general é que vai acabar difundindo mais amplamente a informação, criando uma polêmica diversionista e mau caráter. É como se assim estivessem lavando as almas das vítimas da ditadura, compensando a impunidade dos responsáveis pelos seus crimes nos porões da repressão.

 Essa transformação do inventário do regime militar em peça simbólica e meramente midiática é pura má fé. É jogo de cena de quem cultiva a "indústria das sensações", fazendo da mistificação e do embuste fontes de cortinas de fumaça desonestas e manipuladoras. Oferecem-nos, assim, a "sensação de que a  ditadura  está sendo punida".

Com a autoridade de quem combateu o regime  do primeiro ao último dia, de quem foi preso por um ano e meio e torturado por 16 dias no Cenimar, de quem teve sua carreira profissional quase destruída por perseguição política, não me considero cego em relação a certos fatos  históricos: não posso deixar de reconhecer o que se fez de positivo nesse período, em obras corajosas de que até hoje desfrutamos, como o caso da Ponte Rio-Niterói, por  onde passam atualmente 150 mil veículos todos os dias.

Sei que essa minha postura pode parecer contraditória. Já escrevi lamentando que os nomes dos próceres da ditadura permaneçam em escolas, ruas e locais por iniciativas sem nexos, isto é, de forma gratuita, somente por que as autoridades civis estaduais e municipais queriam ficar bem com o regime.

Essa  ponte, inaugurada por Médici e Andreazza,
 nós vamos ficar devendo à ditadura. 
Querer apagar esse fato positivo é desonesto e
compromete o juízo imparcial da história.
Parece meio incoerente que eu esteja reagindo contra essa iniciativa ISOLADA de punir simbolicamente os PAIS DA CRIANÇA. Aos olhos das torcidas organizadas dos partidos e correntes eu vou "de um lado para outro", como se fosse minha obrigação fechar com esse ou aquele grupo, no qual não poderia ver defeito. Ou criticar seus atos.

Vacinado, não me sinto comprometido com nenhuma seita e sempre achei que o certo é o certo, o errado é o errado, envolva quem esteja envolvendo.  Mesmo meus amigos podem errar; mesmo meus adversários podem acertar.
Como sempre, estou aberto a comentários dos meus parceiros-leitores, mas por causa desse caso da Ponte Rio Niterói, sinto-me na obrigação de procurar um entendimento mais lúcido e equilibrado do processo histórico. Será possível admitir, por exemplo, a coragem com que o general Geisel peitou os Estados Unidos ao preferir a tecnologia alemã na instalação das usinas nucleares, quando foi o primeiro país a reconhecer a independência da Angola, sob o governo do MPLA, e quando reconheceu a China Comunista, rompendo com Taiwan?

É complicado: não imagino um nome para a obra da Ponte que esqueça aqueles que empenharam todo o poder acumulado para vê-la construída sobre um mar de dúvidas e incertezas. Gostemos ou não, essa construção gigantesca, sem precedentes na engenharia brasileira, só foi possível pela determinação de alguns militares, pelo envolvimento apaixonado do coronel Mário Andreazzza, como ministro dos Transportes, que chegou a se mudar para o seu canteiro em meio a notícias de falhas e vacilações.

Vou me aprofundar na análise da punição simbólica, mas desde já afirmo: se querem apagar o mérito de quem fez a Ponte Rio Niterói, que levantem a lista completa dos estigmatizáveis. E não fiquem querendo parecer democratas de forma tão oportunista e seletiva, justo onde os militares nos legaram benefícios.
Nesse caso, a serem "coerentes", os defensores desse tipo de punição deveriam propor a demolição pura e simples da Ponte, já que ela tem indiscutivelmente a cara da ditadura
E aí se formaria um desses consórcios de cartas marcadas, da "bola da vez" para construir em seu lugar, quem sabe, um túnel, como idealizou D. Pedro II e como se cogitou na década de 50: como, alias,  adora o prefeito Eduardo Paes.

Poderiam, de quebra, procurar saber das obras inacabadas dos "governos democráticos", como a Ferrovia Norte-Sul, e das verdadeiras razões das obras de destruição, como essa irresponsável demolição do Elevado da Perimetral no Rio de Janeiro, em que vão gastar mais de 1 bilhão e meio de reais.

Quem jogar para a plateia, ninguém pode impedir.  Mas não contem comigo nessas encenações  mesquinhas e desnecessárias, típicas de quem viu o galo cantar, mas não sabe aonde.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Sob o domínio do oligopólio bancário

Lucros recordes e sonegação bilionária deixam governo mal na fita e MST rompe "silêncio respeitoso"


O oligopólio financeiro está em festa: nesta terça-feira, dia 4 de fevereiro, o todo poderoso Itaú contabilizou lucro de R$ 15,695 bilhões em 2013, o maior da história dos bancos no Brasil.  O resultado representa 15,5% mais do que o obtido em 2012 (R$ 13,594 bilhões). Isto é, esse grupo, um dos dois "únicos" bancos privados  nacionais de varejo, teve um avanço percentual 5 vezes superior ao do PIB. 
Antes, no dia 30 de dezembro, o Bradesco havia registrado um lucro líquido de R$ 12,011 bilhões. Os dois somaram ganhos de R$ 27,706 bilhões, ou R$ 2,809 bilhões a mais do que toda a "ajuda" de R$ 24,897 bilhões do governo a 50 milhões de brasileiros, através do programa bolsa-família, embora este tenha registrado um aumento mensal por família de R$ 107,00 para R$ 216,00, segundo o Ministério de Desenvolvimento Social.

Esse mesmo Itaú foi intimado no último dia 30 pela Receita Federal a pagar R$ 18,7 bilhões por sonegação fiscal, na fusão com o Unibanco, em 2008. A Receita Federal está cobrando R$ 11,845 bilhões em Imposto de Renda e mais R$ 6,867 bilhões em Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), acrescidos de multa e juros.

O Itaú já havia sido autuado pela Receita em agosto do ano passado, em decorrência dos instrumentos contábeis usados para a unificação das operações com o Unibanco. Em nota "ao mercado", sua diretoria reafirmou que irá recorrer da decisão e que considera "remoto" o risco de perder a causa.

Resta saber até onde podem chegar os fiscais da Fazenda na tentativa de recuperar o  dinheiro sonegado, cujo total é maior do que o seu lucro líquido recorde de 2013. Quando afirma que são remotas as possibilidades de pagar o rombo, detectado numa investigação de 4 anos, o banco não deve estar jogando conversa fora.

O oligopólio consentido (ou estimulado) está entregando todo o país nas mãos de meia dúzia de banqueiros, cuja atividade essencial é a AGIOTAGEM - sem tirar nem por.

MST aponta poder das oligarquias

Stédile apontou aliança do governo com as oligarquias
Enquanto isso, o líder do MST, João Pedro Stédile, saia de um "silêncio respeitoso", para declarar, ao Jornal do Comércio de Porto Alegre, nesta segunda-feira, dia 3, que o governo petista fez uma opção pelos ricos, ao paralisar a reformar agrária e aliar-se às oligarquias, principalmente aos latifundiários do agronegócio.

João Pedro Stédile não poupou críticas aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, ambos do PT. O líder nacional do MST criticou a política do atual governo em promover concessões de setores estratégicos. Sobre a política econômica do governo de coalizão, acredita que é necessário realizar mudanças, barrar o superávit primário e destinar os R$ 280 bilhões anuais, hoje pagos em juros aos bancos, para educação, saúde, reforma agrária e transporte público. Reitera que, para que haja essas mudanças estruturais, será necessário primeiro promover uma reforma política para que o poder seja exercido pelo povo, “e não contra ele”.

O governo Dilma é refém do agronegócio e da falácia de que as exportações agrícolas são necessárias. Nenhum país do mundo se desenvolveu vendendo matérias primas. Olha, somos o maior exportador mundial de couro cru e os maiores importadores de tênis da China. Isso é uma vergonha. Somos o maior exportador de minério de ferro, sem pagar nada de imposto, e depois compramos até trilho de trem, ferro elétrico, e ventilador da China. Vendemos soja em grão e depois importamos leite em pó. E esse modelo anacrônico, até do ponto de vista agronômico, transformou a agricultura em refém dos venenos. Somos o maior consumidor mundial de venenos, 20% de todos os venenos do mundo, sem nenhuma necessidade agronômica. Nós estamos aplicando em media 15 litros de venenos por hectare por ano, e consumimos cinco litros por habitante ano. E ele mata a biodiversidade, mata os rios, a água subterrânea, contamina o ar, a chuva, e fica nos alimentos, para depois virar câncer. Esse é o preço que o povo esta pagando pela falácia do agronegócio.

Para João Paulo Stédile, Dilma encabeça "um governo de composição, de coalizão de todas as classes, em que o agronegócio tem hegemonia e os setores favoráveis à reforma agrária são minoritários. Somado a isso, há o contexto da agricultura dominada pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais. E é um Estado dominado pela burguesia, que tem controle absoluto do poder Judiciário e do Congresso para se proteger contra qualquer mudança".

Não dá para esconder o poder dos oligopólios

Não precisa ser um radical de esquerda para detectar no atual governo tudo de bom para o fortalecimento do modelo capitalista neoliberal, com um grau de eficiências anos à frente dos seus antecessores tucanos e do próprio regime militar bancado pelos interesses norte-americanos.

O aumento vertiginoso dos lucros dos 6 grandes bancos (incluindo o BB, que teve um percentual de participação estrangeira aumentado, e a Caixa Econômica) suplanta até os avanços recordes da China, hoje o maior exportador do mundo.

Estamos definitivamente nas mãos de um oligarquia especulativa e esse crescimento se deu curiosamente nos governos encabeçados pelo Partido dos Trabalhadores. Na área bancária, além do Itaú,Bradesco, BB e Caixa, só temos à mão no varejo dois bancos estrangeiros - Santander e HSBC. Com o formato da nossa economia e seu poder político, não causa espanto que os dois maiores bancos privados exibam números tão robustos.

Mesmo no mais ortodoxo dos capitalismos, essa oligolipolização do sistema é evitada. Os bancos hoje atuam em todas as esferas da economia com participação direta, como na Vale do Rio Doce, cujo maior acionista é o Bradesco. O mais grave é que esses "desempenhos" se confundem com baixas remunerações de pessoal, além da sua substituição por máquinas, caixas eletrônicos e internet.

Do jeito que os bancos e o agronegócio estão bombando, o país se vê impossibilitado de uma política estratégica de interesse social, limitando-se às medidas compensatórias que se tornaram um fim em si. Além disso, as grandes empreiteiras estão cada vez mais gordas, a indústria automobilística dita a política de transportes e os serviços públicos concedidos operam de olho tão somente na  busca de ganhos exorbitantes, com a ostensiva queda de sua qualidade. De tal sorte é a distorção, que o sistema de eletricidade apresenta problemas quase diários: afinal, os grandes investimentos previstos nas concessões ficaram no papel e o governo aceita tudo como a maior naturalidade.

No combate a essa desfiguração, não é honesto vir com conversas fiadas. Mais do que disse o líder do MST, o governo é hoje refém de alguns poucos grupos econômicos, em áreas estratégicas. E parece aceitar tudo isso como um fato consumado.


Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.