domingo, 12 de outubro de 2014

A trincheira de cada um

Marina desbundou de vez, rendeu-se ao que há de pior, mas em compensação ainda há lucidez neste país 

"Aqueles que estão comigo representam o meu projeto de país: de avanço. Os que estão do outro lado representam o retrocesso!".
Dilma Rousseff
Depois de um mal produzido jogo de cenas, na tentativa de provocar um frenesi orgástico no ambiente político, a ex-petista (25 anos de casa) Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima, nascida Maria Osmarina Silva de Souza, soltou um traque ao anunciar o óbvio: ela e Neca Setúbal, mais a tropa cartorial e  fisiológica do PSB pernambucano juntaram os seus trapos aos do Aécio Neves da Cunha, o menino prodígio que aos 25 anos já era diretor da Caixa Econômica Federal no trem da alegria tucano.
Pela demora de sua declaração de voto e pelas encenações iluminadas passo a passo por uma mídia amiga pode-se imaginar quantas cartadas rolaram entre 4 paredes: em público, ela ficou chupando dedo - a tal exigência do fim da reeleição evaporou-se  e agora a boa moça terá a cínica tarefa de dizer aos  que acreditaram na sua peroração de mudança que aquela resistência aos tucanos de alta plumagem, como Alckmin da "Opus Dei" ultrarreacionária, não passava de letra morta em sua obtusa catilinária de laboratório.

Agora o país terá na mesma nau do retrocesso do capitão Bolsonaro, direitista raivoso,  ao senador Cristovam Buarque (que decepção): do papo reto Eduardo Jorge ao homofóbico pastor Everaldo, nos uniformes de escudeiros daquelas cruzadas da inquisição com a missão de arrasar tudo o que se tentou para minimizar o sofrimento do povaréu, incluindo o imediato restabelecimento do ARROCHO SALARIAL e a mitigação de tudo o que arranhar a pirâmide social, conforme a exigência da burguesia e da alta classe média segundo a qual  o pobre tem de reconhecer o seu lugar de subalterno.  Vale lembrar, a propósito, que o primeiro acordo de Aécio Neves da Cunha foi com a medicina mercantil, para desmontar o programa Mais Médicos, que está levando assistência a 50 milhões de cidadãos das periferias e mostrando que a saúde preventiva de baixo custo é o santo remédio que, para os mercantilistas, se tornou um grande purgante.

É a oxigenação com os gases da felonia, a ressurreição do capitalismo selvagem, a volta da intolerância dos nostálgicos da ditadura (que detonarão a Comissão da Verdade) a hegemonia do mercado especulativo e aquela velha receita do tempo em que o governo tucano resistia até a um salário mínimo de 100 dólares (R$ 245,00, no câmbio de hoje e R$ 177,00 no de 2000): isso esses políticos multifacéticos podem esquecer, o povo, não.

Do jeito que as notícias chegam, a sensação que tenho é que Dilma não está tendo o devido apoio em casa. Aqui na cidade do Rio de Janeiro, onde ela ficou em terceiro lugar, não se acha um adesivo para pôr num carro, ao contrário do seu adversário que fez panfletagem em todos os bairros. Até agora, domingo 12 de outubro, estamos sentindo falta de Lula no programa eleitoral, como no primeiro turno, embora não tenhamos a menor dúvida do seu engajamento. E nem entendemos por que o presidente do PT, Rui Falcão, já está cogitando da candidatura dele em 2018, quando há uma eleição difícil à porta.

Deputados do PSOL: lúcidos e coerentes.
O contraponto a isso é a lucidez de alguns próceres admiráveis,  como Marcelo Freixo e os deputados federais do PSOL, que declararam seu voto crítico contra o retrocesso visível na aliança adúltera encabeçada por Aécio Neves da Cunha.

Mais ainda valeu a posição tomada pelo professor Roberto Amaral, cearense da gota serena, que chutou o pau da barraca montado pelo esquema cartorial do PSB, que enfeixa as decisões nas mãos dos súditos da moderna oligarquia pernambucana, e fez a mais pungente declaração de dignidade:

  "Qual o papel de um partido socialista no Brasil de hoje? Não será o de promover a conciliação com o capital em detrimento do trabalho; não será o de aceitar a pobreza e a exploração do homem pelo homem como fenômeno natural e irrecorrível; não será o de desaparelhar o Estado em favor do grande capital, nem renunciar à soberania e subordinar-se ao capital financeiro que construiu a crise de 2008 e construirá tantas outras quantas sejam necessárias à expansão do seu domínio, movendo mesmo guerras odientas para atender aos insaciáveis interesses monopolísticos".

Não estou aqui para avaliar possibilidades eleitorais. Nessa primeira vez em que voto numa candidata do PT, tive a percepção do rancor das classes opressoras, arrogantes, insensíveis, despertadas por algumas boas coisas que ela fez e vi o ódio que ela atraiu ao topar passar a limpo os crimes da ditadura, mesmo sem punição prevista, através da Comissão da Verdade.

Mas a minha indignação sobe às paredes.  Como pode alguém que se deu bem na vida pública com um discurso de esquerda oferecer o que resta de sua credibilidade numa aliança covarde com  generais carrancudos do Clube Militar, que se transformou num comitê tucano, e espera que Aécio Neves da Cunha interrompa “o projeto de poder representado pelo PT, em marcha acelerada para a sovietização do país”? 

Aliás, vale ressaltar: o capitão Bolsonaro é muito mais tolerável por que se assume de direita e defende a ditadura com todo desvelo, sonhando que o Brasil ainda volte àqueles tempos dos mortos e desaparecidos nos porões do DOI-CODI.  Ele é transparente em seus posicionamentos e representa um bolsão de eleitores com os mesmos anseios.
Pior do que ele, muito pior, são os ditos democratas e progressistas que enganam à massa sofrida, porque só têm olhos para seus  apetites pessoais, para suas carreiras e para a fogueira de vaidades em que assam suas consciências.
Não há de ser nada. Como diz o velho ditado: é mais fácil pegar um farsante do que um coxo.


Um comentário:

  1. JORGE SÁVIO (por e-mail)2:33 AM

    Porfírio
    Respondo como quem assina dois manifestos.
    Muito teríamos a acrescentar, mas os espaços são poucos, além do tempo.
    Poucas vezes, como em 1964, a urdidura foi tão violenta.
    Os avanços, poucos, mas importantes, estão na iminência de se esfacelarem.
    Pouco se pode fazer, tão absoluto é o controle da informação. A internet não é suficiente.
    Todos os veículos de comunicação de massa operam a demolição.
    Você e Roberto são vozes que se bradam pela clareza.
    Não podemos assistir novo golpe da extrema direita.
    Os quatro governadores de 1964 eram bondes da droga que vinha embalada em anticomunismo.
    Cairemos novamente?

    Grande abraço em você e no Roberto Amaral.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.