segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Um poço de incoerências

“Se a companheira está chateada porque eu não escolhi ela, paciência. Agora, não vá chorar na imprensa dizendo que eu falei mal, porque eu nunca falei o nome dela em nenhum comício, a não ser aqui hoje. Ela que chore por outras coisas que quiser chorar. Eu não perco amizade por divergência política”
Lula

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Ricardo Melo na FOLHA DE S PAULO: Marina corre risco de virar apenas errata de si mesma

Primeiro foi a "correção" movida por pressões religiosas. Depois, uma equipe onde fulguram expoentes conservadores. Nos bastidores, um movimento ostensivo em direção à banca internacional e aos chamados socialites. Afinal, de que Marina Silva está se falando?

Com direito a choro e declarações piedosas —"ofereço a outra face"—, a candidata do PSB culpa opositores de baixar o nível. Todos estamos cansados de saber que campanhas nunca foram cursos de boas maneiras. Mas os fatos, na essência, desautorizam os queixumes da candidata e de seus neodefensores.

Marina foi cria do PT, ministra do governo Lula e sempre esteve associada às políticas do partido. Agora renega tudo, acusando a agremiação de ser um covil de corruptos e de indicar assaltantes de estatais. Embora ela tenha se desligado da legenda, seu marido, Fábio Vaz, permaneceu como homem forte do governo petista do Acre até a undécima hora. Só largou o osso pouco antes de a "providência divina" entrar em cena. Mesmo assim, Vaz diz votar no PT para o governo estadual, partido que Marina considera uma escola de ladrões.

Nas questões programáticas, em qual Marina acreditar? Além das erratas iniciais, ela condenava transgênicos; agora não é bem assim. Foi a favor da revisão da Lei de Anistia, mas isso virou coisa do passado. Dizia defender os direitos dos trabalhadores; hoje o partido que representa apoia a terceirização, eufemismo responsável pela dilapidação de conquistas dos assalariados. E por aí vai.

A escolha de colaboradores tornou-se assunto incandescente. O déjà vu é a marca registrada da equipe. Economistas como André "Haras" Resende, que fez fortuna no mercado financeiro durante o mandarinato tucano, foi chamado a abandonar seus puros-sangues para ajudar a candidata. Beto Albuquerque, o vice da chapa, é sabidamente ponte com agronegócio e setores antes satanizados pela outrora ambientalista.

Ocioso falar da banqueira, sua porta-voz, financiadora direta e herdeira do grupo Itaú. Detalhe: o que mais interessa em Neca Setúbal, desculpem a intimidade, não é o fato de viver de dividendos da usura descarada do sistema financeiro. São suas propostas, baseadas na receita que mergulhou o mundo na mais grave crise desde 1929. Para quem não sabe, as 20 maiores economias do planeta colecionam hoje mais de 100 milhões de desempregados! Os números, impressionantes e nunca contestados, são da Organização Internacional do Trabalho.

A resistência da candidata em revelar suas fontes de renda incomoda. Não vale comparar com o dinheiro recebido por FHC e Lula em palestras ...após seus mandatos. Ao que se sabe, ambos atualmente estão fora de cargos públicos. Com Marina é diferente: ela é candidata. Candidatíssima. Não cabe ao eleitor se informar sobre o sustento de quem postula a direção do país? Alegar "confidencialidade", neste caso, é no mínimo desconfortável.

A grande questão de Marina Silva é definir quem ela é. A conduta atual conflita com sua biografia pregressa, pelo menos na parte conhecida pelo público. Isso não é culpa de adversários e opositores nem de temperatura de campanha eleitoral. Cabe a ela decidir se mantém alguma coerência ou se, como candidata, será reduzida a uma errata de si mesma.
Ricardo Melo, jornalista. 


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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.