sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Os abutres

O mau tempo que ceifou a vida de um presidenciável expôs também o mau caráter de quem só joga para si


Como sói acontecer, ao cadáver exposto acorrem os abutres cheios de apetites. Querem por que querem devorar as vísceras ainda mornas na corrida sôfrega pelo cetro afortunado. Foi-se a vida, mas ficou a herança jacente, partilhável aos dotados dos parentescos alegados.    
À vida precocemente finda oferecem as pompas do adeus espetaculoso. A morte celebra o herói e produz as lágrimas de uma unanimidade hipócrita e momentânea. Disputa-se o espólio, como degrau de acesso ao poder, e ao infortúnio imprevisto sucede-se a caça de todos, e de cada um, ao que resta de valor, e o que resta teria o pendor áureo de um tesouro.

Ao primeiro minuto do desenlace trágico correram os especialistas a decifrar os signos de aproximação.  Como ficará agora? O que é melhor para os demais, o que cada um poderá auferir por osmose? Ou o que cada um pode forjar em seus laboratórios de espertezas?

O agora herói chegou até aquele vôo por seu brilho pessoal. Por seu desempenho e seu carisma. Mas a sua era uma turma mirrada, como de praxe nesses bolsões lacrados: não se permitia que fecundasse outro do mesmo quilate. No primeiro plano, ou era ele ou ele. 

O destino de caprichos imprevisíveis enxertou-lhe um reforço eventual. A nova parceira não trazia tropas, mas uma aura e uma fanfarra de apelos atraentes. Noviça no alpendre, sem fôlego para a própria casa grande, surpreendeu até aos próximos na decisão de pegar o bonde andando, sabendo que teria de aceitar o condutor por uma temporada.  Mas foi o que lhe pareceu mais conveniente.

O conflito de egos falou mais alto e o convívio afigurou-se mais temporário do que o esperado. Para a platéia, porém, ia tudo bem, como nesses matrimônios aristocráticos. O próprio precisava muito daquele casamento, que realmente algum dote trazia. Não tanto quanto esperava, até por alguns barracos insólitos: a nubente e sua estirpe cintilante não se misturavam aos hospedeiros. E não engoliam acordos em desacordo com seus costumes.

Ela própria, a vedete, ainda não se resolveu sobre o seu script. Glorificada por alienantes que a consideram frágil e susceptível ao contraponto do retorno, tem alguns sobressaltos próprios dos deuses, logo os deuses indomáveis. Que não abrem mão do protagonismo.

Ia tudo sob as cândidas aparências, sapo engolindo sapo na penumbra, até que o mau tempo, o cansaço dos pilotos e sei mais o que explodiram os sonhos de um jovem ousado, deixando no ar destroços de um quebra-cabeça embaraçoso.

Agora, nestes dias frios de um inverno sonolento, os abutres avaliam o que será mais proveitoso dessa sepultura para sua caça ao poder. À primeira vista, imaginam explorar o potencial de quem já teve sucesso ao postar-se à margem do confronto principal. Uma outra voz oposicionista soma para garantir um segundo turno e presume uma mistura inercial nesse capítulo. Esse é o jogo, conforme os compêndios.

Mas esses mesmos abutres temem uma troca de papéis. Ao contrário do herói, que ainda desabrochava, a estrela que ressurge é conhecida e festejada nos quatro cantos.

Ela pode, sim, forçar um segundo turno, mas sem a figura deletéria que se encaixa por contrato no projeto do retrocesso, cujo hit central é esvaziar os bolsos do populacho, aumentar os juros e elevar as tarifas das concessionárias premiadas em seu reinado, sob pretexto de combater a inflação com a receita ortodoxa e evitar uma suposta crise financeira.

Pode dar zebra, pensam os mais prudentes, por que seu produto é um bibelô de argila quebrável. Essa é, neste momento, a dúvida atroz dos abutres. Por que a maioria da turma que ficou órfã prefere retornar ao leito histórico, que desfrutou por anos, apesar da penca de sectários que tomou pra si cada poltrona do poder.  

Essas eleições são mais presidenciais do que nunca. As outras disputas são anexas, de onde a vigarice homérica de quem considera palanques locais como âncoras e tenta chantagear os únicos protagonistas.

Daqui das margens da lagoa da Tijuca não dá para penetrar nos ambientes blindados dos fabricantes de governantes. Mas a precipitação como assimilaram a tragédia mostra o cerimonial de falsos brilhantes que sabem vender seus próprios peixes à restrita clientela pagadora, por que lhe oferece só agrados, mas não conseguem raciocinar além do trivial.

Na languidez desse pálido torneio eleitoral vai acontecer ao fim o que ia acontecer mesmo. Nada vai mudar, por que a sorte já está lançada. Em suma, faria melhor cada um se cada um cuidasse melhor de si, independente dos acidentes de percurso.

4 comentários:

  1. Júlio Curvêllo4:00 PM

    Ainda sou aspirante de preto véio. Mas já arrisco minhas previsões.
    O PSB vai enrolar até a data limite para referendar a aceitação da Marina.
    Por duas razões:
    1- Para ficar mais tempo na mídia, pir conta do falso suspense.
    2- Para que ela entenda que depende da anuência do PSB, que quer falar grosso enquanto pode.
    Depois disso, do seu alto recall de 2010 (20.000.000 de votos), associados ao halo de santidade herdado do cabeça de chapa morto em espetaculoso holocausto, vai surfar a onda da comoção popular para ultrapassar o Aecinho do Pó, duas ou três semanas após a confirmação de seu nome como nova cabeça de chapa.
    Já em cima das eleições, Aécio não terá como reverter o processo, e sai já no primeiro turno, fechando mais um ciclo de encolhimento do PSDB e aliados.
    Passada a comoção, já na campanha do segundo turno, ela vai ficar mais exposta, e será analisada com lupa pela mídia e pelos eleitores (esses últimos comprando de forma acrítica as conclusões da primeira). E não resistirá às próprias limitações, bem como às limitações verdadeiras ou falsas que a mídia decidir que ela tem. Afundará sob o peso de seu fundamentalismo religioso e de sua dificuldade de jogar o jogo midiático, que pode até atrair o voto evangélico, mas que aumentará em muito a sua taxa de rejeição junto à Classe Mérdia. Até os eleitores di PSDB irão migrar para a Dilma, para evitar o que entenderão como um mal maior.
    Vitória fácil da Dilma Rousseff, apesar de suas muitas fraquezas.

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    1. Júlio Curvêllo4:03 PM

      Errata 1- ...do alto de seu recall de 2010 ( 20.000.000 de votos ), associado...

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    2. Júlio Curvêllo4:12 PM

      Some-se à sua baixa aptidão midiática, o ódio que esta mesma mídia, comprometida ate o último parágrafo, com o agronegócio latifundiário, mecanizado e intensivamente usuário de agrotóxicos, necessariamente nutrirá pir ela.
      A receita para a crucificação midiática está pronta.

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    3. Júlio Curvêllo4:14 PM

      O tempo irá se encarregar de servir o prato.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.