quarta-feira, 27 de agosto de 2014

De mal a pior

Pesquisa expõe motivações mesquinhas contra os que mesmo com farinha farta querem seu pirão primeiro

Traduzindo: "nós, putas, insistimos que os políticos não são nossos filhos"
Não adianta xingar: a antipolítica incorporou na Marina, mandou ver e fez estragos. Se vai durar até o dia 5 de outubro são outros quinhentos. Mas que pegou meio mundo com as calças na mão, ah isso pegou feio, como aquelas passeatas de junho de 2013.
Se Marina é a destinatária pertinente, não faz diferença. Alguém tem de representar o descontentamento existencial e ela apareceu por acaso, na última volta do ponteiro, com aquela cara de vítima da malandragem que faz do poder uma festa sem fim. Ela não tinha nem legenda: a sua Rede não logrou registro, embora outras siglas sem cabeça e sem rosto tenham entrado em campo.

É toda uma quarentena até o dia da urna. Se até lá as turmas das sopas de letrinhas não caírem em si, podes crer, a antipolítica passará o rodo.  Esse arroto não é exclusividade brasileira. Como escreveu Luiz Sérgio Henriques, a antipolítica sentou praça no Ocidente:

"Há poucos anos, por exemplo, gritava-se na Argentina, em relação aos políticos: Que se vayan todos. Ainda agora, na França ou na Espanha, surgem manifestações de indignação contra as instituições e os respectivos partidos socialistas. E na Itália o fenômeno repetiu-se nas eleições de fevereiro, ainda que com nuances diferentes: ali um cômico dublê de político, Beppe Grillo, levou seu Movimento 5 Estrelas à condição de primeiro partido, individualmente considerado, na Câmara dos Deputados, obtendo de modo fulminante pouco mais de um quarto dos votos.

Grillo, protagonista inesperado da versão italiana da antipolítica, não perdeu nenhuma ocasião de agitar o tema com que conseguiu arregimentar a imensa massa de desiludidos com o sistema político tradicional: "Rendam-se, vocês (políticos de profissão) estão cercados". O ativismo digital, escolhido como instrumento privilegiado de construção do movimento e de mobilização eleitoral, apresentou-se como essencialmente participativo, de "baixo para cima", ecoando antigas aspirações de democracia direta, mas não faltou quem observasse que o protagonismo do chefe em nenhum momento fez esquecer aquele que efetivamente manda".

Aquele povo todo não saiu às ruas à toa. Foi expelido dos seus sofás sob o incenso de uma revolta emocional não declarada, imperceptível a olho nu, sem verniz ideológico ou impulsos corporativos.  Essa é também a raiz da destinação eleitoral de Marina: um sentimento de náuseas a toda essa farsa política que prostrou o Brasil no seu mais deprimente momento histórico. E que juntou e misturou quase ricos com pobres e remediados. Todos sabendo somente o que não queriam -o bastante por aquele enquanto.

Não cabe entrar no mérito. Silva, como Lula, nascida 6 anos antes de 1964, lá no Acre, Marina traduz os mesmos sentimentos mesquinhos da condição humana, a inveja motora aos que só puxam brasa para a sua sardinha e estão se dando bem, com a mão na massa e por cima da carne seca, de costas para a antiga fanfarra.

Durante quase 25 anos foi lustrada no PT e lá aprendeu a representar bem a ilusão. Foi a primeira ministra anunciada por Lula, no mesmo dia de novembro de 2002 em que ele se reuniu com George W. Bush, antes da posse. Fez a cama e ganhou fama na quermesse petista. Tornou-se o protótipo dos ambientalistas e foi ser estrela do Partido Verde, por onde se candidatou a presidente, já que o Lula preferiu Dilma Rousseff, com muito menos tempo de casa do que ela. Depois de um surpreendente desempenho nas eleições de 2010, desembarcou do PV, que já tinha donos. E ela se achava no direito de um partido sob seus caprichos, ou melhor, uma grande rede. Que ainda está nos seus planos: sua convivência no PSB hoje é declaradamente passageira, por ser mais incômoda ainda.

Ela não é o que seus possíveis eleitores sonham. Mas quem é? Não viu o Lula e o PT, que trocaram os macacões pelas casacas e entraram no dá lá toma cá dos 300 picaretas do Congresso? Que se juntaram aos porcos no mesmo lamaçal?

Aliás, não dá para entender a reação petista, que aponta Marina como instrumento do Itaú por conta do poder de fogo em seu stafe de Neca Setúbal, uma das herdeiras do maior banco do país. Quando Lula entregou o Banco Central de mão beijada a Henrique Meireles, presidente jubilado do Banco de Boston, o que falaram esses petistas?

A única coisa definida nessa última pesquisa do Ibope é que Aécio Neves virou carta fora do baralho. Não tem gás para recuperar-se por que tudo nele soa falso, como falso e melancólico é o comportamento do Sérgio Cabral, Pezão, Picciani e vassalos, remetidos para a vala dos traidores derrotados. O Aezão gorou e só deu ao tucano até agora 11% das intenções de votos no Rio de Janeiro, apesar do envolvimento de todas as máquinas do Estado e das prefeituras dependentes, ficando bem atrás de Dilma, com 38%, e Marina, 30%.

O jogo sujo, que mantém os para-brizolistas do PDT no mesmo balaio, com as sinecuras do Estado, está servindo para fortalecer Garotinho, que deu uma baita subida para 28%, deixando Pezão, Crivella e Lindberg na poeira.  E ainda deixou o arrendatário Carlos Lupi nos humilhantes 3% para o Senado, apesar das falas de Dilma, Lula e Eduardo Paes pedindo votos para ele. Nessa disputa, a liderança do ex-jogador Romário tem a ver com a mesma matriz da antipolítica que catapultou Marina.

Como esta é um fenômeno possivelmente mal configurado,  a turba da Dilma ainda pode reagir. Eu disse turba? A militância petista, no fundo, não tem a menor simpatia pela Dilma, que defenestrou alguns companheiros mal comportados. A bem da verdade, a única pessoa apaixonada por ela é o Aloísio Mercadante, com seu bigode exuberante e um lascivo apego a ela, que o promoveu duas vezes na hierarquia cortesã, dando-lhe a intimidade que nem o José Dirceu teve com Lula. Os outros querem apeá-la num "volta Lula" de emergência que ainda povoa seu imaginário.

Como a política de hoje no Brasil é uma contrafação de sua essência primária, que se deteriora ano a ano, onde campeiam a mediocridade, o arrivismo, o oportunismo e a corrupção, onde os próceres fizeram que nem o coronel Passarinho e mandaram os escrúpulos às favas, tudo pode acontecer de mal a pior. 

Não se pode nem esperar que essa insatisfação canalizada para Marina ganhe racionalidade e seja dirimida a tempo. Por que no pior dos momentos, o mais provável é o circo pegar fogo.

4 comentários:

  1. Anônimo3:44 PM

    Eu não acredito nas pesquisas do IBOPE e da DATAFOLHA.
    Foram amostrados 2.506 eleitores, para um universo de 142.822.046 eleitores no Brasil.
    Cada voto amostrado valeu por 56.992 votos reais, isto é, por um "Maracanã" cheio.
    Manipulando a amostragem, dá para chegar em qualquer resultado.
    Aguardemos a evolução dos fatos ...

    ResponderExcluir
  2. Júlio Curvêllo9:39 PM

    Acho que o fenômeno eleitoral "Marina" deve durar mais algumas semanas, refluindo paulatinamente em seguida. Mas, mesmo refluindo, deve chegar ao princípio de outubro ainda acima da farsa Aécio, eliminando-o da corrida presidencial.
    Com a superexposição derivada de sua, até tão pouco tempo, inusitada ascensão, as contradições de sua propositura irão ficar mais evidentes, e sua queda irá se acentuar.
    Aécio, assim como seu PSDB não têm substância. Marina não tem estrutura. Assim, apesar de todas suas limitações, Dilma vence por pouco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Júlio Curvêllo9:46 PM

      Quem sabe, sem ter que se preocupar com uma nova reeleição, ela não faz um governo de macho...
      PS: onde lê-se "se acentuar", leia-se "acentuar-se".

      Excluir
  3. Anônimo1:40 PM

    Marina é uma desgraça, um retrocesso sem tamanho pro Brasil.

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.