quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Apenas uma farsa

Horário eleitoral realça o logro ao princípio democrático de que todos os candidatos são iguais


Começou a propaganda eleitoral por rádio e televisão. Não há maior ferramenta de preservação dos partidos dominantes. Não existe instrumento mais afiado de consolidação de uma democracia de fachada, hegemonizada pelo poder econômico e pelas máquinas públicas.  A um custo aproximado de quase R$ 1 bilhão em remuneração indireta pelos cofres públicos, esse sistema de campanha, que privilegia quem tem as maiores bancadas no Congresso, reduziu a pó as campanhas de rua, acabando com os comícios e reproduzindo a força do poder econômico, extirpando o que restava de idealismo e confiança política:  hoje, alugar espaço para uma placa passou a ser um negócio informal tão corriqueiro como a contratação de panfletadores por alguns endinheirados corruptos e corruptores  que podem gastar os tubos numa campanha. Toda essa parafernália somada é, de fato, o corpo de delito de uma grande farsa pela qual são "escolhidos" os mandatários dos poderes executivos e legislativos. 
Tudo segundo os mandamentos viróticos do sistema. A política foi enxovalhada e desacreditada. São mais de 30 os partidos registrados, em sua grande maioria meramente cartoriais e disponibilizados no mercado do tempo de tevê. Pela lei brasileira, 1 terço desse espaço é distribuído igualitariamente, o bastante para que alguns picaretas ganhem um "por fora".  

E não é só: legendas absolutamente inexpressivas, como o PRTB, de Levy Fidelix, papam dinheiro público do Fundo Partidário. Em 2012 ganhou 1 milhão 261 mil reais, segundo revelou Fernando Rodrigues no UOL.   Na eleição de 2010, Fidelix teve 57.960 votos. Agora está de volta como linha auxiliar dos tucanos, nos ataques a Dilma e ao seu governo. Faz parte de uma orquestração e não seria surpresa se esse cara, como outros da mesma escória, não estiver sendo financiado para bater pelos "grandes" da oposição.

 Ante essa esculhambação fica difícil defender um horário equânime, como na França, Grã-Bretanha e Dinamarca. O que seria um fator corretivo, a cláusula de barreira, que excluiria legendas sem eleitores, foi derrubada pelo STF em 2006, dois meses depois do pleito em que entraria em vigor, 10 anos depois de aprovada.

É tudo uma grande molecagem contra a democracia, uma droga que ajuda na despolitização dos eleitores. Nas eleições de deputados e vereadores, de tantos candidatos, os votos se diluem em relações pessoais. Quem tem máquina e grana passa por cima e arrebenta. Curioso: depois das urnas eletrônicas, os mais votados bombaram, alguns tinham votação mirrada antes.

O mal da campanha midiática é seu formato "industrial", que suprime a militância, mercenariza o propagador e dá sustento ao volúvel.

A ela anexa-se a manipulação das pesquisas, compondo um quadro de deformações. Nessa que o Datafolha realizou depois da morte de Eduardo Campos, aconteceu o inexplicável: Marina saltou de 8% do herói morto para 21% sem mexer nos percentuais de Dilma e Aécio. Pode?

A disputa eleitoral é a ante-sala da governança imoral. A representatividade é comprada, chega-se ao Executivo acorrentado a tantos acordos e os investidores querem retorno no curto prazo. Uma eleição é cara para qualquer cargo. O Legislativo hipertrofiou e degenerou pelos custos de um mandato.

Mas a assimilação desse processo que torna a democracia uma mera figura de retórica é assimilada por gregos e troianos. Tudo se enquadra na sina existencial das populações, que vão ao orgasmo quando são enganadas e iludidas.


E quem ousar questionar essa farsa acaba no mais perverso dos isolamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.