domingo, 13 de julho de 2014

Para que mude o jogo

A nova copa, a eleitoral, está em nossas mãos e não, como nos gramados,  nos pés de apenas 11 jogadores

Grandes empresas, como os bancos, têm também muito interesse nas urnas e financiam candidatos que se elegem para fazer o seu jogo.
Acabou a festa da bola com seus fetiches de êxtase, viramos a página e a vida continua. Durante 32 dias não se falava de outra coisa. Pudera. Fizeram-nos o epicentro do furacão, com jogadores de 32 países, torcidas, uma mídia concentrada nas quatro linhas e patrocinadores vendendo seu peixe por todas as brechas: na hora da entrega das medalhas, destacavam-se comissárias da aérea dos Emirados Árabes. Tudo foi faturado nos seus mínimos segundos, por que as paixões abrem nossos corações a quem tiver mais visibilidade. E esse faturamento é a razão de ser de um evento dessa envergadura internacional.
Venceu a seleção da Alemanha com o discurso de um futebol modernizado. Pelo menos não dependia de um protagonista destacado. Parecia mais uma equipe, um coletivo, como tinham de ser as outras, principalmente a brasileira, que jogava em casa com o calor de 200 milhões de torcedores.

Mas o jogar em casa investiu cada atleta da síndrome do estrelismo. Seu treinador se considerava com o rei na barriga. Mandou críticos para o inferno e tirou proveito do seu mito em repetidos comerciais de tv, algo meio inusitado para quem pode passar de herói a vilão em uma hora e meia. Como aconteceu no vexame diante da mesma Alemanha que teve de fazer das tripas coração para abater os argentinos desfalcados de um dos seus astros, aquele que outro dia vimos comandar uma virada pelo Real Madrid na disputa da Taça da Europa.

Com tantos recordes negativos, a seleção brasileira ficou muito mal na fita e só não provocou uma depressão generalizada por que, ao contrário do que força a indústria do entretenimento, sua influência no comportamento social é efêmera. Mal levou os desconfortáveis 7 a 1, entrou para a crônica das galhofas. Ninguém deixou de ter orgasmo ou de desfrutar de outros prazeres por que aquela equipe era formada por gatos, vendidos como lebres.

Como a carga de envolvimento foi grande, no entanto, vai ser difícil mudar de assunto sumariamente. Mais importante é a campanha eleitoral, porém vai demorar cair a ficha. Não é por menos: o novo circo que se avizinha não será diferente na oferta de frustrações e não disporá de quase nenhum magnetismo.  

Infelizmente, por ora, nessa aí, o obscurantismo venceu: nunca a alienação e o desinteresse abriram tanto espaço para o triunfo da má fé e da mediocridade esperta; nunca as ambições pessoais conseguiram mascarar-se com tanto sucesso na arte vil de manipular e enganar a massa desinformada.

Não se vislumbra nexo entre o fiasco no futebol e uma eventual ressurreição crítica de milhões de eleitores. Os parâmetros continuam nivelando por baixo e favorecendo a quem gasta fortunas para ganhar votos, hoje e vantagens espúrias, amanhã.

Mas isso é da vida e a vida continua. Mais dia, menos dia, o jogo mudará. Nosso futebol poderá voltar ao seu leito de paixões incontidas e a cidadania poderá decidir recuperar sua capacidade decisória de pensar.

De entender que a copa eleitoral está em suas mãos e não, como nos gramados, apenas nos pés de 11 jogadores, onde o máximo que cada um pode fazer é torcer, gritar, aplaudir ou vaiar.

O que será do amanhã não há cigana que possa pressentir.  Como no futebol, temos que jogar um novo jogo, olhar para frente, sem retroceder num só passo. Não podemos esquecer que o mundo dá muitas voltas. É contando com a diferença em cada volta que não perdemos a esperança, jamais.

Um comentário:

  1. Fabiano das alagoas.11:24 AM

    É aí que está a chave da questão, adestra-se cada brasileiro coma técnico de futebol, paixão nacional, mas não educam cada brasileiro para pensar de maneira crítica e construtiva, única maneira de nos tronar um povo soberano.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.