sexta-feira, 18 de julho de 2014

Acordo fechado

Aécio promete à elite excludente detonar o programa que abala o modelo mercantil da medicina no Brasil




A primeira grande novidade dessa campanha eleitoral serviu para mostrar o tamanho do retrocesso da candidatura Aécio Neves: em troca do engajamento da cúpula da medicina mercantil, o tucano assumiu publicamente que detonará o programa Mais Médicos, uma apaixonante conquista social, graças à participação de 11 mil  cubanos entre os 15 mil envolvidos na interiorização da saúde pública. O seu compromisso  é mandá-los embora, por que eles, com seu atendimento simples e eficiente baseado na prevenção, estão ameaçando o complexo financeiro que faz da saúde um grande negócio e um privilégio em nosso país.

No mesmo dia em que disse que mudaria as regras do Mais Médicos, Aécio Neves recebeu em seu gabinete no Senado o presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), Florentino Cardoso e outros inimigos declarados da cobertura aos pobres do interior, que lhe sinalizaram apoio e criticaram o governo Dilma Rousseff na condução da política de saúde.

— Nós encontramos no candidato Aécio Neves uma enorme possibilidade de diálogo para construir algo muito diferente e muito melhor do que está posto nesse momento no nosso país. Nós temos medo de que rumos poderá tomar nosso país. A classe médica brasileira fica muito feliz em construir junto com a candidatura do senador Aécio um novo rumo para sociedade brasileira – afirmou Florentino Cardoso.

A AMB e a Federação Nacional dos Médicos aceitaram se converter agora em comitês informais de apoio à campanha do presidenciável que promete detonar o programa que beneficia 50 milhões de brasileiros e em apenas um ano apresenta números eloquentes: reduziu em 20,8 % o número de internações, e aumentou em 35% o índice de consultas na atenção básica no País.

Esse acordo que salienta o caráter reacionário da campanha tucana significa o fim do programa, como definiu o ex-ministro Alexandre Padilha:

– Na prática, mais uma vez o candidato do PSDB à Presidência não conseguiu esconder que quer acabar com o atendimento a 50 milhões de brasileiros, incluindo 7 milhões de paulistas, que antes não tinham médicos e que, graças ao programa Mais Médicos, passaram a ter atendimento básico perto de casa,  e isso, num prazo recorde de apenas dez meses.

Um dia, o médico chegou 
onde o vento faz a curva

Havia anos, havia décadas, havia um século, no mínimo, milhões de brasileiros estavam privados de um médico. Isso que para Ivan Illich,  autor da "Expropriação da Saúde",  não seria trágico, apontava uma mancha no mapa do país: a socorrer doentes, de tão distantes, só os curandeiros e as rezadeiras das redondezas.

Não havia oferta que atraísse médicos para rincões onde o vento faz a curva. Até o governador de Tocantins, o cearense Siqueira Campos, conhecido por suas ligações com a ditadura, desesperou-se: dos 139 municípios do seu Estado (maior do que o Equador), criado em 1988, 102 não sabiam o que era um jaleco branco. Não teve dúvida: apelou para Cuba e conseguiu trazer 166 profissionais, já em 1997.

Em semanas, eles já haviam conquistado o carinho das populações que atendiam. Graças a eles, hospitais como o da cidade de Araguarina foram reabertos.  Os cubanos mostravam que para salvar vida, carecia prevenir, evitando as presepadas careiras de quem exerce o ofício com avidez pecuniária e irrefreáveis sonhos de fortunas. Até a revista VEJA reconheceu o seu trabalho numa reportagem de 20 de outubro de 1999, quando escreveu com todas as letras: o milagre veio de Cuba.

Foi um Deus nos acuda: sentindo ameaçado o seu escopo, a elite mercantil capitaneada pelo Conselho Regional de Medicina mexeu seus pauzinhos e meteu bronca. Só descansou quando, em 2005, um juiz federal determinou a proibição do trabalho dos cubanos, numa liminar eivada de baboseiras, nas quais os "salvadores da lavoura" de então eram comparados a curandeiros; Na época, o vice-presidente do Conselho de Medicina de Tocantins, Frederico Melo, justificou a posição da entidade, alegando que eles não conhecem a realidade sanitária do Estado, não dominam a língua portuguesa nem provaram que são médicos.

Em 2011 o governo federal já havia tentado suprir as carências de médicos em 3 mil municípios, com  o Programa de Valorização dos Profissionais da Atenção Básica (Provab), destinado a jovens médicos brasileiros. A adesão foi mínima – apenas 29% das vagas abertas e muitos dos 3 mil e 800 recem-formados desistiram nos primeiros meses, abrindo mão de uma bolsa de R$ 8.000,00.

Diante da persistência do quadro injusto, a presidenta Dilma Rousseff implantou em julho de 2013 o programa Mais Médicos, oferecendo bolsas de R$ 10 mil a quem quisesse ir para o interior, onde as prefeituras também providenciariam toda a infra-estrutura de moradia e alimentação. Passado não mais de que um ano, o Mais Médicos é uma conquista de grande repercussão, que só não é aceita por quem participa do elo de interesses privados montados a partir do sucateamento da saúde pública.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.