domingo, 15 de junho de 2014

Nas raízes do xingamento boçal

Elite rancorosa puxou os palavrões no estádio, mas há muita gente do povo insatisfeita nas ruas

Dilma antes da vaia; muito mais afagos do que hostilidade
Independente da grosseira e repugnante agressão à presidente Dilma Rousseff por parte de alguns focos da torcida na abertura da Copa do Mundo, que mereceu a condenação até dos políticos adversários (preocupados com os próximos capítulos), toda aquela sanha ensandecida tem uma gênese, que deve ser analisada por diversos ângulos. Pode ser até provável que Juca Kfouri esteja certo ao afirmar que os xingamentos mais desrespeitosos tenham partido da área vip do estádio, onde pessoas pagaram ingressos de R$ 990,00 e se expressam com tal virulência por que "não aceitam a redução das desigualdades sociais no Brasil nos últimos 10 anos". 
Sem dúvida, há toda uma alta carga de ódio com origem numa elite preconceituosa, boa parte de conteúdo ideológico, que continua com o ex-operário e a ex-guerrilheira de esquerda entalados na garganta. O rancor da direita e dos afortunados não tem limites, é sustentado historicamente por uma alta carga explosiva e sentimento de revanche. Esses condimentos atávicos estavam lá na abertura a Copa, sim.

Com certeza, aquelas mil vozes das seletas arquibancadas que apelaram para a ignorância não estavam nas ruas nos protestos recentes, numa souberam o que é um gás lacrimogêneo nos olhos e não têm a menor ideia do que seja não ter emprego ou um barraco para morar. Apenas tomaram emprestado o coro mais grotesco dos grupos mais desesperançados que usaram dessas excrescências verbais para agredir antes o ex-governador Sérgio Cabral e seu colega Geraldo Alckmin, pivôs das revoltas passadas.

No entanto, abrigar-se nessa constatação como se só essa elite estivesse insatisfeita com o governo e sonhasse com o fim da hegemonia do PT é outro absurdo totalmente contraproducente.  Do lado de fora, entre quem não pagou ingresso, também havia bolsões de descontentes que só não são tão numerosos como em 2013 por conta dos excessos de grupos aloprados de vândalos .
A insatisfação que existe vai muito além das elites que querem manter a pirâmide social intacta. E que paradoxalmente não representa toda essa minoria econômica. Entre a grande burguesia existem os que adoram a administração do PT, que mantém a "paz social" pelo uso do expediente da cooptação de lideranças sindicais e dos movimentos populares, pelos favorecimentos através das agências econômicas e pelo completo entrosamento com os grupos políticos mais indecorosos.  

Essa insatisfação já está na fornalha há muito e para isso a mídia deu sua contribuição com bastante lenha na fogueira. E não era necessariamente contra a figura de Dilma que, aliás, pegou o bonde andando no caso da Copa de futebol. Os protocolos perdulários foram assumidos antes por Lula, governadores e prefeitos,  na expectativa de um retorno bombástico compensador.  Sediar o maior certame esportivo mundial é o sonho de consumo de muitos governos, em busca de maior visibilidade internacional. Ou de pretextos para o derrame de dinheiros públicos sob aplausos gerais.

Faltou rigor às autoridades brasileiras, incluindo aí também governadores e prefeitos.  A FIFA é um covil de bandidos insaciáveis e opera com os mais sórdidos expedientes, sobrepondo-se por contrato às leias è as normas de um país-sede.  De fato, a partir dos protocolos firmados, o Estado brasileiro abriu mão da sua própria soberania, ao ponto de modificar a legislação para submeter-se às exigências de cartas marcadas dessa quadrilha.   

Na carona dessas concessões absurdas, os governos locais se mancomunaram com esquemas empresariais nocivos e meteram os pés pelas mãos, crentes que ninguém irá questioná-los pelo colorido da festa. Maior exemplo desse mau comportamento foi o do governador Sérgio Cabral, no Estado do Rio, que favoreceu escandalosamente "parceiros" como Fernando Cavendish, da construtora Delta, e, depois de gastar mas de um R$ 1 bilhão em mais uma reforma do Maracanã, tratou de privatizá-lo de mão beijada para um grupo que tinha como maior expoente o seu amigo Eike Batista.

O governo federal foi leniente com os assaltos aos cofres públicos em nome da celeridade da preparação da Copa, objeto de visitas e pressões sistemáticas dos lobistas da FIFA, que se davam ao abuso de esculachar as providências em curso, por que queriam forjar mais gastos, pegar o seu, como se a economia brasileira dependesse dos investimentos relacionados com o evento.

 Por razões políticas menores, suspeitas e irresponsáveis,  o governo brasileiro decidiu oferecer um número de sedes superior ao necessário e ainda admitiu uma tabela que fechou os olhos para a sua continentalidade. Seleções instalam-se em cidades e vão jogar em outras, mesmo na fase preliminar, acarretando um deslocamento de torcidas que torna qualquer estrutura aeroportuária insuficiente. Imagine o vai e vem de torcedores da Inglaterra: suaseleção hospedou-se no Rio, estreou lá em Manaus, depois vai a São Paulo e Belo Horizonte, isso na primeira fase.
E por falar na capital do Amazonas, sinceramente, vão precisar de muitas décadas para ter o retorno da construção do seu novo estádio, onde serão realizados 4 jogos - uma média de R$ 160 milhões de gastos por partida, considerando o investimento feito.
Todo o arcabouço da Copa no Brasil foi um grande desastre e um grande acinte à realidade social que reclama outras prioridades.

É muito dinheiro jogado fora e não há a menor hipótese de um retorno visível, apesar da propaganda a respeito. Retorno, se houver, será para alguns grupos segmentados da economia e já aconteceu por antecipação com o magote de empreiteiras que nessas obras superfaturadas rechearam seus cofres.

Há milhões de brasileiros da periferia e das classes sacrificadas pelas políticas econômicas que também nutrem um ódio irracional desse governo. Os aposentados e os mais velhos se sentem desdenhados pelas políticas previdenciárias em vigor desde o tempo de FHC, porém ampliadas e incrementadas nos últimos governos petistas.

Os jovens estão crescendo com sentimentos explícitos de rejeição dos governos. Claro que há toda uma realidade que já produz uma percepção de superfície, que está acentuando a tendência à imbecilização e à alienação dessas gerações mais expostas à desesperança, presas ao consumismo e aos maus hábitos do sistema.

Em relação a isso, não se pode negar que nos últimos onze anos houve um crescimento de vagas nas universidades e, mais recentemente, no governo Dilma, programas de escolas técnicas tendem ampliar a preparação dos jovens com foco no mercado de trabalho.

Mas a formação universitária em si é apenas um meio. E não pode ser uma mera ilustração estatística. Todas as políticas de primeiro emprego do governo fracassaram por que não basta o diploma para ter uma boa oportunidade no mercado de trabalho. É preciso saber mesmo. E o mais comum é o conhecimento precário, sobretudo nas faculdades terceirizadas pelo Prouni.

Num deslumbramento típico de que  nunca comeu mel, o PT assimilou as alianças mais espúrias, mais viciadas, mais manjadas, loteando o governo em 40 ministérios de mentirinha, que só servem como boquinhas para aliados do troca-troca. Exemplo mais gritante é o Ministério do Trabalho, que não tem mais nenhuma interferência nos conflitos sociais e que opera mais como um banco de beneficiamento de ONGs "amigas", com o uso dos recursos do FAT.


O PT fez questão de transformar a máquina pública num grande aparelho partidário. Há insatisfações generalizadas nas grandes estatais, como a Petrobrás, Eletrobrás e Banco do Brasil, entre os servidores da administração direta, onde portadores de carteirinhas do PT (e da base aliada) tomaram conta das chefias em todos os escalões, escorraçando profissionais de reconhecida competência e - mais dramático - aliando-se com os esquemas abomináveis de corrupção e favorecimento.    

É bem verdade que todos os partidos fazem isso. Os tucanos fizeram isso. Mas como esses outros partidos não tinham militância nem quadros suficientes, essa usurpação dos espaços se dava de forma parcial. Já o PT, não. Com o seu crescimento, foi ganhando adesões de toda natureza, especialmente de arrivistas sem qualquer escrúpulo que abocanharam o filé mignon dos cargos públicos.

O aparelhamento viciado da administração pública se dá em todos os níveis.  Ao assumir a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no Rio d Janeiro, o petista Adilson Pires, que é também vice-prefeito do peemedebista Eduardo Paes,  criou mais 80 cargos de confiança para alojar a companheirada, que só foi lá para dar ordens, quando aparece, enquanto a massa da secretaria rala e ganha uma miséria: até hoje, um profissional de nível superior da SMDS ganha como vencimento básico menos do que o salário mínimo. Resultado: essa secretaria é a imagem pálida da insatisfação.

Os servidores da Prefeitura e do Estado do Rio de Janeiro, sem dúvida, poderiam estar participando do mesmo xingamento se estivessem no Itaquerão. Como eles, milhares de funcionários que percebem salários humilhantes em todo o país estão revoltados com a maneira nada republicana como os prepostos do PT e aliados manipulam os recursos públicos: enchem as burras dos empreiteiros e terceirizados e tratam os servidores concursados a pão e água.

Poderia aqui enfileirar as carradas de distorções que foram afastando do projeto petista os segmentos de classe média, ou mesmo os de menor poder aquisitivo, os quais compõem a massa de descontentes, muito mais numerosa do que revelam as próprias pesquisas. Há de fato uma grande frustração generalizada justamente onde o discurso do PT encontrou eco quando seus próceres estavam no palanque.

A sorte da presidente Dilma Rousseff é que seus adversários são piores e sinalizam para políticas ainda mais opressivas, sobretudo nas relações de trabalho e no resgate da ortodoxia econômica, que é baseada na redução do poder de compra da população.
À falta de alternativas confiáveis, o povo vai se dividir entre os que votarão em Dilma, contra o fantasma do retrocesso, e os que anularão seus votos. É difícil dizer entre essas duas opções quem ganhará, a menos que alguém menos deslumbrado do governo produza uma grande autocrítica em todas as suas esferas.

3 comentários:

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.