quarta-feira, 11 de junho de 2014

Marcello Alencar, um grande amigo

Parceiro na resistência à ditadura, foi quem me abriu caminhos, respeitando meu jeito vulcânico de dizer o que pensava

A política, matriz de um desalmado jogo de poder, aproxima e afasta pessoas num abrir e fechar d'olhos. A amizade construída e consistente, ao contrário. Sincera e honesta, ela sobrevive a todos os acidentes de percursos, a todas as procelas, aos furacões e às distâncias.
Essa reflexão me vem à mente a propósito da morte de um grande amigo, MARCELLO NUNES DE ALENCAR.  Sinto como se tivesse perdido um ente familiar muito próximo. Alguém que conheci em 1965, nos primeiros momentos da resistência à ditadura, e com quem convivi nas trincheiras de 1968 e em 1969 (ele foi um dos nossos advogados, quando fomos presos e torturados pela ditadura) e de 1983 a 1992 - ambos no PDT, de quem ele foi um dos grandes expoentes antes de, por razões que sempre entendi, tivesse saído da legenda brizolista, numa decisão que me deixou muito mal: até àquele momento, não podia imaginar separar-me daquele que mais acreditou na minha potencialidade  e mais tolerou minha vulcânica maneira de fazer política e dizer o que pensava

Mais do que os laços pessoais nutridos pela lealdade e a solidariedade, evoco a perda de um homem público comprometido com as causas sociais mesmo quando foi parar num ninho tão diferente de sua biografia.  Sempre gostei de visitá-lo e de usufruir de sua sabedoria.  Era um mestre, condição que o tocou mais ainda depois que ficou preso a uma cadeira de rodas há mais de 10 anos.

Fazia parte de uma geração de políticos vocacionados.  Ainda jovem, trabalhou com o presidente Getúlio Vargas, no Catete. O tempo foi passando e ele sempre esteve ligado ao trabalhismo. Em 1965, quando a ditadura impôs Negrão de Lima  como candidato  a governador contra o marechal Lott na convenção do PTB do antigo Estado da Guanabara, fomos prá sede da Álvaro Alvim exigir uma convenção limpa. Naquele dia, num ato de rebeldia, jogamos pela janela a urna de cartas marcadas.

Estava lá numa auditoria militar, quando
Marcello Alencar fazia a defesa de
Vladimir Palmeira.  Depois, ele  
foi  um dos
 nossos advogados no processo do MR-8
Nas manifestações de 1968, estávamos novamente juntos.  Seu papel foi decisivo na aproximação dos vários segmentos que protestavam. Foi advogado de Vladimir Palmeira e de outros líderes do movimento estudantil. Em 1969,  quando teve cassado o mandato de senador, fazia parte do grupo de advogados que defendiam os presos políticos na base da solidariedade, ao lado de Sobral Pinto, Modesto da Silveira, Heleno Fragoso e outros tantos. No processo do MR-8, em que fui incluído com outros 37 acusados, fez uma das mais corajosas defesas, representando o jornalista Ubirajara Loureiro.  Acabou amargando também 6 meses de prisão.

Ajudou a fundar o PDT, depois de ter acompanhado Brizola na tentativa de reorganizar o PTB (tomado pela ditadura e entregue a Ivete Vargas).  Foi o melhor prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Digo isso por que estava lá, como secretário municipal de Desenvolvimento Social, quando recebemos a Prefeitura formalmente falida, com salários atrasados, endividada, e impotente diante da situação de calamidade social provocada pelas enchentes de 1988.  Fizemos uma administração a pão e água, sem nenhum apoio do governo federal, mas ao final do seu mandato, em 1992, o Rio de Janeiro estava totalmente saneado.
Nas duas vezes em que fui seu secretário de Desenvolvimento Social trabalhei com total independência. Ele sempre resistiu às pressões contra minhas posições ao lado dos excluídos. E jamais interferiu no meu trabalho, a não ser para dar apoio. Saí da SMDS para ganhar o primeiro mandato de vereador, como um dos mais votados da legenda.
Mesmo no PSDB, para onde foi por que não tinha mais ambiente no PDT, onde sequer conseguiu indicar o candidato à sua sucessão, manteve vínculos com os antigos parceiros. Foi graças a ele que em 2004 se costurou uma aliança em Nova Iguaçu para eleger Lindbergh Farias prefeito, tendo como vice um deputado tucano, que também fora do PDT.

É esse MARCELO ALENCAR, parceiro na resistência, que reverenciamos hoje, com o respeito devido às grandes figuras de nossa vida pública. E com todo o carinho, admiração e gratidão a um amigo de verdade.

3 comentários:

  1. Fátima Cristina Curvelo3:08 PM

    Pedro Porfírio,faço minha as sua palavras.Fica um adeus a esse homem de grande espírito público , que tivemos o privilégio de conviver tão intimamente.Um beijo e o nosso carinho a D.Célia Alencar e seus familiares. Que Deus conforte seus corações.
    Fátima Cristina Curvelo.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.