quarta-feira, 25 de junho de 2014

Malabarismo cara de pau

Com tantas incoerências e jogadas explícitas em causa própria, os políticos vão acabar afastando o povo das urnas

Nada mais deprimente, obsceno e vergonhoso do que esse troca-troca de última hora na formação dos times que disputarão o governo e demais cargos no Estado do Rio de Janeiro, algo inimaginável por estas praias tidas e havidas como estelares do voto mais informado, que já viu confrontos históricos como Lacerda versus Sérgio Magalhães e que irradiou plataformas inovadoras de gestão, como a concentração de recursos na educação pública de qualidade e tempo integral, obra que teria mudado o nosso próprio destino se não tivesse sido solapada criminosamente por quem temia uma revolução social irreversível e por quem queria irresponsavelmente a tutela das massas, como quadrilhas que brigam por bocas de fumo bem localizadas. 
Todo dia é uma cena patética, protagonizada por canastrões da boca do lixo que não escondem o único móvel de suas atitudes: tirar algum proveito pessoal, levar alguma vantagem para seu esquema, num desprezo explícito por qualquer coisa parecida com interesses públicos.  

Esses carreiristas inescrupulosos acabam sendo as maiores alavancas de uma tendência cada vez mais visível: o borbulhar de uma rejeição a todos eles, no que poderá ser a mais constrangedora soma de votos brancos e nulos, além da abstenção, numa exposição fétida das vísceras de uma democracia de arapucas e imposturas.

De tal sem-cerimônia é esse jogo de falsos brilhantes que até mesmo eu, nesses 71 anos de testemunha das artimanhas mais cínicas, me choco com tantas indignidades, no ensaio de um processo eleitoral que agride a toda a cidadania, disseminando os maus exemplos que levarão cada titular de um voto a trocar o seu escopo institucional por qualquer migalha:

Essa sociedade heterogênea acaba assimilando por unanimidade a mesma trágica percepção, a de que todos os políticos são iguais e estão se lixando para os desafios de uma modernidade enigmática,  que precisa ser dominada antes que se deteriore e se converta numa grande Chicago de máfias onde  todo mundo rouba todo mundo, sem nenhum abrigo para quem recusar a cobiça do alheio, nos negócios públicos ou privados.

Poderia aqui noticiar as novidades das últimas 24 horas como prova de que, ao fim, ao cabo, o cidadão eleitor verá tão embaralhado o seu cérebro nervoso que terá de recorrer a uma cigana para entender os acontecimentos e para ganhar motivação ilusória que o leve a usar com convicção sua arma disponibilizada sazonalmente por essa farsa que apelidaram de democracia. O mais que a ele ocorre é imaginar que tal arma só estará à mão para que dê um tiro de misericórdia em tudo que povoou o seu imaginário fantasioso.

Mas se falar de qualquer desses movimentos vou acabar contradizendo até mesmo minhas opiniões recentes, quando me deixei influenciar pela boa fé e pela leitura trivial das entrelinhas. A boa fé é o sentimento mais anacrônico e ingênuo em uma sociedade destituída dos compromissos ideológicos, da coerência política e dos valores religiosos. E ficar só na entrelinhas é coisa do passado. Esses meliantes de hoje avançaram mais do que a inteligência honesta: precisam ser submetidos a ressonâncias magnéticas dos seus cérebros maquinadores e a métodos científicos mais precisos. Até seu subtexto já está blindado contra percepções intuitivas.

O diabo é que, pessoalmente, busco elementos no meio dessa zorra total capazes de, pelo menos, dar um chega pra lá na turma da barra mais pesada.  Troco o sono das madrugadas silenciosas pela tentativa de equações capazes de sugerir o melhor caminho, nem que seja igualmente um emaranhado de becos e ruelas. E aí fico inventando para mim mesmo uma réstia de luz que produza algum sinal de basta nessa farra de crimes alienantes, cujo poder de corrosão vai acabar gerando um sentimento nostálgico de alto teor explosivo. Não surpreenderá se, diante de tanto cinismo e de tanta hipocrisia dos políticos, brotar e espalhar-se um desejo de um regime forte que os expurgue.

Não vou dar conselhos e nem sinais de alerta. Tudo o que eu disser será solenemente desprezado pelas quadrilhas que estão por cima da carne seca, fazendo da cara de pau algo tão vulgarizado que já não escamoteiam. 

Já a massa está sem rumo, afetada pela lobotomia midiática e pelo colorido dos pequenos sonhos de consumo. De vez em quando ela até surta, mas quem assume a crista  também não tem noção do seu caráter temporal e acaba pondo a perder o que poderia multiplicar organizadamente o contraditório de toda essa bandalheira abrangente.

Dito isso, com a amargura que cada vez me desanima mais, reafirmo por ora a intenção de posicionar-me contra o retrocesso. Só temo equivocar-me ao imaginar poder separar o joio do trigo. Mas farei das tripas coração para ser útil aos demais, ainda que nos limites de um computador.

3 comentários:

  1. Sérgio Dubeux11:52 AM

    Porfírio, meu caro. Quer parecer que essa penúltima, que envolveu o honestíssimo Lupi, ceifou suas esperanças de vez. E a última (piada, essa é piada, não fosse pura armação no campo da ameaça anticoligatória): Lupi se candidatará ao Senado. Será capaz de obter 100 votos, já incluído os comprados?

    Mas nem tudo está perdido, pense bem. A aposentadoria voluntária de Sarneys e Cabrais somada a aposentadoria por falta de votos de outras figurinhas carimbadas, como veremos em outubro, nos enche de esperança, diante desse mar enlameado e fedorento em que está mergulhada a política nacional. A verdade é que enquanto a Fome determinar o Voto a sociedade não estará liberta.

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  2. É isso aí, meu caro Porfírio! A política nacional está virando de cabeça para baixo em nome dos acordos expúrios, da negociata, dos interesses e vaidades pessoais.Imagino como está a cabeça do eleitor diante desse quadro que estão formando para as próximas eleições de outubro. Não existem mais hoje atuando políticos idealistas como os de antigamente, que raramente mudavam de partido em nome de interesses próprios. Confesso que nos meus 75 anos de vida estou estarrecido e desanimado com essa vergonheira que estão implantando. E talvez use, pela primeira vez, o meu direito de não votar. Pobre Brasil! Um abraço, Walcy Joannou

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  3. Raphael Filho Salek12:56 PM

    A desilusão com políticos iniciou-se quando o Lula, no primeiro mandato, defendeu a reforma constitucional que obrigava o desconto previdenciário dos aposentados, inclusive expulsando alguns parlamentares que não concordaram com tal postura. O PT havia criticado a proposta do governo anterior e combateu desde sempre. Ficou a impressão que não seria, daí para a frente, um partido confiável. A união com Sarney, Collor e Maluf confirmou que o partido da ética preocupava-se, acima de tudo, com o sucesso momentâneo e não com diretrizes, ao contrário do que fez o Dr Leonel Brizola e o seu PDT, pelo menos até a sua morte... Agora estamos diante de uma nova adesão maciça agora da oposição com os políticos inescrupulosos, o que reforça a desilusão. Abç, RSF

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.