sábado, 28 de junho de 2014

Decisão arbitrária para encobrir o mar de lama em que a Fifa chafurda


Punição extrema ao jogador do Uruguai foi um jogo sujo de marketing e violou rituais do direito
Eu não queria discutir agora nada dessa Copa de tantas e tão variadas trapaças por muitas razões: estamos no seu desenrolar, com mais de 50% dos espaços midiáticos dedicados a todos os seus momentos, e há uma malta de abutres torcendo pelo seu fracasso por interesses políticos menores. Não serei eu quem vai entrar nessa dividida quando a posteriori haverá muito que comentar e o próprio governo brasileiro, que pegou esse rabo de foguete na unha, já está elaborando um relatório crítico consistente para que o próximo país sede não caia em arapucas tão constrangedoras, que só serviram e servem para um encher as burras de uma das mais insaciáveis quadrilhas internacionais.
Mas essa arbitrária exclusão do jogador Luís Alberto Suárez, do Uruguai, tem todos os elementos de um tribunal inquisitorial e faz lembrar O Estrangeiro, obra prima que deu o Prêmio Nobel de Literatura ao escritor franco-argelino Albert Camus.

Mesmo sem ser advogado, recuso-me a aceitar que um fato registrado por uma câmera posicionada aleatoriamente seja a única peça que levou à decisão sumária, como se adotada em plena guerra. No direito esportivo, a primeira peça de acusação, o ponto de partida, é a súmula assinada pelo juiz, que não registrou a ocorrência a não ser a partir da queixa do adversário italiano, até por que nem ele, nem seus auxiliares, nem as câmeras oficiais da Fifa, que cobrem todos os ângulos, viram a tal mordida. Se ela existiu, o seu registro pericial não foi suficiente para, considerando o princípio do flagrante, ter cobertura documental consistente e incontestável.

Mas se, mesmo assim, houve a mordida não consta que esse "delito" seja capitulado nos regulamentos e normas legais com previsão de uma pena tão extrema, proferida em 48 horas, como se tão monstruoso fosse o seu dolo, algo muito maior do que uma entrada violenta com o propósito de quebrar a pena do adversário ou um soco na cara, como o que levou o juiz a dar cartão amarelo ao nosso Neymar.

O direito é sustentado no contraditório e nos vários elementos intencionais em julgamento que dimensionam o grau de sua motivação. Direito é direito, inclusive no futebol. Tem um ritual que protege os cidadãos de decisões afoitas e com alguma sombra de dúvida. Há até um aforismo latino que monitora o direito penal: IN DUBIO PRO REO.

No caso, alguns verdugos da Fifa decidiram sem ouvir as partes, sem que a própria "vítima" tenha reafirmado "em juízo" sua queixa. Foi um ato administrativo com severos prejuízos para a seleção de futebol do Uruguai, que tinha em Luís Soares seu atacante decisivo. Ela perdeu no único jogo em que ele não participou.

Por mais que a competição exija velocidade nos procedimentos disciplinares, essa era uma situação bem diferente de um jogador que tenha recebido cartão vermelho e que é suspenso automaticamente por um jogo até seu julgamento, conforme regulamento expresso. Não houve nenhuma medida disciplinar da parte do árbitro, de onde o inusitado de uma punição de escopo absolutamente midiático.

A Fifa, como é público é notório, está envolvida em crimes de toda natureza e usou o episódio para bancar a guardiã da disciplina e dos bons costumes. Quis aparecer como uma vestal rigorosa que atendia ao clamor de uma certa mídia, em especial ao sentimento de revanche de seleções bilionárias, como a Itália, a Espanha e a Inglaterra,  que foram vergonhosamente excluídas na primeira fase da Copa, com notórios prejuízos para seus negócios.

A seleção uruguaia já havia feito bonito na Copa da África do Sul, onde ficou entre as quatro primeiras e ainda deu com Furlan o melhor jogador. É (ou era) candidata em potencial a chegar perto da taça, o que afronta as nações mil vezes mais caras e ainda mostra o valor de um país com menos de 3 milhões e meio de habitantes, situado em uma área de 177 mil  k² lá no fim do mundo, como definiu o Papa Francisco a sua Argentina, quando foi eleito no Vaticano.

O vexame das grandes potências futebolísticas européias vai repercutir em sua própria economia, eis que o futebol movimenta cada vez mais dinheiro, por dentro e por fora. Na Itália, onde os times têm donos privados, assim como na Inglaterra, onde até um sultão árabe e um mafioso russo são donos de equipes de futebol, o trauma do fiasco vai, portanto, muito além das paixões de seus torcedores incautos.

Já na derrota contra a pequena Costa Rica, ainda menor sob todos os aspectos do que o Uruguai (exceto a população, que é de 4 milhões e 300 mil) a Fifa cometeu uma abominável tentativa de melar o resultado ao convocar 7 costarriquenhos para o exame antidoping, contra 3 italianos, arbitrariedade que só ganhou repercussão por que Maradona denunciou num programa que mantém na televisão venezuelana.

Não é minha intenção defender a impunidade de um jogador que já pagou por outras suas situações semelhantes, que não podem pesar prioritariamente numa nova sentença. Mas me assusta e me ameaça esse tipo de ritual punitivo, sem condição de recursos e com todos os efeitos perversos colaterais que enseja, com os prejuízos e danos que irradia para toda a seleção do seu país, deixando claro que os elementares princípios dos códigos de processos do direito não existem numa arena esportiva.

Antes, o que vale é o mafioso jogo de interesses econômicos e políticos.  O atual presidente da Fifa é capaz de qualquer coisa para recuperar o apoio da Uefa – associação européia de futebol – nas eleições que definirão sua permanência ou não à frente desse monstro todo poderoso.

Se o Uruguai foi derrotado agora, não haverá ninguém que não associe essa desclassificação à punição tão draconiana que assustou até o italiano que foi se queixar ao árbitro durante o jogo.

Péssimo exemplo para quem considera o estado de direito um dogma essencial à própria existência da sociedade humana.

7 comentários:

  1. Anônimo12:12 PM

    Que a FIFA é uma Máfia, nem se discute.
    Mas, o caso (pela 3ª vez) do Suárez, é de tratamento médico. Ele precisa de um psiquiatra competente.
    Não dá para achar estas mordidas, como normais no futebol !!!

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  2. O Brasil pagou a fifa para ganhar ta tuto dominado pra ele que encheu o cofre da fifa ganhar é sim a fifa uma mafia e o Brasil ta metido nisto desde aquele vergonhoso ataque epilético na copa da França que ate hoje ninguém quis rever o Zagalo e o Ronaldinho deveriam estar atrás das grades

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  3. A FIFA teve seu selo de máfia marcado em ouro por João Havelange, assim como a CBF. Quanto ao jogador Luiz Alberto Suarez, ele é reincidente pelo mesmo acointecimento registrado e com punição (não sei se houveram outras sem registro). Ele havia mordido adversários atuando primeiro na Holanda e, depois, no futebol inglês. Isto lhe valeu uma suspensão total de 17 partidas. A FIFA abriu processo disciplinar contra o principal jogador da seleção Uruguaia o que achei justo pela falta cometida, portanto não julgarei a questão da FIFA e sim pelo ato e não irei fazer certas acusações de campeonato comprado ou não porque não possuo provas nenhuma.

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  4. Jileno Sandes.12:48 PM

    O que mais me irrita é o uso político por parte de grupos nada confiáveis, torcendo contra o governo atual sem olhar para traz, quando a eles interessavam os resultados de tal campeonato gerenciado por essa nada confiável instituição.

    Se o Brasil comprou a Copa, alguém não honrou algum compromisso.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.