domingo, 8 de junho de 2014

A fome com a vontade de comer

Titular absoluto da política sem escrúpulos, Cabral põe suas cartas na mesa do churrasco chapa branca para Aécio

Picciani, Aécio,  Dorneles e Índio da Costa: no barco do retrocesso.
O churrasco peemedebista de apoio ao tucano Aécio Neves oferecido por Sérgio Cabral e Pezão por intermédio do seu preposto Jorge Picciani tem um significado muito maior do que parece à primeira vista: é o retrato sem retoque da transformação da política num grande balcão de negócios, especialidade obsessiva do ex-governador, que andava meio borocoxô com a perda de suas duas grandes retaguardas monetárias - Eike Batista e Fernando Cavendish (sócio do Carlinhos Cachoeira), ambos às voltas com devassas criminais.
É também o espelho reluzente da opção do sistema e do seu braço midiático, que estão jogando todas as cartas para impedir a reeleição da presidenta Dilma Rousseff e reposicionar o Brasil, próxima potência petrolífera, na esfera da subserviência incondicional aos oligarcas do mundo, retomando a doutrina da voz do dono que nos atrasou por décadas e que teve sua mais incondicional adesão na ditadura militar.

Essa obstinação em derrubar Dilma, esclareça-se, é muito mais pelo que poderá ser o seu segundo governo do que este que está acabando agora, no qual ela apenas demonstrou ser carne de pescoço para certas práticas e deixou alguns empresários ladinos a ver navios. No vindouro, os desafios serão mais incisivos e ela terá fatalmente que bater de frente com as oligarquias agrárias, financeiras e os exportadores de produtos primários que dão o tom do nosso modelo econômico.
O negócio aqui junta a fome com a vontade de comer. O quadro no Estado do Rio é desesperador para Aécio Neves, que está com dinheiro saindo pelo ladrão: seu PSDB sumiu e não tem a menor inserção na política deste que é o terceiro colégio eleitoral do país, ao ponto de ter tentado convencer Bernardinho, técnico de voleibol sem qualquer envolvimento na vida pública, a disputar o cargo de governador, enquanto o DEM do ex-prefeito Cesar Maia ainda não conseguiu conter a debandada dos seus antigos capachos, cooptados com carinho e afeto pelo ex-pupilo e atual desafeto Eduardo Paes.
Os candidatos mais cotados ao governo do Estado fazem parte da base de Dilma e são contra Sérgio Cabral: Garotinho, seu antigo parceiro, foi quem inventou Pezão e fez dele vice-governador; Marcello Crivella foi ministro da Pesca e está surpreendendo por manter-se à margem dos tiroteios, apesar da queimação recorrente por seus vínculos com a Igreja Universal; e Lindbergh Farias, do PT, conta com seu carisma, o que o fez derrotar Picciani nas eleições para o Senado em 2010.

O ritual dos negócios políticos

Cabral, que traiu Marcello Alencar por Garotinho e que depois traiu Garotinho por ele mesmo, é hoje um dos políticos mais enfraquecidos do país, sendo o principal alvo das manifestações de 2013, mas é o dono de uma máquina pública poderosa, pelo menos até o final do ano. Para viabilizar o inexpressivo Pezão, que também traiu Garotinho e se transformou em "bagrinho" de governador, precisa simular que está com Dilma e tê-la a seu lado: o voto majoritário tem no candidato a presidente a sua principal alavanca.
Embora com os dias contados, Cabral ainda é o eixo dos grandes negócios e o Estado ainda tem um peso decisivo no fluxo de recursos para as prefeituras.
Tem tanto poder de fogo que "botou no bolso" até figuras que fizeram carreiras como inimigas de corruptos. Não foi por acaso que conseguiu botar na mesa com Aécio Neves 60 dos 92 prefeitos fluminenses, 37 dos 70 deputados estaduais, 17  dos 45 deputados federais fluminenses, 50 vice-prefeitos e 500 vereadores. Todos ligados umbilicalmente ao Palácio Guanabara.

Temendo uma "zebra" na convenção nacional do PMDB, Dilma teve que engolir a seco essa manobra patrocinada sob o pretexto de que a candidatura de Lindbergh gerou descontentamento e deixou Cabral e Pezão à vontade para correr atrás do prejuízo.
Mas o que aconteceu mesmo foi a concretização de um acordo apadrinhado pelos financiadores de Aécio Neves, o sonho encantado de quem vê no retrocesso o melhor negócio do mundo.
Bolsonaro, defensor da tortura nos porões da ditadura, 
estava lá, em posição de sentido, embora o PP a que é
filiado tenha declarado apoio a Dilma.
Na boca livre que teria reunido 1.600 partidários da aliança de Pezão, Cabral e Aécio,  estavam presentes também o capitão-deputado Jair Bolsonaro,  porta-voz dos porões da ditadura, e o senador Francisco Dorneles,  cuja legenda,  o PP deve formalizar o apoio a Dilma. Tinha gente de 17 partidos, segundo os promotores do almoço, que teria custado ao deputado Picciani não mais do que R$ 27.500,00, isto é, R$ 17,00 por cabeça, isso numa churrascaria vip da Barra da Tijuca, onde só a "entrada" custa isso.

Não foi um ato político de forte expressão eleitoral, mas uma encenação padrão CBF, que só serviu mesmo para fornecer à mídia mais lenha na fogueira contra Dilma. No Estado do Rio, 74% da população são concentrados na Região Metropolitana (A proporção do eleitorado chega a 80%). Em 1982, quando se elegeu pela primeira vez governador, Brizola tinha contra ele rigorosamente todos os prefeitos e quase todos os deputados do Estado, muitos dos quais entraram pelo cano com a vigência, à época, do voto vinculado.

O churrasco com carne de procedência desconhecida, que desapontou Tony Ramos,  foi, sim, uma cartada negocial com a cara de Sérgio Cabral Filho.

Contraponto

Já em São João do Meriti, Sandro Mattos, um dos raros prefeitos filiados ao PDT, organizou no dia seguinte almoço para o petista Lindbergh Farias, com a presença de cerca de 200 militantes, entre os quais vereadores pedetistas desse município e de Nilópolis, Belford Roxo, Japeri e Mesquita, todos da populosa Baixada fluminense.

Essas eleições de 2014 vão servir também para implodir a maioria dos partidos.

10 comentários:

  1. Anônimo5:32 PM

    Parabéns Pedro Porfirio pela excelente exposição do quadro político sobre as eleições 2014.

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  2. Excelente análise,Porfírio, como sempre.



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  3. Não me perguntem como se faz a política, nem como se fazem as salchichas.
    Otto von Bismack

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    1. Digo Bismarck. Político consevador, mas que conseguiu unificar a Alemanha.

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  4. Paulo Gianinni9:48 PM

    A maioria dos políticos e administradores públicos do nosso país fedem tanto ou mais que a lagoa da Península!

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  5. Anônimo10:13 AM

    Se deixarem, o Aécio será muito pior que o FHC, o Príncipe das Privatizações Piratas, coisa que eu achava impossível (ser pior que o FHC).

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  6. Anônimo12:15 PM

    Pra mim o Pezão é o melhor candidato disputando o governo do Rio nessas eleições. O povo está se deixando levar pelas promessas falsas do Garotinho mais uma vez..

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.