quinta-feira, 29 de maio de 2014

O veneno eletrônico

Com seu alcance, rádio e televisão perpetuam quem já tem maioria e limitam as campanhas de rua

Números de deputados, mesmo que tenham  trocado de legendas por partidos novos, define tempo de tv dos partidos. Quem é grande tende a continuar grande.
A melhor receita para resgatar o caminho democrático pelo qual lutamos é acabar com a propaganda política no rádio e na televisão, que, além do mais,  privilegia quem tem maiores bancadas federais, agredindo o direito de oportunidades iguais. À primeira vista, a ideia poderá chocar. Mas, em verdade, entre tantos males da mídia eletrônica como deformadora dos hábitos e costumes do povo, essa transformação do horário eleitoral "gratuito" no grande elemento de comunicação dos candidatos é o maior veneno que a modernidade produziu contra a democracia limpa, uma utopia, eu sei, mas a única que pode ser considerada melhor do que uma ditadura eficiente.

Sei que essa reflexão não se encaixa bem na sua cabeça. Respeito quem pensa nos limites do visível, mas não posso deixar de propor uma reflexão sobre os malefícios de um processo eleitoral que está abolindo os comícios e os debates diretos, substituindo-os pelo "corpo a corpo" de apertos de mão e tapinhas nas costas,  deixando para a produção eletrônica a transmissão de eventuais propostas de ação política e de governo.

O uso do rádio e da tv do jeito que é feito serve, em primeiro lugar, para subordinar as escolhas do amanhã ao número de parlamentares filiados a um partido hoje. Os que têm mais deputados federais têm mais tempo no rádio e na tv.  Isso para qualquer pleito, inclusive do Executivo, ao contrário do que acontece em países como a França, onde o tempo é dividido por igual entre as legendas habilitadas.

Esse sistema gera todo tipo de distorção, a começar pela formação de coligações com base nos minutos eletrônicos de cada agremiação. São feitos verdadeiros leilões e muitos políticos jogam com isso como moeda de troca. Pela lógica, quem tem mais espaço nesses veículos já entra em vantagem sobre os demais, o que agride princípios elementares de igualdade na disputa.

Essa distorção se aplica até dentro da própria agremiação. Suas direções costumam favorecer alguns candidatos em detrimentos de outros, que são considerados "japoneses" na gíria partidária.
Mas esse não é todo o mal que a propaganda eletrônica causa.  O mais grave é o distanciamento cada vez maior das campanhas dos seus eleitores.
  Até o advento desse sistema, os candidatos tinham de realizar comícios, debates e reuniões com os eleitores, ouvindo suas opiniões e sugestões.  Hoje, até ainda existe quem suba a palanques de periferia. Mas o comum é a panfletagem e as carreatas em que o eleitor se limita a receber um cumprimento, um santinho e um "conto com seu voto".

Você diria que a televisão e o rádio valem por seu alcance. Mesmo sem considerar que muitos cidadãos evitam programas eleitorais, a não ser na boca da urna, o uso de verdadeiras produções cinematográficas acaba inventando um candidato diferente do que ele é na real. Quer dizer: sem o poder de questionar, de perguntar, o eleitor pode ser vítima de propaganda enganosa. E opta mais pela qualidade do programa do que do candidato.
Trocando em miúdos: a propaganda eletrônica, que dá mais espaço a quem já tem maioria na Câmara Federal, tira a campanha do ambiente interativo das ruas e a transforma numa grande pantomima espetaculosa. Os protagonistas esbanjam exibições, os coadjuvantes mal conseguem dizer "meu nome é Enéas".
Como o espectro partidário é uma grande esculhambação cartorial, por que nunca conseguiram criar mecanismos sérios para o reconhecimento de uma legenda como representativa de tendências ou outras referências consistentes, aplicam a lei do mais forte. E o mais forte no rádio e tv só não mantém a maioria se estiver muito desgastado. Nada que uma produção bem bolada pelos marqueteiros não possa superar.

Daí,como primeira sugestão para a tal reforma política, a ideia de dar às campanhas o primado do encontro com os eleitores, quando todos terão oportunidades iguais. Ou próximas de iguais.

21 comentários:

  1. Anônimo11:35 PM

    Eu não tinha pensado nisso. Realmente o sistema é feito para preservar o domínio dos grandes partidos.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.