sábado, 19 de abril de 2014

Crônica de quem não tem nada a ver com o peixe, mas teme o retrocesso

Por falta de visão e de coerência de quem está lá tudo pode acontecer, inclusive um trágico retrocesso

Há várias maneiras de ver o mundo, a pior delas é a partidária. Não que os partidos não tenham seus binóculos. Mas por que  a obsessão do poder entorpece e alucina. Tal qual hordas de interesses pessoais, as legendas de hoje não têm nenhum significado. E até agridem seu enunciado. Daí o constrangimento das coalizões governantes, que se formam em torno de prebendas e vantagens e não de um programa de trabalho, forjando uma espécie de loteamento compulsório do poder, sem o qual os parlamentares picaretas  inviabilizam qualquer governo.
O modelo clássico envelheceu. Não é o partido que orienta o governo. É o contrário. O poder dos aglomerados fala mais alto e constrói o discurso a ser pronunciado pela militância. O discurso ou o silêncio obsequioso. Nesse carnaval de fantasias ridículas, tudo o que cada um quer é resolver seu problema. Seu, pessoal, em primeiro lugar. "Ocupar seu espaço" - como está no jargão.  No melhor dos cenários o filiado age como parte de uma torcida desorganizada. Assimila sua parcialidade com uma diferença: é difícil um flamenguista virar a casaca; já não se pode dizer o mesmo na política.

Partidos incoerentes e sem carismas são paixões passageiras. Atraem pelos sinais de poder e afastam quando frustram expectativas.

Mesmo assim, quem tem as rédeas pode perpetuar-se pelos anos próximos. É assim, hoje em dia. Faça alguma coisa e pronto, já fez muito. Quem foi derrotado ontem pelo desgaste inevitável não está de todo descartado. Por que há dois fenômenos aparentemente desassociados, que não se enquadram na mesma lógica:

1. O povo  é governista, em sua maioria. Os governos é que não são povistas.
2.  Não é o fulano que ganha uma eleição; é sicrano que perde.

Tratar desses temas assim é  cosmético e superficial. Mas esses dias medíocres mantêm a pauta nesse patamar. É tudo conforme a sina esperta, essa atração fatal pelos podres poderes: tudo que um prócer quer, venha de onde venha, é conquistá-los, neles permanecerem ou a eles retornarem.

Os discursos não irradiam propostas. Não emanam de concepções ideológicas, mas da percepção do momento. Para detectá-las, contratam pesquisas e se entregam docilmente aos palpites do marqueteiro, a peça mais importante da engrenagem eleitoral. Cujo papel não se esgota no dia do voto. Governantes e oposições têm seus marqueteiros como gurus de todas as horas. Se o que perseguem é apenas a vitória a qualquer truque esse especialista é quem dá as cartas.

Como disse, se tudo se resume em vencer, não importa que monstros estão criando, principalmente se esses monstros estão dando certo. Quanto maior a multidão mais carece de pirotecnias envolventes. Mais se investe na mistificação inescrupulosa, jogando no imediato e desprezando o duradouro.

Aí entra o componente trágico: a despolitização grassa como produto corolário da sociedade delirantemente consumista. Pessoas de todas as classes e de todas as escolaridades viajam nos sonhos tecidos pelas máquinas de forjar desejos e comportamentos. Concentram-se em projetos pessoais, muitas vezes, acima de suas posses. O desafio de ter o que outros têm ou ainda não têm fascina a quem se depara com ofertas irrecusáveis.

Cidadãos despolitizados são a alegria das classes exploradoras e de seus prepostos nos salões do poder. Nessas pesquisas recentes detectaram o vexame: 56% dos ouvidos disseram que não estão interessados nas eleições. É a posição de uma população dominada, empanturrada de atrativos alienantes. São essas pessoas que decidem na contabilidade das urnas. Os dirigentes partidários sabem disso, mas mesmo os que se dizem ideológicos nada fizeram para reverter essa trama.

É da natureza maldosa das disputas. Nelas acontece outro distúrbio: políticos ganham pela pequenez de sua astúcia e não pelos seus atos magníficos. Isto é, alguns têm olhos para ver longe e longe veem, até boas intenções teriam,  mas como querem ganhar a massa, curvam-se à moda da temporada. 

Digo tudo isso com muita amargura para complementar: um dia a casa cai. As minorias irritadas também existem e têm um poder de fogo incalculável. A oferta de algumas benesses como escopo das políticas compensatórias pensadas nos centros decisórios do mundo é uma faca de dois gumes. Garante satisfação temporária, mas não têm consistência perene. É um saco sem fundo, uma bola de neve de consequências incontroláveis. E produz um vício insaciável que forja a inércia e o paternalismo paralisante.

Trocando em miúdos, voltamos ao velho provérbio do anzol no lugar do peixe. 

Não entenderam isso dado ao viés das compensações fortuitas, que escamoteiam o compromisso de manter a pirâmide social intacta: negam instrução de qualidade e competitividade à plebe para que ela não ultrapasse a condição de subalterna e não ameace os filhos amados das classes adjacentes aos podres poderes. Nesse tom, assimilam como fatalidade invencível a acomodação das camadas sociais nos paradigmas atávicos.

Assim, sob a égide da dominação das elites, conservam as massas excluídas ou periféricas dopadas enquanto ópio dispuserem. Já não é nem a fé que ainda manipulam o seu trunfo principal. A modernidade engendrou outros elementos de fascinação e misturou no mesmo balaio instintos de apelos capazes de confinar no mesmo caminho pessoas de verves e perfis sociais diferentes.

À falta de respostas estruturais o ambiente tende a carregar. É isso que devia motivar os que ainda estão por cima da carne seca. Imaginar a mesma paisagem diante de tantos relâmpagos é desdenhar da cólera latente,  que a minoria indignada pode trazer à tona. Há mais o que fazer além das carícias maquinadas. Ou aprofundam as respostas ou o pior pode acontecer: o pior é a descrença no bom caminho.

Estamos diante de um jogo pesado em que a imperícia de quem se sente com o rei na barriga pode causar um retrocesso, a lamentar-se pela trilha e o descaminho: não pela carruagem deslumbrada.

A alguns parece tudo muito claro, é fácil saber qual é a de cada um. À multidão  vulnerável, não. À falta de clareza e transparência ela pode comprar gato por lebre.

Dias confusos se prenunciam. Saber administrá-los exige mais do que sede de poder. Com essa turma que não se recicla vai ser difícil. Hoje é um iludido quem imagina um resultado final positivo na base do mesmo receituário.

Fica o recado de quem não tem nada com o peixe, não está nem aí para esses podres poderes, mas que ficará muito desapontado se entregarem o ouro ao bandido por absoluta falta de sensibilidade e o mínimo de competência.

6 comentários:

  1. Anônimo10:36 PM

    Pura realidade
    A cada verperas de eleiçao ficam iludindo com promessas de distribuiçao do autonomias

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  2. Max A A Pereira3:41 PM

    Max A A Pereira

    UMA DENUNCIA DE ARREPIAR: Limpeza ou Exterminio?

    É de arrepiar e de deixar a gente com nojo de ser humano. Até onde o ser humano pode descer.

    O Jornalista dinamarques Mikkel Jensen deixa o Brasil e faz uma denuncia chocante:

    Segundo ele, criancas de rua estao sendo assassinadas para que as cidades que vao receber jogos da Copa do Mundo fiquem limpas para bem impressionar os turistas estrangeiros e a imprensa internacional. Tenho vontade de vomitar.

    Espero que o MP Federal e a Policia Federal investuguem, apurem e prendam os respsonsaveis, doa a quem doer.

    Espero que a OAB e outras entidades da sociedade civil organizada amplifiquem esta denuncia e cobrem acoes energicas, urgentes e efetivas para acabar com este exterminio. A nodoa, a mancha e a vergonha vao ficar para sempre. Mas há que se dar um basta.

    Para ler a integra da denuncia vc pode acessar o seguinte link:

    http://placar.abril.com.br/materia/jornalista-dinamarques-desiste-de-cobrir-a-copa-e-deixa-o-brasil

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.