domingo, 9 de março de 2014

O caminho das pedras

Greve dos garis levou prefeito à lona e deixou o sindicato mal, num movimento espontâneo exemplar

Uma greve espontânea, contra a vontade do  sindicato, que deixou a cidade às moscas, 
obrigou o prefeito Eduardo Paes  e negociar e a conceder o maior reajuste salarial da cidade 

O final vitorioso e surpreendente da greve dos garis da Comlurb, festejado ao som dos tamborins, é uma porrada que acerta em cheio, por igual, a já combalida administração da Prefeitura do Rio de Janeiro, o sindicato pelego e os protagonistas institucionais e políticos da cidade e do país. A paralisação guarda parentesco íntimo com a insatisfação exposta nas passeatas de protesto desde junho do ano passado e expõe um cenário incontrolável, aprofundando o abismo entre todo o sistema de poder, claramente em decomposição, e uma realidade amarga que explode por todos os poros.


Os garis impuseram uma derrota acachapante ao conluio político, apoiado numa controvertida aliança dos contrários, que garantiu a reeleição de um prefeito gaiato e manteve no governo seus miquinhos amestrados. Mas não tem sustância para aguentar o tranco e responder pelas suas responsabilidades básicas de gestão.

O modus faciendi de governabilidade local em uso tem por escopo o suborno dos políticos profissionais e das representações da sociedade, pelo loteamento calculado da máquina pública e pela distribuição de favores sujos e por baixo do pano entre as lideranças cartoriais de partidos, mídia, entidades de classe e movimentos sociais.

Há uma renúncia consensual da personalidade própria, ou melhor, de toda e qualquer personalidade. Parlamentares e dirigentes políticos são comprados num mercado mau caráter e sem vergonha, fugindo aos deveres da representação, da fiscalização e da ação legislativa, protagonizando uma grande farsa de forma irresponsável e imediatista, como se tudo na vida se resumisse ao saque compadrio por tempo determinado.

Em função de acordos imorais e insustentáveis à luz do dia, cria-se um profundo vazio que deixa órfã a plebe ignara, sem ninguém para fazer o meio de campo e sem ferramentas para uma relação racional com o poder corruptor e com as elites e os moldadores de opinião, juntos e misturados no exercício da injustiça, do embuste e da opressão.

A greve que encurralou um prefeito despreparado e sem estatura para o ofício se deu por combustão espontânea. Não teve líderes, nem organizações na sua gênese. Aconteceu num momento desconfortável para a Prefeitura por impulsos da lógica primária. Tratados a pão e água o ano inteiro, os garis sabiam muito bem da hora em que  valem ouro. Daí para a greve massiva, enquanto o sindicato subornado se conformava com as migalhas de sempre, foi um passe de mágica.

Pirralhos políticos que mais se afiguram os anões da Branca de Neve não contavam com a astúcia de quem ganha uma mixaria para correr oito horas atrás dos caminhões, em atividade laboral de suplantar os esportes olímpicos. Mixaria mesmo: ao contrário dos tempos áureos da Comlurb presidida pelo sanitarista Luiz Edmundo Costa Leite, quando a empresa dava treinamento para congêneres de vários países, e produziu as primeiras cargas de gás natural veicular e, posteriormente, do economista Ivan Lagrota, que implantou a primeira usina de compostagem,  a Comlurb se tornou literamente um lixo sob o comando de um  vizinho do ex-prefeito Cesar Maia, oriundo da antiga Telerj.

Ali, quando Eduardo Paes era apenas um pupilo enxerido de péssimos hábitos, Cesar Maia privatizou toda a frota  da Comlurb, sua espinha dorsal operacional, em mãos da mesma empresa há vinte anos, e a massa de garis passou a ser tratada como lixeiros esculachados.

O sentimento de revolta entre os garis vem desde então. Concursados e celetistas, os trabalhadores da limpeza urbana sempre foram pau pra toda obra: mais importante do que livrar a cidade do lixo dos grandes eventos, a eles sempre coube missões espinhosas, como o socorro às vitimas de desabamentos nas áreas atormentadas pelas intempéries e até ajuda na remoção e reassentamento de favelados.

A aplicação da fórmula cooptativa na corporação junto com o jogo de poder por chefias intermediárias e favorecimentos a apadrinhados foi formando a massa crítica que deu nesse movimento de provável desdobramento no organismo funcional de toda a Prefeitura, onde se pratica a política salarial mais deletéria, pela adição a maior de penduricalhos aos vencimentos básicos. Hoje, na administração direta, há profissionais de nível superior ganhando menos de um salário mínimo  pela rubrica principal. Se chegam a pouco mais de R$ 2.300,00 é por conta de gratificações. Enquanto isso, a Câmara Municipal e o Tribunal de Contas oferecem casa, comida e roupa lavada do bom e do melhor, em muitos casos para "meio expediente" ou "expedientes externos" invisíveis.
Participando de uma explosão espontânea que  o prefeito definiu como "motim", os garis ganharam um aumento na marra de 37% e mais um tíquete refeição que passou de R$ 12 para R$ 20,00 - isso apesar da vacilação do sindicato pelego.
Outras categorias profissionais, não apenas do município, tendem naturalmente a seguir o mesmo caminho, tal a magreza de suas remunerações, em contraste com os privilégios cristalizados pela política de cooptação e suborno que monitora a degenerada estratégia de poder em execução no Rio de Janeiro - estado e município.

Não será surpresa, portanto, se outros trabalhadores recorrerem ao contraponto radical. Os donos eventuais dos podres poderes podem comprar meia dúzia de políticos arrivistas e falsos líderes sem escrúpulos. Podem forjar alianças fisiológicas eleitoralmente competitivas. Mas já não dá para enganar o povo todo, sonegando-lhe os direitos que o conluio encobre e servindo-lhe apenas o pão que  o diabo amassou numa de que é pegar ou largar.

Definitivamente os tempos são outros. E como vale o escrito dos alfarrábios da filosofia, uma vitória emblemática traz um monte de filhotes em seu ventre.

Quem sobreviver verá.

14 comentários:

  1. Anônimo11:28 AM

    Porfírio, você disse tudo. E há mesmo categorias, como, por exemplo, a dos fiscais de rendas - outrora sonhado cargo e disputado concurso público -, que por ora estão com o grito preso na garganta, que ganham de vencimento-base MENOS QUE O PISO NACIONAL DE SALÁRIOS.

    É necessária uma complementação para chegar a esse mínimo legal. É uma vergonha, não fosse, antes, um embuste!

    O que salva é a "produtividade", que depende, às vezes, até de sorte, e, para os mais antigos, os triênios acumulados.

    E desde que assumiu o monarca, digo, o prefeito nunca sentou à mesa com a categoria para discutir o assunto. Ele pensa que sistemas automatizados de controle - por sinal, criados e implementados pelos próprios fiscais de rendas - substituem o trabalho de fiscalização e arrecadação. E nem se preocupa muito com isso, já que por conta dos eventos esportivos vem recebendo injeções financeiras federais que nunca qualquer prefeito recebeu.

    Só não se vê flagrantemente esses rios de dinheiro porque não há a recíproca reversão dessas receitas extras em melhoramentos para a população.

    Os empreiteiros e prestadores de serviços à Prefeitura, esses sim, é que estão felizes. Com fiscais de rendas cada vez mais desmotivados, com os quadros se esvaindo pela atração de salários melhores pela via de outros concursos, com contratos "maravilhosos" e alíquotas de mentira - transportes coletivos estão sujeitos ao ISS a uma alíquota de 0,01%, isto é, de cada milhão de reais pagam cem pratinhas de imposto -, ser dono de prestadora de serviços à Prefeitura do Rio é viver no paraíso.

    Mas tanto a imprensa, como a opinião pública, imaginam que fiscais de rendas são marajás. E o assunto, assim, nem nasce. Os empresários, na linha de batalha oposta, sorriem satisfeitos, livres para voar. Quando a casa vai cair?

    Porfírio, mesmo sabendo quem sou, por favor, mantenha meu anonimato.

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  2. Jileno Sandes.11:45 AM

    A vitória dos garis está sendo comemorado não só na Cidade Do Rio de Janeiro, mas em todo o país.
    O Brasil está vendo, tanto a cidade como o Estado do Rio de Janeiro, descerem ladeira abaixo com um trem desgovernado e fora dos trilhos.
    Tudo isso apoiado por uma mídia que odeia a democracia e o povo.

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  3. Anônimo11:57 AM

    A vitória dos garis nada mais é do que "a força do povo", contra tudo e contra todos, que insistem em reconhecer, que mesmo no poder - não são donos da pátria, mas estão a serviço do povo. Sejam eles: políticos, sindicatos,associações entre outros. Quando esses, não atenderem aos interesses daqueles que se propõem, devam ser banidos!

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  4. PAULO GIANINNI1:33 PM

    Que a greve da COMLURB no Rio de Janeiro.sirva de exemplo para todos os Sindicatos de Trabalhadores e Associações Civis, bem como que sirva de lição para os políticos, administradores públicos e privados do nosso país.

    O POVO ESTÁ CANSADO DAS PROMESSAS MENTIROSAS DOS GOVERNANTES, ADMINISTRADORES PÚBLICOS E PRIVADOS DO NOSSO PAÍS!!!!!!!

    C H E G A !!!!!!!!

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  5. Agora que a categoria dos funcionários da Comlurb conseguiu esse aumento - que o prefeitinho chama de "generoso", mas que na verdade nada mais é do que uma parcial recomposição da perda do poder aquisitivo dessa classe trabalhadora, sufocada por uma "inflação" calculada nas coxas das conveniências federais, estaduais e municipais, irmanadas em dolosa cumplicidade contra o sofrido povo brasileiro -, está na hora de, em prosseguimento à luta, expor quem são esses pelegos, puxa-sacos, por conveniência ou temor, dos apoderados do poder.
    Seria o caso, a título de colocar lenha na fogueira, de se propor que tal aumento não fosse dado a esses baba-ovos, já que se satisfaziam com os miseráveis 9% oferecidos por Sua Majestade, e que a parte economizada fosse distribuída entre os demais, que foram à luta.

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  6. Anônimo2:12 PM

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.