terça-feira, 11 de março de 2014

Farinha farta, meu pirão primeiro

Corrida aos lotes do poder é o retrato da sanha fisiológica que assola o país e ameaça a democracia

Na convenção do PMDB do insaciável Eduardo Cunha, Dilma fez mais uma aposta nessa aliança de escopo primariamente fisiológico.
Quem imaginou que o grito das ruas ecoou na Praça dos Três Poderes está redondamente enganado. Antes, pelo contrário, acostumada ao uso inveterado das máquinas públicas como alavancas dos seus interesses pecuniários, a laia que avilta a democracia com o uso delituoso de mandatos adquiridos a peso de ouro está mais preocupada é em meter a mão no erário para disputar mais uma eleição com bastante bala na agulha.

Essa briga de poder protagonizada por figuras sem a menor reputação, como esse Eduardo Cunha, é o espelho quebrado de uma máfia política sem qualquer recato. Esses parlamentares vivem de chantagens explícitas do tipo: ou me dão isso e aquilo ou vamos botar alguém do governo que esteja vulnerável contra a parede.  Se forem servidos, fica o dito pelo não dito e os questionamentos e denúncias vão a arquivo. É uma extorsão política pra lá de rotineira.
É deprimente ver que a cobertura dessa mídia de superfície dá todo destaque do mundo ao jogo rasteiro de poder, como se essa briga suspeita interessasse aos cidadãos, como se o destino do Brasil, com seus desafios gigantescos, dependesse do acerto de contas da presidenta com esse exército golpista de picaretas, sem tanques e sem canhões, mas com o cérebro nervoso de oficiais em guerras de rapina.
Tudo isso acontece por que o modelo institucional brasileiro foi confeccionado sob medida para transformar a atividade pública na mais descarada  atividade privada, num logro combinado e executado por gregos e troianos.

Por esse manual o mandato político é uma grande trapaça.  Eleitos são os que têm grana, suporte de empresários gananciosos e acesso direto aos serviços públicos, sejam federais, estaduais e municipais, que convertem em moeda de troca para engrupir eleitores incautos, estrategicamente estonteados pelos BBBs e outros imãs de uma mídia eletrônica imbecilizante e alienante por ofício.  

Esses trombadinhas que ameaçam usar o Legislativo para extorquir mais alguns lotes do poder são o corpo de delito de uma democracia representativa falsificada. Esse decididamente não é o regime consoante com a premissa de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido.
É a mais incontestável fraude semântica, eis que o povo é o que menos conta nas decisões e só entra no credo em ano de eleições.
Do jeito que a democracia está sendo esculachada aqui não surpreende que muita gente ainda conserve sentimentos de saudade do regime castrense, apesar dos excessos que nos horroriza a todos. Pode ser que considerem um tipo de militar, o legalista como foi o general  Henrique Teixeira Lott,  mas é possível também que pese na opinião  de muita gente a repugnância pelos hábitos dos políticos e o cansaço diante dessa novela grotesca em que as eminências do regime democrático dedicam-se o assalto aos bens públicos como virtudes, por que só lhes ocorre triunfar a qualquer preço.

Lula foi eleito em 2002 contra o PMDB, que participava da chapa tucana. De lá para cá, esse partido, onde pontificam politiqueiros de vários costados, não mudou nada, antes pelo contrário. E segundo a mais covarde receita de governabilidade, o PT de guerra foi se rendendo à necessidade dos conchavos e compondo com a pior laia, de onde descobriu que esse tipo de político fisiológico, desonesto, lobista, já formava também em suas fieiras.

Isto é, todos eles caíram na dança, abandonando o macacão e a barbicha pelas conveniências de um poder de costas para o povo, mas inebriante, envolvente, deformador. Hoje, lamentavelmente, é muito difícil distinguir um político de outro, tal a sedução lasciva dos vícios arraigados.

Essa adequação às práticas apequenadas se constituiu em si num retrocesso que afetou não só o agora partidão dos trabalhadores. Todos as legendas que exibiam algum verniz ideológico também caíram na gandaia e se misturaram aos oportunistas, realimentando-os e reintroduzindo-os com habeas corpus no cenário político.
Essa nova queda de braço com o valhacouto mais folgado do PMDB faz parte do jogo escolhido por Lula, Dilma e o PT.  Eles preferiram compor com a malandragem do que recorrer ao apoio popular, como fizeram corajosamente Hugo Chávez, Rafael Correa, Evo Morales, José Mujica e Daniel Ortega. E ao aderirem aos conchavos, tornaram-se reféns de raposas muito mais felpudas e mais escoladas, que sabem  como ninguém dar nó em pingo d'água.
No bojo dessa governabilidade negocial estão o solapamento da reforma agrária, a sujeição ao superávit primário para alimentar a banca, a condescendência com os oligopólios e os privilégios do agro-negócio, a volúpia da remessa de lucros, as novas privatizações e todo um catatau  de concessões que frustra  o Brasil soberano e justo apregoado nos palanques d'outrora.

Os "aliados" querem mesmo é fontes de saques, sejam em ministérios ou em  estatais, especialidade dessa figura deprimente, que reflete seus pares - Eduardo Cunha e o PMDB se merecem, se sustentam.

Não foi para isso que sacrificamos nossas juventudes naqueles anos dramáticos em que contestamos as espadas e os coturnos. Não aceito essa visão fatalista de que uns se matam no campo honroso das batalhas para que outros venham depois  meter a mão em nome do novo regime.

Bem que estou na torcida organizada  para Dilma livrar-se dessa teia de chantagens. Só não sei ela terá peito para enfrentá-la e mandá-la às favas.

12 comentários:

  1. Caro Amigo Pedro Porfírio!
    Ante-ontem postei uma matéria no face em que comentava que os partidos ideologicamente definidos praticamente não existem mais, estão em baixa, tanto é que 2013 foi o ano em que menos eleitores se filiaram.
    Diante disto entendo que esta "queda de braço" protagonizada por Eduardo Cunha só tem algum valor para a conquista de cargos no governo, não vai influenciar no sentido de mudar o voto do eleitor, a Presidente Dilma não perderá nada neste sentido.
    Mas a culpa pela força que representa um sujeito como Eduardo Cunha é do PMDB que desde a sua fundação eu dizia que não tinha "cara", sempre só esteve atrás de cargos, do poder,sem ideologia alguma.
    Um abraço
    Nelson

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  2. Anônimo8:40 PM

    Também estou nesta "torcida organizada".
    Mas, a Presidenta e o PT, precisam lembrar que:
    - não dá para fazer um omelete sem quebrar os ovos;
    - ou, como sempre diz a galinha para seus filhotes: pinto mole não entra !

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  3. Por que no Brasil alguns procuram levar vantagens a si e deixar os demais a sorte. O dia que políticos envolverem o povo em suas propostas a coisa vai melhorar.

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  4. Anônimo11:14 PM

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.