sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O rojão de sete cabeças

Mídia reeditou rolo compressor que deu cobertura à ditadura pintando seus adversários de monstros subversivos

Esta matéria está entalada em minha garganta há alguns dias e não é para menos: vivi  todo o terror da ditadura e vi o papel alucinadamente capacho que a mídia desempenhou na época, fazendo de um tudo para dar suporte ao regime, publicando matérias muito mais para prestar serviços do que pela sua natureza jornalística.

Eu mesmo paguei por esse alinhamento incondicional. Chefe de Redação da TRIBUNA DA IMPRENSA, fui preso, torturado e mantido no cárcere por um ano e meio sob a acusação de "terrorismo".  Muitos dos meus colegas sabiam que,  não obstante minha firme oposição ao regime, não estava ligado a nenhum grupo da luta armada. No entanto, O GLOBO chegou a publicar uma foto minha como "terrorista e assaltante de banco", o que me custou uma situação desconfortável na própria TRIBUNA e me valeu anos de ostracismo e sacrifício familiar depois que fui julgado e absolvido na 1ª Auditoria da Marinha.

A ÚLTIMA HORA de Samuel Wainer, onde dei meus primeiros passos profissionais, publicou uma foto minha de primeira página apontando-me como "agente do Al Fatah" por conta das minhas antigas posições em defesa dos palestinos já na década de 60.

Quem é ele que se vestia com a mesma roupa do Caio e

 que está ao lado da polícia? A pergunta está nas redes sociais

Revejo esse comportamento torpe no noticiário exacerbado, repetido, manipulado, carnavalesco, sobre esse incidente do rojão que vitimou nosso colega Santiago Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes, transformado num pretexto bestial para criminalizar os protestos populares e para atingir partidos que não rezam por nenhuma cartilha do poder, tanto como para atingir o político que ameaça derrotar o medíocre candidato tirado do bolso do colete do governador Sérgio Cabral Filho.

Decididamente, parece claro que o sistema operou em sintonia para construir seu próprio terrorismo, transformando a explosão do rojão na cabeça do cinegrafista num caso de segurança nacional, criando monstros e incursionando perigosamente em ilações irresponsáveis que chegam ao cúmulo de atingir legendas como o PSOL e o PSTU, que em muitas manifestações no ano passado foram hostilizadas pela massa heterogênea de manifestantes, no seio dos quais muitos tratavam por igual representantes de todo e qualquer partido.

De tal direcionamento foi o noticiário a respeito que já no dia posterior à explosão do rojão eu tive a nítida impressão de que a mídia torcia pela morte do cinegrafista, por que o sistema precisava de um cadáver, de uma vítima fatal dos manifestantes, assim como a ditadura acusava os oposicionistas inclusive pelas bombas que mandava botar, como no Riocentro, para incriminar oposicionistas e justificar o chumbo grosso que atingiu centenas de brasileiros, mortos nas masmorras da tortura, como Rubem Paiva, Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, citando apenas alguns que estavam claramente fora da contestação mais radical.

Nessa operação "de Estado", aconteceram coisas absolutamente despropositadas. Os advogados que apareceram para defender os acusados fizeram um jogo claramente atípico, forçando a "delação premiada" e dando insumos para a manipulação tendenciosa das declarações dos seus clientes. Eles próprias se tornaram condutos das afirmações atribuídas a eles.

Um delegado desconhecido, querendo aparecer bem na fita, resolveu fazer o mesmo que fazia o promotor Manes Leitão, o mais canalha da ditadura, para elevar ao máximo a punição dos rapazes. Neste caso, apesar das evidências sobre a inexistência de dolo (quando há intenção de matar), o delegado fez questão de alardear que os rapazes podem pegar até 35 anos de cadeia, com o que ajuda a acuar os indignados que, de uma forma ou de outra, expressam nas ruas os sentimentos de uma população que cansou de ser enganada.

Vídeos exibidos nas redes sociais parecem muito mais verídicos, quando mostram policiais infiltrados e diferenças entre suspeitos: é temerário e irresponsavelmente precipitado incriminar esses dois rapazes numa investigação sumária sob encomenda. Amanhã, se provarem a inocência deles, o Estado vai ter uma responsabilidade moral impagável,  pois tudo é possível que tenha acontecido.

E a utilização de um rojão como arma mortal é coisa de quem lida com explosivos, de onde se pode supor que estejamos diante de uma farsa com o mesmo escopo da bomba do Riocentro.

Vídeo mostra policiais infiltrados confundidos com manifestantes

Ontem mesmo, em Brasília, como reconheceu o ministro Gilberto Carvalho, a PM partiu para a provocação, ao trancar um ônibus usado pelo MST sob a alegação de que as cruzes que estavam lá eram "porretes para confrontos com policiais", o que deu margem à reação dos manifestantes.

Curiosamente, há quase uma semana os moradores de uma favela de Jacarepaguá estão fazendo manifestações na Praça Seca em protesto contra a morte de dois jovens, sem nenhum antecedente criminal, vítimas das balas de policiais despreparados e truculentos.  A morte desses jovens, que também são "filhos de Deus",  não causou indignação dessa mídia manipuladora, embora neste caso o DOLO salte à vista.

A espetacularização do caso do cinegrafista apresentou lances absolutamente insólitos. Apesar da característica de sua morte, a família tratou de doar seus órgãos, impedindo exames mais rigorosos que estudassem, inclusive, a evolução do seu estado durante o período em que esteve hospitalizado.

Bizarro e absolutamente desconfortável foi a viúva aparecer no enterro, juntamente com alguns parentes, vestida com a camisa do Flamengo, como se esse figurino fizesse parte de todo o esquema montado: o mínimo que peço aos meus é que, em qualquer circunstância, sejam os mais sóbrios possíveis quando o meu dia chegar.

Com certeza, o sistema jogou todas as suas cartas na exploração da morte do cinegrafista, querendo matar vários coelhos de uma só cajadada.  Até criminalizar vereadores que deram 200 reais para as despesas dos manifestantes que ficaram dias acampados em frente à Câmara entrou no rol das indignidades, tudo para quebrar o prestígio dos partidos que estão de fora desse perigoso jogo do poder, onde a corrupção, a propina e o suborno são os elementos motores.

Não sei a esta altura dos acontecimentos se todo o espetáculo midiático vai inibir manifestações de ruas, esperadas diante da incúria e da cumplicidade, do desvio dos dinheiros públicos, do abandono da saúde e da educação pública.

Parece que não.  Mas por algum tempo muitos jovens da periferia, ao contrário do que declarou o prefeito Eduardo Paes, um bobalhão de carteirinha, que os taxou de "filhinhos de papai", como ele, vão temer virar novos bodes expiatórios de um rolo compressor midiático sem qualquer compromisso com a verdade e a lógica.

Ontem mesmo, manifestantes voltaram a ocupar a Avenida Presidente Vargas contra os aumentos das passagens, autorizadas pelo prefeito, embora técnicos do Tribunal de Contas do Município, que tiveram acessos a planilhas, tenham relatado que o certo seria reduzi-las, por que elas estão superfaturadas.

Quando a população acordar dessa dose cavalar de inibidores que o noticiário recente disseminou sua indignação poderá ser maior ainda. Que mais pessoas sairão às ruas e que as urnas reflitam também toda a indignação de um povo espoliado e enganado por todos os que exercem esses podres poderes. 

Nilo Batista contesta investigação manipulada

Em irretocável artigo sobre os acontecimentos que culminaram com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, o professor Nilo Batista demonstra claramente falhas graves nas investigações sob a inspiração  do "fascismo punitivista", em meio a uma campanha midiática que pedia resposta policial imediata.

Pela sua oportuníssima contribuição à compreensão dos fatos,  transcrevemos seu artigo no blog Debate Brasil, que você poderá acessar daqui mesmo.

21 comentários:

  1. Anônimo2:58 PM

    Infelizmente, nesses protestos só tem gente desocupada, que vai justamente para causar isso e prejudicar os outros...

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  2. Anônimo4:51 PM

    Porfírio, esse país é uma vergonha, temo pelo futuro dos meus filhos e já cogito a hipótese de ir para o exterior. Não aguento mais ser confiscado todo santo mês por esse governo incompetente e ladrão, que só suga o trabalhador e não dá nada em contrapartida. E para piorar, ainda somos extorquidos por essas pseudo associações milicianas de luxo que se industrializaram na Barra da Tijuca e outros bairros nobres país afora...

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  3. http://youtu.be/OI-sS6eJecs

    + A IMPRENSA PROSTITUTA TERRORISTA +

    A imprensa prostituta terrorista do Brasil
    Conseguiu o trunfo maior que queria
    Ganharam o mártire na bomba que explodiu
    Assim assassinaram de vez a democracia
    Propondo novas leis imundas tirando o Direito da povo
    Na cara de pau dizem juntos venceremos o mal
    O povo acredita estou com nojo de ser povo
    As concessões criminosas das comunicações
    Moeda de troca da política vagabunda
    Semeiam putaria e mentiras para a população
    Não posso me calar vendo esta sociedade vagabunda
    A Lei diz que a imprensa tem que ser imparcial
    Só vejo jornalistas ao povo julgar e condenar
    O Povo Pobre do Brasil que já nascem Marginal
    Também Sou Povo e não posso me calar
    Nesta Prostituta Pátria Eu Não Posso Mais Ficar
    Ficarei nos corações que amam a Poesia
    Brasil... Enquanto eu for Vivo vou Lutar
    Até Raiar no Brasil À Democracia

    Edilberto José Soares
    Rio de Janeiro, 13.02.2014
    EXCLUSÃO SOCIAL DO BRASIL
    Trabalhei de motoboy do então
    presidente da rede bandeirantes de
    televisão Saudoso e Grande Homem
    Sr. João Jorge Saad, Quando Preso
    escrevi ao então presidente da band
    joão carlos saad ( jonny Saad )
    Que chamou para confirmar o que eu
    dizia o hoje deputado marcelo fleixo
    Quando narrava as craéis torturas
    que eu havia sofrido, contudo os dois
    me ignoraram e se aliaram, hoje no
    caso desta bomba vejo a lei do retorno
    punindo ambos e toda sociedade
    que tem que domarem o mostro
    que eles mesmos criaram, com a
    exclusão social do Brasil
    Beto Poeta.
    13.02.2014

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  4. Arnaldo Mourthé (por e-mail)4:44 AM

    Prezado Porfírio,

    Estou com você e assino embaixo de seu artigo. Estão preparando algo de muito grave contra todos os brasileiros. Nós de sempre, desde os tempos da ditadura, bem sabemos. Tentam esconder o fracasso do sistema e as ações lesivas da "elite" calhorda, dos políticos corruptos ou intimidados e da mídia de aluguel. que vendem o Brasil e penalizam o seu povo. Nossa atenção deve ser redobrada, pois estão tentando, sob a manto da segurança da Copa do Mundo, editar uma lei anti-terrorista contra os direitos dos cidadãos, pior do que a Lei de Segurança Nacional da ditadura.

    Um grande abraço,

    Arnaldo Mourthé

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  5. Porfírio,
    Manifestantes, obviamente, manifestam. Mas estes "manifestantes" estão manifestando o que? Nem eles sabem, Não existe um objetivo comum,como você eu eu sabemos que existiram em Diretas já. caras pintadas (que culminou com o impeachment do Collor, marcha dos cem mil contra a ditadura. Agora teriamos mil motivos, como redução de ministérios, mordomias de parlamentares, reeleições, atendimento de SUS, e vai por ai. Mas nenhum aparece nas manifestações. E o governo vai avançando nas pesquisas, porque nenhuma manifestação atinge o governo - o que fica ótimo para os governantes. Precisa de um objetivo de cada vez, explicitado. Não é como um jovem disse: "estamos insatisfeito com tudo" só posso rir. Os jornalistas deveriam sim, fazer campanha sobre os objetivos. Vamos supor que o governo quisesse atender os "manifestantes", nem saberia o que eles querem; nem saberia por onde começar porque nada está dito.

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    1. O rapaz da foto se identificou. Para o comentarista que não sabe porque nos manifestamos, vou ajudar: Aumento da passagem acima do que o TCM determina, R$ 2,50; Contra a remoção covarde de 80 mil cariocas e contra a violência desmedida da PM do Cabral. O STF ao ratificar a Lei da Anistia, em 2011, manteve todo o aparato repressor em ação, desde o Golpe Militar.


      "Virei Bandido !?!?!

      Primeiro vim aqui esclarecer todo esse absurdo.
      SIM sou eu na foto que, segundo muitos dizem ser um P2 e ou o responsável por ter soltados os rojões na manifestação .
      Sim eu estava na manifestação do dia 06/02 vestido de calça jeans e camisa cinza. E SIM sou eu falando com os policiais, falando para eles pararem de jogar gás lacrimogênio nas pessoas que estavam tentando ajudar o cinegrafista ferido no local.

      Mas isso não parecer ter importância nenhuma para a mídia e para muitas pessoas que publicaram e comentaram as fotos em que eu apareço.Tal que pautam o seu discurso conservador em construir e legitimar um palco onde a violência, a falta de ética e a discriminação fazem parte. E que, infelizmente, acaba encontrando ressonância na maioria da população. Mas o que mais me incomoda é esse circo que se montou, em que no centro do picadeiro se apresenta o trágico incidente do cinegrafista da band Santiago Andrade, em que eu aparentemente fui arrastado quando divulgaram fotos minhas com legendas bizarras e sem sentido. Me parece que as pessoas não se importam mais com o que de fato aconteceu no protesto e sim em pegar o culpado pelo incidente bota-lo em praça pública e prende-lo com uma trava de bicicleta à um poste. Há aqueles que dizem que o foguete lançado foi um ataque direto contra o jornalista e a mídia que ele represente, imaginem o absurdo !!
      Não se esqueçam que balas de borracha e gás lacrimogênio não fazem distinção entre manifestantes e jornalistas, a dor é a mesma. Porque não se fala dos jornalistas feridos por policiais, e mais importante porque não se fala das centenas de manifestantes feridos. Não faço apologia a violência, nem a atos de vandalismos, mas quando se tem uma força policial que encara manifestantes como criminosos, o resultado é a violência.
      Violência nas manifestações que procuram melhorar a merda de país em que vivemos, violência que todos fazem questão de comentar e aplaudir.
      Só pra ficar claro nessa declaração (que acabou virando um desabafo) eu tenho ''endereço'' e quem quiser resolver alguma coisa, ao invés de apoiar esse monte de excremento midiático, sabe onde me encontrar. Nas próximas manifestações lutando por direitos que a maioria da população fez questão de esquecer.

      OBS: fica o recado pra Mídia Informal, pro Blog do Rovai e todos que divulgaram minha imagem de forma imprópia." Tomaz Cesario Alvim Martinelli.

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  6. Jileno Sandes.1:42 PM

    Você como sempre, acertando na mosca.
    Montaram um grande teatro encima desse triste acontecimento.
    Vamos torcer para que a verdade seja conhecida.

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  7. Porfirio, junta-se aos outros solidários ao marginal, terrorista, faz uma vaquinha, tira ele da cadeia e leva para mora na sua casa e aproveita e faz afagos. Faz como voces fizeram com os mensaleiros ladrões abre um site de doações.

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    1. Sérgio Dubeux1:36 PM

      Que grosseria, pesali, meus pêsames.

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  8. Muito bom vosso artigo. Compartilho do mesmo pensamento. Abçs

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  9. viniciusbandera11:07 PM

    Porfírio,
    Você é um dos últimos moicanos,pois já não temos mais os indispensáveis Prestes, Brizola, Darcy e pouquíssimos outros. Está muito bem fundamentada a sua análise sobre o trágico incidente que vitimou o cinegrafista Santiago. O terrorismo midiático da grande imprensa (conservadora, golpista e ditatorial) está usando esse incidente para condenar os dois jovens por crime doloso antes mesmo deles irem à júri. Mais do que condenar os dois jovens, a grande imprensa, a direita em geral e até grande parte da população (como podemos depreender de alguns comentadores de seu blog) querem condenar e proibir as manifestações, o direito ao contraditório, a consciência crítica. Evidentemente que os dois jovens não tiveram intenção de assassinar o cinegrafista, mas reagir à costumeira repressão policial. Sou a favor das manifestações, mas acho que esses jovens deveriam ser guiados por teorias e artes que despertem e fortaleçam consciência crítica (Marx, Lênin, Gramsci, Brecht, Teatro do Oprimido, Paulo Freire, Cinema Novo, História, Sociologia, Filosofia, etc.). Já dizia o grande revolucionário Lênin: "Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária". O seu blog é um grande exemplo de consciência crítica. Sem consciência crítica, o ser humano fica quase que no mesmo nível dos animais, dominado pela alienação imposta pelo pensamento único (neloliberal) que domina o planeta. Continue nessa sua trincheira de fundamental importância para o momento atual. Na internet, tem um artigo do Nilo Batista sobre o infeliz incidente que vitimou o cinegrafista Santiago. A posição do Nilo é semelhante à sua, porém centrada na argumentação jurídica. Seria interessante se você pudesse postar o artigo dele em seu blog. O Nilo Batista e a esposa dele, Vera Malagutti, são também, como você, dois baluartes na defesa do contraditório ao pensamento único imperante no Brasil atual. Vinicius Bandera (campanha de 82 e SMDS).

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  10. Todos com vivência politica sabemos que nun existe combustão espontânea em movimento social, e o GM (Governo Mundial) tem na maioria dos casos o seu dedo nisto, vide primavera árabe o assassinato de Kadafi . A serviçal Dilma de alguma forma nun esta agradando eles ou ta na hora de fazer a troca de serviçal antes que nos o façamos em beneficio próprio assim eles manipulam os marionetes o o PSOl pode ser o PT de ontem pra fazer este papel.vejam www.resistenciabr.org que disse detalhadamente a ação do GM.

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  11. Sérgio Dubeux12:15 PM

    Porfírio, concordo com quase tudo. Tem um aí que te aconselhou a levar pra casa esses dois manifestantes. Pura grosseria. Debatemos ideias. Não será lançando impropérios que faremos luz.

    Quanto à questão do dolo ou culpa, é bom lembrar que quem assume o risco de sua conduta incide em crime doloso, sim. É o chamado dolo eventual. É o caso do indivíduo que tem consciência, ou deveria ter, do risco que envolve a sua conduta, mas reage com um "dane-se!".
    E você esqueceu de comentar o fato de que estavam na manifestação mediante paga. O Caio mesmo disse isso, diante das câmeras.Será verdade?

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    1. Sérgio

      Nesse caso, tenho certeza de que o "dolo eventual" não pode ser invocado, por que o uso de um rojão jamais presume algo que se destinaria a matar. Não sou advogado, como você, que aliás é brilhante e lúcido, mas chamo atenção para o risco de uma interpretação de encomenda.

      Em todas as "confissões" que vi fala-se em que puseram o rojão no chão: não vi que havia tido alvo, mesmo entre os policiais. Pelo que conheço das práticas manipuladoras faltou à investigação requisitos mínimos para a identificação dos autores do suposto crime.

      Sobre esse fato, do ponto de vista técnico, sugiro a leitura do artigo de NILO BATISTA que acabo de transcrever no blog DEBATE BRASIL - www.debatebrasil.com

      Gostaria, finalmente, de alertá-lo sobre a "paga" a que você se refere. Nenhum dos dois disse ter recebido dinheiro para participar das manifestações. No máximo, ouviu falar, mas isso é inteiramente discutível. Se eu estivesse na Câmara nesse momento, teria feito alguma igualmente diante das condições em que os jovens estavam acampados, sem que isso significasse uma concordância irrestrita com a manifstação.

      O fato de terem providenciado 50 quentinhas para os acampados é um ato de solidariedade que me lembra Brizola, em seu primeiro governo. Quando centenas de manifestantes foram ao Palácio Guanabara para um protesto, ele mandou que os fizessem entrar aos jardins internos e que se providenciasse algum tipo de alimentação para os mesmos. Isso é um ato de humanidade que não se vê mais.

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    2. Sérgio Dubeux7:57 PM

      Caríssimo Porfírio, respeito todas as opiniões relativas a esse indesejável acidente. Não tenha dúvida que foi um acidente. Os rapazes não queriam matar o jornalista, salvo se plantados pela direita - coisa que também podemos conjecturar.
      Humildemente, não sou criminalista, não tenho condições de debater a fundo, tecnicamente, com o grande jurista Nilo Batista, mas discordo do ponto de vista que ele adota nesse episódio.Mas vou ler o artigo que ele escreveu, com a atenção merecida. Apenas o sobreli.

      Mas não posso deixar de fazer considerações, seja como operador jurídico, seja como cidadão.

      O argumento de que não é corriqueiro sai para matar alguém provido de um rojão, a meu ver, cede, se desfaz diante do resultado: o rojão matou uma pessoa. É inconteste.

      A alegação de que os jovens não pretendiam esse resultado, embora verdadeira - ao que parece, pelo menos, ressalvada a circunstância de terem sido plantados à moda bomba do Riocentro -, nada acrescenta às considerações necessárias. No dolo eventual há, apenas, a assunção do risco. É o suficiente para configurar o dolo.

      A mistura do "domínio do fato" no Mensalão com o caso presente em nada ajuda, na minha modesta opinião. Até porque tenho como correta a prisão dos mensaleiros. Afirmar-se que Dirceu, Genoíno e os demais não tinham o domínio do fato é conferir-lhes o diploma de perfeitos idiotas, pelas posições-chaves que ocupavam. O erro é não terem atingido o Rei de Garanhuns, dominador absoluto de todos esses fatos e muitos mais.

      Na verdade, Porfírio, o direito, em sua quintessência, é como um guarda-roupas. Você o abre e escolhe o figurino. Desde que não destoe radicalmente do propósito, o simples uso da roupa por um figurão cria a moda. Não se irá a um encontro social de sunga, como não se irá à praia de fraque.
      Os limites jurídicos, não só pela tibieza de nossas leis - que muito colaboram para uma incerteza genética na sua própria interpretação -, mas pela própria natureza da chamada Ciência Jurídica (no mundo), são flexíveis, fluidos, variáveis, sujeitos, sempre, a neo interpretações, especialmente quando bem vestidos, seja por uma doutrina ou um doutrinador abalizado, seja pela marterlante jurisprudência - essa, muitas vezes, repetida sem alma, como se fosse um carimbo, a partir de uma primeira decisão impactante.

      Não é por falta de permissividade, ou de tolerância judicial - nossas leis de execução penal são frouxíssimas - que chegamos a esse ponto de falência social.
      A sociedade sabe muito bem discernir violência de manifestação. E a sociedade quer mudanças, inclusive nas suaves leis penais que temos.

      É o meu ponto de vista. Com todo respeito ao que pensam diferente.

      Quanto à paga, temo ter sido mal interpretado. O advogado de defesa falou em pagamento para manifestantes. O Caio concordou. Quem paga? Paga para quê? Pagar sanduíches para os que são verdadeiros manifestantes, como, por exemplo, no episódio do Ocupa Cabral, ainda que o benefício parta de quem tem interesse direto na briga política que daí pode exsurgir, é uma coisa legítima, diferente de se aliciar pessoas para posarem de manifestantes, como profissão. Ou não lhe parece?

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  12. Sérgio Dubeux5:39 PM

    Finalmente, agora li tudo que o Dr. Nilo Batista escreveu.
    Confesso que a leitura pausada e integral do belo texto (é admirável a capacidade argumentativa do autor, embora não seja surpreendente, pois se trata de um grande e conhecido jurista pátrio) nada acrescentou à sobreleitura que eu havia ontem feito.

    A meu ver, ainda que sem o domínio do fato - fosse essa a hipótese - o melhor enquadramento não seria o da simples culpa no ato praticado pelos dois rapazes. Seria, sempre, o dolo. Não vejo como excluir a modalidade dolosa na espécie. E explico porquê.

    O domínio do fato, com usado no mensalão, é recurso útil para incluir na autoria do crime aquele personagem que omissiva ou comissivamente participa dele, ainda que de forma aparentemente oculta, que não tem seu nome diretamente vinculado às provas, mas que dele não pode se excusar por, exatamente, ser óbvio que tinha ou tem o "domínio do fato".

    É só pensar em José Dirceu e José Genoíno e o Mensalão. Sem excluir o blindado Lula, naturalmente.

    Nada há de oculto na participação no evento pelos dois manifestantes. Dizer-se que eles não tinham o domínio do fato em função da aleatoriedade da trajetória do rojão, a meu ver somente serve para solidificar a eventualidade do dolo, pela assunção do risco que significa explodir aquele artefato em uma praça cercada de gente por todos os lados, sem saber para onde vai, quem será atingido, pouco importando se alguns são policiais extremamente protegidos, preparados para a luta.

    O suposto desconhecimento ou ignorância dos manifestantes da possibilidade do resultado alcançado não é motivo para a desqualificação do dolo eventual. Situa-se, quando muito, no plano de alguma causa diminutiva da pena. Só isso, e se tanto, é de se repetir.

    Em se tratando de pessoas imputáveis, em pleno gozo de sua capacidade mental, se não sabiam, se não imaginavam que aquele resultado catastrófico pudesse ocorrer, resta dizer-lhes: "Que soubessem!"

    E todas as teses que procurarem diminuir a gravidade do ato praticado, a meu ver, sucumbirão diante da realidade fática. Um rojão, atirado por dois desavisados, apagou uma família.

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    1. Sérgio

      Com todo respeito, nesse ponto estamos em divergência frontal. Minha convicção aumenta a cada dia. Ontem, NA MAIOR PRESSA, no dia útil seguinte ao recebimento da peça policial, o Ministério Público ofereceu denúncia na mesma linha da investigação. Não teve nem a prudência de usar mais alguns dias de prazo para a analisar tema tão controverso.

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  13. Anônimo3:41 PM

    Pois é, Pedro... Acreditar que o MP e o delegado façam parte da tropa da imprensa golpista me parece uma mistura de teoria da conspiração com o hábito de sempre, invariavelmente, achar que a grande imprensa é golpista, em todos os episódios.

    Vejamos mais um ponto em que devemos discordar - e que bom que discordamos, só em Cuba é que isso é proibido.

    O jovem que foi aprisionado no Aterro do Flamengo voltou a roubar.

    O país não anda frouxo?

    Devemos passar a mão na cabeça desses marginais? Estão à margem da sociedade, são marginais, independentemente da conotação que a palavra possa ter. Partamos daí. São marginais por quê?

    A resposta a essa pergunta, que evidentemente virá carregada de todo um viés social, do meio em que o delinquente vive, sua provável falta de pai e mãe, sua infância negada etc. etc., satisfará às vítimas?

    Ser esfaqueado ou baleado ou esmurrado por um desses, sem, sequer que se seja responsável pela situação em que o pobre nasceu, justifica, acalma, relaxa, conforta a vítima?

    A sociedade está cansada disso, Porfírio. O menor é vítima. E a vítima do menor, não o é? Só o menor é que pode fazer justiça pelas próprias mãos?
    Penso que ninguém deve fazê-lo.

    Mas, Porfírio, te confesso que se um elemento desses atentar contra mim ou qualquer pessoa na rua, especialmente se se tratar de uma mulher, um idoso ou uma criança, eu não terei limites na defesa.

    Um dia desses, acompanhei os passos de um morador de rua, acampado em torno do Posto 4, exatamente à volta do posto de salvamento de número 4, em Copacabana. Vive ali, junto com mais de vinte iguais a ele.

    Lá vinha o excluído admoestando um senhor. O idoso, provavelmente um octogenário, até que levou o assédio na esportiva. No final, talvez pela presença de muita gente em volta - não era mais que duas da tarde de um ensolarado dia de semana -, o "morador de rua" afastou-se.
    Enxerguei naquele senhor uma provável vítima. Na ausência de alguém do Estado que freasse o ânimo do necessitado, coloquei-me de prontidão. Felizmente, não foi necessário me envolver. Mas não hesitaria. Ou deveria, em nome dos oprimidos, deixar o excluído furtar ou roubar o vovô?

    É lógico que a solução não é simples. Uma delas não é passar a mão na cabeça dos excluídos, por maior que seja a exclusão.

    E não será com esses governantes, sejam municipais, estaduais ou os ocupantes da esfera federal que temos, que virá a solução. Todos só olham para o próprio umbigo, preocupados, unicamente, com as pesquisas eleitorais e a futura manutenção no poder. Todos querem uma casquinha. O bolo é muito grande. A farra é imensa. Quase todos os candidatos são iguais. Farinha do mesmo saco.

    E quanto ao Mensalão, Porfírio, é preciso dizer que as vultosas quantias desviadas pelos mensaleiros são migalhas, se comparadas ao vazio na esperança com que os eleitos desde 2002 fulminaram o povo.

    Pior que ser roubado em milhões, ou mesmo bilhões, é ter a esperança subtraída. Quem acreditou no PT, como partido reformador, quando olha para trás, nesses onze anos de práticas abjetas, sem solução para os problemas brasileiros, a repetir erros antigos, praticados pelos políticos então alvo de críticas, o que pensa de si próprio? Fui enganado? Sou um babaca, de votar nesses caras?

    Sejam as alianças espúrias, com Sarney, Renan, Sérgio Cabral, só para fixar três expoentes da roubalheira nacional, seja o favorecimento ao banqueiros - tão criticado, quando praticado por FHC -, seja a mentira da Bolsas Família, a criar desocupados, encostados, que trocam o dinheiro por qualquer coisa (por que será que o consumo de crack aumentou tanto?), tudo aponta para um grande blefe.

    Precisamos de reformas para ontem. E não será com Cidinhas, Lupis et caterva que melhoraremos um milímetro.
    Proponho que sejam considerados inelegíveis todos que detém cargo. Xô reeleição, em todo e qualquer nível.

    Passemos o país a limpo, ou coloquemos uma placa de "aluga-se" na porta.


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  14. Sérgio /Dubeux12:54 AM

    Retificando que o comentário acima é meu. Por equívoco, saiu como "anônimo".

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.