sábado, 22 de fevereiro de 2014

Duas violências e duas medidas

O vandalismo golpista na Venezuela é mostrado como santo, enquanto aqui criminalizam os protestos


Vândalos fazem o diabo para minar o governo bolivariano, com ajuda dos EUA

No manual da mídia global há duas regras para reportar a violência: a dos indignados no Brasil é apresentada como obra do demônio, criminalizada de cabo a rabo e estigmatizada numa assepsia fulminante pelo uso de bodes expiatórios feitos avisos prévios destinados a inibir qualquer demonstração de descontentamento, sejam cândidas ou furiosas.

Vandalismo contra um governo popular  foi aplaudido pela  mídia global
Já a violência na Venezuela, de conteúdo golpista, oriunda das irreversíveis posturas conspiratórias da potência decadente é apresentada como obra do divino, exibam ou não vândalos armados, bombas incendiárias, depredações de prédios públicos e todo um arsenal de guerra de última geração.

Como essa mídia multinacional galvaniza os receptáculos descuidados de cidadãos objetos, operando como ensandecidos rolos compressores, não é difícil fazer crer que esses dois pesos e duas medidas são sustentáveis por uma química segundo a qual cada caso é um caso: a violência que blinda seus interesses é tolerável; a que ameaça, nem pensar.

O vandalismo na Venezuela só não foi mais brutal devido à firmeza de Maduro
O cidadão brasileiro que ainda se posta diante de uma televisão arbitrária e com fortes cargas de maquinações acaba virando um reprodutor fácil da falácia midiática hipócrita e manipuladora.

Essa possibilidade ostensiva é o verdadeiro crime  contra  a liberdade, pois introduz em cada mente acrítica um coquetel virótico de alto poder corrosivo. Daí o papel sujo que esses informadores jogam para dar cobertura às violações constantes da soberania nacional e às tentativas de golpes contra o veredito democrático  do povo venezuelano.

As informações disseminadas por esses veículos comprometidos e sem escrúpulos se tornam, assim, componentes do plano golpista, da tentativa de rendição de um país que trilha o próprio caminho, direito e obrigação principalmente quando de trata de um detentor de recursos energéticos de alta valia no mercado dos podres poderes.

O que está acontecendo hoje na Venezuela é a aplicação pela enésima vez nesse país petrolífero da mesma tentativa solerte de reapropriar-se de  suas riquezas conforme insaciáveis interesses da potência vizinha, isto é do complexo industrial-financeiro dos Estados Unidos da América,  cuja viciada política de guerra e intervenção é condição sine qua non de sua vida política e econômica.

Na cobertura facciosa de manifestações fabricadas a mídia internacional não vê limites. Enquanto a CNN norte-americana se planta dentro do país como palanque multiplicador dos grupos golpistas, enquanto o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, ícone da direita beligerante (que ganhou fortunas no confronto com a guerrilha), coordena uma estrepitosa infiltração de imagens de televisões fronteiriças, agindo sobre a própria população venezuelana,  as agências e os cúmplices locais se dedicam com esmero à imobilização da indignação nas nações irmãs.

Nessa orquestração burlesca, que aciona de forma profissional as redes sociais da internet, o vale tudo é a regra. Servem-se dos estratagemas mais despudorados: ora são fotos capturadas em outros países e publicadas como se de lá fosse, ora são tinturas lânguidas que tentam justificar os atos de vandalismo praticados por pessoas treinadas e contratadas para tais agressões.

No temático, o noticiário de cobertura ao projeto golpista recorre a manipulações tacanhas. Pinta como revoltas estudantis, por seu caráter emblemático, o que se forja muito além das fronteiras universitárias. E chega ao cúmulo de dar verniz político à condição de "miss", forçando o envolvimento nos "protestos" de algumas ex-misses qualquer coisa em troca de seu reaparecimento fortuito na mídia, que já as havia arquivado.

O ensaio golpista reproduz as mesmas fórmulas da época do presidente Hugo Chávez - com o desabastecimento, a instabilidade econômica, a fabricação do descontentamento e as provocações nas manifestações de rua - por que  o seus monitores imaginavam que a morte do grande líder bolivariano havia quebrado o poder de resistência do povo venezuelano.

Achavam que Nicolás Maduro, um ex-motorista de ônibus, não teria estatura para aguentar o tranco. E subestimaram a organização popular, inspirada por Chávez, que tem o dom de multiplicar a resistência, como se multidões incorporassem igualmente a figura tenaz do líder legendário.

Nessa avaliação, parece que vão se dar mal, apesar da alta carga de investimentos, com a utilização até de novos títeres,  cada vez mais indóceis e ambiciosos. Está claro que manter o governo bolivariano acuado e sob fogo cruzado é questão de honra para a sacra aliança entre as elites de Caracas, a máfia de Miami, sua mídia escandalosamente mercantil e o governo dos Estados Unidos, que lá vai muito além da bisbilhotagem da vida dos governantes.  Mais importante será para esses incorrigíveis conspiradores derrubar o governo eleito e promover um retrocesso com o fim do processo de mudanças iniciado pelo líder, cujo câncer foi produzido em laboratório nos termos das tecnologias golpistas mais modernas.

É preciso ter em vista que qualquer fenda que mine a República Bolivariana da Venezuela fere e constrange por igual às nações irmãs, como o Brasil, que se até agora não foi fichado como perigoso inimigo em Washington, ainda é uma grande incógnita para os insanos donos do mudo.

Em minha juventude, quando a mídia eletrônica não se instalara nos recônditos decisórios do cérebro cidadão,  quando as redes sociais não existiam como válvulas de escape compensatório, milhares de brasileiros já teriam ganho às ruas em solidariedade ao povo irmão da Venezuela, como aconteceu nos anos românticos em que demonstramos com garra e paixão nossa posição em defesa da soberania de Cuba.

Em minha velhice, porém, sou forçado a aceitar que até mesmo os indignados espontâneos, que vão às ruas em aguerridos cordões, perderam a noção do caráter global da criminalidade política. Insurgem-se com garbo e coragem contra deslizes locais, igualmente expostos pela mídia direcionada, mas parecem incapazes de abrir a janela para o mundo, conforme o manual de constrangimentos e imbecilização dessa mesma mídia que os anatemiza.

Nem mesmo os partidos e partidários do chamado campo progressista têm usado suas tribunas e seus palanques para alertar sobre os perigos de um golpe na Venezuela bolivariana. Não obstante o óbvio, parecem contidos por uma agenda acordada, em que evitam ir além do consentido.

Mas daqui, dessa trincheira tão periférica, deixo o testemunho vivo dos meus quase 71 anos: o que se fizer contra as instituições soberanas da Venezuela nos alcança igualmente. Reflita sobre isso.

Leia também


O terror antiterrorista


CRISTOVAM BUARQUE
22/02/2014 

Em 1964, para “defender as liberdades”, os comandantes militares, aliados a parlamentares, destituíram o presidente eleito. Cinquenta anos depois, um governo eleito, aliado a parlamentares, propõe regras para inibir manifestações de rua sob o argumento de “defender o direito de manifestação”. Para isso, propõe via projeto de lei nº 499 regras que criminalizarão atos cometidos nas manifestações. O senador Pedro Taques apresentou emendas, mas dificilmente mudará o espírito da proposta.
Clique aqui e leia o artigo completo 

Um comentário:

  1. Anônimo10:56 AM

    Sr. Porfírio, sempre vi nos discursos - um desabafo inflamado pelos anos ditatoriais, vivenciados dos no Brasil. Agora, a essa idade, (como gosta de falar) conclamar a população a lutar por um regime “tão nefasto”, não condiz com a fala de alguém, que vivenciou os anos de chumbo da nossa história. Quanto à Venezuela e Cuba...especialmente essa última, não é possível, que com tanto sofrimento vivenciado por aquele povo, em mais 50 anos de ditadura, continue a defender o Castrismo e aqueles que rezam na mesma cartilha.

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.