quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Nem o diabo, nem o coisa ruim

Por cima da copa e de outras jogadas, precisamos repercutir o inconformismo de Cristovam Buarque

"Algo vai mal quando um país que precisa enfrentar seus problemas chama de ano da Copa um ano de eleições presidenciais. É o que está a acontecer com o Brasil".
Senador Cristovam Buarque

Um dos raros indignados desta Brasília sob isolamento acústico, o senador Cristovam Buarque parece ainda condenado a pregar no deserto. A turma cúmplice do deixa disso reina e governa em todos os clãs e faz uso e abuso dos truques dos novos tempos, com dotes mirabolantes e propriedades conservantes cultivadas na salmoura que faz dos dominados agentes proativos de sua própria desgraça. 
Felizmente teimoso, Cristovam tem se debatido furiosamente contra a degeneração política cujo escárnio mais atual é a maximização da Copa do Mundo no Brasil, no status de gloriosa efeméride, monopolizando as atenções e os sentimentos de tal forma que o contencioso paquidérmico de percalços sociais é remetido sagazmente para o arquivo morto de um povo que aceitou sem perceber a terceirização de sua capacidade perceptiva.

Em seu último artigo, sintetizando sua quixotesca peroração numa casa legislativa sem recato, Cristovam escreveu, entre outros lamentos:

"No país, temos 13 milhões de adultos que não diferenciam as letras e outros 40 milhões sem capacidade de leitura; a produção não dispõe de logística eficiente para sua distribuição; e cinquenta milhões de brasileiros vivem graças à (felizmente) ajuda do programa Bolsa Família. Apesar disso, em vez de propostas dos presidenciáveis para 2015, estamos preocupados se os estádios da Copa ficarão prontos em 2014".

CLIQUE AQUI E LEIA O ARTIGO DE CRISTOVAM BUARQUE

E mais disse por que mais havia o que dizer, tal o molambo pictórico que empana a verdade e emascula a turba. Mas o que disse parece um dramático registro de quem foi sentenciado a só dizer, restando-lhe menos espaço do que o permitido ao Quixote Teotônio Vilela, sob aquelas nuvens carregadas de chumbo grosso. Suas possibilidades práticas estão submetidas a um confinamento calculado e sua potencialidade combativa é sistematicamente minada pelo "fogo amigo".

Há todo um vitupério ensaiado num conjunto de conspiratas contra o conhecimento verdadeiro e a informação limpa, de onde a extravagância por conta da copa de futebol se insere sob medida nos moldes de um sopão de fabricadas ilusões.

Não é à toa que gastam os tubos com estádios de destinos ínvios e desuso programado. A mecânica do circo de passagem tem muito a ver com o amesquinhamento das exigências humanas e se assemelha à corrida à praia no réveillon carioca.

Oferecem  às multidões espetáculos reprisados com uma boa dose de desconforto e sacrifício até para o xixi. Mas a fórmula funciona como produto de um diagnóstico preciso: nesses minutos cada um expõe sua essência exibicionista e sua tendência  à rendição épica, ao entendimento do viver como o culto do que mandam cultuar, solenizado com as fotos digitais destinadas à internet da moda.

A elevação do certame de futebol aos píncaros é apenas parte da estratégia de manipulação dos usos e costumes, já que ainda vamos ter outros frutos orgásticos como o carnaval.

O importante é manter o termômetro da alienação na temperatura conveniente de modo a que o juízo das urnas se limite à escolha de sempre entre o diabo e o "coisa ruim".

Em se sabendo da vocação decente do senador Cristovam, os restantes inconformistas e indignados deveriam teimar a seu lado e também cavalgar na contramão dos oportunistas, oferecendo contra o viciado processo eleitoral a alternativa de um NÃO ROTUNDO a todas essas maquinações torpes e malfazejas.  

Como o povo também pode surpreender, como nas manifestações recentes, quem sabe se um sopro do pensamento honesto não pode remover montanhas? Nessas horas, até que compensa usar as redes, cuja capacidade multiplicadora tem inegável serventia.

Para o mal, mas também para o bem.


5 comentários:

  1. Anônimo8:54 PM

    O próprio Golbery já dizia que a sua esquerda tinha como missão maior deixar brizolista falando só. Além disso, que nação que nada tem só educação pode render algo, mas para a que já term riqueza natural, como o Brasi, ignorância faz o mesmo e melhor.

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  2. Anônimo8:43 AM

    O problema é que NÃO existem alternativas ao falho PT nessa conjuntura eleitoral que se apresenta no momento. Quem seria a alternativa? Aécio-blilhões-desviados-da-saúde?! Marina-amiga-de-fé-irma-camarada-do-itau/natura? Eduardo-propaganda-é-a-alma-do-negocio-pra-esconfer-governo-ruim?! E o que dizer do candidato do PSOL que segundo correligionários deu um golpe no partido pra poder ser candidato?! E por isso que no final, acabamos tendo que escolher entre o roto e o remendado.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.