domingo, 27 de outubro de 2013

A "barbárie antidemocrática" de cada um ou quem atirou a primeira pedra

Antes de criminalizarem os jovens rebelados os governos deveriam avaliar seus próprios desatinos

O comandante da tropa de repressão saiu de sua condição para ir laçar
pessoalmente uma "vândala" num ambiente de violência compartilhada,

 em que a PM exibiu com garbo sua truculência incontrolável.
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Acuada por cobranças implacáveis, atormentada pelas sombras do passado e preocupada principalmente com a vulnerabilidade do Estado repressivo, a presidenta Dilma Rousseff classificou como "barbáries antidemocráticas" as depredações ocorridas em São Paulo, durante manifestação pelo passe livre no transporte público da cidade. Via twitter, a presidente prestou solidariedade ao coronel Reynaldo Simões Rossi "agredido covardemente por um grupo de  black blocs".

"Agredir e depredar não fazem parte da liberdade de manifestação. Pelo contrário. São barbáries antidemocráticas. A violência cassa o direito de quem quer se manifestar livremente. Violência deve ser coibida", escreveu Dilma na rede social; A presidente cobrou das forças de segurança "a obrigação de assegurar que as manifestações ocorram de forma livre e pacífica".

Ninguém de sã consciência aplaude a explosão violenta da indignação juvenil nas ruas das cidades brasileiras. Mas a todos os que ainda pensam livremente impõe-se a pergunta elementar:

por que chegamos a esse tipo de manifestação desconectada das gôndolas alegóricas que singram mansas as águas turvas de um mar de lama?

Até junho passado, o descontentamento e as frustrações  de milhares de jovens não haviam transposto os muros escolares e os guetos marginalizados. Não fosse um coquetel de diabruras de um sistema hegemonizado por  um poder econômico insaciável e a repressão descontrolada da PM ninguém teria atirado a primeira pedra, alvejando prioritariamente as vitrines dos bancos, senhores absolutos de todos os podres poderes, fontes inesgotáveis de corrupção e beneficiários necessários  das peripécias governamentais ao longo de décadas.

Foi preciso a exposição da cumplicidade subserviente de prefeitos na relação delituosa com as máfias dos transportes, que a todos subornam, para que as ruas fossem retomadas por seus legítimos donos. Já não dava mais para sufocar o grito que estava parado no ar.

Primeiro, uns. Depois, outros. Em dias, a cidadania inteira se tocava de sua força e de sua responsabilidade. Um mar humano invadiu os palácios e os covis numa pungente explosão de efeitos apocalípticos.  Era uma onda de calouros da revolta que se espalhava pelos quatro cantos produzindo um recado cristalino: basta de toda essa farsa fermentada pelas farinhas do mesmo saco que simulavam conflitos para escamotear a uníssona submissão a um modelo econômico excludente, com viés compensatório vicioso, que alcança todas as camadas sociais, opera uma sensação canastrona de boa semeadura, deixa milhões de jovens sem ter onde enfiar seus canudos de papel, criminaliza a odisseia dos anciãos, mantém intactas as estruturas da opressão selvagem  e torna a sobrevivência digna uma utopia obsoleta.

Os próceres dos podres poderes fingiram que ouviram o clamor das ruas. Fingiram, apenas, da boca pra fora. Ao contrário, porém, trataram de novas artimanhas para manter intacto o sistema da injustiça, dos privilégios e da impostura.

Muitos dos que saíram da inércia para a pugna eloquente das ruas convenceram-se da inutilidade dos audazes protestos.  Voltaram para o recinto do lar com o gosto amargo da frustração. Perceberam à primeira vista a armadura que blinda com chumbo grosso os interesses mais sórdidos e o desprezo pelo drama das maiorias, condenadas ad eternum a dorsos das elites gananciosas.

Mas outros, não. Não eram muitos, mas eram tantos que poderiam continuar abalando a rotina conservada na salmoura da chacina social. Esses tantos entenderam o protesto pela via do confronto quixotesco. Armados de paus e pedras decidiram enfrentar os fuzis com a flama de seus atos beligerantes estabanados.

Independente da aparente inconsequência e indiferentes ao desconforto de suas ações melindrosas, esses grupos diversos, de variados matizes, incorporaram o sentimento do inconformismo ante o cinismo dos detentores dos poderes, que só pensam em seus mesquinhos interesses menores.

Antes de censurarem a "barbárie antidemocrática" desses jovens insistentes devem as autoridades de todos os entes e de todos os podres poderes olhar os próprios umbigos. O que fizeram de bom depois das manifestações mansas e pacíficas de  um povo bravamente insatisfeito?

Até mesmo o episódio que envolveu esse coronel soa como uma grosseira provocação. Estaria na estratégia da repressão o comandante ir laçar pessoalmente e sem cobertura dos subordinados uma vândala cercada de parceiros da mesma indignação?

O que vemos, lamentavelmente, é que o aparato repressivo, a partir da autoridade maior, segue a mesma cartilha  dos idos abominados. Não seria também uma barbárie de alto teor explosivo a operação de guerra montada na Barra da Tijuca para proteger o leilão da maior reserva petrolífera do país?

Barbárie é em si o próprio leilão do poço suculento de Libra, uma renúncia suicida ao poder decisório do Brasil sobre suas riquezas estratégicas. O petróleo é, aliás, o mais aberrante cenário das barbáries mais criminosas: da míope privatização das jazidas ao jogo sujo de mentiradas repetidas, como o blefe do Eike Batista e o anúncio da autossuficiência há anos, tudo é farsesco nesse trilionário ambiente de golpes e falcatruas.

Ao ver da lucidez sobrevivente, há, sim, uma intercomunicação de barbáries. O governo possível que temos hoje se esmera em deprimentes capitulações, seguindo s pegadas dos antecessores neoliberais: além da trama petrolífera, frustra-nos com a privatização dos aeroportos lucrativos (os deficitários, 85%,  ficarão por conta do contribuinte), a inviabilização da aviação comercial brasileira, as privatizações dos melhores portos e das rodovias mais rentáveis  o que nos expõem a uma bitributação) e até a paulatina desnacionalização do bicentenário Banco do Brasil.

Aqui, por estas plagas cariocas, um prefeito descompensado e leviano está gastando R$ 10 bilhões (que faltam à educação) numa obra inconsequente de perigosa aventura imobiliária, que inclui a precipitada demolição de um elevado de 7 Km que liga os dois grandes eixos viários da cidade e retira o trânsito do tumulto urbano. Esse desatino bárbaro tem por pretexto dar visibilidade aos espigões que a cabeça desmiolada do prefeito imagina para uma área engolfada que não suporta adensamento e que seria uma zona de trânsito paralisado se alguns aventureiros lá se instalarem em prédios de 50 andares.

É muito fácil criminalizar a revolta juvenil, pois cada vitrine quebrada é um condimento a temperar a paranoia cristalizada.

Difícil é fazer os donos deste Brasil já não tão brasileiro a buscarem nas entrelinhas da barbárie das ruas os sintomas de uma nação sem rumo, sem eira nem beira, sem autoridade moral sequer para o confronto com a espionagem agressiva, que opera atos de guerra  que ferem mortalmente a soberania de um país e o tornam demasiado vulnerável ao domínio externo.

Para falar de barbárie das ruas forçoso é entendê-la como erupções pútridas de um organismo contaminado por todas as variáveis de barbáries. Especialmente as dos podres poderes, que por regra sempre atiram  a primeira pedra.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O rei está nu, mas tem costas largas

Eike Batista deu cano em meio mundo e, no entanto, ninguém levanta a voz contra suas travessuras 

Amigos, irmãos, camaradas, Eike e Cabral fizeram poucas e boas
Ações do grupo foram ao mercado em nome de empresas que vendiam promessas. As da petrolífera, que hoje estão encalhadas a R$ 0,23, chegaram a R$ 28,50.   Ao longo da história republicana poucas pessoas aprontaram tanto, ganharam tanto, como o outrora todo poderoso "Senhor X". Há centenas de pessoas lesadas por sua manipulação do mercado, por seus blefes e pela massiva venda de papeis sem lastro real.  No entanto, ele continua no gozo da mais ostensiva impunidade, graças às suas íntimas relações com os figurões da República, de todos os partidos, com expoentes de todos os poderes e com astros da mídia, aos quais sempre destinou generosa atenção.  Com certeza, é seu debacle e não os Black Blocks, que tira o sono do Serginho Cabral. Dizem que seus arquivos são poderosos e podem deixar meio mundo mal na fita. Esse seria o segredo do tratamento especial que vem recebendo diante do desmoronamento do seu império como um castelo de cartas marcadas.

Não precisa ser "especialista" pra sacar que essa queda livre do artista Eike Batista é obra de proveta. Ninguém fica exibindo a fortuna a troco de nada. Tudo fazia parte do show. O seu "X" da questão foi um bem urdido jogo de cena que pegou. Isso é o que o vulgo conhece como blefe. Que deixou milhares de investidores com a cara de bunda, igual à de quem cai no "conto do paco".

Em qualquer país sério o Eike já teria tido o mesmo destino de Mikhail Khodorkovsky, ex-magnata do petróleo russo, que foi trancafiado por Vladimir Putin em 2003, pegou 14 anos de cadeia (reduzidos a 11) e viu falir a sua petroleira Yukos, avaliada no auge em US$ 40 bilhões (R$ 112 bilhões), mais do que todas as empresas do nosso "bom burguês" juntas.  

Eike continua aprontando e vendendo o que pode e o que não pode a preço de ocasião.  O império de R$ 98 bilhões da noite para o dia foi reduzido a R$ 2 bilhões, isso com muita boa vontade. As ações da OGX, seu carro-chefe, caíram de R$ 28,50 para R$ 0,23, deixando no aperreio todo mundo que comprou seus papéis - papéis sem lastro, expediente que os bancos também praticam, mas que se garantem com os depósitos dos clientes.

O dinheiro dos acionistas do Eike evaporou-se na solidão de uma farsa, enredada em sua própria teia. Nenhuma outra empresa dos respectivos ramos sofreu qualquer baque expressivo. Ou estão mais abastadas ou permanecem no mesmo.

Não há notícia de um prejuízo de Eike numa operação conjuntural. Tudo começou a degringolar em 26 de junho do ano passado, quando, após o fechamento da BOVESPA daquela terça-feira, um comunicado enviado pela OGX à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que a vazão do poço de Tubarão Azul, na Bacia de Campos, em produção desde o início daquele ano, seria menor do que fora prometido.

Eike havia pregado uma peça no mercado, comprometendo a própria credibilidade da Bolsa de Valores de São Paulo, que deu mole diante dos seus ardis perceptíveis a olho nu.

No "X" da debacle tem muita gente de rabo preso, envolvida até o pescoço. É pública e notória sua intimidade com alguns políticos, como o governador Serginho Cabral, aos quais servia mais do que cafezinho e água gelada, numa parceria sem segredos.

Talvez seja por isso que até o momento nem se fale no devido corretivo, embora para descobrir suas traquinagens não careça nem mesmo de escutas telefônicas e outros esforços de reportagem.

Eike Batista pode se orgulhar da mais absoluta transparência nas tramas que o catapultaram à oitava maior fortuna do mundo, primeira do Brasil com muitos corpos de vantagem. Tais peripécias, aliás, sempre foram cantadas em prosa e verso pela fina flor da mídia daqui e d'além mar.

Há de se constatar que ainda estamos longe do epílogo e ainda corremos o risco dos cofres do BNDES e adjacentes serem reabertos para socorrer Eike, sob o pretexto de livrar a cara dos acionistas minoritários, com a mesma prestimosidade com que acodem nosso intocável sistema bancário.

Como é dos hábitos, os empresários nunca ficam a ver navios, embora Eike já tenha mandado para o desmanche o seu Pink Fleet, super-iate de R$ 30 milhões, cuja estréia, em 2007 foi o grande evento do  high society nacional,  capitaneado pelo governador Serginho Cabral.

O dele já deve estar a salvo em lugar seguro e sob proteção dos deuses. O dos que caíram em suas arapucas é que vai sumindo no vendaval das ilusões vividas. Resta saber se ainda há leis, promotores e juízes aqui para que danos traumáticos não fiquem por isso mesmo.  

domingo, 6 de outubro de 2013

Tortura como espelho de uma UPP

Caso Amarildo revela que torturavam moradores na UPP da Rocinha para pôr a mão em armas e drogas

Moradores da Rocinha marcham  contra abusos de
 poder. Manifestação quase inédita.
Pelo menos 22 pessoas foram torturadas de março até julho na UPP da Rocinha, a maior favela do país, segundo relatório da Delegacia de Homicídios, que indiciou 10 policiais militares, inclusive seu  comandante, major Edson Santos, como responsáveis pela morte do pedreiro Amarildo Dias de Souza.

Esse número de torturados é baseado nos depoimentos das próprias vítimas, isto é, das pessoas que tiveram coragem de relatar as sevícias sofridas na chamada Unidade de Polícia Pacificadora.  É de se supor que outros tenham passado pelos mesmos constrangimentos desde a instalação da UPP, em setembro de 2012, e que tenham ficado traumatizados a ponto de optarem pelo silêncio.

Os relatos apresentam cenas semelhantes a que eu e outros brasileiros passamos nos porões da ditadura: asfixia com saco plástico, choque elétrico com corpo molhado, introdução de objetos nas partes íntimas e até ingestão de cera líquida.

A Rocinha não deve ser uma exceção: as práticas policiais nas áreas de favelas e conjuntos habitacionais "de baixa renda", que no Rio somam 30% da população, são antigas e se consolidaram com os aparatos de ocupação, numa política vendida à opinião pública assustada como o grande remédio da segurança pública no Rio de Janeiro.

De tal forma essa ação discriminatória é apresentada que ninguém tem peito de mostrar o seu caráter ilusório e sua essência perversa: as favelas e conjuntos proletários são apresentados como santuários do crime organizado, onde os bandidos teriam a cobertura dos seus moradores, por bem ou por mal. Só com sua ocupação militar o Estado inibiria as ações criminosas na cidade.

A implantação de práticas continuadas de torturas explica a repentina mudança de comportamento dos quase 90 mil moradores da Rocinha. Até a UPP, eles podiam ser catalogados entre os mais indiferentes ao próprio sufoco: não há notícias de que tenham participado de manifestações como a passeata com mais de duas mil pessoas que fizeram de São Conrado à casa do governador Sérgio Cabral, no Leblon para exigir apuração rigorosa do desaparecimento do pedreiro e o fim dos abusos de poder da PM.

A Rocinha tinha um grau de despolitização muito elevado por sua localização privilegiada de frente para a praia de São Conrado (uma vertente) e para a Gávea, na Zona Sul, (do outro lado) e pela própria existência de situações sociais diferentes - quem mora no Bairro Barcelos, embaixo, não se ligava com os da Cachopa, mais pobre, em cima do túnel; os da Rua 2, no meio do morro, não tinham nada com os do Laboriaux, no alto.

A associação de moradores, até a ocupação, era ostensivamente controlada pelo tráfico - hoje é tudo no sapatinho. Lá, ao contrário da maioria das comunidades em que domina, o  tráfico,  uma organização quase inexpugnável, tinha (e tem) uma temida interferência política, à semelhança das "milícias", elegendo um vereador (que morreu em circunstâncias suspeitas no exercício do mandato) e carreando votos para um deputado estadual.

Presença policial, sinônimo de "esculacho"

Em geral, os traficantes são assimilados muito mais pela humilhação e o "esculacho" imposto por policiais em suas incursões e suas práticas de extorsão. É muito comum até hoje a "mineira", quando a polícia captura um bandido e pede uma boa quantia para liberá-lo.

Com a presença permanente de PMs, o tráfico deixa de ser ostensivo, mas subsiste e,  mais dia, menos dia, seu paiol de armas e drogas desperta a cobiça da polícia. Foi o que aconteceu na Rocinha, conforme relatório da delegada Ellen Souto, que presidiu o inquérito sobre a morte de Amarildo.

"Temos 22 vítimas de tortura ouvidas pelo Ministério Público, que narram com preciosismo de detalhes o modus operandi da tropa do major Edson, sempre objetivando informações sobre esconderijos de armas e drogas. Essas torturas ocorriam no Centro de Comando e Controle da UPP e nos becos da favela, inclusive no beco do Cotó, onde Amarildo foi abordado".

O envolvimento de integrantes das UPPs em extorsões e acordos de "arrego" seria inevitável, como acontecia no tempo dos antigos e mais modestos "DPOs". Mesmo usando soldados recém engajados, sobe a cabeça o poder atribuído à tropa nessas áreas onde por décadas se vendeu drogas. Daí, vez por outra, esses desvios vêm a público, como aconteceu nos morros da Providência e da Coroa.

No fundo, a militarização das favelas só serve para criar nichos de sub-cidadania. Diferentes do resto da cidade, todos os moradores das áreas ocupadas são formalmente destituídos dos seus direitos constitucionais, vivem sob o arbítrio e à mercê do humor dos policiais, que podem invadir suas casas a qualquer hora do dia ou da noite.

Local de torturas a céu aberto

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Na Rocinha, todo mundo sabia do uso do "parque ecológico" à noite, como centro de tortura a céu aberto. Foi preciso que acontecesse uma morte e que ela tivesse tido uma repercussão internacional para que 22 vítimas se animassem a depor:

 "As vítimas narram que essas torturas contavam com saco plástico na cabeça, choques com o corpo molhado, e até ingestão de cera líquida. Amarildo sofreu o que essas 22 vítimas sofreram, mas não resistiu. Sua morte foi uma fatalidade", afirmou a delegada Ellen Souto.

Como é histórico, só um cadáver pode chamar a atenção  da violência do Estado. No caso do pedreiro da Rocinha, seu desaparecimento depois de preso ganhou o mundo através das redes sociais e da própria mídia, obrigando a Secretaria de Segurança a esclarecê-lo, mesmo a custa de algumas cabeças e da exposição das vísceras de uma UPP.

O que o secretário não contava era que o inquérito, conduzido por uma delegada jovem e determinada, com apoio do Ministério Público, servisse para inventariar as práticas arbitrárias em uma UPP, atingindo populações que até agora não tinham como espernear.

Não é de hoje que quase solitariamente tenho apontado esse regime seletivo de ocupação de comunidades pobres como uma grande farsa de um marketing institucional "separatista", irresponsável e inconsequente.

Seus resultados concretos são pífios, eis que o tráfico continua existindo - no sapatinho e sob "proteção policial" que substitui os bandidos armados contra a invasão de grupos rivais. E as áreas urbanas ficam desguarnecidas por falta de policiamento ostensivo, inclusive em bairros turísticos como Copacabana, como tive oportunidade de constatar na noite de um sábado recente.

Melhores resultados efetivos o sistema policial teria se recorresse aos seus serviços de inteligência. Mas isso é impossível pela guerra surda entre polícias civil e militar por esse filão inesgotável.

Tal conflito, aliás, está em sua temperatura máxima. E  pesou para que a Delegacia de Homicídios produzisse uma investigação ampla, acima da expectativa, na apuração do caso Amarildo. Nesse inquérito, uma perícia de voz desmascarou uma ligação montada na qual um traficante teria confienciado a outro a autoria do crime: "a perícia comprovou que a voz da ligação não é do traficante Catatau.  Essa confissão é uma farsa" - afirmou o perito Denilson Siqueira. 

A Polícia Civil já vinha colhendo informações sobre o mau comportamento dos seus rivais da PM mesmo antes da instalação da UPP, na etapa de "pacificação" que a antecede.

Em abril de 2012, seu serviço de inteligência elaborou um relatório detalhado sobre o esquema de propinas na Rocinha, como publiquei aqui mesmo, no dia 10 de março de 2013:

Num dossiê circunstanciado, o serviço de inteligência aponta inclusive as cifras da corrupção da Polícia Militar. De acordo com o documento o pagamento consiste numa "entrada" de R$ 200.000,00, seguida por uma mesada de R$ 80.000,00. Os valores comprariam a tranquilidade para manter o comércio de drogas sem interferência da polícia nas ruas internas e becos, enquanto o patrulhamento ficaria restrito às vias principais da favela.

Ocupação Policial X Educação integral

Não há a menor hipótese desse governo elitista e criminalizador mudar essa política, até por que tem recebido muito dinheiro para as UPPs dos fundos federais de segurança pública, sem contar os R$ 20 milhões anuais do Eike Batista, agora sustados por causa de sua quase falência.

Sérgio Cabral, pessoalmente, bancou as ocupações policiais para apresentar a repressão massiva como resposta à doutrina de Brizola, Darcy Ribeiro e de alguns defensores da cidadania dos pobres, cujo fundamento era enfrentar o problema com  a implantação de escolas públicas de tempo integral, iniciativa que assustou a elite defensora do apartheid social e foi torpedeada por adversários políticos, pela mídia e até por profissionais da educação, agora finalmente convencidos de que perdemos 30 anos - algumas gerações - pela inviabilização de um projeto que poderia oferecer aos jovens dessas comunidades a qualificação necessária para não se deixarem seduzir pela aventura do comércio das drogas e da efêmera vida bandida.

E para dar a todos as oportunidades que lhes são deliberadamente negadas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A hora e a vez dos "sem médicos"

Quase a última crônica (II)

Medo do êxito dos médicos cubanos no Brasil leva elite mercantil a reações psicóticas e mesquinhas

"Será bom ver o alívio que mães ribeirinhas ou das favelas sentirão ao vê-los prescrever antibióticos a seus filhos, após diagnosticar uma pneumonia. O mesmo vale para gastrenterites, crises de asma e tantos diagnósticos para os quais bastam o médico e seu estetoscópio".

DAVID OLIVEIRA DE SOUZA, médico e professor do Instituto de Pesquisa do Hospital Sírio-Libanês e ex-diretor médico do Médicos Sem Fronteiras no Brasil (2007-2010) 
A notícia espetaculosa de que dois presidentes de conselhos regionais de medicina renunciaram só para não ter que assinar as licenças para médicos estrangeiros trabalharem onde os brasileiros recusam é apenas a ponta do iceberg de um sistema de saúde de profissionais formados para subordinar o atendimento aos interesses do complexo empresarial do ramo.
Na verdade, não é aos profissionais pátrios que servem esses obsoletos conselhos corporativos em sua insana, desumana, mesquinha, hipócrita, inglória e odienta campanha para manter milhões de brasileiros sem médicos, pelo crime de não se enquadrarem nos perfis do mercado da saúde.

Nessa orquestração dolosa o que se pretende proteger é um sistema mercantil e corrupto, formatado como subproduto de uma ditadura que fomentou a privatização do ensino e dos serviços médicos, introduzindo a terceirização que facilita a fraude e o superfatuamento, os extorsivos planos de saúde e aniquilando o sistema público que era modelar nos tempos dos IAPs e do SAMDU.

Isso está cada vez mais claro nas atitudes arbitrárias de alguns controladores desses conselhos, no confronto cego com a opinião pública ea lei,
Esse é o espírito de alguns médicos brasiliros que
 hostilizam os cubanos  por que temem seu êxito
inclusive de muitos colegas que já começam a dar demonstração de que estão envergonhados diante de práticas tão deletérias, com a exibição da 
mais sádica insensibilidade, permeada de demonstrações sórdidas como o corredor polonês que alguns médicos fizeram no Ceará para insultar seus colegas cubanos (foto) e até mesmo de renúncias psicóticas e suspeitas.
Colegas que vêm de um país onde os índices de saúde dão um banho nos nossos e, em alguns casos, até mesmo nas grandes potências. Nesse país pequeno mas indomável  a saúde pública alcança rigorosamente (e bem) a todos os seus habitantes, apesar do boicote econômico cruel e imoral que sofre do vizinho todo poderoso.  
De tão ignominiosa é essa resistência que os brasileiros, como eu, já começam a temer pelo atendimento prestado, inclusive aos 40 milhões que se sentem obrigados a pagar caríssimos planos privados, tal a imagem que brota de toda uma classe que lida com o mais sagrado de nossos bens, a vida.

A meu ver, há todo um parentesco próximo entre a decisão de não permitir o atendimento médico nos sertões, caatingas e onde o vento faz a curva neste país continental e a farra imoral das empresas de saúde, que estão abandonando os contratos de reajustes controlados pela fórmula que lhes permite unilateralmente determinar os aumentos que lhes apetece a sanha.

Em ambos os casos, ganha a máfia da saúde que faz desse mercado um dos mais atraentes negócios do país: hoje muitas redes e hospitais pertencem a bancos, como a Rede D'or, do Rio de Janeiro, controlada pelo Pactual.

Até mesmo figuras manjadas do poder paralelo - grileiros e empresários de ônibus - estão investindo no atendimento privado de saúde, que hoje fatura mais do que os R$ 75 bilhões do orçamento público federal e nos submete às mesmas filas e ao mesmo chá de cadeira do SUS, minado por dentro e por fora por quem não tem o menor tesão de servi-lo.
O que esses "capos" de interesses exclusivamente pecuniários não entendem é que hoje as comunicações fluem independentes da manipulação solerte: todo mundo sabe que antes de chamar médicos de outros países, o governo priorizou os brasileiros, mesmo esses saídos das faculdades de balcão, que não são submetidos a nenhum "confere", como acontece com os advogados.
Sabe que  estes os conselhos corporativos mercantis conseguiram influir negativamente sobre os brasileiros e que quase a metade dos poucos que se habilitaram já pediu as contas.

Houve um, aqui na baixada fluminense, que pediu férias no terceiro dia de serviço, uma atitude nada surpreendente se considerarmos a relação improdutiva de parte de uma categoria que está no SUS trabalhando uma vez por semana, em plantões de 24 horas corridas. Ou que chegam ao cúmulo se usarem dedos de silicone para falsificar presenças em unidades que adotaram a frequência biométrica, como aconteceu em São Paulo.

CLIQUE AQUI e leia a entrevista da socióloga norte-amricana
O desespero de causa capitaneado por essas autarquias corporativas é focado sobre os médicos cubanos por que estes têm sido a salvação da lavoura em mais de 100 países em que serviram como missionários do bem, que se negam a ver os cidadãos como fregueses, recusando a trabalharem para a máfia indecente que explora, com fins exclusivamente mercantis, hospitais, clínicas, laboratórios, empresas de medicina nuclear e toda a parafernália que faz do profissional em si um robô incapaz de diagnosticar uma gripe no diálogo curto e grosso com seus apequenados pacientes.

Nessa cruzada estúpida e indefensável parece claro o medo de que a presença de profissionais formados com espírito público, cujo sucesso é cantado em prosa e verso pelas mais respeitadas publicações científicas até mesmo dos Estados Unidos e Inglaterra, venha a detonar a indústria do tratamento direcionado, aquela em que muitos profissionais anexam às receitas os cartões dos hospitais em que querem operar, dos laboratórios em que querem exames, das farmácias de manipulação e das óticas que recomendam sem o menor escrúpulo.

O médico cubano realmente é uma ameaça a todo um sistema que inviabiliza os serviços públicos onde, salvo raras exceções, não existem profissionais de dedicação exclusiva, e onde não há como ganhar algum com receitas caras e  superpostas.

Vai ser muito incômodo para a mafiosa indústria da saúde se a metodologia profilática e o receituário modesto começarem a inverter os índices, assegurando aos sem médicos de hoje resultados concretos que não são alcançados nem nas concentrações litorâneas das ultra-sonografias transretais.
A medicina cubana venceu desde os poderes de sedução do vil metal até os criminosos bombardeios bacteriológicos que introduziram a dengue hemorrágica na ilha e tentaram pelos ataques químicos o que não conseguiram por outros meios, inclusive por uma invasão mercenária e pelo bloqueio econômico.
Graças à firmeza da presidente Dilma Rousseff,  -reconheça-se com honestidade - o Brasil das pessoas de bem está em festa.  Enfim, milhões de cidadãos que dependiam de curandeiros vão sentir o cheiro de um médico e isso por si já é um grande remédio.

Por força do destino os sem médicos de hoje, os pobres das paragens longínquas, vão ter o privilégio de lidar com profissionais que falam sua mesma língua, por que mais do que o idioma, facilmente assimilado, aproximam esses profissionais de hábitos simples e conscientes o sentido maior da verdadeira medicina, a que conserva sua humanidade como razão de ser.
Que entende a vida como ela é - o bem mais valioso do que todo o dinheiro do mundo e não um produto de mercado.
Com esse tipo de campanha, o tiro vai sair pela culatra
Enquanto isso, derrotados e mal vistos pela população, os médicos dessa cruzada estúpida,  sem o mínimo de autocrítica, recorrem ao revanchismo político como se ainda fossem donos das cabeças de fregueses desinformados: estão em plena campanha contra a reeleição da presidenta, em atitudes tão tacanhas que, assim, se converterão paradoxalmente nos seus grandes cabos eleitorais - eis que cada cidadão que tem o mínimo de racionío vai se colocar justamente do lado oposto ao desses que promovem o mais desumano dos boicotes corporativistas e mercantis.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.