segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Antes do estouro da boiada


Esses protestos quixotescos desconhecem que Renan é o cara do esquema e pt saudações

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta”.
Albert Einstein

Nem com a renúncia do Papa Renan se manca: ele é o cara 
Dá pena ver um punhado de indignados sob o sol quente em perdidos protestos contra a glorificação de Renan Calheiros, o homem-chave de um acordo cafajeste que envolve a fina flor da casta política mandante e recalcitrante deste país acabrunhado.
 


Esses indignados que puseram a cara a tapa são raridades em nossas ruas, mais adequadas aos cordões das bolas pretas, aos galos das madrugadas, aos crentes na salvação em vida e aos coloridos protagonistas das exibições gays.
 


É verdade que um milhão e pico subscreveram o manifesto digital contra o retorno do ex-jovem comunista aos píncaros desse legislativo burlesco. Isto, porém, só indica que a internet é uma droga broxante, que serve mais para a auto-ilusão e o exercício da ficção de um sentimento confinado aos absorventes computadores. 
 


Quer dizer: depois que nos proporcionaram essas ferramentas de uso caseiro a rua virou palco exclusivo de aromáticas exibições,  sem essa de sangue, suor e lágrimas. Fora desses rituais lúdios, só as marchas evangélicas, encorpadas por que as criaturas que delas participam  fazem parte de  séquitos bem estruturados e vivem entorpecidas pelas promessas divinais de grande alcance sobre os carentes de milagres compensatórios.
 


Mas ir à rua para dizer não a esse estado de coisas meticulosamente administrado por um sistema de dominação azeitado, que se utiliza de gregos e troianos,  já não motiva como nos tempos em que enfrentávamos tanques e baionetas em indecisos cordões, mas apaixonados pela canção de quem sabe faz a hora, não espera acontecer.


Neste instante medíocre da nossa história, sob o império do estelionato político e o bastão de ambiciosos oportunistas, insurgir-se contra a volta de Renan ao trono é uma teimosia de fazer inveja a dom Quixote de La Mancha.
 
O homem de vida mais suja do que pau de galinheiro é a cara do Senado, do Congresso e das nossas instituições públicas. Poucos são os titulares de mandatos e de cargos nos podres poderes  que diferem dele.  Tem até uma escória muito mais  bandida.
 


Tem renans em todos os arraiais, renans de sobra, para dar e vender. O camaleão das Alagoas está de volta porque a presidenta Dilma Rousseff precisa dele lá, porque ele faz o gênero dos tucanos e assegura a impunidade da quase totalidade dos seus pares, exceções raras de utopistas como Cristovam Buarque, João Capiberibe, Pedro Simon e Pedro Taques. 
 


Ou você tem dúvida sobre o papel que um cara sem o menor recato pode desempenhar para quebrar o galho dos colegas já pegos ( condenados ou não) ou por serem pegos com a mão na massa,  cuja moral está em adiantado estado de putrefação?
 


Para o esquema de poder vigente, ninguém é mais bem talhado nestes próximos capítulos. É cada macaco em seu galho. É a hora das privatizações dos portos e aeroportos,  das rodovias restantes, da fragilização da Petrobrás, do fortalecimento das privatizadas que moldam nossa economia, como a Vale,  da comilança do Eike, enfim, é a hora em que o macacão e o black tie se costuram numa única fantasia para dar continuidade ao projeto supra-nacional de insuspeitos protagonistas.   

Não é de se ficar na poltrona, fugindo do calor,  bebericando ou comendo umas castanhas, mas o que se há de fazer se o sistema cercou pelas 12 e nos deixou num mato sem cachorro, num beco sem saída? Se subornaram quem era de espernear, se amedrontam quem já vive na corda bamba? 


Em 2007,essa brasileiense foi fundo com a
divulgação da amante que tinha sua
pensão paga por um empreteira
José Renan Vasconcelos Calheiros é o cara. É o cara que faz o gosto da Dilma, do Lula, do FHC, do Aécio. Dos banqueiros, dos empreiteiros,  e até dos políticos espertinhos que se fantasiam de mocinhos, mas que tratam apenas de manter esse “nicho do mercado eleitoral” como patamar para suas carreiras.

Não será o cara sempre, porque um dia acontecerá o estouro da boiada,  como aconteceu no sacro Vaticano das mil e uma noites, mas neste exato momento  é o político sob medida para presidir e manipular o Senado da República Federativa do Brasil.

E pt saudações.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A mão à palmatória

Se Dilma precipitou-se em afastar bons ministros, a
condição de estadista aconselharia a reconvocá-los
"Achamos um erro o PDT ficar amarrado por um ministério, no lugar de ser independente, à esquerda  do governo PT/PMDB/PP".
 Cristovam Buarque e Pedro Taques, senadores pedetistas 


Lupi já era um ministro dinâmico quando Dilma o confirmou


A notícia divulgada hoje pelo colunista Ilmar Franco em O GLOBO de que a presidenta Dilma recebeu o presidente do PDT, Carlos Lupi, antes do carnaval, e fez uma verdadeira autocrítica sobre sua relação com o partido em que militou mais de dez anos é  “reparadora”, mas pode ser que tenha sido tardia.
Segundo o  jornalista, Dilma reconheceu sem rodeios que errou nas mudanças no Ministério do Trabalho, indicando que estava insatisfeita com o atual ministro Brizola Neto e poderia substituí-lo desde que, de imediato, a legenda brizolista se posicionasse a favor da sua postulação à reeleição.
Lupi, como não poderia deixar de ser, evitou assumir qualquer compromisso por conta própria e com tanta antecedência. O seu partido, como outros da chamada base aliada, já experimentou uma amarga decepção quando Dilma, estreante no seu primeiro cargo eletivo, pegou pilha da mídia e precipitou-se ao forçar a demissão daquele que mais tempo permaneceu à frente do Ministério do Trabalho na história do Brasil, o que não aconteceu por acaso.
Ela jamais poderia ter dado sequuência às pressões que visavam atingi-la pela derrubada de alguns ministros, alguns dos quais tiveram admiráveis desempenhos desde o governo Lula, entre eles o ministro Orlando Silva, do PC do B, no Ministério dos Esportes, e Carlos Lupi, sacrificado fundamentalmente porque teve peito de bancar a implantação do ponto eletrônico nas empresas e a coragem de barrar a entrega da presidência do FAT – o gordo Fundo de  Amparo ao TRABALHADOR, a uma latifundiária que encabeça a Confederação Nacional da Agricultura.
Na época, escrevi mais de uma vez, com a autoridade de quem não era mais do PDT, partido a que dei muito do meu sangue, mas do qual me desfiliei por entender que  estava sem espaço vital.
Estava, portanto, muito à vontade para comentar a rendição da presidenta a um programado açoite do seu governo, que procurava, inclusive, plantar a cizânia nas suas relações com o antecessor e “padrinho”.
Não havia nada de concreto, nada, absolutamente nada, que desabonasse a conduta do seu ministro do Trabalho. (Depois que ele saiu, nunca mais se falou a seu respeito). Antes, pelo contrário, nos cinco anos que permaneceu à frente de  um Ministério que pegou natimorto, com várias de suas funções transferidas indevidamente para outras áreas, deu-lhe nova vida, valendo-se dos meios de que ainda dispunha.   
Com a garra de quem madrugou anos a fio para abrir uma banca de jornal, Lupi foi fundo no combate ao trabalho escravo, onde obteve índices notáveis, e no trabalho infantil, canalizando ao mesmo tempo recursos do FAT para a qualificação profissional, tarefa que exigia atenção redobrada por sua terceirização através de organizações não governamentais.
Para se ter uma idéia do gigantismo do seu esforço, lembro que o atual governador  da Bahia, Jacques Wagner, primeiro ministro do Trabalho de Lula, lamentava ter passado o cargo sem registrar um único incluído no programa do primeiro emprego.
Na verdade, nessa operação para cortar a cabeça de Lupi era fácil ver as mãos do mesmo empresariado que tentou desqualificá-lo, através do banqueiro Marcílio Marques Moreira, obrigando-o a licenciar-se da presidência do PDT, e o “fogo amigo” de quem não estava feliz com seu sucesso e de quem esperava miná-lo para abocanhar o cargo sem ter preparo ou tesão para exercê-lo.
Além de não ter tido a firmeza de manter quem havia dado destacada visibilidade a um ministério esvaziado, aproveitando e projetando o SINE – Sistema Nacional de Emprego – e o CAGED – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, e energizando o FAT, a presidenta cometeu outro erro fatal: escolheu o substituto à revelia do partido, só por que ele era neto do seu antigo ídolo e por que, principalmente, ao contrário da quase totalidade da bancada pedetista, foi-lhe individualmente fiel, votando a favor da “privatização” da aposentadoria dos servidores, através de um fundo que obriga quem quiser ganhar acima de um limite mínimo a pagar por fora. Isto é, ao nomeá-lo em seguida a essa votação, em que apenas um deputado baiano inexpressivo o acompanhou, ela estava peitando também toda a bancada que se manteve fiel a uma das “cláusulas pétreas” do brizolismo e criando dificuldade para o próprio.
Não ocorreu a ela, sequer, procurar saber por que o mesmo Brizola Neto deixou de ser secretário estadual do Trabalho no governo Sérgio Cabral, trocando de lugar com o deputado Sérgio Zveiter, hoje no PSD. 
Diante desses episódios em que foi realmente infeliz, a  presidenta teria que dar uma demonstração de maturidade e humildade. Se realmente não está satisfeita com o neto de Brizola,  cabe-lhe cumprir o entendimento que levou o PDT a abrir mão da candidatura própria em 2010, num gesto prejudicial a seus interesses eleitorais, e dar a mão à palmatória.
Primeiro, não pode continuar apostando que a posse da máquina seria a varinha mágica para fazer Brizola Neto reencontrar-se com o partido, onde coleciona relacionamentos difíceis. Da mesma forma, deveria entender que a sua é uma vocação parlamentar, bem diferente da pedreira "burocrática, extenuante e irritante" do Executivo.
Depois, seria muito mais elegante se tivesse a mesma determinação que ocorreu ao então presidente Itamar Franco, em relação ao seu chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, que foi reconvocado depois de provada sua inocência em uma série de acusações: agiria como uma verdadeira estadista se chamasse Lupi de volta para o lugar de onde nunca devia ter saído.
Simplesmente pedir uma outra indicação é o que se poderia chamar de um arranjo. De uma “meia boca”. Ao longo da história, em todas as latitudes, aconteceram atos semelhantes. É claro que a mesma mídia que conseguiu derrubá-lo vai chiar. Mas essa mídia será sempre facciosa e precisa ser enfrentada sem medo.
Finalmente, embora ninguém vá pedir minha opinião, gostaria de dizer que cada partido que puder faz muito bem em ir ao primeiro turno de uma eleição majoritária com seus próprios candidatos. Essa postura o fortalece e a seus candidatos nas proporcionais. Se não chegar ao segundo turno, então, sim, juntam-me os mais aparentados.
E ser agregado do PT é um mau negócio. Com todo o discurso que o projetou, a impressão que tenho é que esse é um típico partido de direita, com vícios hegemônicos, práticas fisiológicas de direita e  propenso a todo tipo de aliança, como essa agora, que repôs o ficha suja Renan Calheiros na presidência do Senado e entregou a Câmara a Henrique Alves, ambos do PMDB, partido inteiramente sem pudor de nenhuma espécie, que vai dar as cartas no ano eleitoral de 2014.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Entre a cruz e a Opus Dei, a vingança


O futuro ex-papa deu seu recado quarta-feira de cinzas e deixou seus cardeais com as barbas de molho

"O mundo moderno se apresenta aos nossos olhos não como uma casa a construir, mas como um organismo a ser curado. Ora, se um edifício pode ser reparado do exterior, um organismo só pode ser curado a partir de dentro".
Padre Louis-Joseph Lebret (1897 -1966), autor do livro Suicídio ou Sobrevivência do Ocidente,            que teve grande participação no Concílio Vaticano II.

Renunciou para fazer o sucessor. Nada mais despropositado, porém nada mais verdadeiro. Nada mais sintonizado com a personalidade de Joseph Alois Ratzinger, adestrado na Juventude Hitlerista em sua fogosa juventude.
Cardeal Carlo Maria Viganó virou o jogo 
Foi o que restou ao irascível papa germânico, ao se sentir totalmente isolado desde que entrou em choque com sua principal aliada e "monitora", a obscurantista Opus Dei, como consequência do afastamento do representante do Banco Santander em Roma desde 1992, Ettore Gotti Tedeschi, da direção do Instituto para Obras de Religião - o Banco do Vaticano, em meio a uma saraivada de denúncias protagonizadas pelo cardeal Carlo Maria Viganò, ex-secretário geral do Vaticano, aos mil documentos contrabandeados pelo mordomo Paolo Gabriele e a um fogo cruzado incontrolável de mexericos.
Tedeschi é um "supernumerário" da poderosa organização de 90 mil seguidores fanáticos,  cognominada como "o Exército do Papa", numa reportagem de novembro de 2008 da revista SuperinteressanteFundada em 1928 pelo confessor do ditador Francisco Franco, o espanhol Josemaría Escrivá Balaguer, foi  reconhecida em 1982 por João Paulo II, como uma "Prelazia Pessoal" (a única na estrutura da igreja romana).  Seu criador morreu em 1975 e foi declarado santo em 2002 pelo mesmo pontífice, num rito sumário.  A Opus Dei  aparece como  principal apoiadora nas escolhas dos dois últimos papas,  como sabe muito bem qualquer repórter setorista do Vaticano.
Numa "vingança perfeita", nas palavras de um diplomata credenciado na "Sana Sé",segundo relato de Paolo Ordaz,  do El País, o ex-futuro Papa pegou pesado na missa da quarta-feira de cinzas ao apontar a "hipocrisia religiosa"  e a luta interna pelo poder, como causas da crise que o levou a um gesto extremo, que desautoriza o dogma da infalibilidade de um sumo pontífice.
Ou uma jogada de mestre
"Em uma cafeteria de Borgo Pio, o bairro de ruas estreitas contíguo ao Vaticano, um diplomata com credenciais junto à Santa Sé chamava a atenção para um aspecto:
 - Praticamente todos os jornais, cada qual com seu estilo, desenham o Papa como uma vítima das lutas de poder no Vaticano. Há alguns meses, quando abordavam o tema da incúria na Igreja, colocavam Ratzinger como culpado. É feio usar essa palavra referindo-se a um Papa, mas pode-se dizer que, com a renúncia, Ratzinger executa a vingança perfeita" - disse o diplomata na reportagem de Paolo Ordaz.
Uma jogada de mestre,  segundo John Allen, um "vaticanista", citado por Jerome Taylor, do jornal Independent de Londres. De fato, dos 120 cardeais com direito a voto na sua sucessão, Bento XVI nomeou 67. Os outros 53 foram nomeados por João Paulo II,  quando o então cardeal Joseph Alois Ratzinger já dava as cartas, como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a versão moderna do Tribunal da Inquisição.
"Pelo menos, alguns cardeais podem se sentir fortemente pressionados a não fazer algo que possa ser percebido como um repúdio ao papado de Bento XVI, que possa causar consternação a ele. Como isso poderá ser traduzido em termos de votos no conclave não está de todo claro, mas é uma peça do quebra-cabeça que vale a pena considerar" - escreveu John Allen terça-feira,dia 12, no National Catholic Reporter.
Cobra engolindo cobra
Ao longo de seus 2 mil anos, o centro do poder da Igreja Católica sempre foi um ninho de cobras, com os maiores índices de intriga por metro quadrado do mundo. Esse clima levou o então cardeal emérito de Milão, dom Carlo Maria Martini, a afirmar em junho de 2008, que "a inveja é um vício clerical por excelência".
Segundo o cardeal italiano, que morreu em agosto de 2012 aos 85 anos, muitos dentro da Igreja estão "consumidos" pela inveja. Alguns não aceitam nomeações de outros para bispo, e este não é o único pecado capital entre os homens da Igreja. Dom Carlo Maria Martini denunciou também o vício da vaidade, salientando que na Igreja "é muito grande. Continuamente,a Igreja se desnuda e se reveste de ornamentos inúteis, numa tendência à ostentação, ao alarde”. O cardeal citou ainda o "carreirismo" na Igreja, e especialmente, na Cúria Romana, onde “cada um quer ser mais que o outro”.
Qualquer clérigo ou seminarista sabe que a intriga é o caminho das pedras no reino de São Pedro. E sabe mais ainda que  tanto Karol Józef Wojtyła  como Joseph Alois Ratzinger só se tornaram papas no estuário dos conflitos dentro da Corte (cúria em latim) vaticana, devidamente manipulados por influentes cardais "numerários" ou aliados da Opus Dei.
  Conflitos tão radicalizados que quebraram uma hegemonia secular dos italianos, afetados pelo envenenamento do Papa João Paulo I, em 28 de setembro de 1978, exatamente um mês depois de empossado sem pompas, por sua decisão,  depois de  uma das mais rápidas votações (4 rodadas) do Colégio Cardinalício. Veja a respeito meu artigo  de 12 de fevereiro.
O dia que o Papa chutou o pau da barraca
Joseph Alois Ratzinger decidiu chutar o pau da barraca por que a coletânea de documentos contrabandeados pelo mordomo Paolo Gabriele, perdoado por ele e já em confortável prisão domiciliar desde dezembro passado, junto com os dossiês do arcebispo Carlo Maria Viganò, e anotações do cardeal Angelo Sodano, ressentido ex-secretário de Estado, deixam meio Vaticano em maus lençóis, inclusive seu secretário pessoal, monsenhor Georg Gänswein.
Tido e havido como um teólogo de mão cheia, Bento XVI sabe do embaraço que vai causar à igreja Católica Apostólica Romana como um todo. Até mesmo como será chamado ainda não se sabe, porque os prelados não imaginavam que possa existir um ex-Papa em vida. Assim como ninguém pode garantir que ele optará pela auto-reclusão no belo mosteiro dentro da Cidade do Vaticano, a sé católica, com menos de 900 metros quadrados e 800 habitantes, quase todos do clero.
Isto é, enquanto estiver vivo e mantiver sua fama de maior autoridade na doutrina da fé, será sempre uma sombra inevitável, como foi aqui dom Eugênio Salles, quando se tornou cardeal emérito e continuou escrevendo semanalmente para os jornais, além de perturbar diretamente a gestão do seu sucessor, dom Eusébio Oscar Scheid.
Em busca de um Papa autônomo
Essa hipótese é que reforça a possibilidade do retorno de um italiano de fora da Cúria à chefia da Igreja, embora cresça nas bolsas de apostas (!) o nome do ganense  Peter Turkson, de 64 anos,  presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz e fiel escudeiro de Bento XVI, que se considera o Barack Obama da Igreja católica.
Como não entro nessa pilha de bolsas de apostas, e como tenho certeza que a Igreja Católica jamais será a mesma depois da renúncia de um Papa em 600 anos, ainda acredito na escolha de um cardeal em condições de comandar sem precisar pedir a benção ao colega demissionário. E o cardeal Angelo Scola, amigo de Bento XVI, mas festejado por sua visão arejada em relação a outras religiões, é o mais blindado para assumir o vespeiro onde interesses escusos, vaidades, intrigas e ambições substituíram há séculos o poder do Espírito Santo.
Não ser a mesma não quer dizer que seja melhor ou pior, pois cada um tem sua avaliação do que é bom para uma Igreja que perde fiéis enquanto conserva o fausto de uma época que não existe mais como compensação existencial para o poder sustentado em fontes feudais, como o (imposto) laudêmio que lhe é devido em muitos países do mundo, inclusive o Brasil.
Mesmo exposta, Opus Dei influencia
A hierarquia da Igreja está dominada pelo ultra-conservadorismo da Opus Dei, que contou até com o ex-premier Sílvio Berlusconi em seu projeto de hegemonia do Vaticano, mas cujo objetivo estratégico maior era desmontar a Europa socialista. Muitos dos novos cardiais foram apadrinhadas pelos seguidores de São Josemaria Escrivá. 

Como demonstração de gratidão pelo apoio recebido na sua eleição, após 8 votações,  João Paulo II concedeu a esse grupo, em 1982, o status  de "Prelazia Pessoal", que a subordina diretamente ao Papa e fez do seu fundador santo, num dos processos mais sumários de canonização, só superado pelo de madre Tereza de Calcutá.
Estátua de 5 metos do fundador do Opus Dei na
 Basílica de São Pedro, com a benção de Bento XVI
Bento XVI não fez por menos: em 2005 mandou instalar uma estátua de 5 metros do agora São Josémaria Esquivá na fachada exterior da Basílica de São Pedro, que benzeu pessoalmente numa festiva solenidade religiosa em 14 de setembro daquele ano.
Além disso, chamou dois influentes cardeais do Opus Dei para seu primeiro escalão: Julián Herranz, presidente emérito do Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, e o secretário da Pontifícia Congregação para os Bispos, arcebispo Francesco Monterisi.  Há quem garanta que o cardeal Tarcísio Bertone, principal homem na cúpula vaticana e pivô da crise que levou à inesperada renúncia, também tenha o respaldo da organização, razão pela qual Bento XVI não conseguiu livrar-se de sua incômoda companhia. 

À distância, mas não tão distante assim, Bento XVI trocava figurinhas com o arcebispo de Madri e principal clérigo da organização, cardeal Antonio Maria Rouco Varela,  também presidente da Conferência Episcopal Espanhola.
A entrega do Banco do Vaticano ao "supernumerário" Ettore Gotti Tedeschi, no final de 2009, foi a gota d'água que cindiu de vez o poder na Igreja, cujas riquezas são incomensuráveis. Descartado então da Secretaria Geral do Vaticano, sob a acusação de malbaratar recursos da Igreja, fazendo pagamentos indevidos a um conjunto de empresas que trabalhavam para a cidade-estado, o arcebispo Carlo Maria Viganò ficou revoltado: durante o seu mandato, que começou em julho de 2009, implementou reformas e cortes que levaram o Vaticano de um déficit de oito milhões de euros em 2009 para lucros de 34,4 milhões de euros em 2010. 
A Opus Dei não vai ficar chupando  dedo. Mas a brusca renúncia de Bento XVI também a deixou  tão exposta como na roubalheira no Banco do Vaticano, documentada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò.
Neste momento, a "Santa Sé" está vulnerável, sem liderança e sem destino previsível. O que até agora foi uma guerra intestina, protegida dos fiéis, não é mais segredo para ninguém.
E como o mordomo não estava sozinho no seu estrago devastador, tem ainda muita água para rolar debaixo da ponte, além do que se revelou em conta-gotas.
Decididamente, a Igreja que já superou crises e cismas mais graves no passado de pouca comunicação, vive hoje seu mais dramático dilema, numa atualidade inflada de mídias: o suicídio ou a sobrevivência.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O dedo duro do mordomo


Documentos contrabandeados para fora do Vaticano com revelações escabrosas deixaram Bento XVI mal na fita

O mordomo Paulo Gabriele varejou os arquivos do Vaticano e
descobriu coisas que comprometem  Bento XVI e muitos cardeais
Bem que eu imaginava inútil escrever em plena esbórnia momesca. Mas a insólita renúncia do Papa Bento XVI, coisa que não acontecia desde antes da "descoberta" do Brasil, me obrigou a voltar ao sagrado ofício (meu), principalmente diante do monte de abobrinhas espargidas desde o anúncio patético por uma mídia entre desinformada e superficial. 

Trata-se de um assunto delicado, porque envolve o sumo pontífice, ou seja alguém que é visto como um semideus e está acima do bem e do mal perante 1 bilhão de seres humanos, entre os quais 123 milhões de brasileiros.

Mas a verdade verdadeira é que a rocambolesca decisão do velho chefe da Igreja católica tem pouco a ver com a versão oficial - ele estaria sem forças para conduzir o rebanho, o que não aconteceu com Leão XIII, que foi Papa até os 93 anos.

Como se fosse a própria morte

E uma renúncia dessas tem o impacto das próprias exéquias. O último Papa que renunciou foi Gregório XII (1406 a 1415), que viveu o chamado Grande Cisma do Ocidente, quando três papas se diziam chefe  da Igreja Católica: além de Gregório XII, o Papa de Roma; Bento XIII, o Papa de Avignon, e o chamado "antipapa" João XXIII. Com o concílio de Constança, o imperador Sigismundo obrigou os três pontífices a renunciar, mas só Gregório XII obedeceu e, depois dele, foi eleito Martinho V.

Mesmo apesar do clima de apoplética perplexidade no mundo ocidental e cristão, sou forçado a informar que Bento XVI foi "derrubado" pelos mais de mil documentos secretos que o seu mordomo Paolo Gabriele subtraiu dos cofres do Vaticano e fez atravessar suas muralhas no escândalo conhecido como Vatileaks (referência ao site de denúncias WikiLeaks).

Os documentos vazaram em janeiro e fevereiro do ano passado. Em 19 de maio saiu às livrarias o livro Sua Santita, do jornalista Gian Luigi Nuzzi, com uma centena desses documentos que revelam tramas e intrigas na Santa Sé. Em  25 do mesmo mês, o mordomo foi preso, acusado de ter subtraído essa preciosa documentação. No mesmo dia, Ettore Gotti Tedesch, homem de confiança de Bento XVI, e presidente do Instituto das obras da Religião, o banco do Vaticano, foi forçado a renunciar ao cargo para o qual havia sido nomeado em 2010.

Em meio a esse inferno astral, uma rede de TV italiana divulgou cartas enviadas pelo atual núncio nos Estados Unidos e ex-secretário-geral do Governo da Cidade do Vaticano, Carlo Maria Vigano, ao papa Bento XVI.

Nelas, o prelado denunciava a “corrupção, prevaricação, má gestão” na administração e troca de favores na distribuição de contratos de trabalho no Vaticano. Em uma dessas mensagens, Vigano denunciou que os banqueiros que integram o chamado “Comitê de finanças e gestão” do Governo e da Secretaria de Estado “se preocupam mais com seus interesses do que com os nossos”, e que em dezembro de 2009, em uma operação financeira, “queimaram (perderam) US$ 2,5 milhões”.

Tudo resvalou sobre a cabeça coroada de Bento XVI, que já era o homem forte do Vaticano antes mesmo de ser Papa. Como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, uma versão moderna do Tribunal da Inquisição, durante 20 anos, destacou-se pela  perseguição e punição de centenas de sacerdotes, multiplicando inimigos e desafetos.
A CRISE PROVOCADA PELA MORDOMO

CLIQUE NO PLAY PARA VER O VÍDEO. PARA VER MAIOR, CLIQUE AQUI

No entanto, foi a posse de dossiês sobre a vida de dezenas de cardeais que elevou o alemão Joseph Alois Ratzinger, ex-membro da Juventude Hitlerista,  à condição de Papa em 2005, aos 78 anos, quando já devia ter se aposentado. Mesmo Leão XIII, que morreu aos 93 anos, foi feito Papa quando tinha 68 anos - dez a menos do que ele.

A morte de João Paulo I, a grande bomba revelada

Nem todos os documentos vazados são do conhecimento público. Há vários sobre pedofilia e  relações homossexuais na Igreja.  O mais grave, porém,  é o que revela a verdadeira causa da morte de João Paulo I, o Papa que durou apenas um mês no cargo, em 1978,  e que teria sido envenenado por elementos da Máfia depois que decidiu desmontar a quadrilha comandada pelo "banqueiro de Deus"  Roberto Calvi, do Banco Ambrosiano,  que chefiava um esquema de desvios de dinheiro da Igreja, e acabou aparecendo morto em 1982, sob uma ponte de Londres, numa queima de arquivo.

Entre os envolvidos no esquema, estariam o então secretário de Estado do Vaticano e Camerlengo, cardeal Jean Villot, o mafioso siciliano Michele Sindona, o cardeal norte-americano John Cody, na época chefe da arquidiocese de Chicago e o bispo Paul Marcinkus, então presidente do Banco do Vaticano, bem como supostos membros da loja maçônica P2, como Licio Gellie e a cúpula da Opus Dei.

Toda a trama foi desvendada pelo escritor britânico David Yallop, que publicou em 1984 o livro Em nome de Deus (In God's Name), no qual aponta as pistas sobre uma conspiração para matar João Paulo I. 

Suas descobertas, porém, foram apontadas pelo Vaticano como sensacionalistas. Mas  são expostas em detalhes: Yallop cita a digitalina (veneno extraído da planta com o mesmo nome) como a droga usada para pôr fim ao pontificado de João Paulo I. Essa toxina demora algumas horas para fazer efeito; Yallop defende que uma dose mínima de digitalina, acrescentada à comida ou à bebida do Papa, passaria despercebida e seria suficiente para levar ao óbito. E para o autor de Em nome de Deus, teria sido muito fácil, para alguém que conhecesse os acessos à cidade do Vaticano, penetrar nos aposentos papais e cometer um crime dessa natureza.

Ao  contrário de Paulo VI, que teve um relatório médico extremamente preciso quando de sua morte (até mesmo os horários das complicações médicas foram anotados), o mesmo não ocorreu ao João Paulo I. Seu corpo foi embalsamado imediatamente após o falecimento, e as verdadeiras causas do óbito nunca chegaram ao público. Não é preciso muito esforço mental, portanto, para imaginar as inúmeras especulações surgidas acerca do falecimento de um Papa que mal sentara no trono e já havia dado indicações que  queria ter uma gestão modesta, tendo dispensado, inclusive, a cerimônia de coroação.

Defesa dos direitos dos homossexuais, a gota d'água

Desde a prisão do mordomo, Bento XVI não escondia sua insegurança e um certo estado de depressão. Era visto com frequência em meditação e isolamento. Uma comissão de três cardeais nomeadas por ele para investigar a extensão do vazamento  chegou a uma dramática conclusão no início deste ano: tem muita coisa por ser revelada e isso o afetaria diretamente mais ainda.

Conservador ao extremo, Bento XVI foi desafiado no último dia 5, quando o monsenhor Vicenzo Paglia, presidente do Pontifício Conselho da Família, surpreendeu o mundo com a defesa do reconhecimento dos direitos civis do homossexuais.  Há quem diga que essa foi a gota d'água: ele já não tinha mais o controle de seu próprio séquito.

Tido como expoente de uma nova Igreja, Paglia foi incisivo: "é preciso encontrar soluções no âmbito do código civil para garantir questões patrimoniais e facilitar condições de vida para impedir injustiças com os mais fracos. Infelizmente, não sou um especialista em direito, mas, pelo que sei, me parece o caminho que precisa ser percorrido".

Cardeal de Milão deverá ser o novo Papa

Admite-se que a renúncia dele, agora, faça parte de um acordo. A partir do dia 28,Joseph Alois Ratzinger, deverá recolher-se a um isolamento em  Castelgandolfe  e não poderá ter nenhuma interferência na escolha do seu sucessor. 
Cardeal Ângelo Scola, o próximo Papa

Este dificilmente não será um italiano. E para ser arriscado, eu diria que  o novo Papa será o cardeal de Milão, Angelo Scola, de 71 anos, que representaria uma mudança na relação do Vaticano com outras religiões e uma liberalização na própria vida sacerdotal. Scola foi um dos fundadores da Oasis Foundation, que procura aproximar teólogos islâmicos e cristãos e tem ocupado cargos importantes na hierarquia católica do seu país.  Seria o único, desde João Paulo I, que poderia unir a poderosa bancada de cardeais italianos, que representa 25% do "colégio eleitoral" de 118 eleitores (entre 210 cardeais - muitos com mais de 80 anos,  não votam).

Mesmo sendo considerado mais aberto, sempre foi muito próximo de Bento XVI e o único italiano a lhe fazer sombra é o cardeal Tarciso Bertone, número 2 do Vaticano, na condição de Secretário de Estado.  Mas há quem diga que alguns dos documentos do mordomo ainda não revelados respingam sobre ele.

Os próximos dias serão decisivos para a Igreja Católica, que enfrenta a perda de fiéis e de sacerdotes: no Brasil, maior nação católica do mundo, a previsão estatística é de que em 20 anos os evangélicos serão maioria entre os cristãos.

Mídia vê disputa política 2 dias depois do que escrevi

Aos poucos, os jornalistas irão abandonando a linha emocional mercadológica para entrar  no âmago de uma renúncia que deixa a Igreja da era moderna sem explicações para o dogma da escolha do Papa e seu reinado. Veja matéria em http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,disputa-de-poder-na-igreja-pode-ter-provocado-renuncia-de-bento-xvi-,996374,0.htm



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cessa tudo enquanto a esbórnia reina


Nesses dias orgiásticos do calendário ocidental e cristão, ai de quem quiser resistir no mundo real


Para tudo.

Um ciclone tropical de alta temperatura e variadas cores varre este país sambeiro sem pedir passagem. Reinados multifacéticos, dotados de incontroláveis poderes devassos emanados das profundezas do infinito, substituem republicanos governantes de ternos e colarinhos brancos.

Ai de quem não fechar a portinhola do seu cérebro nervoso e abrir as comportas dos seus instintos selvagens.

É de lei. É da cronologia.

No cordão do Bola Preta, hoje, a hora de extravasar em bandos
Ai de quem neste hiato submisso aos ditames da carne quiser falar do preço do feijão, da conta do celular, da gasolina cara, da falta de transportes, dos salários, do desemprego, do subemprego, da educação precária, da saúde zero, da ladroagem pública e privada, da pouca vergonha, da bofetada do Renan Calheiros, do escárnio do Henrique Alves, da corrupção ampla, geral e irrestrita.

Porres homéricos submergem o sacrário dos valores venerados vigentes e param os gritos no ar. Porres nossos e, principalmente, dos outros, na dantesca catarse terapêutica da desordem desunida, que açoita a lógica e desdenha dos bons costumes. É do prelúdio alegre do apocalipse das lendas catastróficas.

A algazarra incrementada pelos batuques dos tamborins coléricos é a chama da metamorfose que desfigura e refaz para compensar nesta quase semana inteira a pedreira e o sufoco do antes e do depois.  Sob efeitos das mais púberes fantasias, das metáforas inconscientes, embalsama-se tudo dos hábitos cotidianos e emerge tudo que o império da esbórnia esbanja.   É hora de extravasar pelo bem ou pelo mal. 

Para tudo por que os corpos sedentos de prazer subjugam as cabeças transtornadas, confusas e periclitantes na troca temporal pelo "essa noite eu me embriago", pelo  "seja o que Deus quiser" e pelo "ninguém é de ninguém", impulsos pétreos de uma desconstituição anárquica. Que até a dúvida da sexualidade provoca.

Para tudo porque quem ousar resistir à guerrilha da alegria irresponsável e efêmera será fatalmente esmagado pelas tropas da folia, municiadas no front, nos flancos e na retaguarda com carga pesada para esses dias da mais ousada embriaguez.

Até quarta ou quinta-feira o manto de um cintilante arco-ires pairará sobre montes, planícies e  paias divinais, produzindo o mais ébrio e orgástico dos efeitos contagiantes. É a fúria primitiva da liberdade sacrílega, cerceada no ano inteiro das conveniências e das subserviências.

Em tempos de carnaval, sob o reino do Momo, toda nudez será festejada
É a festa de Deus e do diabo na terra do sol, que já na Grécia socrática dispensava o recato para celebrar a fertilidade do solo e a fartura com calça de veludo e bunda de fora. Festa de arromba, que hoje, mais audaz, todos os males espanta e toda timidez esfrangalha.

É o mais profundo corte epistemológico na rotina das cidades, das aldeias e dos campos gerais. É o ópio que faz esquecer o pão nosso de cada dia, as angústias, as dívidas, os compromissos e os desejos do mundo real, congelando os sentidos de quem se envolve e de quem não se envolve na gandaia.

É o cessar fogo na guerra inclemente de todos e de cada um por um lugar ao sol.

É a hora e a vez das máscaras e das fantasias saírem dos armários e dos cérebros para mostrarem-se protuberantes, ostensivamente, sem os freios da hipocrisia cínica e falastrona.    

É a hora da onça beber água, ante a intrepidez etílica dos tépidos vassalos, serviçais e submissos que, por um fenômeno catártico, tornam-se os reis da cocada preta e protagonizam as eletrônicas imagens internacionalizadas e hipertrofiados via satélite com seus bocões de sorrisos ensaiados e suas performances corpóreas estereotipadas.

Hora pétrea também dos exibicionistas e das moçoilas de pernas roliças e seios exuberantes, para quem os borbotões de olhares cravados inflam seus egos mediocrizados na ilusão de que não precisam saber de mais nada, nem buscar o conhecimento,  nem informar-se, que os corpinhos esculturais  reluzidos de paetês e purpurinas lhes salientam como destaques da madrugada quente e abrem  as portas de  um amanhã afortunado.

No final do desfile do Bola Preta nem o carro da PM foi poupado
Nessas horas que o errado se confunde com o certo; o dia com a noite, as ruas são tomadas pelas turbas dionisiacamente alucinadas, ávidas de um novo amor, de um prazer recusado no mundo real, de um barril de cerveja inebriante, de uma autoridade íntima jamais expressa,  dos píncaros na hierarquia social, do bom e do melhor que a vida nega.

Diante de tantos disfarces compensatórios quem me há de dar atenção à crônica inconformista, quem vai querer tomar conhecimento dos meus murros em pontas de facas?

Ninguém, nem quem não vai se esfregar nos cordões desvairados, porque o fogo cruzado dos alucinógenos disparados vai invadir-lhe a sala em sonhos, cores e malabarismo que as mídias potencializam e nos enviam em sinais eletrônicos tentadores.

Ninguém mesmo porque todos precisam dar um tempo, aliviar a mente cansada, soltar-se das algemas mentais, seja no torpor das ruas agitadas, seja nos lares amortecidos, seja nas paradisíacas praias e nas altaneiras montanhas onde se encontra também como dar tempo ao tempo, que ninguém é de ferro, nem de lata é.

Quando quinta chegar será outra civilização. Os pulmões estarão recarregados e o ano novo de 2013 chegará enfim com seus mistérios e surpresas, encantos e desencantos.

Nesse então, se não me falhar a pena, aqui estarei para lhe oferecer o que tenho do bom em corpo e alma - a provocação apaixonada do cidadão que há em você, a lembrança do que lhe é devido ou lhe é negado, ou lhe é furtado.

Aí, sim, vamos pôr em dia nossas conversas necessárias para que afastemos de nossos dias restantes o fantasma da inércia, da covardia e da acomodação suicida. Para que paremos de entregar o outro ao bandido.

Aí, sim, vamos estar juntos para dizer não ao sarro que insistem em tirar em nossas costas, como se todos nós estivéssemos ferreamente acorrentados aos grilhões da injustiça, da espoliação, da rapina, da submissão e da arbitrariedade.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.