segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Que esse beijo mortal não se repita jamais


Tragédia da boate “Kiss” é fruto da omissão e cumplicidade das autoridades de segurança e fiscais

O nosso problema ali não foi um problema de legislação, porque a legislação do município de Santa Maria era uma legislação muito forte, muito dura. Nós temos problemas de fiscalização, de cumprimento da legislação por parte dos donos da danceteria. Há um problema de fiscalização que precisará ser analisado no próximo período”.
Marcos Maia, deputado gaúcho, presidente da Câmara Federal

A prisão do dono da boate é uma resposta rápida, mas não é tudo
 Precisava do sacrifício de 231 jovens para constatar o óbvio? Ou ainda vão querer ceifar mais vidas até tomarem uma decisão decente no  controle das arapucas que se espalham pela noite povoada de incautos?

O que aconteceu em Santa Maria é o que o lugar comum convencionou chamar de tragédia anunciada. Não seria a primeira  por conta da negligência, da irresponsabilidade, da tolerância corrupta e do abuso das máfias tão poderosas que operam 90% das  nossas casas noturnas sem alvará, segundo depoimento de Antônio Ramalho,  presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de São Paulo.

E, infelizmente, pode não ser a última. Mesmo diante do torpor e da comoção que transformou o dia de ontem no domingo mais traumático de nossa história,  são poucas as administrações municipais e estaduais que sinalizam providências para evitar o repeteco do morticínio.

Isso não teria acontecido se não houvesse cumplicidade

Nenhuma casa noturna funcionaria em condições tão afrontosas à segurança dos seus frequentadores se não rolasse um suspeita tolerância entre os vários órgãos fiscais,  inclusive, entre os bombeiros, que insistem em falar que estava tudo nos conformes. Nesse caso, desde julho estava vencido o alvará de segurança e, mesmo assim, a casa funcionou a mil, ante os olhares cúmplices e canalhas de quem tinha por obrigação interditá-la. Qualquer pessoa com o mínimo de sanidade sabe, aliás, que aquela casa com o sugestivo nome de "Kiss" jamais poderia ter funcionado um só dia.

A tendência, aliás, é persistir o quadro temerário, com algumas medidas inevitáveis, como a suspensão de espetáculos de pirotecnia em ambientes fechados.  Isso, porém, não quer dizer nada: no incêndio na boate República Cromagnon, de Buenos Aires, em 2004,  que custou 194 vidas, foram jovens da platéia que dispararam morteiros para o alto.

Por que se as autoridades agirem com seriedade, sobrarão muito poucas casas noturnas no país em condições de funcionamento. E aí vai ter muita gente de rabo preso, muito mafioso ameaçando jogar seus “gibis” no ventilador.

Na noite, é tênue e quase imperceptível a fronteira entre o mundo das casas legais e o submundo dos inferninhos e da indústria do jeitinho e da irresponsabilidade. O ponto comum  entre ambos é a baixa qualidade do pessoal de segurança, contratado sem qualquer treinamento e a salvo do controle da polícia.  Estimativas sugerem que cerca de 80% desses seguranças não se submetem aos cursos  de 160 horas da Polícia Federal e não são  filiados ao sindicato da categoria, o que supõe o devido preparo.

Tudo isso faz parte de um patético ambiente de tolerância comprada e corrupção institucionalizada. Para os agentes públicos corruptos, a noite é o filé mignon do propinoduto mundial. É nela que transitam, impávidos,  os elementos mais inescrupulosos da escória, onde o dinheiro corre fácil,  e onde se mercadejam as prendas mais degeneradas que seduzem o instinto humano.

Leis omissas e projetos congelados

Leis há, projetos também.  Desde 2007 dormita no gaveteiro da Câmara Federal o Projeto de Lei 2020-B, da deputada paraense Elcione Barbalho. Não é uma obra prima, mais já atualiza a legislação com exigências óbvias,  mas omitidas nas legislações municipais.

Já tem parecer do relator Artur Maia, no entanto, não sai do lugar. Por que? Teria a deputada recuado em função de algum “lobbie” desses que têm o poder irrecusável de mudar as posturas dos nossos parlamentares? Ou seria a obstrução da turma da pecúnia que domina a Câmara Federal?

Das autoridades, espera-se mais do que lágrimas

A presidenta e o governador têm de agir exemplarmente
Nisso tudo há um componente cultural cada vez mais saliente: a alienação alimenta a  desinformação e cristaliza a miopia.  As pessoas estão viciadas em só tratarem daquilo que lhe diz respeito de perto, diretamente, ao palmo do nariz.  Não estão nem aí para o que acomete os outros, mesmos nas adjacências, fiel a primado de que cada  qual cuide de si, como se a elas não pudesse acontecer o mesmo.

Essa alienação acovarda e acomoda.  Muitas vezes você vê a coisa errada, mas evita “arranjar problema”.  No caso das casas noturnas, quantas vezes vemos a falta de segurança e o mais que fazemos é decidir não mais voltar a tal arapuca?

A tragédia de Santa Maria da Boca do Monte tem componentes muito graves e muito comuns a outras cidades para ser encarada apenas com um banho de lágrimas. Lágrima, aliás, não é o que se espera apenas de uma chefa de Estado.  Decretação de luto é muito fácil, não afeta interesses poderosos e violentos. Impõe-se, sim, ações concretas, exemplares.

Responsabilizar quem tem responsabilidade

Não adianta prender os guris fandangueiros e os donos da boate. É preciso ir fundo e apontar com coragem a omissão e a cumplicidade das autoridades da área. Se elas  tivessem cumprido seu dever, talvez não estivéssemos diante desse luto nacional.

Além disso, a perda de tantas vidas na flor da idade é um safanão em toda a sociedade e não apenas nas autoridades.  Causou sofrimentos profundos e permanentes aos seus parentes queridos, seus pais, irmãos e amigos. Mas também vai deixar uma ferida aberta na alma de todos os que tiverem o mínimo de humanidade em seus corações.

Por muito tempo, um longo e tempestuoso tempo, os brasileiros vão conservar em suas lembranças as imagens trágicas da fornalha tóxica em que se converteu uma casa de show pelo uso irresponsável de sinalizador pirotécnico,  pela existência de uma danceteria sem saídas alternativas de emergência, pela falta de treinamento dos seus seguranças e, o que é mais grave, pela cumplicidade comprada das autoridades.

A morte desses gauchinhos bonitos e cheios de futuro é como se fosse a morte dos nossos próprios filhos. . Quem não tem esse sentimento, não tem grandeza,  não se libertou dos grilhões mesquinhos da vida ensimesmada.

Com os filhos caçulas na faixa de idade desses jovens imolados, quando a vida verte caudalosa por todas as veias, declaro minha mais profunda indignação.  E minha vontade pétrea de contribuir com minha palavra e minhas denúncias para que tragédias tão dolorosas  não se repitam jamais.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nem tudo está perdido


Num pequeno país vizinho, há um presidente que  não abre mão de uma vida austera e modesta

"O poder não muda as pessoas, apenas revela quem elas são verdadeiramente”.
José Alberto Mujica Cordano, agricultor, ex-guerrilheiro tupamaro e atual presidente do Uruguai.


Baqueado por um gripão enervante,  passei alguns dias de pernas pro ar, sem ter como produzir nada de palatável. Não sei se pela minha idade, mas a gripe consegue me tirar do sério e me remeter da sala para o fundo do quarto.

Voltando à tona de mansinho, precisava de um energético cavalar, pois a minha compleição física e  minhas pretensões intelectuais  exigem sempre, depois do caos,  compensações mais da conta.
Não é que encontrei?

"Agora estamos mais humildes, modestos, e percebemos que 
devemos semear  muita cultura, porque a cultura e o
 conhecimento  só podem construir uma sociedade melhor."
Que coisa linda, que orvalho de esperanças: você precisa partilhar da mesma emoção que me possuiu ao viajar pela internet ao Uruguai a partir de uma reportagem do The New Iork Times  sobre o presidente José Mujica, um poço de sabedoria, cuja vida monástica é a mais lúcida resposta aos maus hábitos inerciais dos podres poderes.   
  
Eu já sabia das virtudes desse ex-preso político, que amargou 14 anos de cadeia na ditadura uruguaia, jamais se rendeu e, depois de ser deputado,  senador e ministro, chegou à Presidência do seu país nas eleições de 2009, em nome da “Frente Ampla”, uma coalizão progressista. Alguém que pelo sofrimento pretérito me faz lembrar de Nelson Mandela, o herói sul-africano, que passou 28 anos no cárcere do apartheid. 


Mas a matéria do dia 4 de janeiro do NY Times, republicada pelaFOLHA DE SÃO PAULO nesta segunda-feira,  tem o sabor do inusitado e a verve de um insólito desafio:

“Vários líderes mundiais vivem em palácios. Alguns gozam de regalias como ter um mordomo discreto, uma frota de iates ou uma adega com champanhes vintage.

E há José Mujica, o ex-guerrilheiro que é presidente do Uruguai.

Ele mora numa casa deteriorada na periferia de Montevidéu, sem empregado nenhum. Seu aparato de segurança: dois policiais à paisana estacionados em uma rua de terra.

Em uma declaração deliberada a essa nação pecuarista de 3,3 milhões de pessoas, Mujica, 77, rejeitou a opulenta residência presidencial de Suárez y Reyes, com seus 42 empregados, preferindo permanecer na casa onde mora há anos com a mulher, num terreno onde eles cultivavam crisântemos para vender em mercados locais”.

O que mais me tocou não foi sua opção franciscana, que já é admirável: ele não mudou nada ao se tornar presidente da República do seu país: nem trocou a chácara simples pelo palácio suntuoso, nem mudou seus hábitos.E nem por isso perdeu a autoridade de Chefe de Estado.

Mas seu modo despojado de ser me revelou em carne viva a certeza implícita do trato rigorosamente honesto com o dinheiro público; a certeza cristalina de uma vocação inarredável, que funde os rebeldes sonhos juvenis com a sabedoria anciã, num exemplo para todos, principalmente para aqueles que ganharam fama no bom combate e depois, uma vez no mando, misturaram-se a corruptos e corruptores, adotando as mesmas práticas permissivas que antes abominavam.

A admiração cresce mais ainda pelo convívio diário com a prática institucionalizada de péssimos hábitos na vida política brasileira, comuns a todos os governantes, de todas as esferas e de todos os partidos. Pior: comuns em todos os pilares dos nossos podres poderes.

Modéstia como recado

Segundo sua última declaração de renda, de abril passado, seu patrimônio e o de sua esposa, a senadora Lúcia Topolansky, é de 4,2 milhões de pesos (cerca de US$ 212 mil) e inclui três terrenos, três tratores e dois carros de 1987.

O governante doa cerca de 90% de seu salário como presidente, de cerca de 12 mil pesos (US$ 9,3 mil), para a construção de casas sociais, através de entidades como o Fundo Raul Sendic (para apoiar os pequenos produtores dos setores mais pobres) e para o "Plan Juntos" destinado à construção de casas para uruguaios em extrema pobreza.

Quando não está realizando trabalhos oficiais, o chefe de Estado anda sem motorista em seu automóvel e faz suas próprias compras no bairro, ao mesmo tempo em que é comum vê-lo comendo em restaurantes populares com seus colaboradores no entorno da sede do Governo, no centro de Montevidéu.

"Se tenho poucas coisas, preciso de pouco para sustentá-las. Portanto, meu tempo de trabalho que dedico é o mínimo. E para que me resta tempo? Para gastá-lo nas coisas que eu gosto. Nesse momento acho que sou livre", disse recentemente em uma entrevista à "BBC" na qual explicava o porquê de sua austeridade.

Muitos se sentem agredidos com esse modo modesto de ser presidente da orgulhosa República Oriental do Uruguai. Mas essa é, seguramente, a forma mais incisiva de mandar o seu recado na defesa do exercício da atividade pública com o mínimo de recato e dignidade. De dizer aos cidadãos que nem tudo está perdido, que ninguém é obrigado a ser ladrão.

Será muito desconfortável para um aproveitador corrupto ser pego com a mão na massa. Porque o seu presidente é INCORRUPTÍVEL e certamente jamais recorrerá a expedientes imorais de sedução para garantir sua governabilidade.

Como não podia deixar de ser, enveredei pela internet para saber mais desse que é conhecido hoje como “o presidente mais pobre do mundo”. Encontrei muito material, inclusive uma reportagem da BBC de Londres e uma da repórter brasileira Delis Ortiz, exibida no Fantástico. 


Mas é pouco, em havendo oportunidade, e tratarei de criá-las, pretendo ir pessoalmente ao Uruguai para saber da influência desse modo honesto de ser presidente da República nessa população de menos de 4 milhões de habitantes, mas de uma tradição política e cultural admiráveis.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As exéquias de um poder sem compostura

A volta de Renan à Presidência mostra que o Senado é mais do que inútil: é perigosamente trapalhão


“Esta é uma eleição que ainda não tem candidato e já tem o eleito. Lembra as antigas eleições comandadas pelos coronéis de interior, com a diferença que os eleitores são senadores. O que joga a culpa sobre os eleitores”.
Senador Cristovam Buarque, em comentário sobre nossa matéria Retrato Pálido de um Congresso sem Pudor.

Como  não há tantos como Cristovam, o Senado perde a razão de existir
(Clique na foto para vê-la maior)
Todo mundo conhece a fábula do escorpião que picou o sapo na travessia do rio, causando o afogamento dos dois:
- É da minha natureza, admitiu.

Nossa classe política parece indiferente à letalidade do seu desgaste, com um agravante explosivo: a perda da dignidade das casas legislativas afeta e fragiliza esse arremedo de sistema democrático, que, apesar de tudo, consagra o dito popular: ruim com ele, pior sem ele.

Nos últimos dias, a mídia tem sido farta em revelações que expõem os futuros presidentes do Senado e da Câmara como  emblemas da delinquência política. No caso do sr. Renan Calheiros, é só rever tudo o que se apurou a seu respeito e que o levou a renunciar ao cargo para o qual vai retornar gloriosamente numa articulação que levou o senador Cristóvam Buarque, da plêiade de raridades em extinção, à comparação aos piores hábitos no processo de escolha política.

O documento do senador pedetista é uma peça para a história do parlamento brasileiro, embora a tendência seja o desprezo da esmagadora maioria dos seus pares  ante ponderações tão ousadas e marcantes. De tal pequenez é o perfil dos senadores que paira sobre  as cabeças mais otimistas a amarga sensação do tempo perdido. Essa casa está tão bestializada que o retrato capturado por Cristovam parece compor as exéquias de um poder  sem compostura.


Claro que ele não está tão solitário quanto deseja a quadrilha de reincidentes que vai  homologar sem discutir, sem ponderar, sem avaliar, aquele que é o mais desqualificado para estar à frente de uma casa legislativa federal.

Conhecido por sua lucidez, o senador Pedro Simon foi na veia:
— Eu acho que o Congresso tinha de achar um nome. O Renan já foi presidente do Senado e em meio a um processo de cassação ele renunciou à Presidência para não ser cassado. Não seria a hora de um nome como o dele. Seria o momento de o PMDB apresentar um nome que integrasse todo mundo. Se for ele, eu não voto nele — afirmou.
E mais:
— O que se quer, dentro do possível, é fazer um movimento de Congresso revigorado. O manifesto do Cristovam Buarque é uma proposta muito clara de mudança.

Eu vou mais longe, com todo respeito a próceres como Cristovam e Pedro Simon. A meu ver, o Senado não tem mais jeito. É o supra-sumo da indecência, a começar pela fórmula marota como pendura os suplentes, nos quais votamos compulsoriamente sem mesmo saber quem são, e pela injunção peculiar que permite que votemos ao mesmo tempo em dois  senadores.

Sobre essa casa que passou da explícita inutilidade aos abusos que  prejudicam de forma letárgica o tripé dos clássicos poderes,  tenho escrito  de quando em vez, lembrando que na maioria dosa países o sistema parlamentar é unicameral.

Em 24 de junho de 2009, escrevi Não se Iluda, o Senado é um Caso Perdido. Depois de apontar suas mazelas estruturais, disse com todas as letras:
Para que serve afinal essa casa que se lastra na anacrônica “representação dos Estados”, um estratagema velhaco que foi buscar razão de ser nas priscas eras, como se o Brasil não fosse de fato um regime unitário, com a União arrecadando e repassando a parte gorda dos tributos? Dispensam esse pleonasmo países como Portugal, Grécia, Suécia, Dinamarca, Islândia, Venezuela, Finlândia, Turquia, Israel, Síria e Noruega, de um total de 112 que têm parlamentos unicamerais, contra 75 que ainda conservam a duplicidade, alguns destes com poderes restritos, como na Inglaterra, França, Alemanha, Áustria, Bélgica, e Índia. Para você, que não é obrigado a manjar de todos os sofismas políticos, parece que a existência de duas casas do Legislativo – que, ao contrário dos Estados Unidos, só ocorre no plano federal – é condição pétrea do sistema democrático representativo. Nos Estados Unidos, ressalve-se, o Senado veio primeiro, após a guerra da independência, por iniciativa dos líderes das 13 ex-colônias, que mantinham (e mantêm) autonomias reais, configurando uma federação de fato e de direito. Estudos da própria (e competente) Consultoria Legislativa do Senado apontam: na Europa, berço da civilização democrática, há 30 países unicamerais para 17 bicamerais; na Ásia milenar, 23 unicamerais para 16 bicamerais; na África, 33 unicamerais para 19 bicamerais; na Oceania, 11 unicamerais para 3 bicamerais. Só nas Américas, ainda pela influência norte-americana, o número de bicamerais é maior: 20 contra 15 unicamerais.
Essa restauração do “império Renan” reforça a minha convicção de como é desnecessário essa “câmara alta” do sistema bicameral, agora magistralmente exposto no manifesto do senador Cristovam Buarque.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Retrato pálido de um congresso sem pudor


Delinquentes de alta plumagem comandarão Senado e Câmara com um mau elemento como escudeiro

Depois de reduzir a pó a CPI do Cachoeira, conforme o sacro desejo da dupla Cabral/Cavendinsh, e provavelmente mediante bornais  de pepitas, isso que desafortunadamente é o nosso Congresso Nacional ensaia uma das mais insólitas afrontas à dignidade cidadã.

Renan não foi cassado e ainda volta para reinar
Já está tudo acordado, com o apoio dos maiorais, do alto clero, do baixo clero, dos sem batinas, da bancada da Delta, do PT do Lula, do PT da Dilma e do PT flutuante, da oposição pernóstica e da oposição argentária: Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves, de vidas pregressas de fazer inveja ao Demóstenes Torres, assumirão as presidências do Senado e da Câmara, tendo como principal escudeiro Eduardo Cunha, que será líder do PMDB, conforme articulação do mesmo Sérgio Cabral das noitadas parisienses.
Renan, qualquer desinformado sabe, foi condenado duas vezes por corrupção pelo próprio Conselho de Ética do Senado e só não foi cassado pelo poder milagroso e pecuniário do voto secreto. Henrique teve que renunciar à vice do Serra, em 2002, porque a própria ex-cara-metade pôs seus podres no ventilador, expondo o mau cheiro de suas vísceras.
H. Alves e Cunha: a gente não merece
Eduardo Cunha, então, é popular mais da conta no submundo da política e chegou a receber um chega pra lá da Dilma quando quis continuar comandando as trapaças de Furnas. Mas hoje, como toda a atividade política é nutrida pela desmemória e pela fraude ritual, cintila como o amálgama reluzente entre os corruptos já pilhados e os que ainda encenam como carmelitas, todos ávidos pelas pétalas do poder.
Essa composição espelha a maioria delinquente de um parlamento inútil e tão pernicioso que encabeça a lista dos mal vistos, embora, paradoxalmente, pelo que se presume, representa a vontade de um eleitorado alienado, acrítico e caoticamente descuidado.
Ou então reflete a supremacia de fraudes sofisticadas que forjam eleitos na calada da noite mediante a utilização delituosa da tecnologia de ponta, conforme suspeitas bem fundadas e até confissões abafadas por um sistema controlado por sanguessugas e manipuladores do meu, do seu, dos nossos impostos.
A volta gloriosa à Presidência do senador que deixa Marcos Valério no chinelo é o sinal mais terminal da decadência de uma classe política degenerada, tão sem recato que transforma magistrados acidentais em heróis nacionais só por escracharem alguns dos seus e dá caldo para o linchamento de alguns bodes expiatórios selecionados.
Essa afronta favorece também o imaginário golpista que pode ser invocado numa eventual recaída de meia dúzia de cassandras desequilibradas. O mau comportamento dos políticos, que dispensam até o jogo de aparências, vulnera as instituições e abre caminho para salvadores da Pátria que, por sorte dessa escória moral, desapareceram na poeira da história sem deixar herdeiros.
Não sei quantos vão ler essa catilinária - muitos não serão. Mas se alguns ainda tiverem a têmpera da indignação que dêem curso ao nosso grito, repassem e façam o que puderem, independente de comprometimentos pessoais e ideológicos e de simpatias pretéritas, porque faz muito mal ao povo o apodrecimento do seu esqueleto institucional.
Podem eles da corte e dos palácios agirem como delinquentes certos da impunidade política, pode a maioria da plebe ignara estar mais interessada nos atrativos da telinha e nas pendências dos gramados, mas se um punhado de bravos altear a voz, quem sabe, novos ventos poderão soprar por cima de pau e pedra.     

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.