domingo, 29 de dezembro de 2013

A dominação do espectro total

Em "A Segunda Guerra Fria", Moniz Bandeira vasculha o uso das modernas manobras de dominação com a manipulação dos dominados

Moniz Bandeira: a radiografia de uma nova guerra fria
Num país em que as elites dominantes confinam a informação e o conhecimento às fronteiras da idiotice,  em que o medíocre BBB da Globo aparece como o tema mais consultado do Google em 2013 chega a ser uma temeridade falar do perigoso jogo de poder da atualidade e de um livro que vai na veia do que os Estados Unidos pretendem com o seu  “full spectrum dominance” (dominação de espectro total) - tese essencial de A Segunda Guerra Fria, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos mais inquietos, profundos e corajosos expositores das torpezas coloniais.

Para a tristeza das raras mentes ainda não terceirizadas, vivemos sob o mais eficiente  processo corrosivo da inteligência, uma vitoriosa carga pesada que torna a compra de caças de guerra uma despesa inútil, um dinheiro jogado fora.

A dominação hoje emana de fontes tão sofisticadas que prescinde dos campos e dos ares de batalha. São primatas os que recorrem à pólvora quando as tecnologias imperiais de última geração descobriram nos povos domináveis os melhores instrumentos da dominação e da sua exploração.

Bem que eu queria escrever a respeito antes de você gastar o que sobrou do 13º. Falhei por razões de saúde do conhecimento de todos. Mas como ainda não espocaram os fogos do artifício, pode ser que um ou outro ainda tenha algumas patacas para investir nessa obra que expõe as vísceras e as malandragens do império decadente na guerra fria de posições pelas riquezas energéticas do Oriente Médio, cenário da mais bem sucedida manipulação das contradições tribais e religiosas até então administradas. 

Moniz Bandeira prova por "a + b" que a chamada "Primavera Árabe" não resulta da explosão espontânea das massas. E aponta a guerra civil síria como auge de sua intervenção na área, relacionando as operações da CIA com a própria crise econômica norte-americana: "os Estados Unidos tornaram-se uma potência devedora, sobretudo da China, e não conseguiam sequer financiar suas atividades domésticas, nem as guerras no estrangeiro que o presidente George W. Bush havia deflagrado...e assim, passaram de potência credora mundial à condição de principal nação devedora".

Enquanto isso, "as reservas em moeda estrangeira da China, em junho de 2009, já eram de US$ 2,13 trilhões, dos quais, segundo dados da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, U$ 763,5 bilhões eram em títulos da dívida americana".

A presença russa e da China como contrapontos seria a única condição de evitar a destruição sumária do Estado nacional sírio, como aconteceu na Líbia recolonizada, com o agravante: esse projeto implicaria na divisão da Síria em pelo menos dois países, reduzindo sua força como expoente do moderno estado laico e sujeitando-a a conflitos "religiosos" destruidores.

A Segunda Guerra Fria é uma espécie de roteiro para o entendimento de tudo o que aconteceu ou deixou de acontecer numa região que é o maior paiol petrolífero do mundo. Explica, inclusive, ainda que indiretamente,  as recentes mudanças no Irã para um acordo com o Ocidente e uma variedade de movimentos que juntam na mesma trincheira contra o governo de Damasco os maiores aliados dos Estados Unidos, encabeçados pela Arábia Saudita, ao lado da Al Qaeda, tida formalmente como sua inimiga preferencial.

No seu prefácio, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães traduz muito claramente o que toda a obra expõe com vasta documentação: A atuação dos EUA nesta região,  deve ser entendida à luz do projeto nacional e internacional de Washington, sintetizado na expressão “full spectrum dominance”: “seu objetivo é estabelecer e manter a hegemonia americana, sob o manto ideológico da defesa de valores universais que, aliás, seguem apenas na medida de sua conveniência, como comprovam a prática dos assassinatos seletivos, a utilização de drones e a escuta ilegal de todos os meios de comunicação, no programa Prism, em todos os países”. Para a execução desse projeto, acentua o ex-secretário geral do Itamarati, os EUA contam com 750 bases militares no exterior, 1,4 milhão de soldados, sendo 350.000 estacionados em 130 países.”

A obra de Moniz é destacada também por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior: "Ao analisar as revoltas e guerras em vários países árabes e do norte da África, nos últimos anos, Moniz Bandeira sustenta que estamos vendo os momentos iniciais da segunda Guerra Fria, envolvendo desta vez EUA, Rússia e China. Um dos principais objetos dessa disputa seria o controle de uma ampla área produtora de petróleo e gás, envolvendo países do Mediterrâneo, do Golfo Pérsico e da Ásia Central.

As revoltas da chamada Primavera Árabe seriam o palco desses primeiros movimentos. Moniz Bandeira chama a atenção para um livro de Gene Sharp, “From Ditactorship to Democracy” (Da ditadura à democracia), que foi traduzido para 24 idiomas e distribuído em diversos países pela CIA, fundações e ONGs ligadas aos EUA.

O objetivo central desse manual é solapar a estabilidade e a força econômica, política e militar de um Estado sem recorrer ao uso da força, mas provocando violentas medidas, a serem denunciadas como uma reação excessiva e autoritária dos governos que se quer desestabilizar.

A estratégia apresentada no livro de Sharp, assinala ainda Moniz Bandeira, pautou em larga medida a política de “regime change” incrementada pelo ex-presidente George W. Bush dentro do conceito de “freedom agenda”. O autor descreve assim o funcionamento dessa política: “...a luta não violenta é mais complexa e travada por vários meios, tais como a guerra psicológica, social, econômica e política, aplicados pela população e pelas instituições da sociedade. Tais meios são, por exemplo, protestos, greves, marchas, boicotes, procissões, etc.”


Mesmo com o atraso no calendário das efemérides mercantis, creio que ainda é tempo de recomendar  A Segunda Guerra Fria para quem ainda quer saber mais do que permite a máquina mortífera que emascula e confina politicamente as multidões inocentes e imobilizadas.

8 comentários:

  1. Pergunta: o fato dos Estados Unidos estarem devendo mundos e fundos para todo o mundo, conforme explicado no texto acima, seria a razão da SUBIDA CONSTANTE DAS COTAÇÕES DO DÓLAR NO BRASIL??????????????

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  2. Anônimo2:53 PM

    "Com o tempo, uma imprensa (mídia) cínica, mercenária, demagógica e corrupta, formará um público tão vil como ela mesma."
    Joseph Pulitzer (1847-1911)

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  3. Anônimo10:43 AM

    Eu já havia lido a Formação do Império Americano do sr. Moniz Bandeira. Como ele escreve não deixa dúvida. Vou procurar o novo livro nas livrarias.

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  4. Meu querido professor Pedro Porfírio.

    Vivemos todos nós, homens e seres irracionais, e até mesmo o reino vegetal, sob o fio cortante de uma Espada de Damócles, prestes a cair sobre nossas cabeças.

    O que é feito com o cidadão brasileiro é uma afronta aos direitos, e mais que isso, uma afronta à inteligência. E ainda mais grave, não temos na justiça a defesa dos direitos do cidadão, na Justiça Eleitoral em especial.

    Os movimentos Verdes, os Movimentos de Justiça e dos Direitos Humanos, enfim, a totalidade dos órgãos congêneres não foram criados para defender os interesses da humanidade.

    Vemos hoje, os bolchevistas sionistas que silenciosamente, continuaram seus intentos criminosos se enfrentando pelo poder: ChinaxRussiaxEUAxglobalistas sionistasx vice-versa... Guerra Fria, oras, a maldade peculiar dos poucos sionistas bolchevistas comunistas, nunca deixou de existir, troca-se apenas os métodos, hoje eles usam as drogas nocivas a saúde do ser humano.

    Com eleições tão próximas, devemos ficar atentos às denúncias abertas de relacionamentos de partidos políticos brasileiros com guerrilhas de diversas tendências dentro do continente sul-americano. A importância do Brasil é capital dentro deste bloco que vai se formando pouco a pouco.

    Nossa escolha, certamente definirá a tendência dos demais e, nossa tímida experiência democrática, tão improvisada quanto confusa, ainda está muito distante de garantir aos cidadãos a manutenção das liberdades democráticas através de uma governabilidade eficaz. Aliás, é pois nossa fragilidade como civilização que nos empurra para o buraco sem fundo da alienação plena de nossa sociedade, com a completa submissão aos nossos algozes que, lamentavelmente, acabam por ser aqueles que escolhemos para nos representar junto ao parlamento.
    Abraços Fraternos,

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  5. Láercio Martins4:32 PM

    Já era tempo de levarem os Estados Unidos a um tribunal internacional sob a acusação de genocídio.

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  6. jileno Sandes8:16 PM

    O que os Estados Unidos estão fazendo no norte da África e no Oriente médio é uma verdadeira carnificina. Onde está a ONU e os tribunais internacionais?
    O pior disso tudo é que temos um "democrata" no governo desse hidra.
    Para mim o Obama é pior que o Bush.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.