quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Meia volta volver

PM que massacra nas ruas e mata nas favelas invade plenário de uma Câmara fragilizada pela corrupção 



 Isto assim não vai acabar  bem. Quando policiais militares invadem o plenário da Câmara Federal para exigir a votação de um projeto do seu interesse a  gente tem de dar uma paradinha para refletir, mesmo sabendo que a corrosiva deterioração da classe política está na raiz dessa desmoralizante invasão à instituição parlamentar  por agentes pagos para defendê-la. 
Essa inesperada "operação" de policiais regidos por regimes disciplinares rigorosos, invadindo um plenário parlamentar como se meninotes fossem, afigura-se como uma provocação de encomenda, com os ingredientes da má fé que em nada pode se comparar aos protestos juvenis,  apesar de excessos que tenham ocorrido.

Se não tivesse tanta culpa no cartório, o presidente da casa, ao invés de patéticos apelos, daria voz de prisão aos policiais militares, que estão pondo lenha na fogueira por descabido oportunismo, tentando limpar sua barra, já que a PM está muito mal na fita  por sua agressividade  numa repressão eivada de abusos e sadismo.

20 anos de desvios de conduta

As manifestações populares iniciadas em maio contra os abusivos aumentos das passagens dos ônibus não seriam episódicas, como esperavam os ditos cientistas políticos e os analistas de gabinete.

Eram mais de 20 anos que estavam entalados na garganta do povo, obrigado a conviver com todo tipo de estelionato político e de favorecimentos escandalosos comprados a propinas de ouro por interesses insaciáveis.

Mais dia, menos dia, aconteceria o estouro da boiada - só não via quem estava embriagado pelo poder paradisíaco e afrodisíaco,  que só sabe puxar brasa para a sua sardinha na maior sem cerimônia, em cenas insolentes protagonizadas por políticos de todos os partidos, cada um cuidando de si na maior cara de pau.

Ninguém aguentava mais conviver com a promiscuidade de governantes fanfarrões com fregueses e prestadores de serviço do Estado, com a sordidez do "dá lá, toma cá" e  com o cinismo do "farinha MUITA meu pirão primeiro".

Na hora que a primeira tribo redescobrisse a rua e soltasse o grito que estava parado no ar, a fila ia andar e cada cidadão humilhado por esses anos de desvios de conduta, entreguismo e desmonte das conquistas sociais em nome de uma democracia dosada pelas elites iria querer tirar o atraso e botar seus clamores em dia.

Nessa explosão que ganhou o Brasil de fio a pavio no sopro de um furor contido por anos tudo era previsível, inclusive os excessos com alta carga de simbologia perpetrados por jovens indignados e desempregados revoltados, como muitos dos motoristas de vans que foram cassados nas áreas nobres do Rio de Janeiro para garantir o monopólio das máfias dos ônibus. 
E muitas águas ainda vão rolar, por que essas elites que controlam o país preferem brincar com fogo ou então sonham com uma nova intervenção militar tendo os tanques na proteção de seus interesses e de suas trapaças. 

Manifestações, sim! provocações, não!

Mas  o descontrole geral da explosão popular poderá criar seu próprio veneno. Eu não diria que há limite pra tudo - e há - mas ponderaria sobre os efeitos perigosos em determinadas atitudes,  com essa consumada por policiais MILITARES, cuja maior mística é a defesa das instituições de Estado, atitudes que expõem a própria integridade e o respeito devido às suas corporações.

A mim soa com extensão da violência policial desencadeada contra as manifestações de rua, mesmo em seus estágios pacíficos, como se em programadas provocações compensatórias de viés golpista.

Não consta que a PEC 300 - que elevaria os soldos dos policiais em todo o país - estivesse na agulha para ser votada em segundo turno. E, embora reconheça disparidades entre vencimentos de soldados e oficiais em todo o país, embora endosse a filosofia da proposta, creio ser necessária uma matemática que não desconheça as realidades de cada Estado, que considere também a situação de categorias como os professores, e um procedimento que não transforme o pleito numa chantagem castrense que induza a decisões covardes diante do "dá ou desce".

Na mesma linha de pressão mortal está uma elite médica que assumiu o monopólio profissional do mercado da saúde como bandeira para tirar proveito da indústria das doenças, num corporativismo extremista que está manchando de rubro seus jalecos brancos.

De um lado, queriam ter a exclusividade até  na aplicação de uma injeção, de outro insistem no boicote à  interiorização do atendimento médico, como se o povo tivesse por obrigação humilhar-se aos seus anos de faculdades, muitas das quais desfrutadas gratuitamente graças ao dinheiro que falta nos grotões, onde há também tantos brasileirinhos como os filhinhos de papai que lotam os estacionamentos das universidades públicas com seus carros de luxo.

É chegada a hora de um balanço geral honesto, se é que ainda é possível sonhar com honestidade numa sociedade corrompida pela Lei de Murici (cada um por si), e envolta numa epidemia de ambições individuais desmedidas e hipertrofiadas.

O povo cansado de tanta indiferença aos seus problemas básicos de sobrevivência não pode voltar para casa. Seu lugar é nas ruas e onde seja maior a visibilidade de seus protestos.  Se essas provocações de encomenda levarem ao recuo,  estaremos jogando fora semanas de sangue, suor e lágrimas.

Mas o momento "institucional" exige lucidez em cada passo a ser dado daqui para frente. É da própria essência dialética: a transformação do quantitativo em qualitativo se afigura como exigência sine qua non para conquistar a indispensável mudança em todo esse quadro acintosamente deprimente que reduziu a pó a credibilidade do sistema democrático e torna periclitante sua sobrevivência.

Neste instante, temos o dever de dizer não a todos os desmazelos dos políticos e seus financiadores privados, mas sem dar armas para um trágico retrocesso institucional, que desfiguraria fatalmente a democracia, o menos ruim de todos os regimes de Estado.

Um comentário:

  1. Luiz dos Santos11:42 PM

    Tomara que eu esteja errado mas todas as manifestações dos "encapuçados" ( é permitido andar encapuçado em público ? ) e as manifestações "organizadas" + "entidades sindicais". tudo isso me cheira a preparaçãopara um estado de sítio !!! Cidadão Luiz dos Santos

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.