quarta-feira, 17 de julho de 2013

A medicina e o Brasil real


Roberto Amaral 
publicado em 17/07/2013 na revista CARTA CAPITAL 

 A sociedade de classes se manifesta no serviço médico: para os muito  pobres, nenhum médico; para os muito ricos, hospitais de ponta

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 Ex-ministro de Estado e vice-presidente nacional do PSB, Roberto Átila Amaral Vieira, cearense, 73 anos, é um dos pensadores mais lúcidos do país. Conheço sua trajetória  e sua coerência  desde quando militantes juntos no movimento estudantil em Fortaleza.

Na montagem do blog, o Brasil real que ninguém pode desconhecer


A furiosa campanha corporativista dos médicos contra a vinda de colegas estrangeiros procura alarmar o país. No entanto, a atração de profissionais do exterior é prática antiga a que muito devem os Estados Unidos, a Rússia e muitos outros países. Não podemos ceder a essa manifestação de egoísmo classista, sob pena de ofender os direitos básicos da grande maioria de nosso povo, principalmente quando se sabe que um dos gargalos do nosso desenvolvimento é a carência de mão-de-obra qualificada.

Pesquisa do Ipea, realizada com 2.273 pacientes do SUS, mostrou que a falta de médicos é o principal problema de 58% dos brasileiros dependentes da rede pública. Temos algo como 300 mil médicos no exercício da profissão e 700 municípios (15% do total) sem um único profissional de saúde. Em outros 1,9 mil municípios, “3 mil candidatos a paciente disputam a atenção de menos de um médico por 30 segundos por pessoa”! (IstoÉ,10/07/2013).

O Brasil possui a vergonhosa média de 1,8 médicos por mil habitantes. Nossa vizinha e sofrida Argentina, 3,2; Portugal e Espanha, em crise, 4. Não citarei cifras de Cuba. Mesmo essa média é enganosa, pois, se o RJ possui 3,4 médicos por mil; SP 2,49 e MG 1,81; o Acre tem 0,94 médico por mil; o Amapá, 0,76; o Pará, 0,77; o Piauí, 0,92; o Maranhão, 0,58 (!); Amazonas, Bahia, Ceará e Tocantins têm 1 médico por mil habitantes (IBGE. 2012, CFM), o que evidencia a má distribuição dos médicos pelo nosso território. A propósito, das 130.000 vagas oferecidas a médicos pelo serviço público nos últimos 10 anos, apenas 90.000 foram preenchidas.

Mas o dr. Kalil, o médico da Corte e dos afortunados, é “terminantemente contra” a vinda de médicos estrangeiros porque, para haver medicina, é preciso haver “hospital bem estruturado” (FSP, 10/07/2013). Mas o que é, na realidade brasileira, ‘um hospital bem estruturado”? Não explica e ficamos sem saber.

O cerne da crise da assistência médica, no Brasil, não está, lamentavelmente, apenas, no minguado número de médicos, e na sua precária distribuição. Está, antes, na própria qualidade da formação médica, a começar pela ausência das cadeiras de ética e deontologia na grande maioria dos cursos. O formando de hoje é  ‘treinado’ para transformar a residência em especialização da subespecialização ditada pelo mercado, e ter seu consultório particular, se possível fechado aos que ainda podem pagar planos de saúde. SUS, ora isso é nome feio.

Na verdade, a sociedade de classes se manifesta em sua dramática injustiça no serviço médico de um modo geral: para os muito pobres, médico nenhum; para os pobres, os médicos formados em cursos privados, muitos deles ‘cursos de fim de semana’. Para a classe média os médicos com residência e especialização, os que aceitam os planos de saúde. Para a alta classe-média e a pequena burguesia, os médicos formados nas escolas públicas, quase sempre com bolsa de iniciação científica pública, com residência (com bolsa de estudos fornecida por entidade pública) em bons hospitais (embora os hospitais-escola estejam em crise e os, demais, como as Santa Casas e quejandas sejam péssimos), e mestrado, especialização e doutorado (com bolsa de estudos do CNPq, da Fapesp ou da Faperj ou de alguma outra agência estadual) no exterior, de preferência. Para os ricos ou membros da ‘nova classe’, os Sírio Libanês, os Einstein ou... Boston.

O leitor se deu conta de que entre os hospitais brasileiros de excelência não se mencionam mais os públicos? Talvez a única exceção sejam o Incor em São Paulo (hoje uma fundação) e o Inca no Rio, ambos sempre a braços com crises financeiras.)

O formando em medicina, principalmente em universidade pública, nas quais, em regra, os cursos são bons, é preparado psicológica e eticamente para trabalhar num Sírio Libanês, tendo ao seu lado equipamento de última geração e alimentando a expectativa de fama profissional. Eles vivem nos seriados tipo Dr. Kildare ou House. Não é só Brasília que ignora o Brasil real. Do alto de seu prestígio, o cardiologista oficial da Corte, com a bata de doutor do Sírio, nos diz que o mais importante não é médico, mas equipamentos. Mas, de que servem equipamentos sem médicos? E diga-nos esse doutor, qual país do mundo, incluindo os EUA e as maravilhas sociais dos países escandinavos, pode oferecer condições ideais de trabalho para seus médicos e atendimento médico universal gratuito fundado na parafernália eletrônica? E quando poderá este país de 200 milhões de habitantes e mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados assegurar hospital para todos os brasileiros e para todos os brasileiros a ciência médica praticada no Sírio? Condições de trabalho, queremos todos, não só os médicos, querem os motoristas de ônibus, os advogados que enfrentam uma Justiça que não funciona, os enfermeiros que sofrem nas mãos de médicos, os engenheiros, os agrônomos, os operários de chão de fábrica, os professores, sem salários, sem laboratórios, sem transporte, toda gente. Melhoria do transporte coletivo é também melhoria das condições de trabalho. Isto não é pleito de uma classe, mas exigência de uma sociedade em busca de progresso que depende de seu enriquecimento e simultânea distribuição de renda.

Pergunto ao dr. Kalil: quem foi esse senhor dos fatos que decidiu que só uns poucos, essa minoria da minoria privilegiada, tenham direito à sua clínica cardiológica, e os outros não tenham direito a clínica nenhuma, porque seus médicos esperam hospitais “adequadamente aparelhados” etc. etc.? No sertão, um estetoscópio e um aparelho de tomada de pressão arterial já salvam vidas.

Afinal, o dr. Kalil, bom médico que é, deve ter cedo aprendido que medicina é diagnóstico, e que, mesmo sem dispor do precioso auxílio de equipamentos (não que os dispensemos) e de exames (que não que os dispensemos), o bom médico é capaz de, ao menos, dar conforto aos seus pacientes e, sempre que possível, levá-los à cura. A alternativa ao médico nenhum é o curandeirismo, a indicação do balconista da farmácia, a indicação do vizinho…

O Brasil real não é aquele oferecido pelos hospitais Sírio Libanês ou Einstein, que não são, sequer, a realidade da capital paulista. O  Brasil real é o Brasil da periferia de Rio, de São Paulo e de todas as capitais, para não falar do Norte de Minas Gerais, do semi-árido nordestino, do vazio do Centro-Oeste, da Amazônia inóspita. 

Tabelas adicionadas pela editorial do blog mostra os contrastes injustos

O Brasil real não pede especialistas em subespecialidades, nem carece de ‘máquinas de última geração’ para fazer partos, tratar disenteria, consertar uma perna quebrada, aliviar um mal-estar, diagnosticar uma tuberculose, uma cardiopatia, uma ‘barriga d’água’... Precisa, sim, de clínicos, milhares de clínicos e generalistas, que tenham tempo de conhecer seus pacientes. Pergunta-nos para em seguida responder o dr. Adib Jatene: O que queremos de um médico? Que ele saiba diagnosticar o que você está sentindo. Que ele saiba analisar a sua dor, a febre, sem precisar de tecnologia (OESP, 09.07.13). O resto é o resto: corporativismo de quinta categoria.

Diz ainda o dr. Jatene, a quem devoto respeito, que, onde tem hospital tem médico. Invertendo o juízo ficamos sabendo: onde não há hospital, não há médico. Donde a solução ser construir hospitais e tê-los, e mantê-los de alta qualidade em todos os municípios do Brasil. Evidentemente, se possível privados, e se possível de padrão próximo ao do Sírio Libanês. Quando isso será possível? Digamos, otimisticamente, que daqui a 50 anos. E até lá? Admitamos, só para raciocinar com os doutores, que já tivéssemos hoje esses hospitais. Onde iríamos buscar os médicos? Hoje, formamos 18 mil médicos ao ano, o que não atende nem à demanda, nem à qualidade, nem assegura distribuição para o interior.

Saberá o dr. Kalil que o Brasil possui 5.570 (número que vai aumentar brevemente) municípios, alguns com população maior que a de vários países do mundo (SP capital tem 12 milhões de habitantes), e alguns, como Altamira, no Pará tem território quase duas vezes maior que o de Portugal? Saberá que Roraima tem 15 municípios e Minas Gerais 853? Saberá de que Brasil está falando?

Que fazer?

O Dr. Jatene responde. Investir, no curto prazo, na ‘importação’ de jovens médicos estrangeiros, submetidos a reavaliação, e na formação complementar de dois anos, porque hoje formamos apenas médicos candidatos à residência médica - que formam especialistas - e esses médicos não vão atender às nossas necessidades, pois precisamos de médicos para atender à população sem necessariamente ter de usar a tecnologia. Essa formação complementar seria focada em urgência e emergência. É preciso investir na formação para que esse profissional vá trabalhar dois anos no atendimento básico da população do Estado em que se formou. Temos faculdades de Medicina em todos os Estados. Todos. Só que os médicos se formam e não ficam em suas cidades, eles vêm fazer residência no Sul e no Sudeste (OESP, idem.).

E no Sudeste ficam.


A medida, vou mais adiante, deveria valer para todos os profissionais formados em escolas públicas ou, se em escolas privadas, com bolsa de estudo público. O concludente ou saldaria o custo do investimento público ou permaneceria dois anos à disposição do Estado, que indicaria, atendendo evidentemente à sua formação acadêmica, onde iria trabalhar. Depois disso, vá ser rico onde quiser.
 

7 comentários:

  1. Mão de obra QUALIFICADA ? Só se for para OBRAR !

    OHHHH !!!!! Ofélia.....!!!!!!

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  2. Anônimo4:42 PM

    Não vejo nenhum impedimento de que alunos formados em medicina, principalmente em escolas
    públicas, Uerj, UFRJ, UFF, USP, UNICAMP, sejam conduzidos a trabalharem durante dois anos no serviço público.
    Afinal de contas tiveram seus estudos pagos por impostos, mal ou bem, mas tiveram.
    Isso é prática dos institutos militares, IME e ITA, ao se formarem engenheiros tem que trabalhar na força durante dois anos. Porque essa prática não ser estendida? Desde que seja paga uma remuneração decente.
    Wagner Amenta

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  3. Anônimo7:32 PM

    Gostaria que sua neta tivesse um tumor cerebral e o especialista das subespecialidades lhe fosse negado. Que assistisse sua morte, evitável com uma cirurgia que não poderia ser feita com um estetoscópio e um aparelho de pressão. Afinal, não precisamos de neurocirurgiões pediátricos, mas de clínicos especialistas em medicina social. Mas pelo menos sua neta morrerá com diagnostico. Os novos médicos só tratarão três ou quatro doenças. Quanto ao resto - seleção natural.

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    1. Zêniste

      Eh! Realmente no seu caso, meu caro, o que falta é urgente e intensivamente um curso básico de Língua Portuguesa a fim de que você possa aprender a ler. Com efeito, o que o autor disse é que primeiro deveremos ter um profissional qualificado para que a parafernalha possa ser corretamente utilizada, pois seu manuseio depende disso.

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    2. Anônimo10:05 PM

      Digo o mesmo de Vossa Excelência (e se diz professor). Uma cirurgia como a proposta necessita de profissionais qualificados e não de "parafernália". Se só houver medicina social realmente só se tratarão de três ou quatro doenças. Casos de maior complexidade - que não necessitam de "parafernália" - ficariam jogados ao vento.

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    3. Anônimo10:12 PM

      E procure "parafernália" no dicionário, professor. Elas não são necessárias para se exercer medicina de primeiro mundo.

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  4. Anônimo2:39 PM

    Por que nao trazemos operários chineses para baratearmos a produção das fabricas? E a mesma coisa de trazer medicos de fora !

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.