terça-feira, 4 de junho de 2013

Uma paixão de alto teor compensatório

Lá como cá, o futebol tem poderes que os próprios poderes desconhecem

Na fotomontagem, Neymar junto a uma marcha de desempregados e despejados
na  Espanha e a multidão que foi recebe-lo no estádio do Barcelona.
(CLIQUE NA IMAGEM PARA VÊ-LA MAIOR)
De cada 100 espanhóis, 27 estão desempregados numa crise jamais registrada desde a queda da ditadura do general Franco, em 1976. Por conta da situação econômica, que está próxima da grega, 500 espanhóis se suicidaram em 2012, dos quais 116 ao receberem ordens de despejos por atrasos nos aluguéis. Há milhares de empresas fechadas e o próprio sistema financeiro vive na corda bamba.

O quadro social é dramático. Embora tenha havido uma pequena queda do desemprego em maio, as perspectivas são tão desanimadoras como em Portugal, que suprimiu até o feriado de Corpus Christi num receituário para enfrentar a recessão.

Essa Espanha de 4 milhões e 900 mil desempregados e 600 ordens de despejos por dia estava em festa na charmosa região da Catalunha. Em plena segunda-feira, quase 60 mil espanhóis ocuparam as arquibancadas do Camp Nou, o maior estádio da Europa para receber Neymar da Silva Santos Junior, o quase menino de Mogi das Cruzes, de 21 anos,  negociado com o Santos por 57 milhões de euros, o equivalente a 158 milhões de reais,  na maior bolada já paga por um jogador de futebol brasileiro.

No domingo, esse jovem que Dunga recusou convocar para a Copa de 2010, havia feito uma apresentação discreta no jogo da seleção contra a Inglaterra no Maracanã, reformado e embelezado por 1 bilhão de reais com recursos públicos, mas já “doado” numa licitação questionada pelo Ministério Público, vencida por  um consórcio estrelada por Eike Batista, o rei do Rio.

Coleção de elefantes brancos

Uma semana antes, o Estádio Nacional de Brasília, que conserva a duras penas o nome de Mané Garrincha, dava uma dica de uma nova face da corrupção  no futebol brasileiro, arena em que se rouba do bom e do melhor sob os aplausos de torcedores cegos e de uma mídia especializada focada exclusivamente nos gramados, com raras exceções.

Num jogo realizado no estádio mais caro da Copa, que custou R$ 1,5 bilhão, com ingressos a preços de marajás, um empresário embolsou quase toda a renda de R$ 6,7 milhões, a maior já auferida no Brasil. O governo do Distrito Federal ficou com míseros R$ 4 mil; o Santos, que tinha o “mando do campo”, com R$ 800 mil e o Flamengo com uma merreca qualquer.

O que aconteceu em Barcelona e o que está acontecendo no Brasil com o desvio de suadas verbas públicas para as construções de elefantes brancos superfaturados a pretexto de uma Copa do Mundo que o povo só verá mesmo pela tevê, são cenas da mesma farsa e revelam sintomas graves de populações acríticas, vulneráveis, manipuláveis e enganadas.

É como se tivéssemos que reconhecer: OK, VOCÊS VENCERAM. Venceram o crime do colarinho branco, as quadrilhas palacianas, a picaretagem,  a cartolagem esperta, as fábricas de ilusões, a indústria do dinheiro fácil, a economia marota, o marketing de alienação das massas,  tudo de ruim que degenera uma civilização e decompõe a espécie humana.

Não se pode dizer nem que esses espetáculos furtivos são exclusivos de povos ocidentais decadentes, que no orgasmo das belas jogadas de um craque não se indignam com as feias jogadas dos escroques que ocupam todos os espaços onde podem meter a mão.

Infelizmente, as notícias do lado de lá não são diferentes. Desde que inventaram as comunicações instantâneas via satélite os valores morais elementares caíram em desuso nos quarto ou cinco cantos do mundo, tornando ridículas e anacrônicas raríssimas peças como aquele teimosamente modesto José Mujica, presidente por acaso do pequeno Uruguai, que é visto hoje até pelos seus patrícios como um lunático agressor dos maus costumes vigentes.

Jogadas que jogaram dinheiro fora

Quem se der ao trabalho de olhar fundo vai ver que jogamos milhões de reais fora nas despesas imorais por conta do certame  internacional de futebol, de menos de 1 mês, por que no Brasil, ao contrário de alguns países da Europa, não é mais da torcida nos estádios que vivem  os clubes. E não vão ser essas arenas inúteis, como a de Manaus, que reinventarão torcedores já habituados às transmissões de tevê.

No “brasileirão” de 2011, os ganhos com bilheteria representaram apenas 8% das receitas dos 20 times participantes. Segundo estudos da consultoria BDO, enquanto a Rede Globo pagou R$ 2 bilhões 140 milhões pelas transmissões, regiamente patrocinadas,  as rendas dos jogos somadas não passaram de R$ 171 milhões.

Aqui a realidade é diferente da Europa. Enquanto no Brasil as receitas com ingressos representaram apenas a quinta fonte de receita dos 20 clubes pesquisados em 2011, atrás de cotas de TV, patrocínios, venda de atletas e clube social, no futebol europeu, o dinheiro que vem do dia do jogo (que reúnem ganhos anexos ao estádio, como lojas e restaurantes) fica, sempre entre as três principais receitas, segundo pesquisa da consultoria Deloitte.

A bem da verdade, mesmo com esse envolvimento apaixonado com o futebol, os brasileiros perceberam a fria na construção dos elefantes brancos. Em junho de 2011, a Sport+Markt, empresa de pesquisa especializada em esporte, divulgou uma consulta feita com  8.221 brasileiros, na qual apenas 25,4% concordavam com o uso de dinheiro público em estádios, contra 44,7% que discordavam e 29,9% que disseram não ter opinião formada.

Apesar desses números, a farra aconteceu, os orçamentos estouraram e bastou a população encher o olhos com o banho de loja nos estádios reformatados segundo o figurino europeu para cair nas graças do espetaculoso e esquecer que esse dinheiro não vai ter retorno para os cofres públicos nem a pau, antes pelo contrário.

Por que toda essa lambança reluzente faz parte de um jogo muito maior, aquele que pauta as atitudes dos cidadãos através de máquinas de comunicação de alto poder deformante. 

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.