quarta-feira, 22 de maio de 2013

Saúde: negócio ou direito da população?

O que incomoda às elites corporativistas e mercantilistas não é o médico cubano, mas a vitoriosa medicina livre da máfia dos interesses insaciáveis
Médicos cubanos no Haiti, Venezuela, Angola e Bolívia: uma contribuição admirável de um país bloqueado  que aplica 18% do seu PIB na saúde (O Brasil aplica menos de 5%) a outros povos. (Clique na foto para vê-la maior)

 Quando na primavera de 1980 fui trabalhar para uma tradicional rede de óticas do Rio de Janeiro, já em concordata, assumindo a sua house agency, deparei-me com uma situação insólita que explicaria toda essa celeuma doentia que ergueu uma muralha de indignidades contra a vitoriosa medicina cubana para esconder a patética submissão das rotinas médicas ao bilionário complexo industrial, comercial e de serviços  que torna a saúde  um dos mais lucrativos negócios do nosso país.

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Naquele ido, elaborei um projeto de marketing inspirado curiosamente nos achados do teuto-norte-americano Theodore Levitt, cuja obra havia satirizado na minha premiada comédia O Bom Burguês, ganhadora do maior troféu da crítica carioca, em 1977.   

A ótica, administrada por um dos filhos do fundador,   havia sido a grande marca do ramo, mas padecia da doença do envelhecimento e precisava de uma carga de oxigênio que curasse todos os seus males.

Fiz então um plano associando-a ao nascente movimento ecológico e oferecendo meios para o resgate da velha clientela junto com a busca de novos nichos do mercado. O filho gostou muito, mas o patriarca que ganhara muito dinheiro ao longo de meio século, desprezou tudo o que escrevi com a seguinte alegação:
- Falta o principal. Falta a comissão dos oftalmologistas que direcionam seus clientes para nossas lojas.
Não gostava do que estava ouvindo, mas era aquilo mesmo.  Como naquela época,  apesar de ser um delito ético,  ainda existe uma certa relação de interesses entre médicos com consultórios montados em sociedades ocultas e a comercialização de produtos óticos, que todo ser humano tem de comprar, mais dia, menos dia.

Recusei-me a incluir esse expediente no projeto; a ótica em seguida foi comprada por uma multinacional que fabricava óculos e limitei-me a fazer o registro da minha indignação para mim mesmo, embora amigos médicos garantissem que esse tipo de prática era restrito a algumas especialidades.

Omissão diante de abortos ilegais e  do charlatanismo

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Agora, com  o grito e de guerra e o rufar dos tambores assinalados numa cruzada sem quartel contra o modelo que transformou Cuba na maior referência em saúde das Américas,  vejo que a situação é muito mais grave, devido essencialmente à medicalização da saúde, embora os métodos de envolvimento possam ser diferentes, mais inteligentes e mais discretos, tendo como um dos sintomas de que a coisa vai mal a resistência de boa parte da classe médica aos genéricos.

De fato, os conselhos de medicina criados em 1951 por Getúlio Vargas especificamente para proceder os registros dos médicos e aplicar o seu código de ética extrapolaram a sua modesta função original para ocupar até mesmo os espaços dos sindicatos, embora, com toda essa empáfia, e com um orçamento total de meio bilhão de reais por ano, jamais tenham pleiteado seguir as pegadas da OAB, que só permite o exercício da profissão de advogado mediante prestação de exames a ela, independente dos diplomas fornecidos por  faculdades e balcões de “ensino”. (Em geral, passam nos exames da OAB menos de 20% dos formados).

Esses conselhos, dotados hoje de tantas funções, parecem desconhecer que existem clínicas de endereços conhecidos responsáveis pela prática ilegal de 1 milhão de abortos por ano – com estimativa de 10 mil mortes maternas em consequência das condições precárias em que acontecem.

Parecem não estarem ligando para o charlatanismo de pastores que fazem “curas milagrosas de doenças graves” transmitidas pela televisão ao vivo e a cores.

Parecem que não sabem do uso de médicos em “serviços sociais” precários de políticos clientelistas, que empregam os profissionais "informalmente" com objetivos nada éticos, aproveitando-se do sucateamento da saúde pública.

Insistem em admitir um monte de faculdades de medicina em condições precárias, com resultados sofríveis no Enade, as quais jogam centenas de novos médicos na rua, sem que os mesmos sejam submetidos a qualquer prova de “validação” dos seus diplomas.
Qualquer cidadão de mediana inteligência percebe que essa reação das máquinas profissionais contra os cubanos não é contra eles, mas contra a medicina que praticam, cujos resultados são EXALTADOS por órgãos como a Organização Mundial de Saúde e até pela mídia especializada que não depende da grana dos laboratórios e da indústria de equipamentos.
Enfim, são muito atuantes quando querem mostrar as deficiências do sistema público de saúde, mas calam diante das péssimas condições de hospitais particulares conveniados ou não com o SUS e com a grade precária de atendimento mesmo dos usuários dos caríssimos planos privados.

Bandeira de campanha eleitoral nos conselhos

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Às portas de um processo eleitoral em todos os conselhos regionais, que começa no dia 3 de junho com o registro de chapas que não poderão ter líderes dos  sindicatos, o CFM resolveu fazer da polêmica sobre a contratação de médicos cubanos  a sua grande arma política.

E  está agindo a bangu, sem escolher companhias, nem argumentos. Em seu site, oferece apoio a um movimento Revalida liderado pelo estudante Juracy Barbosa dos Santos, da Faculdade de Medicina do Planalto Central,  a mesma que figurou no Diário Oficial da União em abril de 2010 para sofrer processo administrativo do MEC, juntamente com outras cinco pilhadas por ensino de baixa qualidade.

Por razões que qualquer um pode supor, das seis faculdades relacionadas no diário, apenas o curso de medicina da Universidade de Nova Iguaçu foi punido. No mesmo dia da publicação do DOU, o então ministro da Educação, Fernando Haddad, cedeu e aplicou a ela apenas o corte de algumas vagas para permitir que continuasse funcionando.

A doença como negócio, como previa um certo Ivan Ilitch

Ilitch abalou  a medicina em 74
Nessa cruzada contra os médicos cubanos, que fizeram um excelente trabalho  na longínqua Tocantins de 1997 a 2005, conforme testemunho do governador Siqueira Campos (que não tem nenhuma afinidade com a esquerda, antes pelo contrário), não dá para esconder a trama já revelada por um certo Ivan Ilitch que em 1974 abalou o conjunto de interesses nos ganhos com doenças e tratamentos com seu livro Nêmesis da medicina, traduzido em mais de 30 idiomas.

Em sua obra, o ex-padre, físico e filósofo austríaco escreveu:  
“O sistema médico cria incessantemente novas necessidades terapêuticas. Mas quanto maior a oferta de saúde, mais
as pessoas crêem que têm problemas, necessidades, doenças. Elas exigem que o progresso supere a velhice, a dor e a morte. Isso equivale à própria negação da condição humana”. 
Foi  exatamente nos anos 70 que a medicina começou a ser  hegemonizada no Brasil pelo  complexo de interesses  mercantis, alavancado pelo sucateamento da saúde pública de qualidade que tínhamos até então e pelo aparecimento dos planos de saúde e da indústria de equipamentos de alta tecnologia.

Cuba foi do nada aos melhores índices de saúde

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Já então, Cuba havia dada a volta por cima depois de perder metade dos seus 7 mil médicos, que se mandaram para os Estados Unidos no início do regime revolucionário, dentro de um criminoso processo de cooptação dos profissionais de nível superior para levar a ilha ao caos.

Essa mudança, inspirada na experiência chinesa dos médicos de pés descalços, EU VI COM MEUS PRÓPRIOS OLHOS, quando fui trabalhar em Havana como jornalista nos anos 1961/62. Naqueles primórdios a dignidade de um povo livre falou mais alto através da  revolução incrivelmente INVICTA,  que até hoje acarreta o maior trauma da super-potência imperial e dos seus áulicos, provocado por sua heroica sobrevivência por cima de pau e pedra.

A única faculdade de Medicina existente em 1959, exclusiva dos filhos dos “terratenientes” e da elite, deu lugar a uma ampla rede de ensino  que sacudiu o mundo com sua didática fundada não apenas na profilaxia, mas no desenvolvimento de tecnologias tão avançadas que levou a mídia especializada dos Estados Unidos e de todo o Ocidente a inevitáveis constatações de êxito, como as publicadas na New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, e no programa Newsnight, da BBC de Londres, que conjugou matérias feitas na ilha com um relatório do Comitê de Saúde do Parlamento Britânico.

Graças a um investimento de 1 bilhão de dólares nos últimos 20 anos, sabe Deus a que a sacrifício, Cuba detém hoje 1.200 patentes internacionais e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países. A biotecnologia é hoje uma das quatro principais fontes de divisas do país, junto com o turismo, o açúcar e o níquel.

No Brasil  reina a medicalização  mercantilista da saúde

É claro que o sucesso da medicina cubana de verniz socialista incomoda os mercantilistas brasileiros que vivem da medicalização da saúde,  deformação que já mobiliza dezenas se entidades preocupadas, e na formação de mauricinhos que não seriam aprovados em provas fora dos âmbitos de suas faculdades, como aconteceu em São Paulo, onde estão as melhores escolas, em que 54% dos examinados levaram bomba, embora as questões da prova fossem de baixa e média complexidade, como admitiu o presidente do Cremesp, Reinaldo Azevedo.

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A oposição aos médicos cubanos é política e obscurantista,  como ficou claro na matéria da VEJA, em que uma repórter provavelmente esquizofrênica  viu neles uma invasão de espiões comunistas. Mas é sobretudo “técnica”:


O sucesso desses médicos, como já aconteceu em Tocantins, vai deixar mal na fita todo esse arcabouço de interesses privados que vive do negócio das doenças  e  do grande ralo para onde drenam os recursos públicos.

Mas vale considerar também o depoimento do médico Pedro Saraiva, brasileiro residente em Portugal,  em opinião publicada no blog do jornalista Luis Nassif, que reproduzo na íntegra no Debate Brasil.

– Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.


Conheça um médico cubano
Clique na imagem  para ver a entrevista

 Em dezembro de 2010 fui à Cuba para documentar um vídeo o sistema de formação de atletas, que têm os melhores desempenhos da América Latina. Passei dez dias em  reportagens entrevistas, mas cometi alguns erros técnicos e espero ainda ter outra oportunidade para concluir esse trabalho.

Veja um pequeno trailer no You Tube em Fábrica de Campeões

Desse material, extraí uma entrevista com Pablo Ribeiro, um dos mais de mil especialistas em medicina esportiva.  Mesmo em espanhol, vale dar uma olhada no vídeo para conhecer um pouco o perfil de um médico cubano, consciente e comprometido com uma causa muito maior do que seus interesses pessoais.

9 comentários:

  1. Para nos livrarmos dos sanguessugas (referencia ao ex ministro da saude humberto costa?) precisamos depor o PT pois é este partido o que mais fez pela medicina privada na historia desse pais. Seus lideres sao portas estandartes dos hospitais privados e da medicina de grife, nao pisam em hospital publico, subfinanciam o SUS, desmontam leitos hospitalares, querem financiar os planos de saude com subsidios, bloqueam a ec 29, nao montam equipamentos de saude, nao fazem carreira publica de medico e nos deixam a merce da medicina privada. De cada 10 reais gastos em saude no brasil, 6 saem do bolso do cidadao e só 4 do governo, que usa saude para mera promocao politica como nesse episodio de importacao de medicos.

    Entao articulista, vamos derrubar o PT ou o senhor vai continuar acendendo vela na porta do Sirio Libanes quando a presidente passar mal? Falam mal dos tucanos mas eles só usavam hospital publico, como o Incor.

    Cade o exemplo, camarada? Quem mais permite esse esquema que denuncias é o proprio PT.

    Coerencia, por favor.

    Lenin tinha razao: o esquerdismo é de fato a doença infantil do comunismo.

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  2. Anônimo5:50 AM

    Fanciscão, quer dizer que o seu problema é o PT?

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    1. Não, meu problema são governantes hipócritas que pregam medicina de pobre pros seus eleitores e quando adoecem se internam na fina flor da medicina que retoricamente chamam de mercantilista quando é para negar o mesmo à população. Seja do PT ou do PSDB, são todos iguais em sua essência social democrata.

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  3. De modo geral, a classe política é a maior culpada de todos os males que nos afrontam e deixam um rasto de dúvidas quanto à seriedade de sua atuação.
    O SUS é abreviatura do susto que todos os doentes passando mal, sofrem quando procuram a saúde pública, lugar que os grandes figurões da república não frequentam porque sabem não funcionar direito e aí começam as perguntas velhacas: O que vocês políticos fizeram ao dinheiro dos impostos que pagamos?
    Depois aparecem os valorosos defensores da iniciativa privada na medicina, outra aberração que nos afronta a nós pobres! Não temos dinheiro para acessar a medicina privada, o que ganhamos não dá para levar uma vida decente, só para sobreviver e mal!
    Os médicos cubanos serão sempre bem vindos porque não misturam medicina com dinheiro, coisa que mais vemos por aqui. Mas são comunistas, dirão todos que adoram as novelas da Globo! E aí fica a pergunta no ar: O que é ser comunista? O que é o comunismo?
    Medicina tem a haver com comunismo? Ficam tantas perguntas no ar...

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  4. Não são os médicos cubanos que incomodam, mas sim o despertar dos opostos cada dia mais em evidência. Como? Os professores de um lado, os médicos do outro, as duas pontas de uma vara de pescar em oposição de favores e necessidades. Uma não funciona sem a outra. A diferença é que os médicos julgam-se na parte da carretilha sem se dar conta que a outra extremidade é que lhes põe a comida em seus pratos. Pensem nisso......

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  5. Anônimo7:54 PM

    Pelo que li, os médicos cubanos prestaram serviço de 1997 a 2005 em Tocantins. Não se falou em dificuldade de comunicação, por que o portunhol resolve. Agora, o CFM apresenta esse novo obstáculo. Brincadeira.

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    1. Ficaram anonimamente, sem nenhum impacto nos índices de saúde de lá e só demoraram a sair pois a Justiça é lenta.

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  6. Anônimo10:32 PM

    O problema não é bem o país de origem do médico, porém as péssimas condições de trabalho desse profissional no interior do Brasil. Enfim, mais um remendo de eficácia duvidosa na dilapidada saúde pública tupiniquim. O que ninguém comenta é que o governo cubano vai reter um enorme percentual do pagamento de seus médicos, caso eles venham realmente trabalhar em nosso território.

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  7. Instituto Lapa1:13 AM

    Prezado Pedro Porfírio. Saúde é negocio para 10% da população: os Opressores. Nós os Oprimidos somos 90% que só temos deveres de pagar o imposto em tudo que consumimos ao Estado. Os Opressores tem maioria nos Três Poderes obrigam o Estado pagar prestação de serviços e ainda cobram dos consumidores os serviços mau prestado pela segunda vez. Nós somos 90% da população desorganizados como consumidores.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.