quarta-feira, 3 de abril de 2013

Como se nada tivesse acontecido

Tragédia na Av. Brasil foi apenas mais uma de um sistema de transporte ditado por interesses vorazes
Nos últimos quatro anos, a média foi de quase dois acidentes com vítimas por semana envolvendo ônibus na cidade do Rio de Janeiro. Em 2011, houve o registro de 126 casos; e em 2012, 84. 
Está na cara: há um estreito grau de parentesco entre a tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, e o dramático desastre com o ônibus que despencou do viaduto na tarde desta terça-feira, na mais importante artéria da cidade do Rio de Janeiro – a Avenida Brasil.

Ambos têm no DNA a cumplicidade dos poderes públicos ante os abusos e o primado dos interesses insaciáveis sobre instituições absolutamente coniventes, degeneradas, desfiguradas e desmoralizadas.

O que aconteceu às quatro da tarde desse dia 2 de abril é o que o lugar comum cataloga na surrada categoria de tragédia anunciada. A excessiva sujeição da Prefeitura carioca aos gostos inescrupulosos das empresas de transporte coletivo fatalmente produziria uma tragédia desse impacto, como exacerbação potencializada  dos acidentes rotineiros provocados por uma frota em operação única e exclusivamente para super-dimensionar os lucros já auferidos em um ramo da economia.
Qualquer que seja a causa oficial do acidente que ceifou na hora sete vidas e pôs na fila da morte outras tantas chegará à insólita conclusão de que é ABSOLUTAMENTE CRIMINOSO permitir que um único profissional trabalhe em ônibus que podem transportar até 80 passageiros, atribuindo-se ao motorista às funções de cobrador e do relacionamento com uma clientela heterogênea e ansiosa.

Sim, para os que não sabem, a quase totalidade da frota carioca de mais de 9 mil ônibus dispensou a presença do cobrador para aumentar a lucratividade de um cartel indiferente à natureza do seu serviço e sempre generoso nas relações com as autoridades em todos os seus níveis.

Na tragédia desta terça-feira, testemunhas viram um cidadão pular a roleta para ir à cabine do motorista discutir por que ela não havia parado onde havia sinalizado. E não havia parado, segundo também disseram, por que não queria pegar cerca de 15 alunos de escola pública com direito à gratuidade que a matemática dos nossos dias compensa com verbas públicas.

O cartel que dá as cartas

Esse cartel de meia dúzia de consórcios deita e rola, como se fosse uma temível máfia com alto poder de corrupção e intimidação, em manobras tão atrevidas que têm sob controle todos os personagens com que lidam, inclusive as próprias lideranças do sindicato dos rodoviários.

Seu poder de fogo é tal que só têm concorrentes entre as construtoras e empreiteiras no gozo da influência sobre esses podres poderes,  sendo as principais razões de ser das políticas de transportes no Estado do Rio de Janeiro, tão nocivas que carreiam para os ônibus quase 74% dos passageiros da Região Metropolitana, onde o sistema de trens serve à metade do que transportava há 60 anos, quando a população da cidade era a metade do que é hoje, e onde o metrô não passa de um brinquedo de pouca serventia em seus 44 Km de linhas, que alcançam apenas 3% dos passageiros nesse mesmo espaço.

O atual prefeito do Rio de Janeiro,como seus antecessores afins, só tem olhos para o sistema de ônibus e investe pesado o que tem e o que não tem para abrir corredores que se transformam em tapetes vermelhos desse segmento empresarial.

São para estes os grandes investimentos viários do sr. Eduardo Paes, que se serve de um escudo mágico para justificar os corredores em implantação – os 15 dias dos jogos olímpicos de 2016.

Obras em decomposição precoce

Pista do BRT das Américas abriu crateras em vários pontos
E de tal forma ele cruza interesses que sua obra mais onerosa, o corredor do BRT que liga a Barra da Tijuca à Santa Cruz não seria a prioridade de uma administração  que procurasse minorar o caos urbano nas áreas de maiores demandas, que estarão fatalmente estranguladas nesse período tão pretextado, quando o número de automóveis passar dos atuais 1 milhão e 800 mil para 3 milhões, coisa que acontecerá  nos próximos seis anos, segundo previsões da COPPE da UFRJ.

Com o poder de fogo e a grana fácil que pode distribuir o cartel dos transportes rodoviários faz da sua fiscalização um bando de servidores igualmente condicionados por seu império, por bem ou por mal:
O ônibus que voou do viaduto, com 46 multas somadas, não passou pelo DETRAN em 2012, como é de lei, embora constasse com vistoriado pela prefeitura em julho desse mesmo ano.

Como tantos outros que de vez em quando sobem às calçadas – um chegou a matar 10 pessoas num ponto da mesma Avenida Brasil, em frente ao Caju – são submetidos a manutenções precárias e entregues a profissionais recrutados a laço numa categoria  que só vai procurar trabalho nas garagens em último caso, tal o salário miserável que recebem e o nível de responsabilidade que acumulam.

A esse ambiente de cumplicidade, com uma tropa de choque na Câmara de Vereadores e um poder econômico expandido a outros ramos, as empresas de ônibus  não reclamam das condições de infra-estrutura de uma cidade que alaga a qualquer chuva e que é notável por suas obras mal acabadas.  

Nesse acidente desta terça-feira, ficou evidente que as muretas de proteção eram uma balela, erguidas certamente em desrespeito aos próprios projetos, conforme o facilitário de uma fiscalização de obras igualmente leniente e acostumada a vistas grossas.

A mais recente obra do prefeito Eduardo Paes, que foi usada como trunfo na sua reeleição, está dando sinais de decomposição precoce, com erupções de crateras em vários trechos da Avenida das Américas e uma constatação afrontosa: a reserva de uma pista de rolamento exclusivamente para os 80 ônibus do BRT não compensou o transtorno causado ao escoamento dos demais veículos.

Se nesse espaço fechado corressem trens de superfície, com capacidade de transportar 8 vezes mais passageiros, teríamos justificado o gasto feito ali, enquanto o viaduto do Joá, que liga a Barra à Zona Sul, expõe suas vísceras danificadas pela corrosão e é condenado em estudos encomendados à COPPE pela própria prefeitura.

Como em todas as outras tragédias, nos dias próximos ainda sob a pressão emocional de uma população lograda, esse desastre rodoviário será objeto de todo tipo de especulação de causas e de todo tipo de providências prometidas.

Mas logo, logo tudo voltará à normalidade inercial, ao regime da cumplicidade e da impunidade que são marcas explícitas desses dias de administrações incompetentes e  por demais tolerantes com todo um ambiente esclerosado e ameaçador.

Em Santa Maria, pelo menos, oito pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público, incluindo, além dos protagonistas diretos, dois oficiais do corpo de bombeiros acusados de fraude nos alvarás.

Aqui, infelizmente, pela que se viu em outras tragédias que expuseram o despreparo e a incúria das autoridades, tudo continuará acontecendo como antes. Como se nada tivesse acontecido.

15 comentários:

  1. Anônimo9:55 AM

    realmente, tem sido frequente tomar conhecimento de notícias sobre acidentes com ônibus, às vezes em ruas sem importância e em baixa velocidade. Tenho a impressão de que os motoristas trabalham cansados e até mesmo dopados. E realmente não vejo fiscalização, pois eu mesma costumo sair de perto de um ônibus quando estou dirigindo temendo ser batida. É um caos, como está também na reportagem do jornal Globo.

    ResponderExcluir
  2. As governanças corruptas que não trabalham para aumentar as linhas do metrô, ou a manutenção, conservação e aumento das linhas do transporte ferroviário, dividem com os carteis que são a terrível máfia atuando dentro das cidades em todo o nosso país, o cobiçado transporte rodoviário.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Ontem mesmo eu estava pensando nisso, quando viajava num ônibus superlotado entrando pela engarrafada rua Farani. O motorista estava visivelmente cansado e os passageiros reclamando. É desmumano!

    ResponderExcluir
  5. Grande Porfírio! Falou tudo. A hipocrisia cúmplice é reinante no país do "faz-de-conta". Em nome de uma "segurança no trânsito", criam regras rigorosas: se dirigir falando ao celular, leva multa grave e 5 pontos na CNH; se for parado depois de beber uma tulipa de chopp, é multado e o carro apreendido. Mas fazem com que centenas de ônibus circulem em nossas vias, com motoristas cansados, estressados, muitos em jornadas dobradas, que dividem a atenção no trânsito caótico da cidade com os buracos das ruas e, ainda, dando atenção ao troco dos passageiros. É desumano e nada é feito. Cadê o Ministério do Trabalho do governo dos trabalhadores, ocupado por um partido trabalhista?

    Saudações!

    ResponderExcluir
  6. CULPADOS- (empresários irresponsáveis que escravísam os pobres motorista) TRANSPORTE PÚBLICO É RESPONSABILIDADE DO ESTADO. REGATTIERI

    ResponderExcluir
  7. Luiz dos Santos10:45 PM

    Há alguns anos era público e notório que os transportes públicos eram controlados pelos "7 irmãos" (creio que em semelhança às 7 irmâs do petróleo ) e que, durante alguns anos, travaram ( e ainda travam ) a criação/expansão do metrô, por contrarir $eu$ intere$$e$...Creio que a época do |Governo Lacerda, houve i,a firma (Graça COuto, se não me falha a memória) que propõs fazerem pontilhoes ( ou nome parecido) de um morro para outro, em cotas de 30 ou 40 m e isso serviria para os transportes públicos,ajudaria a conter as encostas e acima desse nível e abaixo (alguns metros)NÃO SERIA PERMITIDO CONSTRUIR ! Não se teriam erguido favelas (ah, "comunidades" ) que não dariam no que deu e não só s]ao indestrutiveis como ainda inexpugnáveis, as UPP são só uma vitrine faz-de-conta (como são as UPAS...) ! Enfim, sao os des-governos que temos tido e parece que com o nível de istrução/educação ainda teremos por alguns decênios...

    ResponderExcluir
  8. Acabo de ouvir o delegado responsável pelo caso "explicando" o indiciamento do motorista do onibus, que ficou batendo boca com o "animal" que o agrediu.
    Um comentarista da Globo intenta ratificar a atitude do delegado, e ambos concordam em que o motorista não deveria ter discutido...
    Fala sério!
    Ainda que o motorista tenha errado ao responder a agressividade do universitário, ninguém fala sobre o acúmulo de funções (motorista e cobrador), sobre a carga de trabalho, só faltará agora acusar o motorista de ser responsável pela ausencia de vistoria do Detran sobre a documentação e estado do onibus.
    O que causou o acidente não foi o documento, foi o agressor que, independente de qualquer coisa, descontrolado, agrediu o motorista enquanto dirigia, expondo assim a vida de todos ao seu descontrole!

    ResponderExcluir
  9. Porfírio, também moro no rio e vejo que a causa desse acidente em questão foi muito mais interpessoal que pública, governamental. Os fatores que você enumera podem até ter contribuido subsidiariamente, mas não fazem parte do núcleo da questão. Em Santa Maria só faltou dizerem que a culpa era da Dilma e do governador do Estado (chegaram a insinuar isso, mas viram que não dava). Assim fica fácil: ninguém tem culpa de nada, o culpado é sempre o governo e o sistema de exploração humana. Eu te dou uma porrada, você comete um erro, e a culpa é do governo, coletiva?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então você acha que um só profissional é bastante para um ônibus de 80 passageiros? No caso das empresas de ônibus, não estou pondo a culpa no governo. ELAS SÃO PODEROSAS, MESMO. NÃO DIGO MAIS COISAS QUE VI COM MEUS PRÓPRIOS OLHOS QUANDO ERA VEREADOR POR QUE NÃO TENHO COMO PROVAR. MAS É ISSO MESMO. Bancadas amigas de empresas de ônibus existem em várias câmaras, assembleias e, quem sabe, até no congresso nacional.

      Excluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.