domingo, 10 de março de 2013

Segurança de fachada (III)

PMs de fora davam cobertura ao tráfico no morro da Providência e UPP local "não sabia de nada"
Policiais do CORE arrombaram lojas e casas no morro para achar drogas
Uma operação comandada pelo Ministério Público pôs a nu nesta sexta-feira a inutilidade da chamada "pacificação" de áreas dominadas pelo poder paralelo: 21 policiais militares foram presos por colaborarem com o tráfico do Morro da Providência, na área central, com suspeitas de que ganhavam de R$ 100,00 a R$200,00 por dia.
O detalhe é que essa comunidade sedia uma UPP e os PMs presos eram do 5º Batalhão que, teoricamente, não tinham mais nada com esse morro, a primeira favela da cidade do Rio de Janeiro. Lá também o tráfico continuava sem problemas, a julgar pelo número de ordens de prisão nessa operação: 56 acusados de tráfico.
O próprio secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, fez questão de dar uma coletiva para falar do envolvimento dos policiais do 5º BPM, mas não explicou o que faziam no morro os 209 PMs encarregados da sua "pacificação", desde que a Unidade de Polícia Pacificadora foi instalada formalmente em 26 de abril de 2010. Pelos relatos do subsecretário de Inteligência, Fábio Galvão, a droga era vendida em várias ruas, mas a central e os 56 suspeitos com prisão preventiva decretada eram do morro.
As investigações da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e da subsecretaria de Inteligência da Polícia Civil começaram em maio de 2012. A titular da DPCA, Bárbara Lomba, investigava o envolvimento de menores no tráfico quando se deparou com o esquema:
Nós percebíamos que os bandidos tentavam driblar a presença dos policiais de UPP. Eles se comunicavam pelo rádio, criando trajetos alternativos para não evidenciar o transporte de drogas. Não há bocas de fumo no Morro da Providência. Não era algo ostensivo. Era uma nova forma de atuação deles.
Tolerância na Rocinha custa R$ 80 mil mensais
As bolhas vão estourando aqui e ali. Nos morros do  Chapéu Mangueira  e Babilônia, no Leme, os conflitos de quadrilhas recomeçaram com o retorno do traficante Jony Paulo Gomes de Oliveira, que saiu da cadeia para cumprir o resto da pena em regime semi-aberto e, como já é rotina, sumiu na poeira. Ali, próximo ao início da Avenida Atlântica, bandidos de duas quadrilhas voltaram a trocar tiros nas barbas dos policiais da UPP, instalada em junho de 2009 com um efetivo de 107 PMs, que se limitaram a "monitorar" os seus movimentos, como admitiu o seu comandante, major Felipe Magalhães.
O aumento da temperatura não surpreendeu os moradores do bairro. Sebastian Archer, conselheiro do Leme Tênis Clube, disse que suas instalações vinham sendo usadas pelos traficantes todas as madrugadas. E não era para praticar esporte.
Enquanto isso, a polícia está devendo a conclusão de uma investigação sobre o esquema de corrupção na Rocinha, a maior de todas as favelas do Brasil, a partir de informes do serviço de inteligência da Polícia Civil, divulgadas em abril de 2012.   Sua UPP foi instalada em 20 de setembro de 2012, com 310 policiais.
Veja apontou mensalinho na Rocinha
Num dossiê circunstanciado, o serviço de inteligência aponta inclusive as cifras da corrupção da Polícia Militar. De acordo com o documento o pagamento consiste numa "entrada" de R$ 200.000,00, seguida por uma mesada de R$ 80.000,00. Os valores comprariam a tranquilidade para manter o comércio de drogas sem interferência da polícia nas ruas internas e becos, enquanto o patrulhamento ficaria restrito às vias principais da favela.
Não seria o primeiro "furo". Em setembro de 2011, o comando da UPP dos morros da Coroa, Fallet e Fogueteiro foi afastado após a descoberta acidental de um esquema de propinoduto na área: um sargento e dois soldados da UPP conduziam R$ 13.400,00  quando foram flagrados com a mão na massa.
Numa sacola de supermercado, havia 30 envelopes com os nomes dos seus cúmplices.  Durante o plantão do grupo, a venda de drogas corria solta. Segundo se apurou, o comandante e seu adjunto recebiam sua grana em casa, pelo sistema de delivery.
Essa UPP tinha 216 homens e quem não topasse entrar no esquema podia pagar caro. Foi o que aconteceu com três policiais, atingidos por uma granada por bandidos no Morro do Fallet: O soldado Alexander de Oliveira perdeu parte da perna direita e teve fratura do braço esquerdo. Outros dois PMs foram atingidos por estilhaços.
Um custo por baixo de R$ 720 milhões por ano
Convertidas na menina dos olhos do governador Sérgio Cabral Filho, as UPPs passaram a atrair milhares de candidatos a policiais militares, porque ganham gratificações especiais de R$ 500,00 do Estado, e mais R$ 500,00 da Prefeitura do Rio de Janeiro, enquanto o governo federal manda R$ 400,00 a título de bolsa-formação para cada um. Como a partir de agora, cada PM receberá no mínimo R$ 2.500,00, os especiais das UPPs vão embolsar mais de R$ 3.500,00 - um soldo de fazer inveja a professores e médicos do Estado.
Isso se refletiu nos concursos que já direcionam a lotação dos novos PMs para as  UPPs. Desde a primeira ocupação no Morro Dona Marta, todos os quase 8 mil recrutas foram direto para essas unidades.  Resultado: o último concurso estabeleceu recorde histórico, de 68.655 inscritos para 3.600 vagas em disputa. No anterior, em 2007, foram cerca de 25.000 candidatos para 2.000 lugares disponíveis.
Segundo cálculos do portal R7, em 2014, quando o efetivo das UPPs chegará a 12  mil, o seu custo total será de R$ 720 milhões, R$ 180 milhões a menos do que o orçamento de toda a Polícia Militar em 2011, que foi de R$ 900 milhões. Esses cálculos, publicados em dezembro daquele ano, não consideram o aumento de 39% para todos os policiais, divididos em duas partes: a segunda entra em vigor agora e com ele só o orçamento da PM subirá para R$ 2 bilhões.  
A concentração dos recursos na ocupação policial das favelas se reflete na abertura de espaços favoráveis a assaltos e roubos nas áreas urbanas. Enquanto o efetivo da UPP do Jacarezinho/Manguinhos soma 1.131 homens, dispondo de 32 motos e cavalaria. Já o 31º BPM, que cobre toda a Barra da Tijuca e Recreio, com uma população de 310 mil habitantes, conta com 450 homens. Segundo seu comandante tenente-coronel Marcus Vinicius Amaral, Isto representa pouco mais de 70 homens por turno na rua.

2 comentários:

  1. PRECISA FAZER PRIMEIRO UPP NA POLICIA MILITAR. SOLUÇÃO ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL.REGATTIERI

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  2. Anônimo9:39 PM

    Realmente tem alguma coisa que não combina nesse caso, pois não tem lógica se o morro tem UPP como soldados de fora podem dar proteção ao tráfico. É o mesmo que não tem UPP no morro, pois pelo visto eles não viam nada.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.