sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cessa tudo enquanto a esbórnia reina


Nesses dias orgiásticos do calendário ocidental e cristão, ai de quem quiser resistir no mundo real


Para tudo.

Um ciclone tropical de alta temperatura e variadas cores varre este país sambeiro sem pedir passagem. Reinados multifacéticos, dotados de incontroláveis poderes devassos emanados das profundezas do infinito, substituem republicanos governantes de ternos e colarinhos brancos.

Ai de quem não fechar a portinhola do seu cérebro nervoso e abrir as comportas dos seus instintos selvagens.

É de lei. É da cronologia.

No cordão do Bola Preta, hoje, a hora de extravasar em bandos
Ai de quem neste hiato submisso aos ditames da carne quiser falar do preço do feijão, da conta do celular, da gasolina cara, da falta de transportes, dos salários, do desemprego, do subemprego, da educação precária, da saúde zero, da ladroagem pública e privada, da pouca vergonha, da bofetada do Renan Calheiros, do escárnio do Henrique Alves, da corrupção ampla, geral e irrestrita.

Porres homéricos submergem o sacrário dos valores venerados vigentes e param os gritos no ar. Porres nossos e, principalmente, dos outros, na dantesca catarse terapêutica da desordem desunida, que açoita a lógica e desdenha dos bons costumes. É do prelúdio alegre do apocalipse das lendas catastróficas.

A algazarra incrementada pelos batuques dos tamborins coléricos é a chama da metamorfose que desfigura e refaz para compensar nesta quase semana inteira a pedreira e o sufoco do antes e do depois.  Sob efeitos das mais púberes fantasias, das metáforas inconscientes, embalsama-se tudo dos hábitos cotidianos e emerge tudo que o império da esbórnia esbanja.   É hora de extravasar pelo bem ou pelo mal. 

Para tudo por que os corpos sedentos de prazer subjugam as cabeças transtornadas, confusas e periclitantes na troca temporal pelo "essa noite eu me embriago", pelo  "seja o que Deus quiser" e pelo "ninguém é de ninguém", impulsos pétreos de uma desconstituição anárquica. Que até a dúvida da sexualidade provoca.

Para tudo porque quem ousar resistir à guerrilha da alegria irresponsável e efêmera será fatalmente esmagado pelas tropas da folia, municiadas no front, nos flancos e na retaguarda com carga pesada para esses dias da mais ousada embriaguez.

Até quarta ou quinta-feira o manto de um cintilante arco-ires pairará sobre montes, planícies e  paias divinais, produzindo o mais ébrio e orgástico dos efeitos contagiantes. É a fúria primitiva da liberdade sacrílega, cerceada no ano inteiro das conveniências e das subserviências.

Em tempos de carnaval, sob o reino do Momo, toda nudez será festejada
É a festa de Deus e do diabo na terra do sol, que já na Grécia socrática dispensava o recato para celebrar a fertilidade do solo e a fartura com calça de veludo e bunda de fora. Festa de arromba, que hoje, mais audaz, todos os males espanta e toda timidez esfrangalha.

É o mais profundo corte epistemológico na rotina das cidades, das aldeias e dos campos gerais. É o ópio que faz esquecer o pão nosso de cada dia, as angústias, as dívidas, os compromissos e os desejos do mundo real, congelando os sentidos de quem se envolve e de quem não se envolve na gandaia.

É o cessar fogo na guerra inclemente de todos e de cada um por um lugar ao sol.

É a hora e a vez das máscaras e das fantasias saírem dos armários e dos cérebros para mostrarem-se protuberantes, ostensivamente, sem os freios da hipocrisia cínica e falastrona.    

É a hora da onça beber água, ante a intrepidez etílica dos tépidos vassalos, serviçais e submissos que, por um fenômeno catártico, tornam-se os reis da cocada preta e protagonizam as eletrônicas imagens internacionalizadas e hipertrofiados via satélite com seus bocões de sorrisos ensaiados e suas performances corpóreas estereotipadas.

Hora pétrea também dos exibicionistas e das moçoilas de pernas roliças e seios exuberantes, para quem os borbotões de olhares cravados inflam seus egos mediocrizados na ilusão de que não precisam saber de mais nada, nem buscar o conhecimento,  nem informar-se, que os corpinhos esculturais  reluzidos de paetês e purpurinas lhes salientam como destaques da madrugada quente e abrem  as portas de  um amanhã afortunado.

No final do desfile do Bola Preta nem o carro da PM foi poupado
Nessas horas que o errado se confunde com o certo; o dia com a noite, as ruas são tomadas pelas turbas dionisiacamente alucinadas, ávidas de um novo amor, de um prazer recusado no mundo real, de um barril de cerveja inebriante, de uma autoridade íntima jamais expressa,  dos píncaros na hierarquia social, do bom e do melhor que a vida nega.

Diante de tantos disfarces compensatórios quem me há de dar atenção à crônica inconformista, quem vai querer tomar conhecimento dos meus murros em pontas de facas?

Ninguém, nem quem não vai se esfregar nos cordões desvairados, porque o fogo cruzado dos alucinógenos disparados vai invadir-lhe a sala em sonhos, cores e malabarismo que as mídias potencializam e nos enviam em sinais eletrônicos tentadores.

Ninguém mesmo porque todos precisam dar um tempo, aliviar a mente cansada, soltar-se das algemas mentais, seja no torpor das ruas agitadas, seja nos lares amortecidos, seja nas paradisíacas praias e nas altaneiras montanhas onde se encontra também como dar tempo ao tempo, que ninguém é de ferro, nem de lata é.

Quando quinta chegar será outra civilização. Os pulmões estarão recarregados e o ano novo de 2013 chegará enfim com seus mistérios e surpresas, encantos e desencantos.

Nesse então, se não me falhar a pena, aqui estarei para lhe oferecer o que tenho do bom em corpo e alma - a provocação apaixonada do cidadão que há em você, a lembrança do que lhe é devido ou lhe é negado, ou lhe é furtado.

Aí, sim, vamos pôr em dia nossas conversas necessárias para que afastemos de nossos dias restantes o fantasma da inércia, da covardia e da acomodação suicida. Para que paremos de entregar o outro ao bandido.

Aí, sim, vamos estar juntos para dizer não ao sarro que insistem em tirar em nossas costas, como se todos nós estivéssemos ferreamente acorrentados aos grilhões da injustiça, da espoliação, da rapina, da submissão e da arbitrariedade.

5 comentários:

  1. OTIMO PEDRO QUE VOCE ESCREVE ALGO PARA OS QUE NÃO CONCORDAM COM, O CARNAVAL. FESTEJAR O QUE? OS DESMANDO DOS NOSSOS GOVERNANTES. A IMPUNIDADE, OS DESVIOS DAS VERBAS DO POVO TRABALHADOR, ELEIÇÕES COMANDADAS PELO PODER ECONOMICO, A MENTIRA DA INCLUSÃO SOCIAL, O NÃO PAGAMENTO DAS DIVIDAS DO INSS AOS APOSENTADOS, FALTA DA ESCOLA EM TEMPO INTEGRAL. ETC.ETC. REGATTIERI

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  2. José Henrique9:40 PM

    Pior é que quando terminar o carnaval os assuntos citados nesse artigo, principalmente o do Renan, podem ser considerados matérias vencidas, embora esteja correndo na internet um abio assinado com quasse 1 milhão de assinaturas contra ele.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.