segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nem tudo está perdido


Num pequeno país vizinho, há um presidente que  não abre mão de uma vida austera e modesta

"O poder não muda as pessoas, apenas revela quem elas são verdadeiramente”.
José Alberto Mujica Cordano, agricultor, ex-guerrilheiro tupamaro e atual presidente do Uruguai.


Baqueado por um gripão enervante,  passei alguns dias de pernas pro ar, sem ter como produzir nada de palatável. Não sei se pela minha idade, mas a gripe consegue me tirar do sério e me remeter da sala para o fundo do quarto.

Voltando à tona de mansinho, precisava de um energético cavalar, pois a minha compleição física e  minhas pretensões intelectuais  exigem sempre, depois do caos,  compensações mais da conta.
Não é que encontrei?

"Agora estamos mais humildes, modestos, e percebemos que 
devemos semear  muita cultura, porque a cultura e o
 conhecimento  só podem construir uma sociedade melhor."
Que coisa linda, que orvalho de esperanças: você precisa partilhar da mesma emoção que me possuiu ao viajar pela internet ao Uruguai a partir de uma reportagem do The New Iork Times  sobre o presidente José Mujica, um poço de sabedoria, cuja vida monástica é a mais lúcida resposta aos maus hábitos inerciais dos podres poderes.   
  
Eu já sabia das virtudes desse ex-preso político, que amargou 14 anos de cadeia na ditadura uruguaia, jamais se rendeu e, depois de ser deputado,  senador e ministro, chegou à Presidência do seu país nas eleições de 2009, em nome da “Frente Ampla”, uma coalizão progressista. Alguém que pelo sofrimento pretérito me faz lembrar de Nelson Mandela, o herói sul-africano, que passou 28 anos no cárcere do apartheid. 


Mas a matéria do dia 4 de janeiro do NY Times, republicada pelaFOLHA DE SÃO PAULO nesta segunda-feira,  tem o sabor do inusitado e a verve de um insólito desafio:

“Vários líderes mundiais vivem em palácios. Alguns gozam de regalias como ter um mordomo discreto, uma frota de iates ou uma adega com champanhes vintage.

E há José Mujica, o ex-guerrilheiro que é presidente do Uruguai.

Ele mora numa casa deteriorada na periferia de Montevidéu, sem empregado nenhum. Seu aparato de segurança: dois policiais à paisana estacionados em uma rua de terra.

Em uma declaração deliberada a essa nação pecuarista de 3,3 milhões de pessoas, Mujica, 77, rejeitou a opulenta residência presidencial de Suárez y Reyes, com seus 42 empregados, preferindo permanecer na casa onde mora há anos com a mulher, num terreno onde eles cultivavam crisântemos para vender em mercados locais”.

O que mais me tocou não foi sua opção franciscana, que já é admirável: ele não mudou nada ao se tornar presidente da República do seu país: nem trocou a chácara simples pelo palácio suntuoso, nem mudou seus hábitos.E nem por isso perdeu a autoridade de Chefe de Estado.

Mas seu modo despojado de ser me revelou em carne viva a certeza implícita do trato rigorosamente honesto com o dinheiro público; a certeza cristalina de uma vocação inarredável, que funde os rebeldes sonhos juvenis com a sabedoria anciã, num exemplo para todos, principalmente para aqueles que ganharam fama no bom combate e depois, uma vez no mando, misturaram-se a corruptos e corruptores, adotando as mesmas práticas permissivas que antes abominavam.

A admiração cresce mais ainda pelo convívio diário com a prática institucionalizada de péssimos hábitos na vida política brasileira, comuns a todos os governantes, de todas as esferas e de todos os partidos. Pior: comuns em todos os pilares dos nossos podres poderes.

Modéstia como recado

Segundo sua última declaração de renda, de abril passado, seu patrimônio e o de sua esposa, a senadora Lúcia Topolansky, é de 4,2 milhões de pesos (cerca de US$ 212 mil) e inclui três terrenos, três tratores e dois carros de 1987.

O governante doa cerca de 90% de seu salário como presidente, de cerca de 12 mil pesos (US$ 9,3 mil), para a construção de casas sociais, através de entidades como o Fundo Raul Sendic (para apoiar os pequenos produtores dos setores mais pobres) e para o "Plan Juntos" destinado à construção de casas para uruguaios em extrema pobreza.

Quando não está realizando trabalhos oficiais, o chefe de Estado anda sem motorista em seu automóvel e faz suas próprias compras no bairro, ao mesmo tempo em que é comum vê-lo comendo em restaurantes populares com seus colaboradores no entorno da sede do Governo, no centro de Montevidéu.

"Se tenho poucas coisas, preciso de pouco para sustentá-las. Portanto, meu tempo de trabalho que dedico é o mínimo. E para que me resta tempo? Para gastá-lo nas coisas que eu gosto. Nesse momento acho que sou livre", disse recentemente em uma entrevista à "BBC" na qual explicava o porquê de sua austeridade.

Muitos se sentem agredidos com esse modo modesto de ser presidente da orgulhosa República Oriental do Uruguai. Mas essa é, seguramente, a forma mais incisiva de mandar o seu recado na defesa do exercício da atividade pública com o mínimo de recato e dignidade. De dizer aos cidadãos que nem tudo está perdido, que ninguém é obrigado a ser ladrão.

Será muito desconfortável para um aproveitador corrupto ser pego com a mão na massa. Porque o seu presidente é INCORRUPTÍVEL e certamente jamais recorrerá a expedientes imorais de sedução para garantir sua governabilidade.

Como não podia deixar de ser, enveredei pela internet para saber mais desse que é conhecido hoje como “o presidente mais pobre do mundo”. Encontrei muito material, inclusive uma reportagem da BBC de Londres e uma da repórter brasileira Delis Ortiz, exibida no Fantástico. 


Mas é pouco, em havendo oportunidade, e tratarei de criá-las, pretendo ir pessoalmente ao Uruguai para saber da influência desse modo honesto de ser presidente da República nessa população de menos de 4 milhões de habitantes, mas de uma tradição política e cultural admiráveis.

15 comentários:

  1. Alexandre Cardoso10:20 AM

    Caro Pedro
    Os exemplos e as ações são fundamentais a uma sociedade mais justa.
    Você tb é um exemplo para a nossa sociedade.
    Abs Alexandre Cardoso

    Enviado via iPhone para jornaldo@pedroporfirio.com

    9:45 AM

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  2. AMIGO PEDRO, O LULA PODERIA FAZER UM ESTAGIO COM O PRESIDENTE DO URUGUAI. SEI QUE É IMPOSSÍVEL, POIS SUA VAIDADE E SUAS ALIANÇAS NÃO PERMITEM. O PIOR QUE VOTEI NA DILMA, COM ULTIMA ESPERANÇA DE MUDANÇA E REFORMAS, INFELIZMENTE ELE REPETE LULA EM TUDO. VEJA AS ALIANÇAS E A REFORMA MINISTERIAL. CAIU NOS BRAÇOS DA CLASSE DOMINANTE BRASILEIRA.
    AINDA BEM QUE TEMOS VOCE, CARO PORFIRIO, QUE, NOS DA EXEMPLOS DE LUTA,E NOS INFORMA DE COISA BOA, COMO O EXEMPLO DO PRESIDENTE DO URUGUAI. REGATTIERI

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  3. Caro Porfírio, os brasileiros precisam descobrir os raros políticos que ainda restam no Brasil que tenham um comportamento semelhante ao uruguaio José Mujica. Entre nós são tão raros os que existem, que nem têm visibilidade. Mas é preciso procurar. Enquanto não se acha, é melhor votar nulo ou branco, ou não votar. A sociedade precisa descobrir os homens honestos e incentivá-los a exercer a política. Seria uma reforma natural feita de baixo para cima.
    Agradecemos a você por buscar esses valores onde existem, como demonstra nessa matéria, e estampar para o país ver que temos bons exemplos a serem seguidos.
    Franklin

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  4. Sonia Maria Ribeiro6:00 PM

    À parte do exagero do presidente uruguaio que não precisava chegar a tanto morando numa casa desconfortável eu fico feliz em saber que ele é totalmente oposto aos políticos em geral e do Brasil em muito especial. Será que esse exemplo pega ou o presidente uruguaio vai ser levado na gozação pelos políticos brasileiros?

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  5. Anônimo10:35 PM

    Meu amigo Pedro, não somente esse exemplo monástico digno da mais perfeita aplicação do conceito de República de Platão.
    Há também um lindo discurso que ele fez recentemente. Vou tentat achar e te mandar. Um homem de honra, fibra e dignidade.
    Um abraço
    Wagner

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  6. Jose Netto11:14 AM

    Prezado Porfírio, segue link de memorável discurso do Presidente Mujica na Rio +20, para enriquecer seu blog e a capacidade reflexiva de seus leitores. Obrigado por dar conhecimento desta matéria.

    www.youtube.com/watch?v=zsOGZKRVqHQ

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    1. SENHOR JOSE NETTO, MANDE PARA MEU EMAIL- primaguidoni@bol.com.br o discurso do presidente MUJICA.
      REGATTIERI

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  7. Anônimo6:26 PM

    Querendo, dá para ser honesto.
    É difícil, mas dá.
    Em um país com apenas 3,5 milhões de habitantes é mais fácil ser eleito presidente sem o rabo preso, do que em um com 190 milhões.
    O grande problema é ficar livre da própria ganância, da ganância dos "amigos" e da ganância do Império Mundial formado pelos bancos anglo-americanos, da indústria da guerra, do petróleo, etc.

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  8. Publicamos seu excelente artigo em www.jornalaguaverde.blogspot.com
    Temos publicado também em www.jornalaguaverde.com.br e www.marchaverde.com.br

    Parabéns grande jornalista Pedro Porfírio, reserva moral da nossa imprensa combativa.

    Gil

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    1. SENHOR GIL - POR FAVOR MANDE PARA MEU BLOG- primamataatlantica.blogspot.com/
      SOU AUDITOR AMBIENTAL DA ONG-PRIMA MATA ATLANTICA E SUSTENTABILIDADE PRECISO DIVULGAR O TRABALHO VOLUNTÁRIO QUE FAÇO. OBRIGADO. REGATTIERI
      MEU-email - primaguidoni@bol.com.br

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  9. CARO PORFIRIO, POR FAVOR MANDE PARA O MEU BLOG- primamataatlantica.blogspot.com/ seus artigos.
    meu novo email - primaguidoni@bol.com.br
    SEU LEITOR ADMIRADOR E SEGUIDOR.
    VOCE É O CARA.

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  10. PERGUNTEI AO AMIGO, O QUE FAZER COM O CONGRESSO NACIONAL, POIS A CONTAMINAÇÃO É TOTAL? REGATTIERI

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  11. E VOCÊ ESQUECE QUE O DESGRAÇADO É UM ASSASSINO, É CONTRA DEUS E A FAVOR DAS FARC.

    ISSO É EXEMPLO DE HONESTIDADE? PELO AMOR DE DEUS. VAI ACREDITAR AINDA EM PROPAGANDA COMUNISTA?

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    1. Anônimo9:59 AM

      E o senhor aí encima defesa ser uma viúva da ditadura, que torturava e matava. E que, felizmente, já era, espero só que a Comissão da Verdade tenha peito de mostrar o que aconteceu nos porões da repressão.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.