domingo, 29 de dezembro de 2013

A dominação do espectro total

Em "A Segunda Guerra Fria", Moniz Bandeira vasculha o uso das modernas manobras de dominação com a manipulação dos dominados

Moniz Bandeira: a radiografia de uma nova guerra fria
Num país em que as elites dominantes confinam a informação e o conhecimento às fronteiras da idiotice,  em que o medíocre BBB da Globo aparece como o tema mais consultado do Google em 2013 chega a ser uma temeridade falar do perigoso jogo de poder da atualidade e de um livro que vai na veia do que os Estados Unidos pretendem com o seu  “full spectrum dominance” (dominação de espectro total) - tese essencial de A Segunda Guerra Fria, de Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos mais inquietos, profundos e corajosos expositores das torpezas coloniais.

Para a tristeza das raras mentes ainda não terceirizadas, vivemos sob o mais eficiente  processo corrosivo da inteligência, uma vitoriosa carga pesada que torna a compra de caças de guerra uma despesa inútil, um dinheiro jogado fora.

A dominação hoje emana de fontes tão sofisticadas que prescinde dos campos e dos ares de batalha. São primatas os que recorrem à pólvora quando as tecnologias imperiais de última geração descobriram nos povos domináveis os melhores instrumentos da dominação e da sua exploração.

Bem que eu queria escrever a respeito antes de você gastar o que sobrou do 13º. Falhei por razões de saúde do conhecimento de todos. Mas como ainda não espocaram os fogos do artifício, pode ser que um ou outro ainda tenha algumas patacas para investir nessa obra que expõe as vísceras e as malandragens do império decadente na guerra fria de posições pelas riquezas energéticas do Oriente Médio, cenário da mais bem sucedida manipulação das contradições tribais e religiosas até então administradas. 

Moniz Bandeira prova por "a + b" que a chamada "Primavera Árabe" não resulta da explosão espontânea das massas. E aponta a guerra civil síria como auge de sua intervenção na área, relacionando as operações da CIA com a própria crise econômica norte-americana: "os Estados Unidos tornaram-se uma potência devedora, sobretudo da China, e não conseguiam sequer financiar suas atividades domésticas, nem as guerras no estrangeiro que o presidente George W. Bush havia deflagrado...e assim, passaram de potência credora mundial à condição de principal nação devedora".

Enquanto isso, "as reservas em moeda estrangeira da China, em junho de 2009, já eram de US$ 2,13 trilhões, dos quais, segundo dados da Secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, U$ 763,5 bilhões eram em títulos da dívida americana".

A presença russa e da China como contrapontos seria a única condição de evitar a destruição sumária do Estado nacional sírio, como aconteceu na Líbia recolonizada, com o agravante: esse projeto implicaria na divisão da Síria em pelo menos dois países, reduzindo sua força como expoente do moderno estado laico e sujeitando-a a conflitos "religiosos" destruidores.

A Segunda Guerra Fria é uma espécie de roteiro para o entendimento de tudo o que aconteceu ou deixou de acontecer numa região que é o maior paiol petrolífero do mundo. Explica, inclusive, ainda que indiretamente,  as recentes mudanças no Irã para um acordo com o Ocidente e uma variedade de movimentos que juntam na mesma trincheira contra o governo de Damasco os maiores aliados dos Estados Unidos, encabeçados pela Arábia Saudita, ao lado da Al Qaeda, tida formalmente como sua inimiga preferencial.

No seu prefácio, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães traduz muito claramente o que toda a obra expõe com vasta documentação: A atuação dos EUA nesta região,  deve ser entendida à luz do projeto nacional e internacional de Washington, sintetizado na expressão “full spectrum dominance”: “seu objetivo é estabelecer e manter a hegemonia americana, sob o manto ideológico da defesa de valores universais que, aliás, seguem apenas na medida de sua conveniência, como comprovam a prática dos assassinatos seletivos, a utilização de drones e a escuta ilegal de todos os meios de comunicação, no programa Prism, em todos os países”. Para a execução desse projeto, acentua o ex-secretário geral do Itamarati, os EUA contam com 750 bases militares no exterior, 1,4 milhão de soldados, sendo 350.000 estacionados em 130 países.”

A obra de Moniz é destacada também por Marco Aurélio Weissheimer, na Carta Maior: "Ao analisar as revoltas e guerras em vários países árabes e do norte da África, nos últimos anos, Moniz Bandeira sustenta que estamos vendo os momentos iniciais da segunda Guerra Fria, envolvendo desta vez EUA, Rússia e China. Um dos principais objetos dessa disputa seria o controle de uma ampla área produtora de petróleo e gás, envolvendo países do Mediterrâneo, do Golfo Pérsico e da Ásia Central.

As revoltas da chamada Primavera Árabe seriam o palco desses primeiros movimentos. Moniz Bandeira chama a atenção para um livro de Gene Sharp, “From Ditactorship to Democracy” (Da ditadura à democracia), que foi traduzido para 24 idiomas e distribuído em diversos países pela CIA, fundações e ONGs ligadas aos EUA.

O objetivo central desse manual é solapar a estabilidade e a força econômica, política e militar de um Estado sem recorrer ao uso da força, mas provocando violentas medidas, a serem denunciadas como uma reação excessiva e autoritária dos governos que se quer desestabilizar.

A estratégia apresentada no livro de Sharp, assinala ainda Moniz Bandeira, pautou em larga medida a política de “regime change” incrementada pelo ex-presidente George W. Bush dentro do conceito de “freedom agenda”. O autor descreve assim o funcionamento dessa política: “...a luta não violenta é mais complexa e travada por vários meios, tais como a guerra psicológica, social, econômica e política, aplicados pela população e pelas instituições da sociedade. Tais meios são, por exemplo, protestos, greves, marchas, boicotes, procissões, etc.”


Mesmo com o atraso no calendário das efemérides mercantis, creio que ainda é tempo de recomendar  A Segunda Guerra Fria para quem ainda quer saber mais do que permite a máquina mortífera que emascula e confina politicamente as multidões inocentes e imobilizadas.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Minha saúde, minha vida

o tumor ou eu!
Nesta quinta, estarei "entrando na agulha" de uma radiologia intervencionista para vencer um nódulo no fígado

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Confesso que senti um friozinho na barriga, ontem,  quando a secretária do dr. Feliciano ligou para marcar o início do tratamento radiológico do tumor que foi localizado em meu fígado:

-  O plano já autorizou. Quer fazer amanhã?

- Amanhã? Não, amanhã, não. Preciso falar com a esposa e os filhos. Preciso me preparar psicologicamente. Pode ser na sexta?

Ela ficou de falar com o médico, contatar o hospital e me dar retorno: marcou o procedimento para amanhã, quinta-feira, às 14 horas, na Casa de Saúde São José, em Botafogo.

Quando ela ligou, estava começando a escrever sobre a  judicialização do futebol, como reflexo de todo um ambiente de hipertrofia do Judiciário e com vista à preservação dos negócios da bola. Não poderia ser mais frustrante ver um time que não se classificou em campo no campeonato brasileiro beneficiar-se da aplicação burocrática e claramente direcionada de um artigo disciplinar para nele permanecer em detrimento de outro, penalizado conforme o velho adágio nordestino: aos amigos, tudo; aos inimigos, a Lei.

O que prevaleceu de fato foi o interesse do mercado. Para quem investe em um dos maiores campeonatos do mundo, ter apenas dois times do Rio de Janeiro entre os 20 de 2014 causaria prejuízo inevitável, afetando inclusive as transmissões televisionadas, que são as principais fontes do futebol: A GLOBO não teria como enviar imagens para o mercado do Rio de Janeiro todas as quartas e domingo com apenas 10% dos clubes cariocas no certame.  A Portuguesa paulista foi sacrificada por não ter torcida e audiência competitivas, em comparação com o Fluminense. Para os negócios do futebol, ainda bem que o Flamengo não caiu ao perder pontos.  Vamos ver o que vai acontecer no "pleno" do dia 27 ante o mal-estar causado pela decisão escandalosamente unânime do STJD.


Cada um tem seu modo de lidar com o cotidiano de cada um. E cada um tem uma reação ainda mais pessoal quando a vida se complica.

Desde o primeiro exame que revelou a existência do nódulo venho tirando do cérebro vivivido os elementos da minha própria reação. Já estou com 70 anos e, portanto, não poderia me surpreender com esse tipo de notícia. Que, aliás, pode ocorrer em qualquer idade, como me narraram muitos amigos e leitores que leram a matéria postada aqui no dia 30 de novembro.

No meu caso, além do que se poderia considerar uma notícia indesejada, assaltou-me a preocupação com os sentimentos dos outros, especialmente dos mais próximos. Por toda uma trajetória engajada no pensamento inconformista aprendi a encarar com dignidade os tropeços, as adversidades e as possibilidades de pirraças do destino. A vida é, sem dúvida, imprevisível e nos oferece todo tipo de surpresas.

Cabe-nos administrar com serenidade os bons e os maus momentos. Quem não estiver pronto para tudo, que se imaginar singrando somente num mar de rosa, vai sofrer muito mais às primeiras procelas.

Como a maioria dos mortais, exceto provavelmente os profissionais da área, não morro de amores por hospitais, mas é lá que encontramos a praça de guerra mais adequada para os combates em defesa da saúde e da vida.

Pelo tratamento que estarei iniciando, a previsão é de retorno no dia seguinte. Dizem até que a retomada das atividades laborais também pode acontecer em poucos dias.

Uma técnica nova e de sucesso

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Como não poderia deixar de ser, andei lendo muito sobre radiologia intervencionista, quimioembolização, ablação e outras variáveis dessa técnica moderna. No meu caso, o mais indicado é a quimioembolização de início.

Minimamente invasivo esse procedimento combina duas frentes de ataque: a embolização, adotada para obstruir os vasos sanguíneos que nutrem o tumor, a fim de diminuí-lo; e o uso de quimioterápicos, em geral as mesmas drogas da quimioterapia convencional. Na quimioembolização, porém, a dosagem é muito menor, aplicada diretamente na área do tumor, de maneira concentrada.

Guiado pelas imagens de angiografia (uma espécie de raio-X dinâmico), o médico conduz um microcateter até a região da lesão, levando as microesferas ao alvo. Primeiro elas estufam, bloqueando os vasos sanguíneos que alimentam o tumor, reduzindo a vascularização, o que contribuirá para que ele diminua de tamanho. Depois, a dose de quimioterápico concentrada no local vai sendo liberada de forma gradual ao longo de aproximadamente 15 dias. É a diferença, por exemplo, de se ministrar 50 mg de quimioterápico em apenas dois centímetros de tecido doente (quimioembolização) ou injetar 500 mg dessa droga em toda a corrente sanguínea do organismo (quimioterapia sistêmica). Além de atingir o alvo, os efeitos colaterais são reduzidos.

Por hoje, fica um abraço para todos e uma enorme vontade de retomar minhas atividades blogueiras. Darei notícias dessa intervenção, como velho jornalista que faz sua auto-reportagem. Aguardem.

Foi tudo bem.  Estou voltando

Amigos: Sofri a inervenção radiológica de um cânceer no fígado (CHC) ontem, dia 19 de zembro, na Casa de Saúde São José, pelas mãos do dr. Feliciano Azevedo, um dos pioneiros dessa tecnologia revoluicionária, com a assistência da dra. Vanessa e do dr. Rodrigo (anestesista).


 Após a intervenção radiológica, convenci-me de que vamos vencer essa : não precisei ir para o CTI e ainda tive alta 24 horas depois. 

Já estou de volta ao nosso ap, retomando o nosso convício internáutico (com moderalção). Nos próximos 30 dias teremos a avaliação pela ressonância magnética. Posto aqui logo a notícia e a foto como forma de AGRADEDEVER ÀS DEZENAS DE MENSAGENS DE SOLIDARIEDADE E ESTÍMULO  DOS AMIGOS.



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O prefeito do caos perfeito

Chuvas mostram bairros submersos por que ele  preferiu gastar com obras polêmicas e com a destruição da Perimetral

Para reinventar a região portuária, o prefeito Eduardo Paes implodiu a
Perimetral e  está gastando bilhões: até agora só conseguiu nos afogar no caos.
Agora está claro por que o prefeito Eduardo Paes apressou-se em demolir o viaduto da perimetral de forma tão açodada: ele sabia (e escondia) que a sua Via Binário não resistiria à primeira chuva forte e não quis deixar a menor chance de uma pressão da sociedade para manter o mais seguro e confortável elo de ligação entre a Zona Sul e o resto da cidade, sem passar pelo trânsito do centro. Isto por que o viaduto incomodaria os supostos investidores dos esperados prédios de 50 andares que a especulação imobiliária poderá ou não levantar na região portuária.

Como trabalha prioritariamente para defender interesses de grupos econômicos, envolvendo em sua base fisiológica uma penca de partidos com mais de 70% dos vereadores, cooptados com o loteamento da Prefeitura, ele tem dado asas à sua política de subordinação do público ao privado, explicitando sem recato sua incompetência obsessiva.  

Esse caos que transformou a quarta-feira dos cariocas e moradores da Baixada num verdadeiro inferno é reflexo saliente da desconstituição da cidade, a que vem se dedicando com afinco. 

As prefeituras da Baixada ainda padecem de insignificantes orçamentos e da inexistência de estrutura administrativa com alcance sobre suas áreas.

Mas a do Rio de Janeiro, apadrinhada de alto a baixo, joga recursos pelo "ladrão" em obras de interesse quase exclusivo das empreiteiras e empresas de ônibus, abandonando providências elementares: 
essa calamidade demonstrou que Eduardo Paes virou as costas para as obras de prevenções contra chuvas fortes, num desmazelo alucinado, só  equiparado  ao sucateamento da saúde pública e da educação. 
Ultimamente, tenho refletido muito sobre esses 70 anos de vida que espero se prolonguem por cima de pau e pedra. Passo em revista toda uma vida inquieta, pautada pela relação crítica com a hipocrisia,  a manipulação e a má fé. Afigura-se muito doloroso constatar algo que me deixa profundamente amargurado, como se tivesse sido em vão todo o sacrifício juvenil, que me custou um ano e meio de prisão nos cárceres da ditadura, depois de 16 dias de torturas quase mortais:

a classe política de hoje degenerou geral, é muito mais depravada do que os políticos de conveniência de outrora.

Enganar, mentir, corromper, deixar-se corromper, manter uma relação privada com a coisa pública, passar o eleitor para trás, tudo isso se tornou uma rotina descarada. E o que mais me amargura, porém, mais, mesmo, do que a audácia dos políticos espertos é a tendência dos cidadãos em deixar-se enganar, em iludir-se com uma facilidade assustadora, no culto assumido do ME ENGANA QUE EU GOSTO.

Não é exagero dizer que a cidade do Rio de Janeiro vem sendo inviabilizada por uma administração totalmente despreparada, que não sabe o que quer (Já anunciou uma  nova rodoviária em 3 locais diferentes e voltou atrás), que não tem uma visão do todo, não sabe o que é estratégia, não assimila o óbvio, preferindo enveredar por obras faraônicas e projetos de retorno imprevisíveis.

A marca mais saliente desses desatinos é a demolição do elevado da Perimetral, a um custo superior a R$ 1 bilhão, desfazendo o mais eficiente elo entre a Zona Sul e vários destinos nas Zonas Norte, Oeste e até na Baixada e Niterói, sem passar pelo centro da cidade, sem submeter-se aos riscos de alagamento numa região de aterro, que já foi mar, mas onde, temerariamente o prefeito Eduardo Paes está escavando uma passagem subterrânea de 4 km, a mais de 40 metros de profundidade, algo cujos malefícios serão mais sentidos quando esse túnel entrar em operação.

Como ensaio, tivemos o vexame da chamada Via Binário, ainda na superfície, que ficou boa parte do dia fechada ao tráfego, debaixo d'água, enquanto o prefeito alegava na maior cara de pau que algumas bombas de sucção não ficaram prontas ainda: isto é, o escoamento de um trecho dessa importância para o acesso ao Centro da cidade vai depender de bombas que podem funcionar ou não.

Só um prefeito aloprado e caótico  abriria ao tráfego uma via importante com o seu projeto de drenagem inconcluso.  

Imagine como será o túnel de 4 km, cavado a 40 metros de profundidade em área de aterro, somente por que o prefeito, como o seu enorme poder de decisão pessoal, quer valorizar uma região engolfada, uma opção temerária e de resultados especulativos só comparáveis à construção de Brasília.

E não é só isso. De tal sorte é a irracionalidade desse prefeito que,  sem esperar sequer os pareceres dos órgãos especializados, apressou-se em desapropriar (comprar, na prática) o terreno alagadiço de Guaratiba, onde o Papa  rezaria uma missa, aliviando o prejuízo do todo poderoso Jacob Barata, o rei dos ônibus, que antes pretendia implantar ali um loteamento no rastro da missa papal. Agora, o Instituto dos Arquitetos do Brasil, consultado oficialmente, está  apontando a área como inadequada para construções.  Um parecer, aliás, que seria desnecessário, pois o terreno pantanoso saltava à vista. Esse é apenas um exemplo da gestão nada republicana de um administrador no mínimo incompetente. 
Tudo acontece, infelizmente, por conta do silêncio dos próprios interessados, os cidadãos do Rio de Janeiro, que se omitem perigosamente, deixando a terceiros as decisões sobre seu destino: isto tanto a nível macro como nas próprias células urbanas, os condomínios, onde os abusas são cometidos sem qualquer reação. 
Essa cidade está perdida à falta de um timoneiro sereno, maduro e competente e de um corpo legislativo independente, capaz impregnar-se do espírito público e de resistir à cooptação fisiológica. É uma cidade politicamente capturada pelo que há de pior, sem o contraponto sequer das entidades da sociedade civil: até mesmo as associações de moradores surgidas nos idos dos anos 70 sucumbiram ante a inutilidade do seu grito, hoje abafado.

É uma pena, mas viver nesta cidade abençoada pela natureza é uma aventura cada vez mais arriscada: a maldição dos seus homens públicos e os interesses espúrios que os subornam falam muito mais alto. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Rejeição ampla, geral e irrestrita

Pesquisas não dizem que há no Rio a maior unanimidade do país: o "fora Cabral" não tem volta

Toda pesquisa política é a mesma coisa. Tem um custo que não é pago só por curiosidade. Essas encomendadas aos grandes aferidores têm a grana das confederações empresariais, que nadam em dinheiro graças ao mais acintoso dos produtos da corrupção, o chamado Sistema "S", que extrai 1%  dos salários de todos os trabalhadores para o gasto abundante, sem maiores controles e sem freios de uma antiga casta de pelegos patronais.
A manipulação de uma pesquisa está nas perguntas e no cruzamento das respostas. Qualquer um brasileiro lembra o quanto tais "consultas" serviram para catapultar os filhos pródigos dessa laia que transformou a democracia numa grande ficção.

Num país sério, essa farra em Paris com um
empreiteiro corruptor já daria em cassação


Mas agora estamos diante de uma inovação nesses expedientes. É a tentativa de livrar a cara de quem conquistou a unanimidade da repugnância. Isto é: dizer que ainda existem 20% dos fluminenses que consideram o governo do peralta Sérgio Cabral ótimo e bom é uma cusparada no rosto da gente. Isso indicaria que 1 em cada 5 fluminenses aprova esse governo que mais descaradamente se envolveu com o que há de pior na usina de corrupção local.

Também não é verdade que somente 38% consideram esse governo como ruim ou péssimo. Ninguém, absolutamente ninguém, a não ser quem está tirando proveito desses desatinos, aguenta mais isso aí. Se você quiser, saia perguntando pelas ruas em qualquer lugar.


A imagem mais nítida que o povo tem de Cabral é daquele bacanal gastronômico em Paris, na companhia do maior empreiteiro do Estado, Fernando Cavendish, cuja empresa Delta deitou e rolou em todas as tetas públicas até o dia em que se soube dos seus vínculos com o mafioso Carlinhos Cachoeira. Isso sem falar no seu concubinato com o outrora manda-chuva Eike Batista.  
Com Eike, uma parceria de cabo a rabo

Sérgio Cabral virou palavrão e seu nome não pode ser pronunciado perto de crianças. É o típico meliante que se preso seria linchado pelos próprios bandidos. A única coisa que o mantém à luz do dia é seu enorme poder de sedução, o que não é de surpreender: ainda está à frente da maior máquina pública fora do eixo São Paulo - Minas, dominado pela turma da pesada tucana.

Não há pior companhia hoje do que esse carreirista, eleito pela primeira vez pela máquina do Garotinho, a quem virou as costas antes mesmo de assumir, sabe Deus por que razão. Virou e ainda se apropriou do inexpressivo Pezão, feito seu vice por ser de "absoluta confiança" do ex-governador a quem deu uma banana ainda maior.

Com além de tudo é cara de pau e não é bobo, Cabral já admite ser candidato a senador só para assustar o aliado Dorneles, que estaria pensando em outras aproximações para garantir a reeleição.

O mais grave: como tem o controle da máquina por mais 12 longos meses, assusta Dilma, constrange os amiguinhos do PT e deixa outros coligados de saia justa, por que estes estão mais de olho nos empregos dos apaniguados do que nos compromissos de suas legendas, algumas que até já foram legendárias.
Isso tudo é muito deprimente, mas também é explosivo. Não há a menor condição de reabilitação dessas figuras deletérias e seus dias estão contados. Vão sair de cena com a imagem suja dos pés à cabeça. A dúvida é saber quantos vão juntos para o seu balaio, quantos mais forem será melhor, talvez, quem sabe, há males que vêm para o bem.

sábado, 30 de novembro de 2013

Diante de um "bicho de sete cabeças"

Aos 70 anos estou travando com serenidade um novo combate - agora contra um CHC em meu fígado

Para quem tem um fígado cerebral e impulsivo, não poderia ser mais insólita e despropositada a descoberta de um tumor de 3,3 cm, localizado em seu segmento V, junto à transição com o segmento VIII, em íntima relação com o ramo da veia porta, com tudo para ser um CHC, ou carcinoma hepatocelular, que felizmente ainda não comprometeu a veia porta adjacente, conforme minha afoita leitura dos laudos, na mera condição de jornalista.  

Para dar-lhe o bom combate optei pela radiologia intervencionista e estou confiante, como sempre, nesses 70 anos singrados com dignidade quando de outras procelas. A radiologia intervencionista é uma especialidade nova de caráter pouco invasivo, curto tempo de internação, rápido retorno do paciente às suas atividades e alta taxa de sucesso e resolutividade. O procedimento será feito tão logo o seguro autorize as despesas hospitalares, no decorrer de dezembro.

Esse tumor apareceu em exames de rotina, no início do ano, por conta de uma esteatose antiga, com a qual convivia folcloricamente, evitando bebidas alcoólicas e nada mais.

Primeiro, fiz uma ultrassonografia.  Em seguida, o hepatologista pediu uma tomografia computadorizada. O laudo desta recomendou a ressonância magnética. Por indicações médicas, fiz duas de cada uma para ir fundo na investigação.

Estou lhe contando essa aventura pessoal para lhe informar que vencerei mais essa, apesar dos informes científicos se referirem ao CHC como "um tumor primário do fígado, altamente fatal que acomete aproximadamente 500.000 pessoas no mundo".

Pretendo também ajudar aos demais na quebra de eventuais tabus e tensões diante de um espectro ainda visto como um bicho de sete cabeças.  

Nem sei se estou fazendo certo ao divulgar aqui o que é uma preocupação pessoal. No entanto, sou uma pessoa pública, que sempre primou pela transparência, e muitos leitores me acompanham desde as colunas da TRIBUNA DA IMPRENSA, há décadas.  O que ocorreria se acontecesse o pior e você fosse surpreendido por uma notícia infausta, quando eu próprio estou consciente de que a morte é inevitável e não pode ser encarada egoisticamente como uma tragédia?

Injusta ela seria se tivesse me acometido nos anos de chumbo, quando fui arrancado da chefia de redação de um jornal para ser submetido a 16 dias de torturas insuportáveis nos porões da ditadura, que poderiam ter me custado a vida aos 26 anos, como aconteceu com tantos jovens.

A relação do ser humano com a morte só é tão trágica por que sua relação instintiva com a vida é possessiva: consciente ou inconscientemente, o mundo gira em torno de cada um. Como disse Schopenhauer, “cada um mira a própria morte como o fim do mundo.” Se, ao contrário, houvesse menos egoísmo e assimilação do ciclo vital como ele é a sua fruição seria mais prazerosa e todos entenderiam que é eterna a vida de quem não a pretende como infindável.  Como disse o filósofo alemão, nascido há 225 anos atrás, “o certo é encarar a morte como verdade vindoura e efetivação de vida enquanto morte – vida e morte – encontro e desencontro".

Aos que pensam que estou fazendo charme com o meu tumor, que não é e nem será de estimação, sugiro que leiam o livro Todos os Homens São Mortais, de Simone de Beauvoir. Sua leitura me fez muito bem na quinta prisão da Ilha das Cobras,  a mesma "caverna" em que Tiradentes ficou preso.

Se preferir, procure na locadora ou na internet o filme As Invasões Bárbaras, uma obra prima do cinema canadense do diretor Denys Arcand, com uma comovente interpretação de Rémy Girard.

Clique nos links e veja mais duas cenas desse filme.


Mas isso é só para ilustrar seus conhecimentos.  Segundo parâmetros da  European Association for Study of the Liver, que pinço como "repórter auto-investigativo", meu tumor não ultrapassou o seu estágio precoce (lesão única 2-5cm ou até 3 lesões com  3cm, cada). Nos exames de imagem, chegou a 3,8 cm, mas no último (ressonância com contraste hepatobiliar) ficou em 3,3 cm, variação irrelevante. Em 10 meses desde a primeira tomografia, praticamente permaneceu na mesma faixa. Além disso, há nódulos de regeneração (tumores benignos) e são normais os registros das vias biliares, baço, pâncreas, rins, bexiga, aorta e divertículos.

Pode ser que eu dê uma paradinha nos meus blogs durante umas duas semanas da primeira radiologia intervencionista, quando será aplicada uma quimioembolização tumoral através de um cateter introduzido pela virilha. Esse procedimento poderá ter, como efeito posterior, dor abdominal e febre decorrente de necrose tumoral/ infecção bacteriana – abscesso hepático e colecistite.

Segundo as mesmas fontes médicas, poderá ocasionar também piora da função hepática (principalmente no Child B), mielossupressão retardada e cumulativa por 4 a 6 semanas, náuseas e vômitos 1 a 2 horas após o tratamento por até 3 dias, dispnéia aguda e broncoespasmo severo após a administração da droga.

Por isso, terei dificuldades para escrever logo, pelo que espero sua compreensão, sem perder o otimismo jamais.

Em tempo: há dez anos, publiquei o primeiro volume do meu livro de memórias - CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA.  Deixei para escrever a segunda parte, sobre a vivência no poder, justo depois dos 70, quando não estivesse mais envolvido diretamente. Espero dedicar-me agora a essa tarefa.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Presos políticos, sim senhor

Julgamento do "mensalão" abstraiu normas do direito para condenar próceres de um  governo insólito para os padrões tradicionais

Tendo na platéia indócil milhões de brasileiros indignados com a impunidade secular da corrupção, os ministros do STF assomaram o proscênio iluminado para apresentar o espetáculo do vale tudo, na tentativa de produzir a catarse compensatória. Para isso, com a colaboração da mídia, elevaram ao maior paroxismo um processo em que alguns dos "vilões" saiam do primeiro escalão de um governo insólito para os padrões tradicionais, encabeçado por um ex-metalúrgico puxador de greves e depois por uma ex-prisioneira da ditadura, apostando no abalo de suas vigas - até a própria implosão -  para o que não vacilaram em projetar um mocinho de maus  bofes com poderes arbitrários de dar às leis e ritos sua hermenêutica personalíssima.
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Foram mais de seis meses da primeira temporada, tempo maior do que de muitas novelas globais, num massacre contundente que reacendeu em milhões o sentimento sedento das arenas romanas. Não se disse exatamente o que cada um dos 40 arrolados inicialmente fez e não se separou quem tinha ou não direito a "foro privilegiado". Ao contrário, penduraram todos na mesma fieira, obtendo dessa mescla os elementos explosivos de alto teor corrosivo e poderoso impacto social.

Não foram as inegáveis transgressões, aliás, nada originais, que levaram ao pelourinho, mas os efeitos bombásticos que poderia produzir a junção calculada de ex-heróis da resistência a banqueiros e empresários envolvidos num suposto esquema criminoso. Com as ilações disseminadas aos sete ventos foi possível engendrar uma ninhada gorda de bodes expiatórios para os quais, à primeira vista, as penas decididas ainda parecem mínimas aos olhos das torcidas organizadas.  

O julgamento da Ação Penal 470 teve origem, fundamento e objetivos políticos com múltiplas facetas e visou mais do que os réus condenados, pinçados seletivamente em tal grau de má fé que se perguntarmos aos que festejaram as condenações quais os crimes efetivamente cometidos nos depararemos com respostas genéricas, apoiadas tão somente na inseminação artificial de epítetos de fácil consumo e em estratagemas evasivos.   


De tal brilho foi o verniz que revestiu o vulgo "mensalão" que a própria corte se impôs a caça e configuração dos delitos na busca de substância para o que precisava ganhar formato jurisprudencial.


Sua atuação sem precedentes, impulsionada por um ministro histriônico e descompensado, dispensou exigências primárias como o ônus da prova e ainda recorreu a interpretações arbitrárias de doutrinas que não se encaixavam nesse caso, como o uso da teoria do domínio de fato, cujo autor, Claus Roxin, um jurista alemão, fez questão de demonstrar sua aplicação descabida.


Num país de paradoxos esfuziantes e conveniências inerciais assimiladas por vícios compensatórios não surpreende que alguns dirigentes do partido governante tenham sido objeto de uma ação penal seletiva, eivada de arbitrariedades e de hermenêuticas forçadas, numa rumorosa orquestração que os expôs como bandidos do que ganhou as vestes de um monstruoso moinho de corrupção. 

O tratamento dispensado a esses réus levados ao cadafalso como devoradores dos cofres públicos nutriu-se da manipulada supremacia da versão sobre os fatos reais

 e os colocou no corredor da morte política enxertado de cultivados elementos de  contágio, num bem dosado jogo de cena para alvejar todos os que, por méritos ou por oportunismo, parecem fadados a permanecer à frente dos nossos destinos, a menos que fatos tais possam abater-lhes no caminho.

Somente os maniqueístas estrábicos não vêem o caráter essencialmente político dessa longa novela em que sequer se pode atribuir os danos alvejados à exclusiva manipulação midiática. O judiciário supremo está na forja de intempestivas “doutrinas”, muito mais afrontosas aos direitos do que tudo o que se fez em 21 anos de ditadura explícita.

Para incriminar o ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu, contra quem não havia uma única peça comprobatória e nem mesmo depoimentos objetivos, o ministro Joaquim Barbosa usou e abusou da “teoriado domínio de fato”, inspirado indevidamente no criminalista alemão Claus Roxin, segundo a qual "autor não é só quem executa o crime, mas quem tem o poder de decidir sua realização", esteja ou não diretamente envolvido.

Sem ter como denunciar o  ex-chefe da Casa Civil de Lula, esse ministro de poucas luzes e excesso de ambições pessoais levou o colegiado pusilânime a segui-lo na dispensa de provas, sob pena de cair na boca do povo como tolerantes com os corruptos. Foi como se dois terços dos ministros precisassem demonstrar que não tinham rabos presos  com os governantes que os catapultaram aos píncaros do judiciário e agora respondiam seletivamente por toda a corrupção acumulada.

Essa manipulação da teoria do domínio de fato pouco  foi comentada na mídia, com raras exceções,    fermentada pelos interesses que constrangem os atos e os passos dos governantes eleitos, inibindo-os do exercício de compromissos históricos de suas bandeiras.


A prevalência dessa lógica casuística, que está no âmago da penalização espetacularizada,  se beneficiou de outra aberração processual – a inexistência do duplo grau de jurisdição, embora apenas 5 do 40 acusados tivessem previsto o julgamento no STF. É premissa legal, cristalizada nos pactos de direitos humanos, que cada processo tenha no mínimo uma instância de recurso, tanto para o acusado, como para o próprio ministério público.

As evidências do caráter inegavelmente político da Ação Pena 470 estão em todos os seus movimentos, desde a dispensa dos processos individualizados, passando por sua pauta à frente de outros casos, inclusive o similar mineiro, anterior, que envolve um governador do PSDB, até o estabelecimento de um calendário direcionado, no qual o ministro Joaquim Barbosa almejou e conseguiu o nexo de situações mercê de inúmeras licenças médicas que pediu para levar o processo a seu próprio êxtase.

No momento desejado por ele, passou a acumular a condição de relator e de presidente do tribunal, com o que  conseguiu a proeza de bater o corner e cabecear, preenchendo exclusivamente para ele todos os espaços midiáticos e ganhando a projeção que o habilita a ser o candidato ideal da direita nas eleições presidenciais de 2014. 

A escolha de dois dirigentes petistas como réus de maior visibilidade sacia a vários apetites. A direita rancorosa, cujos crimes maiores na ditadura foram indevidamente “perdoados” pela tibieza dos civis entrantes, inclusive os constituintes de 88, ainda vive sob o fantasma de suas monstruosidades e não engole expoentes da contestação dos anos 60 na proa dos novos tempos.  

A direita pragmática, que sabe muito bem compor com qualquer governo, teme um surto mutante a partir das bases partidárias e do aprofundamento das exigências das massas nas ruas, de onde opera seus próprios códigos de convivência com a vantagem de manter governantes contra a parede, limitando-os a programas compensatórios de eito caritativo, a providências pontuais assimiláveis e a uma política externa independente, embora sem confrontos.

Não foi por acaso que o apedrejamento dos próceres governistas condenados se deu no mesmo momento em que o governo entregava ao “mercado” os achados da Petrobrás no pré-sal, facilitava a maior participação estrangeira no Banco do Brasil e retomava as privatizações pelos aeroportos, portos e rodovias rentáveis.

Essa deliberada politização do julgamento só não mina fatalmente o governo encabeçado pelo PT por que suas políticas sociais se encaixam no sonho de consumo de uma massa paternalista e, principalmente, pela imagem depravada dos opositores de maior visibilidade, cujas travessuras podem ter sido protegidas pela mídia maior, mas não escapam ao boca-boca das ruas -  na era da internet até as paredes falam.

Os próximos passos serão reveladores de todas as entrelinhas subjacentes ao noticiário pomposo.  Como há sempre um dia depois do outro, toda essa montagem aparentemente blindada vai desmilinguir-se como um castelo de areia.

O que aconteceu até agora não se esgota em si. Os senhores juízes vão se dar por satisfeitos com a última proeza, o brilho nas telinhas de plasma, e mudarão de assunto com a expectativa de que a turba vai se empanzinar com as punições d’agora. A roubalheira mesmo, provada e comprovada até em tribunais estrangeiros, ficará à sombra das capas pretas endeusadas e não se falará mais nisso.


O maniqueísmo perdurará para o deleite das elites dominantes e o jogo de cartas marcadas dominará, a menos que o povo acorde e readquira o juízo crítico de que foi destituído pelas tramas  e pela tecnologia midiática de um sistema vitorioso em seus propósitos de dominação.

domingo, 17 de novembro de 2013

O espetáculo da revanche torpe

Novo capítulo exibe cenas que reacendem o arbítrio em julgamento de viés político e ambições ocultas


Não tenho nada a ver com o peixe, não sou petista, nem simpatizante, não participo, nem nunca participei do governo dessa coligação  heterogênea, mas não posso calar diante do circo montado em pleno feriado nacional, tendo como protagonista um ministro do STF que só saiu do anonimato e chegou lá por que o ex-presidente Lula quis fazer um carinho político aos afro-descendentes. E que agora cismou de ser a alternativa dos órfãos da ditadura e do império decadente.

Não posso calar por que toda a espetaculosidade dessas prisões só serve para induzir à cidadania mal informada à ideia de que finalmente os corruptos estão indo para a cadeia, justo na hora em que certos desvios de conduta transpõem à fronteira, como no caso dos trens e metrôs de São Paulo, onde um dos envolvidos foi condenado na Suíça, embora aqui permaneça impune, em meio a denúncias de que todos os pilares da Justiça brasileira, inclusive o Ministério Público, foram lentos e indolentes diante dessa roubalheira que atravessou três governos tucanos e somou mais do que bilhões.

Tudo nesse julgamento do Supremo cheira mal, independente do verniz que o escândalo ganhou já na fase de sua CPI, quando se calculava que seria bastante para levar Lula à renúncia ou tornar inviável sua reeleição. Depois, pensava-se que o bombástico julgamento no ano eleitoral de 2012 iria recuperar alguma coisa para a direita e adjacentes. Aconteceu o contrário.

Agora,  em nome de um torniquete que resgata para humilhar os encarcerados, esse senhor dos anéis exibe o arbítrio ao desrespeitar as próprias sentenças  mantendo trancafiados  alguns condenados ao regime semiaberto. E o mundo jurídico até o momento permanece calado, temente da torrente midiática.

Não posso deixar essa maquinação passar em branco por que cada um dos seus capítulos parece urdido sob as piores intenções e movido pelos ranços mais odientos, de onde o jogo de cena produzido em laboratórios de alto teor conspirativo.

Sinceramente, precisava o presidente do Supremo emitir as ordens de prisão às quatro da tarde de um feriado de sexta-feira, quando o próprio havia agendado tais providências para o primeiro dia últil seguinte?  Por que esse tom de ataque-surpresa, como se todos teriam fugido não fosse assim?  Que urgência lhe ocorreu no ato que se perpetrou em sintonia com toda a mídia, devidamente agraciada num dia de pauta morta e ainda sob os efeitos emocionais da volta consagradora do ex-presidente João Goulart à Brasília, ainda que em urna mortuária?

Não estou aqui para derramar lágrimas pelos presos, nem para declará-los inocentes,  embora como cidadão no exercício da expectativa do direito lamente profundamente o ritual de um julgamento em uma única instância, ferindo a regra pétrea do duplo grau de jurisdição, que assegura a todos a faculdade do recurso, prática que está sendo observada numa lentidão ostensiva no caso de Minas Gerais, onde o governador tucano Eduardo Azeredo teria se beneficiado anteriormente do mesmo expediente que levou ao escândalo de Brasília.

Tenho todas as razões do mundo para ver nessa movimentação cinematográfica exacerbada pela mídia segundas e terceiras intenções que permitem todo tipo de ilação: desde o super-dimensionamento como forma de escamotear as centenas de evidências de corrupção em outras áreas, como esse caso de São Paulo, que põe á vista a ação corruptora das construtoras de todo o país, poderosas fontes de propinas que seriam penalizadas se as investigações no caso dos fiscais do ISS tiverem o aprofundamento exigido, até a revanche visceral de uma direita moribunda que já não tem como retomar o poder dentro da normalidade democrática. 

Uma revanche insidiosa que visa atingir muito mais a Lula, Dilma, o PT,  as esquerdas e a própria democracia, num manobra torpe e desatinada.

Essa mesma cúpula do Poder Judiciário já nos agrediu com a impunidade do banqueiro Daniel Dantas, veementemente liberado duas vezes pelo ministro Gilmar Mendes, numa pressão implacável sobre o juiz Fausto De Sanctis, com a desautorização da "Operação Castelo de Areia", que pegou os donos das grandes construtoras com a mão na massa, mas foi para a prateleira sob a alegação de que teria havido escuta não autorizada.

Se querem mesmo vasculhar e punir os atos ilícitos contra a economia e os cofres públicos, bem que poderiam ir fundo nessas falências fraudulentas, essa evasão de dinheiro de empresas para paraísos fiscais, a sonegação crônica de impostos e, por que não dizer, a indústria de sentenças e liminares  de um judiciário que se considera intocável, sujeito apenas a corretivos leves como aposentadoria compulsória.

Poderia dizer simplesmente que esse poder está devendo ao país o mesmo rigor em tantos outros casos, como o que envolve figuras manjadas como Paulo Maluf, mas vou além: não posso aceitar, como não aceita o Pacto Interamericano dos Direitos Humanos de San José,  que uma única instância, por mais excelsa que se considere, tenha super-poderes judicantes.  Nem na ditadura militar, por mais atrelada que tenha sido a Justiça, o réu deixou de ter direito a julgamento em mais de uma instância.

Em sendo assim, tenho razões para supor que esse processo não passou de uma peça política de múltiplas facetas, atrelada a um calendário do interesse pessoal de alguém que hoje povoa o imaginário revanchista e compensa as angústias de uma direita órfã desde o fim do ciclo dos generais.

É tudo muito feio nessa sequência de episódios midiáticos. Nada está acontecendo por acaso, sem nexos com um contexto continental marcado pelo fortalecimento de forças que não rezam pela velha cartilha, até por que o próprio centro de poder, que já não investe na Escola (militar) das Américas como entreposto de golpistas, que já leva mais fé nos políticos de negócios, atravessa sua própria agonia sem saber onde vai chegar.

Mas que ainda não perdeu suas ambições de domínio e sua capacidade de xeretar e fuxicar na eterna guerra fria que encobre seus interesses insaciáveis.

Matéria atualizada em 19.11.2013
Marco Aurélio vê direitos  dos  réus desrespeitados e açodamento
CLIQUE NA FOTO E VEJA ENTREVISTA À FOLHA DE SÃO PAULO

O ministro do STF Marco Aurélio Mello afirmou, nesta segunda (18), que deixar réus do mensalão condenados a penas de prisão em regime semiaberto em regime fechado --como foi o caso do ex-ministro José Direceu e do ex-presidente do PT José Genoino-- é "impensável". O ministro disse ainda que não compreendeu os motivos que levaram a decretação das prisões no final de semana e também o fato de eles terem sido levados para Brasília. Para Mello, "não há nem havia motivo para açodamento.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Jango vive. Hoje mais do que nunca!

Mais do que homenagens, devemos ao grande presidente o resgate e a visibilidade da obra que lhe custou o sacrifício da própria vida

Brasília viverá um dia memorável nesta quinta-feira, 14 de novembro de 2013: a presidenta Dilma Rousseff e os demais governantes pós-ditadura farão o mais justo dos resgates históricos: os restos mortais de João Belchior Marques Goulart, nosso querido Jango, serão recebidos com honras de chefe de Estado, num ato de grande simbologia e inevitável transcendência. Será um marco que nos remete a uma enorme tarefa - refletir sobre um projeto de grande alcance social e patriótico, criminosamente interrompido por generais aliciados pelo governo imperialista dos Estados Unidos como parte de uma estratégia de consolidação dos seus interesses espoliadores sobre toda a América Latina.
É de grande significação que esse ato ocorra às vésperas dos 50 anos da quartelada de 1964 e num momento em que os brasileiros se dão conta de um grande logro: por estelionatos manipulados, o Estado democrático ainda não se livrou do lixo histórico deixado por 21 anos de ditadura perversa, como se fosse possível virar a página sem punir os usurpadores e seus colaboradores, numa capitulação que só serve para manter as cicatrizes e os fantasmas que comprometem a própria segurança institucional do país.

Às ameaças de golpe, Jango respondeu com
corajosas medidas patrióticas
A homenagem ao presidente João Goulart não pode restringir-se à solenidade de uma efeméride. O devido esclarecimento de sua morte aos 57 anos, em 1976, resultado principalmente do trabalho incansável e corajoso do seu filho João Vicente, é antes de tudo um dever de todos os amantes da verdade. Ele foi assassinado por um complô de ditaduras na América do Sul.

Mais do que isso, porém, está na hora de resgatar o fio da história, trazendo às gerações de hoje informações imprescindíveis sobre o momento mais fértil do pensamento nacional e sobre aquele período que ainda está por ser resgatado como peça de referência dos passos futuros.

Já são decorridos 28 anos desde que nos noticiaram da restauração do regime de direito. As expectativas dos primeiros anos dessa nova etapa, que culminaram com a Constituição cidadã de 1988, não se concretizaram, porém.

Antes, vivemos um processo de desfiguração dos nossos sonhos, com a rendição de antigos e novos timoneiros, amesquinhando a própria natureza da vida pública e abrindo caminho para o mais abjeto desprezo pelos compromissos históricos e pela frustrada transformação decorrente do que seria a antítese do regime civil-militar entreguista e cristalizador do capitalismo selvagem.

A lembrança de Jango, o presidente que mais ousou na direção das verdadeiras reformas de base, ainda por serem materializadas, é o resgate da ideia de um Brasil que não seja refém dos banqueiros, dos trustes e do "agronegócio". Que ande pelas próprias pernas e que tenha nos seus 201 milhões de cidadãos o seu foco pétreo.

Dar dignidade aos últimos dias de um chefe de Estado que era efetivamente amado pelo seu povo, que enfrentou uma conspiração golpista desde o primeiro dia que assumiu, mas não se acovardou, significa dar maior visibilidade à sua obra.  Neste país de poucos conhecimentos, será frustrante pedir a um jovem ou até mesmo a um cidadão de meia idade que fale de Jango e de sua história, permeada de confrontos com as elites reacionárias. 
De há muito se reclama um memorial que exponha sua biografia e o contexto em que viveu. De há muito se pede mais do que a verdade sobre aqueles anos trágicos que se sucederam à sua deposição. 
E mais ainda: enquanto convivermos com ruas, rodovias, escolas e até monumentos com nomes dos ditadores e dos seus esbirros, a história estará sugerindo um tipo de cumplicidade e assimilação do golpe financiado pelos EUA, como se não houvesse obrigação de dar-lhe pelo menos a punição exigida pela história.

Jango, um dos maiores símbolos deste país, precisa ocupar com maior proeminência o lugar que lhe cabe no panteão dos verdadeiros heróis brasileiros. É um exemplo que precisa ser difundido, por que homens como ele vivem para todo o sempre. Hoje, mais do que nunca!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Adeus às urnas

Numa unanimidade rara, STF detona Lei que garantia a impressão do voto para eventual conferência em 2014
 Assim como quem não quer nada, sem choro nem vela na grande mídia, sem clamores dos donos dos podres poderes  e numa UNANIMIDADE rara, os ministros da mais política das cortes judiciais do mundo, o Supremo Tribunal Federal, decidiram sepultar definitivamente a impressão do voto para fins de conferência, como existe em vários países, sob a absurda alegação de que essa prática compromete seu caráter secreto.

CLQIUE NA IMAGEM E VEJA O VÍDEO DO "CANAL DO OTÁRIO"

Isso aconteceu na tarde friorenta da quarta-feira, 6 de novembro, numa sessão em que  os ministros abusaram de sofismas para atender ao lobby do Colégio de Presidentes de Tribunais Eleitorais, que se serviu da Procuradoria Geral da República para entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, assinada em janeiro de 2011 pela vice-procuradora eleitoral, Sandra Cureau, contra o Art. 5º da Lei 12.034/2009.

Não é a primeira vez que os ministros do Supremo usam de todo o seu poder para preservar essas urnas eletrônicas que já serviram a trapaças impunes, como pode se ver numa fieira de denúncias tornadas públicas, preservando  "equipamentos ultrapassados" - como demonstra o jornalista e professor Osvaldo Maneschy - de uso proibido nos Estados Unidos, na Holanda (onde foram inventadas), na Bélgica, na Alemanha e no resto do mundo - porque foram substituídas por modelos de 2ª. geração, que imprimem o voto; ou de terceira geração, mais modernas ainda, que além de imprimirem o voto,  registram digitalmente o mesmo voto, criando uma dupla proteção de que a vontade do eleitor - soberana - será respeitada".

Antes, voto impresso foi detonado no Congresso

Já em 2002, os ministros Nelson Jobim e Sepúlveda Pertence pressionaram o Senado para desfigurar o projeto de impressão do voto do senador Roberto Requião, culminando com a Lei 10.408/02 que, apesar das alterações, previa a impressão do voto. Um ano depois, esses mesmos ministros conseguiram que o Congresso voltasse atrás, trocando a impressão do voto pela assinatura digital prevista na Lei 10.740/03.

Em 2009, numa nova tentativa de um grupo de deputados, foi aprovada a Lei 12.034/09, que restabelecia o direito à auditagem dos votos, através de sua impressão, com vigência prevista para as eleições de 2014.

O que parecia matéria vencida sofreu um novo ataque em janeiro de 2011, dessa vez no âmbito do STF, que se investe sistematicamente das funções dos outros poderes, emanados das urnas. Para isso, a própria Procuradoria da República entrou com a ADI, que ganhou liminar e agora, apesar do grito das ruas pelo respeito à vontade popular, teve seu melancólico epílogo.

Desta vez, os ministros do STF seguiram POR UNANIMIDADE e ao pé da letra os argumentos da Procuradoria (que atendeu aos próprios juízes), desenvolvendo a tese de que a impressão do voto leva à identificação do eleitor.

Uma alegação de quem não viu e não gostou

Essa estranha alegação, é contestada com clareza pelo o engenheiro Amilcar Brunazo Filho, maior autoridade brasileira em urnas eletrônicas:

  "Essas declarações da autora da ADI 4543 estão em absoluta contradição com o texto da lei que contesta, por exemplo:
  1. O § 3º do artigo contestado na ADI diz explicitamente que o voto impresso "deverá ser depositado de forma automática, sem contato manual do eleitor, em local previamente lacrado", portanto não há nenhum respaldo para a afirmação de que "o eleitor receberá um comprovante numerado de seu voto".
  2. O § 5º do mesmo artigo diz que a máquina de identificar do eleitor não poderá ter nenhuma conexão com a urna eletrônica (que colhe e imprime o voto), então simplesmente será impossível para a urna imprimir a identidade (como nome, número, assinatura, etc.) do eleitor no voto, inviabilizando qualquer identificação de quem votou, em oposição ao alegado".
A decisão do STF parece apenas destinada a dar legalidade à compra  de mais de 300 mil urnas biométricas, que também registram a digital do eleitor, depois da  Lei Nº 12.034,DE 29 DE SETEMBRO DE 2009, que exige que o equipamento de identificar e o de votar não estivessem conectados, tornando essa compra totalmente irregular. Isto é, com a nova Lei em vigor, a urna a ser usada seria com outra tecnologia, separada do sistema biométrico, como acontece na Venezuela.

Com isso, o Judiciário prioriza seus próprios interesses - a compra que não podia ter feito -, sacrificando uma conquista reclamada desde 1996, quando essas urnas eletrônicas vulneráveis, inauditáveis e obsoletas foram implantadas.

A ministra  Carmen Lúcia, relatora da ADI que detonou o comprovante para eventual conferência, não fez por menos: “Parece certo que a segurança, eficiência, impessoalidade e moralidade do sistema de votação eletrônica, tal como adotado no Brasil, é não apenas acatado e elogiado em todos os lugares como vem sendo testada a sua invulnerabilidade, comprovada a sua higidez sistêmica e jurídica”.

E mais: os votos impressos poderiam ser usados por candidatos derrotados para pedir recontagem de votos, mesmo sem nenhum indício de irregularidade no resultado da eleição. "A recontagem tornar-se-ia um retrocesso porque o antigo processo de votação manual é suscetível a fraudes." Todos os ministros da Corte concordaram com a relatora.
Assim, permaneceremos expostos a uma urna tão "secreta" que ninguém terá como auditá-la em caso de suspeita de fraude, como acontece hoje em dia, sujeitando-nos a uma verdadeira CAIXA PRETA na hora de apurar, a peripécias de um operador e à blindagem de um juiz.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.